Vídeo: O Véu Erguido, de George Eliot

Essa semana o Livrada! está de aniversário, mas é mais pro fim da semana, então vamos continuar com a programação normal e fingir que a gente nem tá ansioso pra completar mais um ano de existência. Bom, o que temos hoje? Uma novela para o Desafio Livrada! 2016. George Eliot é o nome de pluma da escritora britânica Mary Anne Evans, e nessa novela ela resolveu explorar, de uma maneira não muito bem-sucedida, o gênero de terror médico em voga na Grã-Bretanha de sua época. Assistam aí e opinem.

Clica na imagem.

veuerguido.Still002

Anúncios

Vídeo: O Guia do Mochileiro das Galáxias, de Douglas Adams

Aqui vai um vídeo sobre um livro que todo mundo já leu, então todo mundo pode comentar. Eu devo ter sido a última pessoa da face da terra a ler O Guia do Mochileiro das Galáxias, mas antes tarde do que mais tarde. Em resumo: o livro é bem divertido e uma ótima crítica a várias questões da nossa vã modernidade. Mas não é só porque eu dei esse resumo que você não vai assistir, né?

Clica na imagem.

o guia do mochileiro das galáxias

Alain de Botton – A Arte de Viajar (The Art of Travel)

The art of travelOs livros de não-ficção. Ah, os livros de não-ficção. Você pega um toda vez que está cansado de lirismos do romance ou do conto. Toda vez que se sente alienado do que está passando no mundo lá fora e mesmo dentro de você. Toda vez que você passa por uma poesia pichada em um muro. Toda vez que te chamam de burro em público. Toda vez que ouve uma música do Criolo. Toda vez que vê seus amigos ansiosos com a tradução de um livro gigantesco do David Foster Wallace que ninguém vai ler. Toda vez que vê uma fila de autógrafos gigantesca na Flip para o romance de estreia de um autor da Nova Caledônia publicado no começo da década de 80 e traduzido só agora para o português, que fala de como jovens da contra-cultura resistiram ao governo tirano e cruel do ditador caledônio cujo nome você nunca vai conseguir pronunciar. Os livros de não-ficção são altamente necessários quando a ficção e seus elementos cansativos começam a tomar uma porção maior da sua vida do que você gostaria.

E Alain de Botton é um bom antídoto pra isso, descobri depois que meu grande amigo e interlocutor de leituras boas Cássio Capiroba me recomendou e logo depois me presenteou com este A Arte de Viajar, que devorei em poucos dias. O sujeito tem o seu grande mérito, que é o de ser profundo e acessível ao mesmo tempo, e carregado com uma bagagem verdadeiramente erudita, que passa por escritores merdas de outros séculos a livros realmente importantes de outras áreas perto dos quais você nem chegaria perto a não ser que estivesse realmente muito curioso, ele nos brinda neste belo livrinho ilustrado e dividido em vários capítulos, com ensaios sobre, como diz o título, a arte de viajar.

É assim, por exemplo, que ele usa o clássico de Huysmans, Às Avessas, para falar das nossas expectativas quando escolhemos um destino de viagem. É assim também que faz uma longa explicação sobre o legado de Humboldt (o verdadeiro legado, não o livro do Bellow) para a exploração do turista e os reais motivos pelos quais nos interessamos por um determinado lugar, e principalmente, como utiliza Van Gogh e Ruskin para falar da proximidade da arte com a nossa percepção da realidade, e como isso tudo está relacionado com o que atentamos com o olhar quando viajamos. A impressão é que dá é que o cara tem o conhecimento do mundo na mão e usa a seu bel prazer para ilustrar quaisquer pontos que queira para te provar um ponto de vista. Deve ser dureza ganhar uma discussão em mesa de bar com um sujeito desses. Felizmente, o sujeito veio da Suíça, mora lá Inglaterra e meu único contato com ele são esses livros maravilhosos que ele faz.

