Herman Melville – Bartleby, o Escrivão (Bartleby, The Scrivener)


Oi Yuri, como você está? Eu estou bem, gentileza sua perguntar. Como foi a banca da monografia? Ótima, amigo, nota dez pra refrescar a cabeça depois de ano e meio de trabalho. E agora, bola pra frente e taca carvão nessa máquina massacrante de literatura que é o Livrada!

Meus amigos, em verdade vos digo: às vezes é um pouco trabalhoso conseguir ter alguma parte da cultura coletiva instalada na sua cachola. Claro que muita gente já ouviu falar de Moby Dick, mas você sabe de verdade quem já leu? Pouquíssimas pessoas. A mesma coisa com Dom Quixote. Se você quiser bater no peito e falar que leu a obra-prima do Cervantes, vá lá, mas prepare-se para centenas de páginas para serem vencidas, caso contrário, a única coisa que você vai saber sobre o engenhoso fidalgo é que ele, durante umas duas páginas, fala de uns tais moinhos de vento. E aí se prepara para os pescotapas e os amigos te zuando de leitor de orelha e afins. Agora, existem livros menores e mais fáceis de serem lidos, entendidos e utilizados em suas conversas de boteco. Pra isso, o papai aqui dá a dica: Bartleby, o Escrivão, de Herman Melville.

Mais por desencargo de consciência — acredito que a maioria dos meus leitores já deve ter lido esse livro — a história fala de um advogado de Wall Street que contrata um copista pra ajudar nas tarefas, que só aumentam. O sujeitinho é estranho, não conversa, não come e não lê nada. Mas enfim, era o começo daquela falta de interesse na vida alheia que assola a modernidade desde que instituíram a bisbilhotice como coisa típica de gente da roça. Então ele vai deixando passar. Até que um dia, Bartleby se recusa a fazer a tarefa que lhe é conferida. E a partir daí, não faz absolutamente mais nada, sempre respondendo com o seu inigualável bordão: “Acho melhor não”. Tá, não contei absolutamente nada de novo pra vocês, né?

Primeira consideração sobre esse livro: Claro que o personagem de Bartleby é cativante (menos naquela montagem teatral que fizeram da peça. Sem querer ser machista, mas acho que igualdade de sexos não serve na hora de interpretar papéis masculinos), uma análise mais fria (e simplista) da história pode mostrar que o Bartleby é só um obstáculo, uma parede em um beco sem saída na qual o narrador advogado bate constantemente, a cada tentativa de gesto de boa vontade por parte dele. O advogado, esse sim, é o mérito do conto de Melville. Na narração em primeira pessoa, a primeira frase do segundo parágrafo justifica o livro inteiro: a ideia sustentada por ele de que a vida mais confortável é a melhor. E o que é mais confortável do que ignorar a existência de um problema, como ele faz? A construção desse personagem é que é o barato do livro, e vocês hão de concordar que muitos de nós não agiríamos diferente do narrador, em prol da civilidade que neguinho brada aos quatro ventos.

Segunda consideração: Melville antecipou em uns 80 anos o tipo de suicídio social que a gente vê hoje, a vagabundagem por opção. Claro que ninguém nunca ficou sabendo por que Bartleby deixou de viver, e nem era a intenção explicar isso. Sabe, né? Mesma coisa da prevaricação da Capitu, o buraco que o autor deixa pra fazer a obra perdurar em debates bestas de professorinhas de literatura que organizam tribunais na sala, dividindo em acusação e defesa da cigana os mancebos, que, a essa altura, só estão querendo saber mesmo é de ir pra casa fazer negócios escusos. De qualquer jeito, essa vagabundagem por opção, essa decisão por não fazer mais nada é algo que instiga tanto todo mundo como se ninguém nunca tivesse preferido não fazer alguma coisa. De Enrique Villa-Matas, que usou o nome do copista para fazer um livro sobre os escritores que deixaram de escrever (aliás, alguém aí já leu Villa Matas? Qual livro deles recomendam?), a Homer Simpson, que já dizia que se algo é muito difícil então não vale a pena ser feito, todas as vontades passam pelo filtro de nosso juízo, que analisa cada situação e vê se a gente não vai dar com os burros n’água. Viram isso que eu escrevi? Um péssimo jeito de terminar um parágrafo. Anotem e aprendam como não fazer.

