Vídeo: O Labirinto da Solidão, de Octávio Paz

Olha, a comunidade acadêmica e os críticos literários em geral vão ter que me perdoar por abordar de maneira tão rasa e leve um livro do Octávio Paz, mas poxa, precisava levar esse sucesso de crítica para a tela grande (ou pequena, dependendo de onde você assiste o Youtube). Eis aí algumas palavras sobre O Labirinto da Solidão.

Ah sim, tem que clicar na imagem.

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Vídeo: Entrevista com Diego Vecchio

Estava na Flip e me foi oferecido uma entrevista com o convidado argentino Diego Vecchio, que publicou o livro “Micróbios” pela Cosacnaify, uma proposta bem interessante e um livro bem resolvido depois de um começo meio decepcionante.

Como expliquei na descrição do vídeo, ia ter legenda, mas acabou que não teve porque não tô mais com tanto tempo livre assim, e essa máquina não para. Mas ele fala direitinho e devagar, não acho que alguém vá ter problema para entender o castelhano do cara.

Clica na imagem aí!

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Lucas Varela – Paolo Pinocchio

Lucas VarelaOra, estava faltando uma graphic novel para comentar aqui pelo Desafio Livrada! 2014 (aliás, como estão indo nessa empreitada desafiadora que é o desafio deste ano?) Ia comentar o livro do Marcatti, mas eis que me caiu nas mãos, graças ao povo da Itiban Comic Shop (jabá de graça pros bróder) esse livro que compila as histórias insanas do Paolo Pinocchio e sua saga dantesca rumo ao inferno e pensei “por que não? Assim eu escrevo sobre uma hq que eu realmente gosto (não que eu não goste do Marcatti, muito pelo contrário), e as crianças que leem o blog ainda ficam conhecendo mais um cabra responsa”.

Pois bem. Conheci a obra do argentino Lucas Varela por meio da revista Fierro, uma revista argentina de quadrinhos que publica tanto os portenhos quanto os autores brasileiros, e ganhou duas compilações máster pela editora Zarabatana, a mesma que publicou esse livro, sob a catalogação de “coleção Fierro #4”. A história é uma só, mas pode ser lida separadamente, como foi publicada nas Fierro: Paolo Pinocchio é uma versão do mal do Pinocchio, o boneco de madeira da história de Carlo Collodi. Ele mente pra Chapeuzinho Vermelho, abusa sexualmente de João e Maria, arranca dinheiro do Patinho Feio prometendo pílulas mágicas para aumentar a auto-estima, droga a Bela Adormecida e por aí vai, até que é sentenciado à morte e vai para o inferno, de onde tenta sair. Basicamente as histórias giram em torno disso: Paolo tentando fugir do inferno, o que não faria tanto sentido para um boneco do mal não fosse o prólogo, em que o autor retrata Dante e Virgílio como um menino e um cachorro visitando o averno, a entrada do inferno, numa clara referência ao notadamente mais legal livro da Divina Comédia. Ali, buscam um significado para o que é a dor e o sofrimento, e colhem o depoimento de vítimas e de verdugos.

Fábio Zimbres, eu, Lucas Varela (com o microfone) e Vitor Caffagi no lançamento da Fierro 2, na Itiban.

Fábio Zimbres, eu, Lucas Varela (com o microfone) e Vitor Caffagi no lançamento da Fierro 2, na Itiban.