Alain de BottonA leitura de A Arte de Viajar é extremamente leve e gostosa, o que é um dom raro para quem se propõe a escrever ensaios sobre temas tão filosóficos quanto abstratos. Afinal, condensar uma experiência individual em valores coletivos como ele faz com a viagem é uma tarefa que exige tanto uma sensibilidade quanto a tentações solipsistas quanto a determinação de se unificar o pensamento de maneira que o leitor possa se identificar de maneira rápida e clara com esses devaneios.

Minha crítica ao livro é uma só e vai direto no conceito dele, por mais paradoxal que isso seja, já que passei o texto até aqui jogando confete no dito-cujo: viajar tem algo de misterioso e belo que, de certa forma, morre se algum espertinho vem e te explica o porquê. É como ouvir os Beatles: por mais que te digam que é legal e importante, não vai fazer sentido pra você até que você faça a sua descoberta pessoal na experiência da audição desses almofadinhas britânicos que depois quiseram pagar de lóki (e não é essa a história de toda banda indie hoje em dia?). Mas, como crítico, não posso meter o pau em um livro por ser esclarecedor DEMAIS, mas, ah, sei lá, cara, me deixa aprender sozinho também. Mesmo assim, se você não for um bicho do mato como eu, você vai ler A Arte de Viajar e fazer da leitura o melhor pra você sem ficar encanando com nada. Porque é isso o que o livro é, no final: completo, esclarecedor, leve e divertido. É detalhista ao dar pinceladas gerais, e é sério sem ser carrancudo. É como um amigo mais inteligente que você que te explica as coisas que você sente e não sabe direito o porquê, e aí você fica achando tudo meio gay mas também fica extremamente agradecido. Esse é Alain de Botton.

Esse livro foi publicado pela Intrínseca, e como eu já disse, ele é altamente ilustrado e dividido em vários capítulos, no começo dos quais é anunciado qual será o lugar do mundo discutido e quem serão os guias, quer dizer, quem serão os intelectuais ou as personalidades nas quais o autor vai se basear naquele capítulo. Isso torna a coisa mais didática ainda, permitindo ao leitor buscar por fora quem quer que seja que ele tenha se interessado durante a leitura. É todo em tons de cinza por dentro, mas não importa. O papel ainda é o bom e velho pólen soft com a grande tipografia Electra (salve, Electra!). Tem cabeço e paginação na parte superior e páginas cinzas para separar os capítulos. Um livro que não tem medo de gastar página para ser bonito. Gosto disso. E quem não gosta?

Comentário final: 253 páginas em papel pólen soft. Dá pra matar numa viagem daqui até Aracaju.

Ian McEwan – Na Praia (On Chesil Beach)

on chesil beach

Bem-vindos ao post nº200 do Livrada! Tamo aí na atividade, contrariando as estatísticas.

Ian McEwan! Esse é o escritor que a garotada gosta de ler hoje em dia! E por quê, vocês me perguntariam. Por que um inglês metido a besta que escreve livros de títulos pomposos como Reparação (que no cinema vira Desejo e Reparação, uma vibe meio janeaustiana de fazer romances de saia frufru) e escreve esse romance curto de hoje faz tanto a cabeça da meninada? Vamos tentar responder a essa e a outras perguntas no post de hoje. E desde já, aviso: tem spoiler. Tem spoiler pra caralho, tem spoiler no teu cu, tem spoiler pra sempre.

