Amyr Klink – Paratii entre dois pólos


Eis que no escritório surgiu a ideia de fazer uma entrevista com o Amyr Klink para um veículo para o qual produzimos conteúdo. A entrevista seria sobre o livro Paratii, que estava sendo reimpresso pela Companhia das Letras. Pois bem, solicitamos o livro e quem teve a tarefa de lê-lo? Sim, o queridão aqui. Reclamar do excesso das coisas boas da vida é uma das razões pelas quais mesmo as pessoas mais santas merecem uma pranchada na orelha, eu reconheço, mas o fato é que minha agenda de leitura ultimamente está mais atribulada do que vida doméstica de mãe solteira. Mas beleza, aproveitei aí uma brecha e comecei a lê-lo, não esperando muita coisa por ele.

 

E que baque esse livro, minha gente! As aventuras de Amyr Klink são viciantes. Esse livro, em especial, que foi o primeiro que eu li, e que promete leituras de muitos mais, fala sobre uma viagem que ele fez há 21 anos, em 1989. Construiu um barquinho especialmente para a viagerm, que seria feita sozinha, e partiu para morar em seu barco durante um ano na baía Dorian, na Antártida. E, não satisfeito com isso, depois ainda resolveu rumar norte e passar mais um tempinho no outro polo, na casa do Papai Noel, antes de voltar ao Brasil dois anos depois de sua partida. Então, entre altos perrengues, paisagens maravilhosas, engenhosidades e uma rotina que teria tudo pra deixar um cidadão comum completamente maluco, Klink descreve com naturalidade sua jornada, no melhor estilo das literaturas de viagem.

 

E como fiquei bolado com algumas coisas do livro, como o fato do mar ter congelado e ter deixado seu barco preso ao continente até o próximo verão, ou seja, por pelo menos sete meses! É para pirar a cabeça, mesmo sendo algo completamente esperado. E quantas engenhosidades: pintar um mastro de preto para absorver melhor o calor para derreter o gelo que começasse a se prender nele; construir um centro odontológico para emergências totalmente possíveis como uma cárie ou um dente quebrado, para ser operado pelo próprio paciente; fazer previsões de comida e combustível por três anos, tudo calculado certinho. Sabe aquele tipo de gente que pisa sozinho no cocô de cachorro na Avenida Paulista, onde milhões de pessoas passam todos os dias? Pois é, eu sou assim, então esse negócio das pessoas se darem bem quando tinham tudo para se darem mal é algo quase místico e naturalmente fascinante.

 

E vamos combinar: esse lance de ficar sozinho é o maior barato, mas pode facilmente arruinar a cabeça do indivíduo pra sempre. É só ver o astronauta russo que ficou dez anos no espaço, retratado no belíssimo documentário “Armaggedon” (é chato explicar as piadas, mas da última vez, um sujeito não entendeu o sarcamo e veio me chamar de imbecil porque tinha dito que o Diário de Bridget Jones era um livrasso). Acho que o segredo do navegador aí foi se afundar no trabalho: todos os dias, tarefas diligentemente cumpridas e eventuais transmissões de rádio com o Brasil para não se sentir tão sozinho e dar sinal de vida, afinal de contas.

 

Paralelo a sua narrativa, Amyr tece pequenos ensaios sobre a vida de navegadores da idade moderna que fizeram expedições parecidas com as suas, mostrando que o cabra tem muita cultura nesse assunto e que esse lance de se atirar no mar sempre foi coisa de maluco mesmo. Impressionante esses caras de cojones que se aventuravam na navegação hardcore, a navegação roots, sem camisinha, sem enfeite, sem glamour, sem frescurinha. (Caramba, que dor de garganta infernal!)

 

O projeto gráfico da Companhia das Letras é padrão para os livros com foto colorida, exceto no papel, que é offset dessa vez, o maldito offset! Duas brochuras de papel couché com uma coleção de fotografias tiradas durante a viagem e mais um, ao começo, com a rota de Amyr em sua extensa viagem. Mas tem imagem em preto e branco também, como trechos do diário de bordo, que serviu para a composição do livro, a carta de um amigo ao começo, manuscrita, e os planos do barco construído especialmente para a viagem. Foi mal pela resenha sem graça de hoje, gente, tô grogue de um xarope mutcho loko que eu tô tomando.

 

Comentário final: 228 páginas offset! Zzzz… gente, que xarope é esse?

 

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6 Respostas para “Amyr Klink – Paratii entre dois pólos

  1. Fala Yuri blz?
    Do Klink eu só li Cem dias entre o céu e o mar. Sempre vou adiando a leitura dos outros mas um dia eu os leio. Gostei muito quando eu li, até anotei trechos. A barco que ele fez em Paratii foi em homenagem a cidade natal dele de mesmo nome! (Que, aliás, é uma cidade inspiradora e que eu admiro muito, rs).
    Mas a resenha saiu ótima!

    Abraço!

    • Oi Raphael!
      Gostei também bastante de ler o Klink, achei a literatura dele muito prazerosa, e, embora saiba que o Cem Dias entre Céu e Mar seja o mais famoso dele, ainda não o li. Também um dia leio-o.
      O Klink não é de Paraty, na verdade, ele é paulista, mas mora também em Paraty. Também gosto muito da cidade, pois é meu município natal 😉
      Abraço!

  2. Eu tenho esse, li há muito tempo atrás. Confesso que sempre achei estranho esses livros de viagens patrocinados, tenho um de um rally escrito por uma repórter da Globo também. Pelo menos o do Klink tem menos fotos e mais texto, foi uma experiência perturbadora imaginar o ambiente recluso de um barco, as chuvas, os consertos e a solidão.

    Se não me engano por um tempo ele foi acompanhado por golfinhos, certo?

    • Oi Bruno. A viagem dele foi patrocinada em parte: A Quacker deu uma parte (que parece que foi ínfima), o material para o barco foi patrocinado pela Aço Villares e a dieta dele foi feita pela Nutrimental. Fora isso, não me lembro de mais patrocínios mas, se você parar para pensar, teve bem pouco patrocinador.

      Diz lá no livro que os golfinhos não o acompanharam na partida, mas é costume deles acompanharem barcos na chegada e na partida, além de algumas historietas que envolviam o resgate de náufragos por esses simpáticos cetáceos, que os orientavam para a terra firme. 🙂
      Abraço!

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