A graça de Paolo Pinocchio reside no fato do personagem ser espírito de porco demais, até mesmo para o inferno e para o sofrimento interno. Mesmo sendo condenado à morte diversas vezes, por promover orgias em um convento ou traçar a filha de um juiz, por exemplo, ele dá um jeito de ludibriar os ludibriadores e salvar sua pele. As histórias são abarrotadas de humor negro e altamente doentio, o que, é claro, ganha minha simpatia logo de cara. Mas talvez haja mais do que meras sátiras de contos da carochinha e referências a Dante Alighieri em Paolo. A ideia de graphic novel adulta passa também por isso: não só expor uma temática adulta, mas também brincar com ela, leva-la para o lado infantil e de volta para o universo de gente grande com a mesma leveza que por muitas vezes, em nossos mais profundos arroubos de loucura, fazemos. A loucura de Pinocchio é a loucura do homem moderno, que grita de inconformidade por viver em um mundo que reprime as vontades do corpo ao mesmo tempo em que pune a falta de virtuosismo universal, conceito que, convenhamos, há muito não condiz com a realidade do século 21. Pronto, esse parágrafo só escrevi pra mostrar que qualquer zé mané consegue bancar o profundo em resenha literária. O gibi é maneirinho e vocês deveriam ler.

O projeto é da Zarabatana Books, que fez o livro lindão, com papel de gramatura grossa e inteiro colorido, com umas splash pages de respeito e tudo mais o que o cara merece. E ainda tem arte na parte de dentro da capa e da contra-capa!

Comentário final: 96 páginas coloridas de puro sarcasmo!

Paolo Pinocchio atende às seguintes categorias do Desafio Livrada 2014:

10 – Uma Graphic Novel

Juan Pablo Villalobos – Festa no Covil (Fiesta en la Madriguera)

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Surprise, motherfucker! O livro de hoje vai ser comentado em vídeo. Esse é o primeiro videolog do Livrada!, e nele dou uns pitacos sobre esse maravilhoso livro desse maravilhoso escritor mexicano. Espero que gostem!

O Livrada! agora é um site multicanais, e apesar de sermos antigos no WordPress, somos novos no YouTube, por isso qualquer tráfego por lá é bem vindo. De maneira que é extremamente importante que, para dar prosseguimento a esse troço (que dá mais trabalho do que escrever um texto, vai por mim), vocês se inscrevam no canal, curtam o vídeo e comentem por lá. Ou, sei lá, não precisa curtir, mas comentem, linkem, compartilhem. Como diria um certo banco falcatrua, vamos fazer juntos?

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Isso é só uma imagem, amigo. Mas é só clicar nela que você vai direto pro vídeo.

Alejandro Zambra – A Vida Privada das Árvores (La vida privada de los árboles)

Vida privada das árvoresVamos entrar aqui numa quinzena de livros curtinhos porque é comum recorrer a esse tipo de expediente em nome da periodicidade. Mas veja lá, porque também temos calhamaços ocasionais que justificam posts como esse. E também não tema, jovem, porque aqui temos outra vez o grande Alejandro Zambra, autor de Bonsai, em seu segundo e decepcionante romance. 😦

Zambra, coitado, foi uma vítima, como tantos outros artistas, da síndrome do segundo álbum, ou, no caso, do segundo romance. Porque Bonsai, estamos conversados, é um livrão! Quer dizer, é um livrinho em tamanho, mas é grandioso em seu propósito e por isso respeitamos ele a ponto de querer pegar um outro romance, que a Cosac lançou para nosso bel-prazer. Mas calma, não estou dizendo com isso que A Vida Privada das Árvores é objetivamente ruim, não. É um livro bacaninha, mas fraco se comparado à sua estreia literária. E a gente sabe que o sujeito tem é que crescer, e não decrescer de qualidade em sua carreira, por isso metemos o pau aqui, na esperança em que se tome jeito e que Zambra se torne um excelente escritor não-maneirista de si mesmo.