Deixa eu ajeitar meu óculos aqui, botar minha cara de intelectual, e pronto. Bom, senhores, Na Praia poderia muito bem se chamar “Uma história sobre o casal mais travado do universo”, se os romances tivessem títulos explícitos assim. Mas não, o escritor sempre tem que colocar um título maneirinho, pra ser maneirinho e fazer maneirices enquanto escreve, de modo que você não sabe porque o livro chama Na Praia além do fato de se passar num balneário até mais ou menos o final dele, quando você mais ou menos saca porque ele chama Na Praia, mas também não tem muita certeza porque, por Deus, pro sujeito ter colocado um título enigmático desses, tem que ter mais de cinco significados pelo menos, não é? É mais ou menos assim que você pensa e aí está a parte do fascínio do autor, porque, tirando a parte do título, o resto do livro é bem fácil de entender, e você se sente lendo uma parada muito superior ao que você realmente acha que está lendo, mas acho que se eu explicitar a história um pouquinho vocês vão entender melhor do que eu tô falando.

Os dois personagens principais são Edward e Florence, um jovem casal que, no começo da década de 60, está em noite de núpcias e ambos são virgens. A partir daí, o escritor vai revelando o background dos dois, e quem lembra da minha última resenha, a do livro do Hemingway, pode trazer à baila aqui a questão da construção dos personagens. Pois bem, amigos, McEwan é um desses escritores que se empenham em construir personagens complexos pra caramba e partir deles, descrever uma única situação. Pois bem, ele é um underachiever sossegado na vida que tem muito pouca sorte com as mulheres em um momento de explosão de sexualidade e revoluções culturais a cada minuto. De modo que ele queria fazer parte da putaria, mas não pode porque não sabe chegar chegando. A mulher dele, por sua vez, Florence, é uma violinista esquisitona de uma família aristocrática. Ela é completamente assexuada e despreza a ideia de fazer sexo com alguém, mas hey, a sociedade bota pressão pra tanta coisa que vamo nessa, né? Só que a coisa dá tremendamente errado, o sujeito tem ejaculação precoce, a mina quase vomita de nojo de receber uma gozada na barriga e o que se segue é uma briga feia que bota em cheque tudo aquilo que eles deveriam gostar, mas não gostam. E aí aparece toda a questão de uma geração no meio do caminho da mudança, e o quanto esse negócio de mudança de paradigma e tradição faz uma bagunça na cabeça do peão quando os pilares vão caindo.

na praiaAcho que no final das contas, Na Praia é um livro que a galerinha curte porque 1- é curto. 2- fala de sexo. 3- é engraçado. 4- se pretende profundo e certeiro no recorte da geração. 5- tem personagens muito bem construídos e uma narrativa excelente. É impressionante a precisão da escolha de palavras dele para descrever as coisas mais complexas, é algo que eu gostaria de ter mas não tenho e todo mundo que lê esse site pode perceber isso sem maiores dificuldades.

Esse livro é da Companhia das Letras e tem uma capa linda assinada por um artista chamado Angelo Venosa, que na verdade é um escultor e tem um site legalzinho com as instalações dele, mas não tem essa pintura maneira (que eu espero que seja uma pintura, e não uma foto saturada), e por dentro é aquela coisa: fonte Electra (ainda adoro essa fonte, depois de todos esses anos) e pólen bold porque é isso o que você faz quando o livro é muito fino e o autor não é pouca merda. A tradução é do Bernardo Carvalho, que há de ser o que temos de melhor hoje em dia por essas bandas em termos de ficcionista, e se dão um texto pra um escritor consagrado traduzir é porque o sujeito não é pouca merda mesmo. Então fica aí a dica e a pressão que esse povo faz: leia McEwan.

Comentário final: 128 páginas em papel pólen bold. A propósito, li esse livro quando estava na minha terra natal: uma praia. Oh!

