Para começar a ler J.M. Coetzee


essay

O sul-africano John Maxwell Coetzee, vencedor do prêmio Nobel de literatura em 2003, é um linguista inveterado. Isso se reflete claramente em sua formação acadêmica: Seus dois bacharelados, concluídos na Cidade do Cabo, foram em língua inglesa e matemática (um outro tipo de linguagem, não se pode esquecer). Escreveu em Londres sua tese sobre o escritor britânico Ford Madox Ford, que teve grande influência na formação da linguagem usada na literatura inglesa do século XX; Por fim, tirou seu doutorado em língua inglesa e língua germânica, com foco na literatura de Samuel Beckett. Sua relação íntima com a linguagem faz de sua literatura uma experiência também intimista.

Não é fácil perceber o estilo de seus livros. Sua escrita é daquelas de fluidez aparentemente simplória. Um olhar menos analítico poderia ver apenas uma prosa que não se dá excessivamente a descrições e adjetivações. Em compensação, mesmo um desatento não deixaria passar despercebido sua predileção por digressões psicológicas, precisas em sua escolha de palavras, como uma conta de matemática.

Mas não se engane: há muitas coisas em comum a todos os seus livros: o desconforto provocado no leitor é uma delas. Coetzee constrói protagonistas sofridos, incapazes de estabelecer relações interpessoais sadias, ou mesmo constantes. Quem sabe um reflexo da própria personalidade — sua fama de esquisito e misantropo justifica a recorrência dos distúrbios de personalidade que permeiam sua obra. A tristeza e a impotência perante um mundo ao qual não se pertence e ao qual se deseja pertencer também são constantes. A academia de Estocolmo reconheceu essa idiossincrasia em Coetzee ao ressaltar que o autor “retrata de várias formas o surpreendente envolvimento de quem está à margem”.

Esse envolvimento, porém, é extremamente limitado em várias formas por agentes externos à motivação de seus protagonistas. Os anti-heróis de seus livros são massacrados por esse ambiente quase como em Kafka, especialmente em seus primeiros romances, ambientados em seu pais de origem, de onde vem a famosa frase de seu livro Juventude: “A África do Sul é como um Albatroz em torno de seu pescoço”, numa alusão ao poema de Coleridge, O Conto do Velho Marinheiro, que usa a ave para metaforizar um fardo existencial. A John Maxwell, lhe custa não só o estigma de ser considerado para sempre — por uma desventura geográfica, segundo o próprio no mesmo livro — a ser um autor africano, mas também não ter raízes em sua terra natal, sendo para sempre, onde quer que esteja, um marginalizado como seus personagens.

Prosa, ensaio e memória

A multiplicidade de gêneros em um mesmo livro é outra característica marcante de J.M. Coetzee. Seu livro Elizabeth Costello, lançado em 2003, por exemplo, tem como tema principal não a personagem, escritora de sucesso (alter ego do próprio autor), que frustra a todos e a si própria nos eventos que frequenta, carregando o ambiente com discursos inadequados ao momento. Trata-se principalmente de um compêndio de palestras e ensaios sobre a literatura e seu poder na sociedade que, sim, aplicados na ocasião correta (e não em um cruzeiro marítimo para aposentados) têm grande serventia para a reflexão sobre a arte de escrever. A mistura entre ficção e ensaio, porém, é tão coerente que leva o leitor a acreditar que o autor se aventurou a escrever palestras ruins de propósito. Outro exemplo é seu livro novo Verão, terceira parte da trilogia Cenas da Vida na Província, ficção memorialística sobre sua própria vida. Em Verão, um jornalista com aspirações literárias quer revolver a vida pessoal do autor, que, na ficção, já está morto. Entrevistando um amigo e ex-namoradas, e consultando um diário, o jornalista remonta sua trajetória. Essa mescla de gêneros é, como em Elizabeth Costello, perfeita em sua intenção: mesmo escrevendo sobre si próprio, Coetzee não hesita em expor suas excentricidades e defeitos pela boca de seus personagens.