Vejamos aqui um pouco sobre o livro e do porque ele é “meh”. Julián é um sujeito feio que casa com Verónica, que já foi casada com Fernando, que é pai da menina Daniela, também filha de Verónica. Julián está cuidando de Daniela contando pra ela historietas que ele inventa, englobadas em um fabulário chamado A Vida Privada das Árvores, que são basicamente as piores histórias de dormir que alguém pode inventar. Duas árvores conversando entre si e falando sobre as vicissitudes de ser árvore. Fala sério, amigo, tu não entende nada de psicologia infantil, hein? Enfim, fato é que Julián se vira pra entreter a garota enquanto a mãe não chega. E o problema é que ela está demorando e o narrador aí já te coloca a questão: é possível que ela não volte mais até o final do livro. Agora, não me lembro muito bem se Zambra já tinha usado esse recurso em Bonsai, mas o fato é que em seu segundo romance ele todo o jogo psicológico que ele cria com o romance é por meio do narrador, que vai problematizando a narrativa de forma que, caso contrário, você nem perceberia. Francamente, não acho que isso seja dever do narrador. Acho que o escritor tem mesmo é que ser cabra bão e criar o clima para que você sinta qual é o problema, e não que tudo fique sendo entregado a você de bandeja. É claro, isso é um recurso válido ainda assim, e devo dizer que deixa a leitura mais fluída e interativa, mas eu sou um cara à moda antiga e gosto de certas coisas como elas são. Reacinha, né?

Alejandro zambraA partir daí, o livro suspende o momento presente e conta primeiro o passado de Julián e Verónica, e, posteriormente, o futuro hipotético de Daniela a partir da vontade de Julián de vê-la como adulta. Ou seja, o momento presente mesmo fica bem em segundo plano e no final, é indiferente se Verónica volta ou não porque não é disso que o livro trata. O livro trata da relação entre Julián e a enteada, e de como ele prepara um livro para que ela leia. O livro que Julián escreve, no caso, é justamente Bonsai, primeiro romance de Zambra, segundo a narrativa dá a entender. Então temos aí então a coisa do livro dentro do livro dentro do livro. A Vida Privada das Árvores é sobre um sujeito que cria um fabulário chamado A Vida Privada das Árvores e depois escreve Bonsai. Quer dizer, além do cara ser fã de plantinha, o que é bem esquisitão, ele ainda gosta de perambular nas ruínas circulares da literatura borgiana (porque obviamente não foi ele que inventou esse tipo de coisa), mas o fato dele repetir no segundo romance o que ele já havia feito em Bonsai faz de sua obra um caldo de falta de imaginação. Qualé, pô! Você consegue mais do que isso. Ainda tem aquela coisa das relações que se constroem, e depois de destroem, e os caminhos que se cruzam e descruzam, e tudo aquilo que a gente também já leu em Bonsai.

No fim das contas, A Vida Privada das Árvores podia ser bem melhor se de fato tivesse uma história mais consistente do que pequenos highlights biográficos de personagens que não são lá muito profundos. Então, sei lá, é um livro fraco, mas como ele tem só 92 páginas, dá pra ler ele durante um voo de uma hora entre Curitiba e Rio de Janeiro, como eu fiz, que você vai ter lido pelo menos alguém com menos de 40 anos. Mas tem que ler esse ano, hein?

Esse projeto gráfico da Cosacnaify segue os moldes do Bonsai em todos os detalhes, e tem até uma capa levemente mais bonita do que a outra, e sem a parada de você recortar o livrinho da capa como eles queriam que você fizesse com o primeiro romance dele, muito embora a ideia se aplique a esse aqui também. Fonte Arnhem, papel pólen e uma margem gigante, do tamanho de um campo de futebol de areia. Desconfortável de ler é que não é!

A Vida Privada das Árvores cumpre as seguintes modalidades do Desafio Livrada 2014:

8-      Um livro escrito por alguém com menos de 40 anos

Comentário final: 92 páginas em papel pólen soft. Ainda gosto de ti pra caramba, Zambra, mas vamos botar a cachola pra funcionar mais aí!

Hernán Rivera Letelier – A Contadora de Filmes (La Contadora de Películas)

A contadora de FilmesPor essa você não esperava, hein? Livrada.com.br na fuça da rapaziada. É a modernização, galera. Visual novo, domínio novo, tudo pra deixar a sua experiência de leitor mais agradável. Deem aí o feedback necessário das novidades pra saber se estou no caminho certo, ok? No more delongas.

