James Wood – Como Funciona a Ficção? (How Fiction Works)


How ficcion worksSalve, galera beletrista, os que vão morrer de tédio vos saúdam. Bem sei que aqui vocês encontram um texto leve sobre livros nem tão leves, e que gostam exatamente disso neste blog, por isso hoje vamos arriscar e falar de um livro mais cabeça ainda para quem tem disposição de ler depois. Porque, você sabe, né? Aqui eu dou o empurrão, mas na hora do Tete-à-tete, minhas piadjênhas não saem na nota do rodapé. Eu sou como o Morpheu, sou meio careca, só posso mostrar a porta para você atravessar e não paro de falar um minuto sequer.

James Wood é um dos mais respeitados críticos literários do mundo. O que isso quer dizer? Pouca coisa, na verdade. A gente tende a respeitar alguns críticos, mas a gente raramente respeita o maior de todos, o ultra-mega-chefão-que-muda-a-música-de-fundo-e-tem-uma-barra-de-energia-que-fica-verde-antes-de-ficar-amarela-antes-de-ficar-vermelha (e isso aqui só vai entender quem jogou Final Fight). Isso porque é natural do ser humano desconfiar das unanimidades e dos cânones. Pelo menos na literatura. No cinema, por exemplo, nenhum zé Mané em pleno estado de consciência vai falar que O Poderoso Chefão é um filme xexelento. Mas quando se trata de algo tão exigente e discutível quanto a literatura, o assunto é outro. Se você não gostou, é porque não entendeu a proposta do cabra. É isso que todo mundo te fala, não é? É aí então que entram os críticos literários. Os donos do polegar, que ora vai pra cima, ora vai pra baixo. E esse crítico em específico é o nosso objeto de estudo de hoje.

Sinceramente, acho que os melhores críticos literários são os brasileiros, e não é uma questão de puxar sardinha pro nosso lado não. É porque a gente está, na minha opinião, mais em contato com a literatura do mundo todo do que o resto dos países. James Wood, por exemplo, é um cara inglês, que, vá lá, até lê coisas da França, da Alemanha, dos Estados Unidos, Rússia e países nórdicos. Mas a gente não tem garantia de que ele conhece um Guimarães Rosa, um Mia Couto, um Vila-Matas, um Juan Rulfo, um Onetti, um Benedetti, um Canetti, um Spaghetti, um Piriguetti, enfim, vocês entenderam. Falta mundo pra esses caras. Pra gente não, hein? Tô falando sério. A gente liga tão pouco pra nossa própria literatura que a gente compra qualquer porcaria da terra onde Judas perdeu as botas.

De qualquer forma, Wood é um cara respeitado e, a julgar por esse livro, leu Henry James, Flaubert, Barthes e Proust além do limite considerado seguro pelos bibliotecários. Nesse livro ele basicamente explica porque os autores usam as palavras que eles usam nos livros e tenta mostrar a intenção de cada um deles. E aí explica algumas magiquinhas de quem trabalha com a pena, como o discurso indireto livre e a profundidade de um personagem (que a gente sabe que é só ilusão de ótica, né?). É isso, eis a sinopse do livro. Legal, né? O que você pensa em fazer com as informações contidas nesse livro? Ser uma pessoa melhor não dá, tenta outra coisa. Ser um leitor melhor? Aí sim, isso dá pra fazer. Eu acho, afinal, que a leitura é algo que exige atenção e cultura. A cultura você pega da vida e de outros livros, e a atenção você pega de livros como esse.

Supondo, é claro, que ninguém lê livro pra falar que leu, pra fazer vista na estante ou para pegar as gatinhas, é óbvio que todo mundo quer ler um livro de uma forma “melhor”. E esse papo de que não importa como você leia nem o quê, contanto que você leia só funciona e é bonitinho até os 20 anos. Depois é bom começar a tomar vergonha na cara e parar de achar que você está ficando mais inteligente por ler Cebolinha. Claro que não vamos menosprezar os Harry Potter, os Crepúsculos e os Dan Browns da vida, mas se os clássicos existem, estão lá no olimpo dos livrinhos por alguma razão. E é isso que o fulano James Wood te mostra: por que o livro é bom, por que merece ser lido e por que você merece dar mais atenção pra ele. Sendo assim, mais do que uma aulinha de crítica, é também uma possível porta de entrada para outros autores – pra quem tiver disposição, é claro.

Agora, o que não pode é achar que se o seu livro de cabeceira não tem as qualidades que o Wood exalta neste Como Funciona a Ficção? é porque ele não presta. O nosso autor de hoje é um cara que preza sobretudo pela forma, e eu sei, você sabe, o vizinho sabe, a porcaria do Paulo Coelho sabe que o conteúdo do livro também tem que ser interessante, né verdade? Por outro lado, a forma não é algo que possa ser desconsiderado tão facilmente, e pra isso tão lá os cânones de que ele fala. A forma pode proporcionar uma sensibilidade única ao livro, uma coisa linda de meu deus do céu. E pra isso serve Pra Que Serve a Ficção? que, vamos combinar, tem um puta nominho escroto no estilo Por que Os Homens Tem Mamilos? e Fuckin’ Magnets, How do They Work?