PS: ainda sinto falta dos comentários de vocês. Não apenas porque eu gosto de saber o que vocês pensam dos autores que eu resenho aqui, mas também porque isso ajuda a ranquear a página, então pense que o comentário é o riso pro palhaço 😀

George Orwell – Na Pior em Paris e Londres (Down and out in Paris and London)

Down and out in Paris and LondonAntes de começar um post de hoje, queria fazer uma DR aqui com vocês. Vem cá, eu fiz alguma coisa pra vocês não comentarem mais nos posts? Todo mundo continua lendo que eu sei, e o espaço pra fazer comentários fica lá no final do texto, junto com as tags, se é essa a desculpa que vocês vão usar. Agora, se alguém está se sentindo com a liberdade de expressão tolhida neste espaço democrático, fazer o favor de assinar três vias, passar no setor de timbragem e começar a criar vergonha na cara porque comentário pra blog é que nem risada pra palhaço – a gente sabe que é pelos motivos errados, mas aceita de bom grado todos eles como fruto de um bom trabalho. Então, por favor, não se acanhem. Fim da DR.

Comecemos aqui a tecer  a genialidade de George Orwell em seu relato mais vanguarda, genial, duro, chocante, lindo e fedorento, o livro de memórias Na Pior em Paris e Londres. Diferentemente de livros que sugerem que o sujeito ficou na pior, tipo Paris é um Festa, Orwell, esse gênio subestimado da literatura (vou passar o texto todo chamando ele de gênio que é pra ver se alguém me ouve, já que não me ouvir parece ser o maior mal desse país), realmente comeu o pão que o diabo amassou nessas duas belíssimas capitais e destino certo de jovens adolescentes idiotas que querem, meo, fazer uma trip pela Europa, tá ligado? Pegar umas gringas e ficar muito lokooo uuuhulll.

Orwell já perambulava pela Europa quando era jovenzinho, tendo estudado aqui e ali em Londres, mas foi pra Paris pela aura mágica da cidade-luz para ver se vinha a inspiração que veio para tantos antes dele. Só que aí ele começou a se ferrar, primeiro teve uma tuberculose em 1929, depois foi roubado e começou a trabalhar de plongeur num restaurante de um hotel chique em Paris. Aí começa a saga do nosso Dante moderno pelo sétimo círculo do inferno (não acham um saco quando um crítico literário começa a falar coisas como “O nosso Dante moderno”, “Esta Beatriz da periferia”, “a Capitu do terceiro milênio”. Como se esse povo já não fosse metido o bastante). Orwell realmente passou fome, viveu com menos de dez centavos por dia e empenhou tudo o que tinha para viver a base de uma dieta de pão e cigarro. E a vida de lavador de prato era das piores, trabalhando dezesseis horas por dia em condições análogas a de escravidão. Agora digam vocês quantos dos seus veneráveis escritores da torre de mármore teriam culhão pra fazer um lance desses? Veja, ele podia pedir penico, voltar pra Índia e tudo mais, mas aguentou a barra ali pela vivência e pela determinação. Como não se admirar com esse gênio, que, além de tudo, é humilde ao traçar suas claras e simples linhas sobre o luxo, a pobreza, a fetichização do trabalho braçal e a vida do plongeur?

George OrwellDepois de Paris, ele vai pra Londres, onde, aparentemente, a mendigagem é uma prática institucionalizada, com profissionais do ramo, rota de albergues e manuais de como conseguir dinheiro na rua. Só que ser mendigo na Inglaterra não é um troço tão fácil de se aceitar na cachola por causa do calvinismo e da sua relação direta entre salvação e trabalho. A galera inglesa é doutrinada no workaholismo, e por isso ser mendigo em Londres requer um esforço a mais. Mesmo assim, lá foi o nosso gênio, nascido no protetorado britânico, provar que também aguentava mais essa, enquanto a grana de uns escritos dele ainda não chegava. Passou de albergue em albergue sentindo catinga de inglês (dividi um albergue com um velho londrino em Amsterdã uma vez. Até hoje sinto vontade de vomitar quando lembro do cheiro daquele coroa, e ele nem era mendigo!), comendo sopa rala e vivendo na sujeira sugismunda mesmo. Mas aguentou e escreveu um dos livros mais geniais que tive o prazer de ler este ano. Recomendo pra todo mundo a obra desse gênio.