Qual livro ler?

Embora a bibliografia de Coetzee seja mais vasta, existem apenas onze livros do autor publicados no Brasil atualmente. Seus leitores costumam dizer que, dentre eles, há um que é o mais importante de sua carreira — Desonra — e outro que alguns atestam que seja o melhor escrito — Homem Lento.

Homem Lento é um de seus livros mais brandos. É também o primeiro ambientado completamente em Adelaide, na Austrália, morada atual do escritor. Conta a história de um homem sexagenário (como o próprio) que perde uma das pernas ao ser acertado em sua bicicleta por um carro distraído. Necessitado de cuidados especiais, recebe em sua casa uma enfermeira croata, por quem passa a ter um incontrolável desejo afetivo e sexual, embora ela seja casada, com filhos crescidos e até um pouco feia.

O livro traz uma curiosidade: Elizabeth Costello, a personagem do livro com o mesmo nome que também aparece em A Vida dos Animais (um livro de ensaios sobre a ética animal e o vegetarianismo), dá o ar de sua presença ao aparecer na residência do Homem Lento em questão, graças a um mistério metalinguístico. Apesar de ser um livro triste, de esperanças vãs e carências não-correspondidas, Homem Lento não é, nem de longe, massacrante como o resto da obra de Coetzee. Tem todo o brilhantismo de suas análises e a fluidez que lhe é peculiar, por isso talvez seja o melhor título para conhecer sua literatura.

Já Desonra é, de fato, um marco em sua carreira. Graças a esse livro, Coetzee alcançou em 1999 uma proeza única na história da literatura: foi o primeiro escritor a ganhar dois Book Prize (o primeiro havia sido em 1983, por Vida e Época de Michael K., uma história brutal sobre a África pobre). Desonra trata de David Lurie, um professor de uma universidade da África do Sul que é afastado de seu cargo após se envolver com uma de suas alunas. Sem saber o que fazer, vai morar com sua filha, uma fazendeira de trejeitos masculinos que comandava uma pequena cooperativa de agricultores. No interior, conhece a ferocidade e a violência da vida africana, pouquíssimo valorizada e que a todo custo, sobrevive em meio à selva criada pelos próprios homens. É um de seus livros mais tristes (junto com À Espera dos Bárbaros e Vida e Época de Michael K.) e um dos últimos a ser ambientado no país de origem — na época ainda morava na Cidade do Cabo, onde, assim como seu protagonista, lecionava na universidade da capital. Desonra é a obra de Coetzee que melhor representa sua literatura, abrangendo quase que todos os elementos inerentes de sua escrita: a violência humana, a desonra pública, a inadequação aos lugares e a incapacidade de se relacionar. Ficar impassível diante desse livro é quase uma impossibilidade para o leitor.

Embora esteja longe do continente africano e tenha afirmado em Juventude que não criou raízes em parte alguma, Coetzee é um legítimo escritor africano na medida em que narra para fora, e não para seus conterrâneos, as agruras de sua terra. Por meio de sua escrita, sentimos a crueldade da vida e dos homens, e, assim como seus personagens, somos fracos ante sua obra.

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3 Respostas para “Para começar a ler J.M. Coetzee

  1. Excelente comentario!Nunca li nada deste autor, embora não desconheça sua fama. Seu brilhante texto me deixou louquinha para correr e comprar seus livros.Tudo a ver com minha preferencias literarias.Vou segu ir seu roteiro: o que ler primeiro…
    Elô

  2. muito bom o artigo. preciso conhecer mais do coetzee. só li quatro dele. busquei juventude pra dar de presente a minha mãe (que gostou pacas dos livros dele), mas só encontrei em sebos e por preço de livro novo. acho que vou comprar o novo dele pra dar a ela de presente (que, no fim, ficará na minha estante, como todos os livros que dou a ela).

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