Gabriel García Márquez – Memória de minhas putas tristes (Memoria de mis putas tristes)


Memoria de Mis Putas TristesIh, que isso? Geral desanimado? Faço um post sobre o Coetzee e isso aqui fica jogado às moscas? Vamos reagir aí, galera, a vida é boa, ou pode ser boa, só depende de você e de seis números de 1 a 60, certos na hora certa.

Hoje vamos cá falar nesse post mais curto, sobre um livro curto do Gabriel García Márquez, último lançado por ele se não me engano. Tudo bem que ele ficou doentinho por esses dias, mas prêmio Nobel do saco roxo escreve livro até quando tá com cara de tartaruga velha, como o finado Saramago (que Deus o tenha). Não gostaria que esse fosse o último livro que ele tenha escrito porque, venhamos e convenhamos, esse livro aqui é meio frustrante. Mas já falemos dele. Antes, um pouco mais sobre o autor.

Pra mim, o leitor de García Márquez é uma completa incógnita. Você consegue até imaginar um estereótipo para um leitor de Crepúsculo, para um leitor de Bukowski, para um leitor de Philip Roth, para um leitor de Almeida Garret, para um leitor de bula, para um leitor de frase de pára-choque de caminhão. Agora, pára e pensa: quem é o leitor de García Márquez? E uma nuvem surge na sua mente. Não dá pra saber. Principalmente quando o assunto é sua tríade máxima: Cem Anos de Solidão (o mais famoso), O Amor nos Tempos do Cólera (o mais bonitinho, que virou filme) e este livro de hoje (o último que saiu, vende até em balaião de livros do Extra). Cabeludões e barbudos das ciências humanas leem, dondocas do Jambalaya Ocean Drive, da Barra da Tijuca leem, adolescentes espinhentos de 15 anos leem — até a minha vó, aquela que gosta de Quando Nietzsche Chorou, lê. Ou seja, temos aí um emaranhado de estereótipos de leitores que não nos permite saber quem é o público alvo do autor. Isso é um problema grande para as editoras, que ficam sem saber como promover o livro. Esse livro, em especial, é tão popular, que foi o primeiro título que pude constatar uma versão pirata. O amigo Cássio tem um exemplar pirateado, coisa mais engraçada do mundo. Nunca imaginei que isso existisse.

Enfim, Memória de Minhas Putas Tristes (é uma memória só, mas é tanto plural no título que não conheço uma só pessoa que não o chame de “memórias de minhas putas tristes”) está para A Casa das Belas Adormecidas, do Kawabata, assim como Sete Homens e um Destino, do Sturges está para Os Sete Samurais, do Kurosawa, ou como Risco Máximo, do Van Damme, está para Caçador de Kickboxer, do Lorenzo Lamas. É chupado sim, amigo, chupadão. Ao menos, é uma “referência” (é, na literatura chama ‘referência’, porque todo mundo é bem educado e tem um Nobel em casa) explicitada na epígrafe do livro, embora seja uma epígrafe tirada da primeira ou segunda página. Mas a orelha, extremamente esdrúxula por sinal (perdão ao autor), trata de entregar as outras ‘referências’ que ele pegou pra fazer o livro: Lolita, do Nabokov e Morte em Veneza, do Thomas Mann (não li, confesso), além de Bela Adormecida, do Perrault. Tudo isso para contar a história de um velhinho jornalista que se apaixona por uma candidata a puta menininha, de 14 anos que — pasmem vocês! — descobrimos que também está apaixonada pelo velho nonagenário. Aí eles ficam umas cem páginas num joguinho de gato e rato e dá-o-doce-tira-o-doce (o doce é isso aí mesmo que vocês pensaram) até que eles se entendem nas últimas cinco páginas, eu acho. Sem querer desmerecer o grande autor, mas que ficou xoxo, ficou. Acho muito difícil achar um leitor costumaz de seus livros que tenham se encantado com esse. A exceção se abre quando, claro, o leitor em questão não leu nenhum desses livros que foi referência para ele. Mas hey, é só a minha opinião, sintam-se livres para discordar.