E chega de papo, vamos falar desse projeto gráfico da Cosacnaify. Já me dei conta que a editora está mesmo no ramo da arte, e juntar a arte de fazer um livro com a arte da literatura. Essa edição maravilhosa vem toda costurada artesanalmente, e, para começar a ler o livro, você precisa descosturar a capa e abrir (de preferência com um estilete ou um abridor de correspondências; eu usei minha inseparável balisong) cada par de páginas. Para isso, eles fornecem um marcador transparente, que não é exatamente a ferramenta ideal, mas é bonito e serve como um marcador mesmo, para a VIDA. Só fiquei um pouco triste porque a capa é de couro verde, e, devido às condições insalubres do meu apartamento, ela acabou mofando e desbotando em algumas partes. Mas tudo bem. Ah, comprei esse livro por R$1,50 porque a Saraiva tava fazendo uma promoção com ele a R$16,50, valor do qual abati quinze reais com meu cartão fidelidade (cartão fidelidade, aliás, é um conceito muito agressivo. Pensar que alguém é fiel a uma loja é rebaixar a dignidade humana a uma subserviência comerciária. Desprezível *ptuu* cospe no chão). Tudo isso para você ser ainda mais ativo ao ler o livro e, ao contrário de Bartleby, achar melhor sim, abrir cada página do livro pra saber o que acontece. O livro vem embalado no plástico que traz o bordão de Bartebly estampado, uma provocação pra você ler o livro. Aliás, “Acho melhor não” é a tradução que melhor cai aos ouvidos, da expressão original “I rather not”. Traduzir ao pé da letra — o “prefiro não” da peça já mencionada e da edição publicada da L&PM realmente não desce redondo. Assim como utilizar a palavra “Escrivão”, ao invés de “Escrituário” das outras edições também ficou melhor, na minha singela opinião. Ah, esqueci de dizer que o posfácio é assinado pelo Modesto Carone, o homem-Kafka, que, obviamente, não deixa de citar o escritor tcheco. Fico imaginando se, ao invés do Caetano, o pessoal do Segundo Caderno entrevistasse o Carone. “E aí, Sr. Carone, o que o senhor acha dos discos lançados apenas na internet?”, “Ah, veja bem, Kafka…” (Brincadeira, hein, Modesto).

Comentário final: 46 páginas offset. Se for bater em alguém com Melville, ainda é melhor usar o Moby Dick.

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16 Respostas para “Herman Melville – Bartleby, o Escrivão (Bartleby, The Scrivener)

  1. Tem uma coisa aí no meio que é bem verdade. Conheço algum ser pensante – e olha que estou falando de ser pensante – que não leu esses GRANDES clássicos da literatura mundial. Professores renomados, caras fodões, que já leram e traduziram deus e o mundo nunca conseguiram acabar o Ulisses do Joyce, por exemplo. Em todo caso, eu não li nada do Melville. Nunca cruzou meu caminho, embora eu tenha lido muita, mas muita coisa em língua inglesa. O que eu tenho para comentar é: existe um site chamado http://www.bartleby.com, e lá tem várias obras completas de vários autores. Será que é uma referência?
    Ah, tenho mais uma coisa para comentar. No meu trabalho com livros raros aprendi que antigamente os livros vinham com algumas páginas “coladas” na parte superior, tendo que descolar para ler. Isso era para provar que o livro nunca tinha sido lido antes. Será que os senhores ricos, chiques e distantes do meu bolso da Cosacnaify pensaram nisso?
    As traduções parecem soar melhor dessa forma que você apontou.
    Abraço.

    • Oi Lucas,
      Não entendi direito se você considera o fato de alguém fodão nunca ter lido Joyce uma coisa boa ou ruim. Eu, particularmente, não acho que livro nenhum precise ser lido — a gente que lê porque gosta. Não li e, de acordo com a minha cabeça de agora, acho Ulisses e Em Busca do Tempo Perdido (para citar dois livros aqui que neguinho adora citar pra pagar de intelectual) dispensáveis para formar uma boa cultura, afinal de contas, gente culta já existia antes desses livros serem escritos e continuarão a existir depois que eles caírem no esquecimento. E, de qualquer jeito, se você não se torna uma pessoa melhor e mais humana depois de ler esses livros, grandes merdas que tu leu, não é verdade?
      Não conhecia esse site Bartleby (vou dar uma sacada nele) e nem essa informação de que as páginas vinham coladas, o que parece algo muito válido para colecionadores como eu. Mas acho que, no caso desse livro publicado pela Cosac, eles queriam fazer algo para instigar a sua inércia diante da história. Tanto que as páginas visíveis são todas impressas com imagens de madeira de caixa, hermeticamente fechadas. Depois dê uma olhada no projeto desse livro, é realmente incrível!
      Um abraço!

      • Concordamos sobre o fato que a literatura está aí para transformar porcos em homens, ou ao menos lembrar alguns homens que de fato não são porcos. Acho uma coisa positiva esses caras fodões não terem lido esses livros que são obrigação de todo “pseudo-intelectual”, até porque prova o que você falou; não são livros tão indispensáveis para nossa formação.
        E sim, isso que eu aprendi com os livros raros é muito válido para um colecionador, ainda mais quando o livro é primeira edição e assinado pelo autor, como são os livros com os quais eu trabalho. Vou dar uma olhada nesse livro, provavelmente eu compre ele. Os senhores Charles Cosac ou Michel Naify poderiam me adotar, não?
        Abraço.

  2. Realmente, Yuri, aquela peça a que assistimos era muito ruim. A atriz que fez o Bartleby era muito ruim (e olha que eu, que vim do teatro, não tenho nada contra mulheres que interpretam papéis masculinos). Porém, apenas com a peça deu para perceber que “Bartleby, o escrivão”, é um grande livro, com um grande texto – que oprime, como Kafka.