Olha, você que é leitor assíduo do Livrada! deve estar me achando meio amargo por esses dias, com os comentários que teci a respeito dos últimos livros, e com os comentários que estou prestes a tecer sobre o livro de hoje. Bom, talvez eu tenha culpa, talvez eu esteja cansado de ver tanta crítica vaselina por aí, talvez eu esteja querendo ser surpreendido novamente por um bom romance e a frustração só aumenta a cada um que não me satisfaz, mas, por outro lado, as obras lidas também têm sua parcela de culpa. E se um prêmio Nobel de literatura, um clássico austríaco e um badalado escritor brasileiro não têm muito a que se agarrar para salvar as próprias obras, este senhor chileno e seu livreto de 110 páginas não vai ser a obra máxima que vai quebrar o combo.

Eu até tentei, e eu li até o final (até porque não demora mais do que um dia), mas esse A Contadora de Filmes é um dos livros mais deploráveis que li esse ano. Existem várias razões para isso, mas a principal é a pieguisse desenfreada desse escritor que queria fazer uma dessas histórias de singeleza na vida dos pobres que fazem você chorar pela diversão tosca dos menos afortunados enquanto aprecia seu exemplar caprichadíssimo da Cosacnaify (uma grande casa editorial cujos autores nem sempre ficam à altura).

Deixe-me dar as linhas gerais. A história se passa numa vila de mineiros, no meio do deserto do Atacama. A protagonista é Maria Margarita, a caçula de uma família de cinco filhos. O pai é um mineiro aposentado por invalidez que ficou paraplégico durante o trabalho, o que causou o abandono da esposa. A família é de cinéfilos, mas como o pai não consegue andar e se recusa a usar cadeira de rodas, a filha vai ao cinema com o dinheirinho contado que mal dá pra comer e volta pra casa para contar a história pro pai e pros irmãos. Ela conta então como ela conseguiu esse cargo e como se tornou a contadora de filmes oficiais de um povoado pobre e mais inclinado para a narrativa oral do que para a experiência audiovisual, ao que parece.

Se alguém por acaso achar que tanto melodrama não seria encontrado em lugar nenhum fora de um filme do Walter Salles, pode confirmar silenciosamente com a cabeça o que você já sabia. O cineasta-banqueiro que adora contar histórias de pobreza na infância já está mexendo os pauzinhos para fazer um filme a partir do romance. Is it too soon to whisper Oscar?

Bom, não estamos aqui para falar de cinema, então vamos nos ater à obra. A Contadora de Filmes, de uma maneira bem escancarada, coloca em debate uma questão pertinente: a passividade do audiovisual, com todos seus atrativos hã… audiovisuais, não seriam tão atraentes quanto à narrativa sem imagens, essa que depende da capacidade do leitor de introjetar (calafrios com essa palavra) a informação. Ou seja, nenhum David Lean chegaria aos pés do Gedankenbild de um Jeca Tatu com boa disposição para abstrações imagéticas. Estendendo o conceito para fora da tela cinza, a própria experiência humana não seria capaz de fazer frente ao ideário coletivo, inerentemente desprovido das imperfeições que os olhos veriam. Em outras palavras: enquanto os olhos procuram os defeitos, a mente se esbalda na perfeição abstrata. Talvez essa seja a razão de dar dois meses depois de você ter chutado seu namorado e você entrar numas de que era tudo bonito e maravilhoso com ele. Só tô dizendo…

Hernan Rivera LetelierMas não é porque um livro levanta uma bola pertinente desses que ele vale a pena ser salvo. A escrita é tosca, os personagens são chapados e nem sob a espada de Tandera esse cara consegue passar a impressão de que é uma menina que narra a história. Mas não é só isso. Desde que eu assisti O Fabuloso Destino de Amélie Poulain entrei em uma cruzada pessoal contra toda e qualquer obra que, por meio de singeleza, pieguice e imagens belas, não te deixa a opção de não gostar dela sem parecer um velho rancoroso, ou um recalcado, para usar aqui uma palavra do momento, bastante usada para se referir a mim na semana passada. You gotta fight for your right to hate, e isso vale cada vez mais nessa sociedade passivo-agressiva que quer a qualquer custo impor uma cultura de benevolência e altruísmo, sob pena de dedos apontados e gritos de “reaça”, “recalcado” e “preconceituoso”, só para listar os adjetivos mais gerais. Essa sociedade em rede que potencializa a exposição pessoal tá deixando todo mundo maluco pra pagar de bom samaritano. Então, na moral, leva esse dramalhão pra lá e me deixa em paz com meus livros que eu não quero nada que ver com essa história piegas e mal escrita, que tem a audácia de contemplar trechos como:

“Uma vez li uma frase – com certeza de algum autor famoso – que dizia algo assim como a vida está feita da mesma matéria dos senhos. Eu digo que a vida pode perfeitamente estar feita da mesma matéria dos filmes.

Contar um filme é como contar um sonho.

Contar a vida é como contar um sonho ou contar um filme”.

 Ou :

“Quando ela [a mãe da personagem] nos abandonou, do mesmo jeito que meu irmão começou a gaguejar eu me cobri de piolhos brancos. As vizinhas diziam que esse tipo de piolho aparecia quando a gente tinha alguma dor na alma. E coo a dor era pela minha mãe, comecei a comer os piolhos de amor por ela.

Tanto assim eu amava minha mãe.

Tanto assim eu sentia falta dela.”

Se o seu estômago não revirou ao ler esses trechos, parabéns, você é um forte. Eu, por outro lado, não tenho mais pique pra esse tipo de coisa.

Mas aí vem a Cosacnaify e desbanca a obra do autor com um projeto gráfico que é melhor do que a história. Os capítulos cortados com tarjas pretas, como as tarjas de uma tela widescreen, os capítulos curtos e fontes Andralis e Knockout, com papel pólen bold, e pra arrematar chamam o Eric Nepomuceno, que é um dos mais gabaritados tradutores do espanhol para fechar o trabalho. O livro fica uma belezinha, com uma capa que contrasta o preto e branco da fotografia com o amarelo (talvez a cor das legendas) do título. É um livro bonito, mas não pela história.

Comentário final: 110 páginas de papel pólen bold. Machuca menos que piolho branco de dor na alma…

(Sério mesmo que vocês gostam do que eu escrevo aqui nesse comentário final? Não é possível, meu Deus, isso aqui é MUITO sem graça)

Rosa Montero – A Filha do Canibal (La Hija del Caníbal)

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Sempre falo isso no final de cada post, vamos tentar falar por primeiro pra ver se vocês prestam atenção, seus cabeças de vento! Rá, brincadeira, aqui ninguém é cabeça de vento, os leitores do Livrada! são sempre os mais espertos e os mais cheirosos.

Como vocês estão, gente? Susse no musse, de boa na lagoa, suave na nave, de leve na neve, tranquilo no quilo, de bobeira na ladeira, seguro no muro, beleza na mesa, jóia na jibóia, manso como um ganso? Espero que sim, porque aqui tá tudo aquele pandemônio nosso de cada dia. Mesmo assim, é sagrado: domingo sim, domingo não, cá estou eu para encher o seu cérebro de besteira ao mesmo tempo que exerço uma boa influência na sua formação. Tipo quando o Tim Maia começou a ler o Universo em Desencanto, ou quando o Jaime Palilo fugiu de casa e aquele mendigo ensinou ele a tocar gaita.

O livro de hoje é de uma autora que, se vocês são freqüentadores assíduos desse blog (vou fazer uns bottons, quem compra?), não é uma completa desconhecida: é a espanhola Rosa Montero, da qual já resenhei A História do Rei Transparente e História de Mulheres. Bom, ao contrário dos recém-supracitados, A Filha do Canibal é um romance mais limpo, no sentido de que não é histórico, não tem ensaio, não tem nada além de um puro e simples romance com uma dose considerável de suspense. Mentira, tem um pouquinhozinho dessas coisas que eu falei que não tinha, mas a julgar pelo exagero dessas doses na obra da Rosa, é quase como se não tivesse.