Gabriel García MárquezO projeto gráfico da editora Record para esse livro é, no mínimo, misterioso: ao passo que foi mantida a lombada de seus outros títulos, bem como a tipologia dos dizeres da capa, aquelas pinturinhas que vinham emolduradas por um livro de uma cor só deram lugar a uma triste foto de um velhinho indo embora para um fundo branco e indefinido, algo do tipo “García Márquez tá indo em direção à luz, gente, vamos dar tchau” (se ele morrer amanhã eu vou me sentir culpado por ter feito esse comentário). Mas, ao menos, é uma evolução do projeto gráfico dos outros livros dele, que tem uma diagramação de página horrível: blocos e blocos de texto em letras negritadas em papel offset muito, mas muito, branco. Dá vontade de passar a borracha nas letras pra ver se ficam com mais contraste com o fundo. Nesse livro não: fonte Minion corpo doze (doze! Que milagre), papel pólen e um cabeço na parte superior que não fede nem cheira, apesar da paginação ser em cima também. Ah, e tem um ponto positivo muito importante: a tradução é do Eric Nepomuceno, fodão.

Ah, e o convite ainda está de pé: mandem fotos de suas estantes de livros comentadas para bloglivrada@gmail.com Aguardo! E lembrem-se: o planeta é de vocês.

Comentário final: 127 páginas pólen soft. Nhé…

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13 Respostas para “Gabriel García Márquez – Memória de minhas putas tristes (Memoria de mis putas tristes)

  1. Não é o poder que é nosso??

    Ninfetas desenhadas pela mente de senhores jovens, com vozinha fina e peitinho crescendo sempre fazem sucesso. . .

    Quem não consegue ler Tereza Filósofa numa sentada??

    🙂

    • Ahahah será que era isso, Mateus? Acho que sim, né?
      Mas concordo com sua opinião sobre o sucesso incondicional desse tipo de mote, embora não tenha lido Tereza Filósofa. Agradeço a recomendação e acho graça em termos de leitores como “ler numa sentada” hahaa
      Abraço!

  2. pois é, a versão pirata que eu tenho é em espanhol, foi comprada na Colômbia, e ganhei de uma aluna. parece que já havia por lá cópias piratas antes mesmo do lançamento, o que forçou o García Márquez a modificar o final.
    no mais, é um livro que tem o maior jeitão de caça-níqueis mesmo.

    PS: tô quase terminando o livro do Wisnik, acho que agora vou de Coetzee, por sua causa.

    • E aí, Cássio! Não sabia que existia um final alternativo, ou original para esse livro. Como é? O final dele realmente não é dos melhores mas, pensando bem, o livro inteiro é mediano, caça-níquel mesmo, como você disse…
      Tomara que você goste do Coetzee, tenho vários livros lá em casa se você quiser!
      Abraço!

  3. sobre minha leitura da tríade, em ordem: quando li memória de minhas putas triste, gostei. mas não muito – acho que o fato de eu ter lido em uma tarde me agradou mais que o livro em si. tinha 17 anos, era um menino que curtia a ideia de meninas de 14 anos putas. depois li cem anos. e definitivamente não gostei, achei chato, cansativo e com o clima de floresta tropical, o que só me fazia ficar agoniado pensando no calor e abafado desses lugares – creio até que n’algumas leituras até suei de agonia. n’outro ano li o amor nos tempos do cólera e foi o livro que me fez pensar que ele é bom. só li esses trÊs e preciso tomar vergonha na cara e ler mais, talvez até dar uma nova chance a cem anos, mas… eu simplesmente não sinto essa vontade.
    e esse livro pode não ser bom, mas é bonitinho que só. e a foto da capa é muito como você disse: garcia marquez está indo para a luz, aproveitem cada lançamento.

    • E aí, V.
      Eu, assim como você, comecei a ler Gabriel García Márquez ainda adolescente, acho que com 17 anos também. E claro que, nessa idade, vibramos ao ler um livro inteiro durante uma tarde, ficamos orgulhosos de nós mesmos, virando homenzinhos e tudo mais. Eu li em dois dias, em pouco tempo também, e achei o livro extremamente chato, em um mês de leituras extremamente chatas também. Ao contrário de você, porém, gostei bastante do Cem Anos de Solidão e não me senti sufocado com o calor tropical, talvez porque eu não seja muito de passar calor, alojo-me rapidamente em lugares fresquinhos.
      O livro é realmente bonitinho mas, convenhamos: qualquer livro cujo protagonista é velho e ama alguém o é. 😉
      Abraço!

