Pedro Juan Gutierrez – Trilogia Suja de Havana (Trilogia sucia de la Habana)


Estenda sua mão, dê um pescotapa e diga “se liga, mané”  em quem disser que Pedro Juan Gutiérrez escreve de um jeito bem parecido ao de Charles Bukowski. Essa afirmação é de uma imbecilidade que deveríamos ignorar, mas, ao invés disso, vamos explicar direitinho, para encerrar qualquer discussão.

Embora o Realismo Sujo (gênero de Gutiérrez) tenha alguns elementos físicos da literatura beatnik (de Bukowski), a forma como esses elementos são tratados é bem diferente. A principal diferença é que no Realismo, os espaços urbanos não são concebidos para serem o que são, e o personagem realista transite por esse espaço como um estranho, ao passo que os beats (bear, beats, battlestar gallactica) são incorporados ao lugar e sua destruição (boemias, sarjetas, bàs-fonds, etc). É uma explicaçãozinha meio rápida e vazia, mas se você quer aprender alguma coisa a fundo, sugiro não tentar fazê-lo em blogs.

Dizem que o cubano Pedro Juan resolveu escrever esse livro depois de ver uma criança fuçando o lixo em busca de comida, em plena Havana. É uma imagem poética para uma realidade ainda mais dura. Cuba passava por uma grande crise na década de 90, nos anos que se seguiram ao fim da União Soviética, a única amiguinha daquela ilhota em mais de cinquenta anos. Não havia comida, dinheiro, remédios, energia, nada. A maioria dos veículos de comunicação havia sido fechada por intervenção do governo. Para piorar, a vida do autor ia de mal a pior. Tinha três filhos para sustentar (sendo um bastardo), ganhava três dólares por mês e sua mulher estava a ponto de deixá-lo quando descobriu que ele tinha pelo menos umas seis amantes. Ficou completamente abandonado. E então escreveu essa coletânea de contos duros, crueis e desencantados com a realidade do país.

Tem de tudo na Trilogia Suja. Estupro, tráfico de órgãos, de drogas, de comida, tráfico de tudo na verdade, assaltos, assassinatos, e muito sexo, sempre. A literatura de Pedro Juan recende a cecê de longe. Difícil ler este livro e não se sentir incomodado pelas situações ali descritas, em uma mistura de ficção e realidade.

Hoje em dia, a edição que se encontra é a da Alfaguara (por isso mesmo vou colocar a tag na editora), mas eu li a publicação da Companhia das Letras. Um livro menor em tamanho, com uma fotografia sensacional na capa. Em tons pastéis, o fotógrafo captou muito bem a essência da literatura e da  Cuba de Gutiérrez (aliás, as fotos dos outros livros do autor também são sensacionais). A edição da Alfaguara tem um acabamento característico da editora, que é de excelente qualidade. A capa porém, preferiu privilegiar essa pluralidade (cheio de palavra com pê, hein?) de elementos da cultura latino-americana, colorida e um pouco sombria no conjunto. É bem da cultura cubana, mas pouco tem a ver com a escrita do autor.

Fui apresentado à sua literatura pela amada Carla Cursino, e hoje digo a todos: Leiam Pedro Juan Gutiérrez e sua Trilogia Suja.

Comentário Final: 382 páginas pólen soft molengas. Se quiser fazer estrago mesmo, melhor bater com a edição da Alfaguara.

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12 Respostas para “Pedro Juan Gutierrez – Trilogia Suja de Havana (Trilogia sucia de la Habana)

  1. Esse cara é, como diz meu amigo Dan, “do caralho”. Mas estou conhecendo-o agora, então não posso falar muito.
    Eu discordo de uma coisa aqui: A escrita de Bukowski não é beatnik. Bukowski tem sido erroneamente identificado com a Geração Beat, por certos temas e estilo correlatos, mas sua vida e obra nunca mostraram essa inclinação. Para discernir os estilos, é bom recorrer a alguns livros… Quem desejar conhecer sobre a generation beat, aconselho as seguintes leituras: ‘Geração Beat’, L&PM Pocket de Claudio Willer (Willer é o cara que mais sabe dos Beatniks aqui no Brasil); ‘Memory babe’ de Gérard Nicosia; ‘Kerouac’ de Yves Buin e ‘Kerouac: a biography’, de Ann Charters.