Ah sim, pra quem chegou atrasado na conversa, James Wood é um crítico inglês, não é o ator James Woods que fez aquele puta filme… aquele… aquele… sabe… É, ninguém sabe o nome dos filmes que o James Woods fez, assim como ninguém sabia os filmes que o John Malkovich fez antes de Quero Ser John Malkovich.

A Cosacnaify fez esse livro fininho, que faz parzinho com o meu A Máquina de Fazer Espanhóis, porque eu curto arrumar minha estante pelo tamanho dos livros, tanto em altura quanto em largura. Agora, por fora bela viola, por dentro, cagadas 100%. Escolheram para a cor da fonte algo perto de um IKB, ou perto de um azul/roxo de mimeógrafo. Isso no papel offset. Quer dizer, tentar ler esse livro sem se estressar com isso é um desafio. Boa sorte pra você.

PS1: O Nobel desse ano é o Tomas Transformer. Ninguém ganhou o bolão. Oh, não.

PS2: ANUNCIEM NO LIVRADA! O papai aqui precisa de um clarinete novo.

Comentário final: 230 páginas em papel ixcroto. Arriba, arriba!

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8 Respostas para “James Wood – Como Funciona a Ficção? (How Fiction Works)

  1. O livro parece interessante para pensarmos sobre a literatura e o fazer literatura. E entender por que os clássicos são clássicos.

    E, com a prática literária, a gente começa a perceber a importância da forma. Por exemplo, esse livro que estou lendo, o “Precisamos falar sobre Kevin” poderia ser um bom livro. Poderia. Se não fosse a forma. Bem, sei lá, ainda não o acabei, não vou opinar. Mas há algo nele (muitas coisas, na verdade) que me incomoda. Depois te explico melhor.

    Beijos, querido, estou com saudades. E hoje está um domingo tedioso aqui.

  2. Cara, esse livro é um que está na lista há tempos, mas é carinho ele né!? É pq é da Cosac. rs Eu quase comprei na promoção dos 50% que teve este ano, mas acabou não rolando. Já li muito sobre este livro, e foi muito incensado em todas as críticas. Só desanimei com a sua negativa em relação ao papel e à fonte. Vamos ver, talvez dê pra pedir de amigos secreto no final do ano!

    Abraço!

  3. Bela resenha!

    O livro é bem bacana. Gosto muito de livros escritos por críticos. Lendo-o me lembrei de “Como e por que ler?” do Harold Bloom e “ABC da literatura” do Ezra Pound.

    Obs: Você prefere Final Fight I, II ou III? Jogava com qual personagem?

  4. Desconfio que já lhe falei pessoalmente o que penso do livro. Mas vou deixar duas coisas pontuais aqui: o livro todo, e toda a teoria e crítica literária que o Madeira faz é baseada no realismo, principalmente aquele que segue a vertente do Flaubert, e por isso a forma como tudo nesse mundo. Ele esquece alguns outros realismos, mesmo lá entre os seus próprios conterrâneos, como é o caso do Sterne e afins. Em todo caso, ele, como o Ian Watt em certa medida, ficam com essa doença que é achar que literatura é o máximo no caso do realismo e dá-lhe apologia. A segunda coisa é isso de esquecer toda a literatura mundial e só lembrar de meia dúzia de franceses e ingleses. É bem típico deles, lá na Europa, isso de não conhecer muita coisa fo mundo. Mas dou meu pescoço para o Madeira aplicar uma guilhotina, ele comenta do Roberto Bolaño, inclusive dando lado e, mesmo que relutando, assumindo que possa haver coisa nova por ali. Fui longe, abraço, tédio-boy.

  5. Nnaa, eu gosto de ser “ficcionado”! Não quero nem saber da engrenagem por trás, ou o livro me agrada ou não (livro, música, filme…até comida!). Pra mais, critico é normalmente artista frustrado. Falei critico e não “resenhador”! 🙂
    E depois tem a questão que você realça – o quê e quanto é que o critico já leu? E nem que tenha lido o mundo todo, a opinião dele não tem que coincidir com a minha. E tem até obras que em tempos me agradaram muito e que hoje tenho até vergonha de dizer que já li. Mas tive prazer na altura, e é isso que conta!
    Quanto a vocês ligarem pouco para vossa própria literatura, a crítica portuguesa só começou a dar mais valor às obras nacionais depois do sucesso de Saramago, porque até então só existia Pessoa (Eça era só para a escola!). Acho que nisso como em muita coisa vale o ditado de que “A galinha da vizinha é mais gorda que a minha”.
    1 abraço

  6. Para quem se interessar pelo livro do Wood, vale a pena antes ler este texto da Denise Bottmann, a tradutora, esclarecendo algumas incompatibilidades entre a argumentação do autor e os trechos que ele selecionou de algumas obras, escolhidos para explicar a inteção de seus respectivos autores. Nada que tenha diminuído o meu interesse pelo livro, já devidamente acondicionado em minha humilde estante, ao lado de A Arte da Ficção, do David Lodge (L&PM Editores), que traz de cara uma nota do tradutor (Guilherme da Silva Braga), apontando um cuidado observado justo no ponto em que a Cosacnaify falhou, assumindo o risco e comprometendo o resultado final do livro.

    Segue o link com o texto da Denise.

    http://oglobo.globo.com/blogs/prosa/posts/2011/03/12/tradutora-de-como-funciona-ficcao-critica-edicao-368236.asp

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