  4. Olá. Li três livros desse senhor comunista. O “Cem anos de solidão”, “Do amor e outros demônios” e “O amor nos tempos do cólera”. Isso de realismo mágico ou realismo fantástico já me encantou mais do que faz hoje. Especialmente com os argentinos amigos Borges e Bioy Casares. As análises críticas que faz de um país em construção são interessante nos três livros que li, mas acabam se limitando, muitas vezes, a uma tendência de transformar a América Latina em pobres coitadinhos, coisa que os europeus amam, tanto é que agora idolatram os escritores do Oriente Médio e afins. O caso é que, acho eu, embora tenha o Nobel e tudo o mais, o Gabriel Garcia Marquez estava na crista da onda de um movimento com tendências demais e só vamos saber de sua literatura sem essa marola toda daqui algum tempo.
    Abraço.

    • Fala, Lucas!
      Acho que o realismo mágico, ou fantástico, ou maravilhoso (qual será que é a denominação menos gay?) já teve o seu tempo, e acho difícil que alguém ainda se encante com isso, mesmo porque, se for pra ter realidades fantásticas, melhor jogar videogame (tenho um nintendo Wii agora, tô me amarrando e fritando miolos sempre que posso).
      Ainda assim, o realismo do Borges e do Bioy Casares são diferentes. Acho que, para escritores latino-americanos, eles são extremamente europeus e anglófonos, no sentido de que são sisudos, racionais como um número racional e sem a leveza típica dos outros fantasiosos. Humpf, deve ser coisa de argentino. Ô raça.
      Também não sei se a empatia que o mundo sentiu por esse movimento latinoamericano é similar ao que hoje há pelos Khaleds da vida. Acho que, mais do que tudo, encantou uma literatura fantasiosa vinda de um lugar já extremamente místico e misterioso para os europeus. Uma vez rompida a barreira do estranhamento e abrindo-se as veias da América Latina, foi-se o encantamento e viramos só um bando de gente marrom que mora num cenário ainda mais marrom.
      E, por último, acho que o Gabo tem lá sua importância, talvez até mais como jornalista do que como romancista (não duvido que tenham dado o Nobel pra ele por causa disso). Mas não acredito que seja um autor lembrado por muito mais tempo. Vê que mesmo hoje ele anda esquecido…
      Abraço!

  5. E ae Yuri, blz?

    To meio sumido daqui, mas não deixo de ler, só estou meio sem tempo de comentar e mandar a foto (que não esqueci rsrs).

    O Gabo (sou íntimo dele mesmo, rs, aliás sou íntimo de todos escritores que são importantes para mim) é um escritor dos mais importantes na minha formação de leitor. Cem anos eu li 5 vezes já e a cada leitura é uma nova descoberta. Também achei esse livro bem fraco, A casa das belas adormecidas é muito melhor. Não espero que ele morra tão cedo, pq está nos devendo mais dois volumes da sua autobiografia. É um escritor importante, depois de conhecer outros escritores latino-americanos não o coloco mais no topo da lista como colocava quando comecei a lê-lo. Mas é um escritor especial para mim.

    Abraço.

    PS: Terminei de ler Os detetives selvagens, e é extraordinário. Não se iguala a 2666, mas é tão bom quanto.

    • E aí, Sr. Raphael. Anda mesmo sumido e ainda estou esperando a foto, hein? Enquanto isso, espero que aprecie o livro. Dei ele de presente para um amigo meu, de aniversário, e ele está se amarrando.
      Engraçado você falar que a Casa das Belas Adormecidas seja um livro bem melhor que Memória de Minhas Putas Tristes, já que esse livro do Kawabata também é bem morno. Páreo duro, mas, por via das dúvidas, damos a vitória para o japonês, porque foi feito dentro dos limites do Shikankakuha e não poderíamos esperar coisa diferente, ao contrário do colombiano, que sempre procurou nos surpreender com histórias supimpas e nos dá esse café fraco.
      Agora, infelizmente, se eu fosse você, não esperaria dois volumes de uma autobiografia com esse pé na cova em que ele está ultimamente. Acho que a parada vai ficar incompleta mesmo, hein?
      Abraço!
      Ah, que irado isso dos Detetives Selvagens. Bolaño é um cara que ainda vou conhecer (não me julgue, não se pode ler tudo…)