    No mais, adorei esse blog. Vou acompanhar sempre agora.

    Um abraço e até a próxima
    Samuel Vigiano

    • Oi Samuel, obrigado pela visita, seja bem vindo ao blog!
      Obrigado também pelos esclarecimentos em relação à literatura beat. É verdade, Bukowski tinha muito pouco de contracultura e movimento hippie mas, veja, não é o que o nome Beat representava, é muito mais o que a terminologia significa hoje, algo parecido com “literatura de boteco” 😉 Espero que você não fique muito chateado com esse erro recorrente.
      Abraço!

      • Oi Yuri, tudo bem?
        Sou um poeta Vagabundo (literalmente: Coração Vagabundo) e obrigado pelas boas vindas.

        Isso acontece muito, as pessoas sempre relacionam Bukowski com beat generation. Bukowski tinha uma capacidade incrível de transformar o dia trivial em poesia, de pegar as bebedeiras triviais, as angústias adolescentes e transforma-las em arte é a mágica de Bukowski. (Cara, sou fã pra caralho do velho Henk).

        Repulsa, nojo, ódio, amor, paixão e melancolia. Esses são alguns dos sentimentos que mais inspiraram o Buk.

        Bom, para entender um pouco mais sobre Charles não é difícil. É só ler mais sobre ele porque a poesia e literatura dele são extremamente autobiográfica.
        “Literatura de Boteco” é mais apropriado do que “beat” 😉
        Sem problemas, não fiquei chateado e sim feliz por esclarecer. Agora você já sabe…

        Um Abraço

  2. Oi Samuel, vou dar uma olhada nas suas poesias. Se quiser, faço-lhe um link aqui.
    Olha, acho que li bastante coisa dele, viu? Pelo menos uns dez ou doze livros. E é verdade tudo isso que você falou mesmo, e acho que por isso que ele encanta tanto até hoje. Sem contar que a bebedeira dele é um atrativo claro dos pinguços: assim como o maconheiro tem uma cultura que é só dele, que envolve gêneros musicas que só ele gosta e filmes de comédia que só ele acha engraçado, as nuances de bebum são compartilhadas no Bukowski. Quase como aquele tipo de camiseta que diz “Não existe mulher feia, eu é que bebi pouco”. hahaha
    abraço e apareça sempre!

  3. Yuri, fique a vontade. Espero que goste…
    Se quiser fazer o link, sinta-se a vontade. Bom, então você realmente leu bastante coisa dele…
    Ele é um mestre. Tinha uma facilidade em tornar as coisas mágicas. O emprego no “correio”, as prostitutas, a generosiade (contestável)… Demais.
    Concordo com o que tu falou ai…

    Ah sim, irei aparecer sempre por que subscrevi meu e-mail aqui pra receber news posts.
    Abração

  4. Trilogia suja…porque o sujo sempre dá livro, dá poesia, texto. Se fosse a trilogia bela de Havana venderia? Ia paracer CHAPA BRANCA , né? Mas e hoje? Onde está o Juan?talvez escrevendo a trilogia suja de Caracas, Bogotá? Quem sabe? Como tudo…já passou, não é mais novidade. Qual a próxima estréia suja do mais novo e célebre escritor beat. dark, alternativo? Parece que tudo isso é repetição: o Dragão é o mesmo, só mudou a escama. Abraços! L.A.

  5. Que blog Foda cara!
    certeza, vou procurar esse livro para ler. O realismo sujo é uma paixão recente na minha vida, e tem me influenciado bastante na hora de escrever.
    Bukowski pode não pertencer ao gênero, mas hoje é o ponto de partida para se adentrar dentro desse mundo.

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