E por que recomendo a obra desse gênio? Primeiro, pelo relato. Segundo, pelos insights. Terceiro, pelo ineditismo e pelo vanguardismo da coisa. Quarto, pelo spotlight. Quinto, porque eu gosto de recomendar coisas pra vocês. Depois vocês levam minha recomendação a sério e eu me sinto importante. Sexto, porque veio na edição nova da Companhia das Letras da coleção do Orwell, e antes disso era parte da coleção de Jornalismo Literário, e acho que a Companhia das Letras precisa de muito incentivo pra reimprimir livros velhos e maravilhosos e não tão vendáveis, já que estamos entrando na era da imbecilidade e muita coisa boa tá esgotando e não sendo mais reimpressa (quero os Cormac McCarthy e os John Updike de volta, dona editora!). Sétimo, porque é aquele caso raro em que a literatura brota da vivência, e de uma vivência vivida não necessariamente nem exclusivamente para servir à literatura, mas para edificar o espírito humano de quem escreve, o que só deixa tudo mais perfeito e genial. E oitavo, porque Orwell é um gênio, e não foi com 1984 nem com A Revolução dos Bichos que percebi isso, mas com Na Pior em Paris e Londres, desde já meu livro favorito dele. Mesmo sem discorrer muito sobre o livro, acho que dá pra perceber o porque eu gosto dele. É um livro tr00, sincero, singelo e cheio de aventuras e sabores só experimentados na extrema pobreza. É assim que ele conta, por exemplo, como aprendeu o truque de comer pão com alho, porque o gosto do alho fica na boca depois de um bom tempo, e isso dá a impressão de que você comeu recentemente. Ou como ele parava na frente de uma vitrine para esbofetear o rosto antes de pedir emprego, porque ninguém dava emprego para gente de rosto pálido, morto de fome. Era preciso fingir que se estava melhor do que se realmente estava. Enfim, essas pequenas malandragens do miserê total. Fica a dica (stay the dick).

Comentário final: 256 páginas em papel pólen soft. Gênio! Orwell Gênio!

Daniel Defoe – Robinson Crusoé

Daniel DeFoeO pessoal da nova crítica que acha que é facílimo falar bem de clássicos porque o tempo fez o trabalho de separar os Dan Browns dos Saramagos parece que não sabe que alguns Best-Sellers de antigamente também chegaram até aqui pela força popular e por eventuais sentidos que a galera resolveu imiscuir na obra de tanto que ela ficou pairando pelas estantes por aí. Poderia citar alguns exemplos aqui, mas temo decepcionar um ou outro eventual pseudo que gosta de se achar porque leu um livro que foi escrito antes dele nascer. Melhor se ater ao exemplo e objeto de análise de hoje, que é este Robinson Crusoé, do Daniel DeFoe, publicado em 1719. DeFoe escreveu esse livro pra ganhar dinheiro, e escrever livros era o jeito de ganhar dinheiro com arte ao alcance do homem comum naquela época, já que ser cineasta era impossível, ser músico requeria uma vida de estudos, ser grafiteiro era crime e ser vlogueiro então, nem se fala. É claro que a parada acabou sendo meio revolucionária pela linguagem despojadona e moderna, mas veja, isso é o que se fala de um livro centenas de anos depois, quando se percebe isso. Na época, vendia porque era bom, e era bom porque dava vontade de ler.