A história começa a partir de um mote totalmente banal, mas que abre marge pra toda sorte de maluquice que você desejar colocar num romance a partir disso: Lúcia Montero, uma mulher casada de meia idade, está pronta para viajar com o maridão no réveillon quando o fulano pede pra ir no banheiro. E pronto: o cara some dentro da casinha. A partir daí, a moça fica desesperada pra tentar descobrir o que aconteceu com o rapaz e acaba se envolvendo com uma gangue de malucos, a saber: Fortuna, um ex-toureiro e anarquista que preenche boa parte desse livro com suas historietas da guerra civil, e Adrián, um garotão pelo qual as cocotas se perdem e que parece meio burro.

Paralelo à investigação sobre o desaparecimento do maridão, Lúcia relembra sua vida, incluindo o fato que não lhe escapa que dá nome ao livro: seu pai comeu carne humana quando foi um dos únicos sobreviventes de uma expedição aí que já não lembro pra onde. Francamente, não sei qual é o problema. Eu sou uma daquelas pessoas que não tem remorso de comer boizinho, porquinho, galinha, churrasco de gatinho, enfim, se for gostoso, tô comendo. E isso incluiria, hipoteticamente, carne humana também. Mas enfim, pesquisei sobre isso, a parada é ilegal e não vou ficar falando disso porque logo vem um zé Mané querer me enquadrar no artigo 287.

De qualquer jeito, o barato do livro é ver como a relação que Lúcia achava que ela tinha com o marido já havia mudado muito e que o sujeito já era praticamente um estranho pra ela. E aí vai umas ideias muito erradas de como a gente não conhece as pessoas mesmo e patati patatá, perdi o fio da meada e parei por aqui. Eu posso, eu que mando nessa porra. Posso até fazer um emoticon no meio do texto. 😀

Liga não que o post de hoje é curtinho mesmo. É que lembro muito pouco desses livros que eu li, mas lembro que são bons o bastante para não serem esquecidos, e por isso faço questão de divulgá-los aqui para vocês. Entendam que, apesar de ser de ruim memória, é de bom coração. Fazê-los conhecer os livros queridos da minha estante é o mínimo que posso fazer por tantas coisas boas que eles me trouxeram.

Agora vamos falar desse projeto gráfico aí. Ó, a imagem que eu escolhi da capa tem um sentido muito legal. Não escolhi essa imagem só porque foi a única que eu achei na internet com um tamanho decente e com o padrão de cores pouco distorcido. Foi também por causa dessa cinta maravilhosa que a editora colocou. “Da autora de A Louca da Casa”! Sensacional, colocaram o título a partir de um dos maiores sucessos da autora que por acaso também é um dos livros mais difíceis dela. Isso é que eu chamo de valorizar a inteligência do leitor. Ponto pra editora. E o papel é pólen e a fonte é Minion! Mais dois pontos! Ê! Mas agora o livro perde todos os outros pontos. Primeiro por causa dessa capa horrorosa, uma espécie de Matisse-de-Ressaca numas cores suspeitas. E principalmente, e aqui vão desculpar a minha arbitrariedade, por causa da editora Ediouro. Veja, não é que eu odeie a Ediouro, mas esse nome e essa logo do bonequinho com um livro aberto provoca todo tipo de relação pavloviana na minha mente, porque os livros que eu precisava ler obrigado para a escola eram todos, ou em sua grande maioria, da Ediouro. E hoje quando eu pego um livro da Ediouro para ler por prazer, eu já penso que vai ter uma prova sobre o enredo. Brrrr, que calafrios me dá isso. Editoras: considerem fazer um selo propositalmente desagradável para os pimpolhos, para que eles não cresçam odiando vossa casa editorial. Enfim, só uma ideia. E com essa me despeço!

Comentário final: 333 páginas. Aprendi a tocar minha primeira música dos Beatles ontem. Isso porque não sou lá fã dos Beatles. Mas curti.