    E essa edição é linda, chiquérrima. Leva a leitura a um outro nível. Aliás, Cosacnaify, sou sua fã!

    Beijos, até quarta-feira 😉

    • Oi querida!
      É, realmente, depois daquela peça, já não encaro qualquer peça com facilidade. Vivendo e aprendendo, né? Aliás, como eu te disse noutro dia, tanta coisa boa do Neil Labute por aí que ninguém monta…
      Leia esse livro que você vai gostar!
      Beijo!

  3. parabéns pela banca, yuri! fico muito feliz em saber que deu tudo certo 😀
    fiquei tentando entender o funcionamento do livro, não sei se entendi muito bem, mas achei a proposta muito interessante. fiquei curiosa!
    beijos!

    • Oi Cami!
      Realmente, do jeito que eu expliquei, a coisa não fica muito clara. Só vendo mesmo pra entender. Tenho ele lá em casa, mas espero que você tenha a oportunidade de encontrar um numa promoção bacana igual a essa que eu achei.
      Beijo!

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  5. Sobre o Moby dick, o que eu posso dizer, talvez exista um pouco do capitão ahab em todos nós: não damos muita explicação, mas damos muitas ordens!

    • E aí Julio! Que maneiro ter você como leitor deste blog!
      Eu, principalmente, tenho muito de Capitão Ahab em mim. Principalmente por conta daquela banda homônima de Volta Redonda, que eu ouvi bastante, embora eles nunca soubessem disso ahahaha
      Abraço!

  6. Segui sua recomendação sobre ler alguma postagem mais recente e ela condiz minha interpretação da proposta desse blog. Gostei da crítica – talvez o fato de ser uma resenha postiva (de um livro majoritariamente elogiado) contribiui para a análise, ela ficou bem interessante, principalmente o paralelo entre os personagens “vagabundos” da atualidade (Homer).
    E, realmente, a Cosac Naify tem feito um belíssimo trabalho de edição, apesar de eu não ter visto a edição de Bartleby. Mas falo, principalmente, por O Passado, de Alan Pauls.
    Abraços!

    • Oi St_Ivan, fico feliz que você tenha gostado desta resenha. Mas, por favor, não leve muito em consideração esse negócio do livro ser majoritariamente elogiado e o apoio positivo à obra. Eu tenho esse blog justamente para poder dizer o que eu penso dos livros que eu leio, e só sigo a corrente da opinião geral se realmente concordar. E, afinal de contas, é só a minha inaudível opinião nesse universo vasto da blogosfera. Caso alguém concorde com uma crítica negativa minha, vai achar aqui um refúgio; e se, pelo contrário, alguém discordar do eventual cacete que eu desça sobre um livro tido como clássico ou unanimidade entre os leitores, também não há problema, tem aí um mundaréu de opiniões contrárias para endossar o justificado descontentamento.
      O que eu quero dizer é: não esquente muito, ok? 😉
      Abraço!

  7. pois eu já li os dois, moby dick – dá para crer que o autor já morou mesmo num baleeiro – o livro é ótimo, mas cansa um pouco no final, – e don quixote(só a primeira parte) – divertidíssimo. E também não li nada do Proust(comecei mas o sono me dominou) nem Ulisses, que tenho e já li parte, mas não engrena… fiz um cadastro nesse treco, pq não aparece minha foto?

    • Oi Vinicius, sabe que você falou uma coisa agora que é interessante: que você leu só a primeira parte do Dom Quixote. O livro realmente foi escrito em duas partes (de mesmo nome). Mas, nas primeiras publicações nacionais, ele foi lançado como um livro só, sendo a última edição pela Record. Foi só quando a Editora 34 fez aquela maravilhosa edição bilíngue que a parada de ler em duas partes voltou. E as partes tem nomes diferentes também, agora. Algo como o “engenhoso fidalgo” e “engenhoso cavaleiro”. Engraçado, né? E parabéns pelas boas leituras (o Moby Dick e o Dom Quixote). Se você já colocou a sua foto, ela deve aparecer mais tarde. Demora um pouco mesmo.
      abraço!

  8. Pingback: Nikolai Gógol – A Briga dos Dois Ivans (Повесть о том, как поссорился Иван Иванович с Иваном Никифоровичем) | Livrada!

  9. Yuri, li recentemente o Bartleby e estou fazendo minha própria resenha. Li a sua, mas não queria ter me contaminado por ela, porque você sempre parece falar melhor as coisas do que eu sobre os livros que lemos. 🙂 Mas queria te apontar um troço: consultei três fontes do original do livro, entre elas esta: http://digital.library.cornell.edu/cgi/t/text/text-idx?c=putn;cc=;view=toc;subview=short;idno=putn0002-5
    Aí está o facímile da primeira aparição da novela, em 1853.
    O chavão de Bartleby não é I rather not, mas Prefer not to ou, I would prefer not to. Então, como tradução, sim, soa bem “acho melhor não” (foi a tradução da Cosac?), mas é igualmente boa Prefiro não, como a tradução que li da Grua (Bruno Gambarotto). Belezura?
    Super abtaço!

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