Talvez você conheça a história de Robinson Crusoé do filme com o Pierce Brosnan, mas eu preciso te avisar que essa não é exatamente a história do livro por ter, como sempre, umas invencionices bizarras pra deixar o filme com mais cara de “aventura”. O que é uma palhaçada, porque o livro tem doses de ação suficiente para dispensar aquela cena grotesca da luta entre ele e o Sexta-Feira em cima de uma ponte cheia de espinho ou algo assim. A história original fala de um garoto pacato que tinha muito o desejo de ser uma espécie de mochileiro daquela época. Viajar o mundo, ver umas coisas interessantes e depois voltar para uma vida pacata que pode ser aliviada pelo excesso de vivência. O pai dele bem que fala pra ele não fazer isso, porque o bicho só vai se dar mal nessa vida para a qual ele claramente não foi preparado, mas adolescente já era teimoso naquela época, de modos que ele vai sem medo de ser feliz e enfrenta um zilhão de perrengues. Naufraga umas duas vezes, vira escravo dos piratas berberes, perde uma grana, quase morre, vem parar no Brasil, onde começa um engenho de cana de açúcar e tudo parece ficar bem. Até o dia em que ele inventa de ir ele mesmo buscar uns escravos na África e é claro que o navio naufraga e ele vai parar na tal Ilha do Desespero que, vejam vocês, fica no oceano pacífico. Como alguém que sai pra África vai parar no Oceano Pacífico é ainda um mistério que nem lendo com muita atenção as páginas que tratam da passagem me permitiram decifrar. Na minha interpretação, ele deve ter achado que a América Central insular era vazada e isso permitiu com que ele fosse do  Orinoco à ilhota em questão. Mas eu sou meio tapado também, posso estar errado.

Enfim, quando ele chega lá, sendo o único sobrevivente do navio, começa uma vida nova. Se virando com o que consegue pegar do naufrágio e aprendendo a fazer as coisas na marra, o livro é um relato solitário de sobrivencialismo otimista por uma boa parte, até que ele conhece o selvagem sexta-feira e o livro se torna uma experiência intercultural com um tiquinho de violência mais para o fim.

Daniel DefoeAcho que a primeira coisa que dá pra perceber pela leitura do Crusoé, a respeito do protagonista, é seu otimismo inabalável, diretamente proporcional ao crescimento de sua religiosidade. A cada ano ele fica mais carola e mais conformista, evidenciando que as duas coisas não são fenômenos isolados, então fica a dica. Ao mesmo tempo, ele procura manter a postura de europeu imperialista na ilha, tentando ser senhor de tudo e dominando o ecossistema e os tais “selvagens” que ele eventualmente encontra. Mas isso vai além do universo da ilha e pode ser observado no fato de que, à exceção de Sexta-Feira, nenhum dos outros personagens têm nome. Nem mesmo os europeus. Isso quer dizer que o que não foi criado ou batizado por ele, é meramente secundário para a história, mesmo que sejam amigos e que sejam pessoas boas. Aliás, isso é outro ponto do romance: o otimismo do sujeito é o otimismo do autor, porque tudo quase sempre dá certo e todo mundo é muito bonzinho. Não tem espaço para a maldade no universo de Robinson Crusoé, e mesmo os selvagens o são por um força cultural acima do bem e do mal. É, então, aquele lance do otimismo do Leibniz que ia ser escrachado pelo Voltaire no Cândido estava muito na moda naquela época e, parando pra pensar, o Cândido meio que tira uma onda com a história do Crusoé, com toda aquela coisa dos selvagens e tal.

Por fim, Robinson Crusoé é uma história que dá vontade de ler, e isso às vezes é mais do que um livro precisa para circular por séculos entre nós leitores. As trezentas e poucas páginas do romance passam voando, e ele ainda tem um prefácio muito maneiro e detalhado sobre a obra do cara. Ah, e descobri uma coisa sobre eu mesmo lendo esse livro: eu gosto muito, mas muito mesmo, de edições comentadas. O tradutor é como se fosse um amigo mais inteligente que vai me explicando as coisas e comentando as passagens do livro, como os termos que ele usa no original e o jeito como ele pinta os conquistadores espanhóis como excessivamente sanguinários e cruéis. Ao sr. Tradutor Sérgio Flaskman, gostaria de agradecer pela companhia durante a leitura desse livro.