  6. Olá Yuri,
    Essa mania de “esterotipizar” as pessoas em função do que lêem está muito errada, e o mesmo para os filmes que vemos no cinema- já li e vi tanta merda.., e não gostava de ser catalogado em função disso! Aliàs, catalogar é defeito humano ruim mesmo em que a única função que tem é justificar a preguiça de dar-se ao trabalho de conhecer algo novo – e aí dizemos simplesmente que é do tipo tal, género tal e coisa…, preguiça pura que mata a diversidade (irra que estou a ficar profundo!)
    Não poderei comentar este livro que não li mas, dadas as condiderações alargadas sobre o autor, comento: a minha primeira “biblia” foi o Cem anos de solidão – e biblia mesmo, pelo tamanho e aquelas páginas iniciais sem fim que fazem lebrar Génesis da biblia (o pai do filho que pariu o irmão do tio que tinha um primo…, quase desisti e, não soubera eu que ele tinha o nobel e tinha largado mesmo o livro – mas com nobel não, algum valor tem que ter o raio do livro!). E ainda bem que não larguei porque, como referi em relação ao João Ubaldo, foi uma perfeita revelação para mim aquela escrita com cor, cheiro e som. Digam o que disserem, chamem de comunista, cataloguem à vontade que para mim continua sendo um grande livro. Só me tornei a “apaixonar” assim com o “Viva o Povo Brasileiro” (capitalizei de propósito pra vc não se ofender) 🙂
    Li outros livros dele (general no seu labirinto, crónica de uma morte anunciada, olhos de cão azul e outros) e embora gostasse sempre, não atingi mais aquele “climax quase orgásmico” dos cem anos.
    Prometo ler Coetzee para comentar, atrasado, as suas resenhas (Sertões quase no fim!). E prometo também foto da minha estante mas acho que vai gostar mais da estante de minhas filhas – cada encadernação linda nesses contos infantis (obrigatório, nessa porrada de literatura, consultar a recém falecida Matilde Rosa Araújo – é de banzar crianças e adultos – e se encontrar com ilustrações de Gémeo Luís vai ficar louco de inveja das crianças!)
    1 abraço, e desculpa o testamento 🙂

    • Oi Fausto, como vai?
      Não me entenda mal: não estava rotulando leitores, estava apenas brincando de imaginar o estereótipo típico de leitores de alguns autores, ou como imaginamos que eles sejam. É mais forte que nós, já vem na mente e não tem o objetivo de ofender, só tirar uma chinfra.
      Acho que existem Nobéis e Nobéis também. Embora os louros do prêmio ajudem a persistirmos com um autor para tentar ver nele o que o pessoal de Estocolmo viu, por vezes dão um prêmio de protesto a alguém que, ou já teve seu momento e hoje não mais — escreve calhamaços irritantes como protestaram a respeito da Doris Lessing — ou algum autor obscuro que tem algum empenho na área política. Então, olho vivo com esses prêmios. Mas Cem Anos de Solidão é um livro de que gosto muito, e achei-o fenomenal, embora a falta de imaginação para nomes na família tenha me irritado um pouco. (e desculpa, não entendi a parte do capitalizar porque não faço ideia do que seja isso. Pra mim, capitalizar é juntar dinheiro hahaha)
      Acho que você vai gostar do Coetzee, e me mande a foto da sua estante também!
      Abraços!

      • Capitalizar neste caso se refere a colocar letra capital (maiúscula) no nomes – em vez de “viva o povo brasileiro”, capitalizado fica “Viva o Povo Brasileiro”. Mas, consoante o contexto, também se pode referir “aquilo com que se compram os melões” – essa expressão é bem portuguesa!
        E entendi bem o tom de brincadeira quanto aos estereótipos, eu próprio terminei a citação “brincando”.
        1 abraço

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