E aquela coisa, né? A Penguin-Companhia tem o mesmo padrão para todos os livros, mas devo dizer que a cada vez gosto mais desse acervo. No começo tava achando tudo marromenos, meio chato demais, mas agora tem altos livros legais e estou lendo cada vez mais o catálogo dessa editora. Recomendo, porque para a qualidade e o tamanho do livro, até que ele é baratinho. Ah, e gostei dessa capa meio irônica também, de achar no google maps a ilha onde o cara se perdeu e que, na época, não estava no mapa. Sagaz e sacana, gosto assim, seu Penguin.

Comentário Final: 401 páginas de puuura aventura exótica na ilha deserta.

E. L. James – Cinquenta Tons de Cinza (Fifty Shades of Grey)

fifty shades of greyAVISO: Essa é a primeira e a última vez que um livro tão imbecil será comentado neste blog. Favor não insistir. Obrigado.

Eis que estava aqui sem ideias do que escrever hoje e pedi para que meus amigos leitores do Facebook indicarem qualquer porcaria que lhes viesse à cabeça. O pessoal se mostrou bem receptivo à ideia e sugeriu coisas interessantes, mas sempre tem um gaiato que quer ver o circo pegar fogo (sim, estou falando com o senhor, sr. Gabriel Ferreira) e que não tarda a jogar a merda no ventilador. “Cinquenta tons de cinza”, grita ele em meio à balbúrdia de gente sensata, o suficientemente alto para chegar a meus sensíveis ouvidos. Boa ideia, rapaz, vamos abrir mais um hectare de espaço ao latifúndio que esse lixo conseguiu na imprensa, mas vamos fazer o serviço direito, então. Vamos fazer essa concessão inédita para nunca mais, e depois podem pedir à vontade Harry Potter, Stephen King, Dan Brown, Marian Keyes, David Baldacci, Padre Marcelo Rossi, Nora Roberts e Nicholas Sparks que vou fazer ouvidos moucos até fazer bico.

Pois muito bem, vamos aos fatos: Cinquenta Tons de Cinza é chamado de mommy porn (pornô para mamães) por duas razões: 1- é pornográfico. 2- só tiazona curte. E por tiazona me refiro tanto à balzaca que ficou pra titia quanto aquela que já engatou a quarta marcha no motor da menopausa. Bom, o fato de só tiazona curtir, por sua vez, desmembra-se em mais três razões: 1- tiazona curte ler o livro da moda. 2- tiazona sempre está precisada (if you know what i mean). 3- tiazona não sabe usar o redtube. Ainda assim, as razões não justificam o bafafá em cima do livro, então vamos falar um pouco sobre ele para que vocês possam chegar a suas conclusões.

O (cof cof) romance conta a história de Anastasia Steele, uma menina virgem de 21 anos, sem nenhum atrativo físico visível que, como todo barro, tem uma amiga gata. Essa amiga, por sua vez, é estudante de jornalismo e está fazendo uma matéria para a faculdade com o magnata Christian Grey, de 28 anos que, por alguma razão que foge a qualquer lógica, é benemérito da faculdade onde elas estudam. A amiga pega uma gripe e pede então para que Anastasia vá entrevistar o sujeito em seu lugar. E ela vai, é claro, todo barro é pau mandado de alguma gata. Aqui já dá pra vocês adivinharem o resto: a vida dela muda por causa dessa coisinha, no melhor estilo Faroeste Caboclo, Indignação, e qualquer outra obra com paralelos identificáveis. Ela se encanta com o sujeito e ele, de quem a lógica já não é a melhor das amigas, parece se encantar com ela também. E os dois começam num flerte mais coxinha que álbum do Dave Matthews Band. Até que ela descobre tudo: Christian Grey é uma espécie de Eike Batista sadomasô, curte dar umas chicotadas e fazer um bondage pra estreitar as relações. E a menina, que nunca nem viu uma jeba na vida, se vê obrigada a escolher entre a velha vida de lisura em que vivia ou embarcar na vibe de um Adônis bilionário cujo único “defeito” é dar umas porradinhas na mulher (quem nunca, Goleiro Bruno…). A princípio ela fica balançada, mas aí chega um Macbook aqui, um carro novo ali, a inveja da amiga gata acolá e, por alguma razão inexplicável, ela topa. Que coisa, não?

E pronto, o resto do livro é putaria maluca até o final. Quer dizer, maluca mesmo é a do Marquês de Sade. É uma putaria, digamos, heterodoxa. Descrições pudicas de cenas de sexo que mostram que mesmo pra uma narradora de baixaria a mulher não serve. Não consegue nem entrar num consenso pra dar nome pro próprio órgão sexual, pô! “Eu o sentia ali”. Ali, aonde, filha? Ali virando a direita na entrada da Régis Bittencourt? Entra nos mínimos detalhes, mas nomenclatura anatômica é coisa de pervertido agora? Decida-se.

Desnecessário acrescentar, mas vai que tem algum desavisado que passou batido pela minha advertência inicial: o livro é irritantemente mal escrito. Vocabulário paupérrimo, estrutura mais simples do que fazer barquinho de papel, tentativas patéticas de digressão e menções deploráveis a uma “deusa interior”. Sério, cada vez que a mulher falava em “deusa interior” eu tinha vontade de bater a cabeça na parede.

Vou confessar uma coisa: até ler esse livro, eu era daquele time dos otimistas. Dizia que o importante era que o povo tava lendo, gastando dinheiro em livro, se dedicando a uma atividade minimamente intelectual, etc. Mas depois de Cinquenta Tons de Cinza, amarguei geral. Vão tomar vergonha na cara e ler coisa que preste, porque descer o intelecto de um adulto ao nível dessa joça é pedir pra tomar uns cascudos. Desculpa, gente, não costumo me alterar nem dar esses ataques de arrogância, mas essa leitura me tirou do sério. Claro, quem gosta de ler coisa boa e quiser pegar isso aí pra ver qual é, pode ficar à vontade, minha birra não é com vocês. Mas se você passa de Harry Potter pra Stephen King, de Stephen King pra Paulo Coelho, de Paulo Coelho pra, sei lá, Zibia Gasparetto, e ainda dá uma arrematada com Cinquenta Tons de Cinza, fica esperto pro cérebro não atrofiar.

Eu poderia me estender sobre esse livro por páginas e páginas da tão preciosa internet, mas receio comprometer ainda mais o bom senso, porque eu sou sempre da turma do deixa disso e ficar criando polêmica não é mais a minha área. Mas resta explicar uma coisa: como essa porcaria de livro fez sucesso? Afinal, não é nem uma história, é um pornô com aquelas tramas toscas de fundo, no estilo dos saudosos VHS tapados da locadora. Todos esses exemplares vendidos se devem a essa fantasia de meia-idade de ser subjugada por um bonitão ricaço? Christian Grey não fala como se tivesse 28 anos, fala como se fosse um senhor de 59 num corpitcho de mancebo, e a Anastasia fala como se fosse uma menina de dez anos num corpo de 27, então a distância de educação emocional aí aumenta uns três canyons. Junte os pontos, então: a protagonista é um barro infantilizado (barro, pra quem não sabe, é mulher feia, ou fraca. E por fraca quero dizer pobre de espírito), e tem a chance de, pela primeira vez na vida, fazer inveja na amiga gata e ser comida por um cara rico, bonitão, na flor da idade que, ao invés de ficar por aí de bauduco nocauteando as pistoleiras, prefere uma parada mais intimista e monogâmica, embore ainda goste de mandar. É nesse “me pega no colo, me deita na cama e me faz mulher” que reside o sucesso de Cinquenta Tons de Cinza? Vocês me dizem.

Comentário final: 450 páginas de pura baboseira. Já sabe em quem tacar, né?