Ian McEwan – Na Praia (On Chesil Beach)


on chesil beach

Bem-vindos ao post nº200 do Livrada! Tamo aí na atividade, contrariando as estatísticas.

Ian McEwan! Esse é o escritor que a garotada gosta de ler hoje em dia! E por quê, vocês me perguntariam. Por que um inglês metido a besta que escreve livros de títulos pomposos como Reparação (que no cinema vira Desejo e Reparação, uma vibe meio janeaustiana de fazer romances de saia frufru) e escreve esse romance curto de hoje faz tanto a cabeça da meninada? Vamos tentar responder a essa e a outras perguntas no post de hoje. E desde já, aviso: tem spoiler. Tem spoiler pra caralho, tem spoiler no teu cu, tem spoiler pra sempre.

Deixa eu ajeitar meu óculos aqui, botar minha cara de intelectual, e pronto. Bom, senhores, Na Praia poderia muito bem se chamar “Uma história sobre o casal mais travado do universo”, se os romances tivessem títulos explícitos assim. Mas não, o escritor sempre tem que colocar um título maneirinho, pra ser maneirinho e fazer maneirices enquanto escreve, de modo que você não sabe porque o livro chama Na Praia além do fato de se passar num balneário até mais ou menos o final dele, quando você mais ou menos saca porque ele chama Na Praia, mas também não tem muita certeza porque, por Deus, pro sujeito ter colocado um título enigmático desses, tem que ter mais de cinco significados pelo menos, não é? É mais ou menos assim que você pensa e aí está a parte do fascínio do autor, porque, tirando a parte do título, o resto do livro é bem fácil de entender, e você se sente lendo uma parada muito superior ao que você realmente acha que está lendo, mas acho que se eu explicitar a história um pouquinho vocês vão entender melhor do que eu tô falando.

Os dois personagens principais são Edward e Florence, um jovem casal que, no começo da década de 60, está em noite de núpcias e ambos são virgens. A partir daí, o escritor vai revelando o background dos dois, e quem lembra da minha última resenha, a do livro do Hemingway, pode trazer à baila aqui a questão da construção dos personagens. Pois bem, amigos, McEwan é um desses escritores que se empenham em construir personagens complexos pra caramba e partir deles, descrever uma única situação. Pois bem, ele é um underachiever sossegado na vida que tem muito pouca sorte com as mulheres em um momento de explosão de sexualidade e revoluções culturais a cada minuto. De modo que ele queria fazer parte da putaria, mas não pode porque não sabe chegar chegando. A mulher dele, por sua vez, Florence, é uma violinista esquisitona de uma família aristocrática. Ela é completamente assexuada e despreza a ideia de fazer sexo com alguém, mas hey, a sociedade bota pressão pra tanta coisa que vamo nessa, né? Só que a coisa dá tremendamente errado, o sujeito tem ejaculação precoce, a mina quase vomita de nojo de receber uma gozada na barriga e o que se segue é uma briga feia que bota em cheque tudo aquilo que eles deveriam gostar, mas não gostam. E aí aparece toda a questão de uma geração no meio do caminho da mudança, e o quanto esse negócio de mudança de paradigma e tradição faz uma bagunça na cabeça do peão quando os pilares vão caindo.

na praiaAcho que no final das contas, Na Praia é um livro que a galerinha curte porque 1- é curto. 2- fala de sexo. 3- é engraçado. 4- se pretende profundo e certeiro no recorte da geração. 5- tem personagens muito bem construídos e uma narrativa excelente. É impressionante a precisão da escolha de palavras dele para descrever as coisas mais complexas, é algo que eu gostaria de ter mas não tenho e todo mundo que lê esse site pode perceber isso sem maiores dificuldades.

Esse livro é da Companhia das Letras e tem uma capa linda assinada por um artista chamado Angelo Venosa, que na verdade é um escultor e tem um site legalzinho com as instalações dele, mas não tem essa pintura maneira (que eu espero que seja uma pintura, e não uma foto saturada), e por dentro é aquela coisa: fonte Electra (ainda adoro essa fonte, depois de todos esses anos) e pólen bold porque é isso o que você faz quando o livro é muito fino e o autor não é pouca merda. A tradução é do Bernardo Carvalho, que há de ser o que temos de melhor hoje em dia por essas bandas em termos de ficcionista, e se dão um texto pra um escritor consagrado traduzir é porque o sujeito não é pouca merda mesmo. Então fica aí a dica e a pressão que esse povo faz: leia McEwan.

Comentário final: 128 páginas em papel pólen bold. A propósito, li esse livro quando estava na minha terra natal: uma praia. Oh!

PS: ainda sinto falta dos comentários de vocês. Não apenas porque eu gosto de saber o que vocês pensam dos autores que eu resenho aqui, mas também porque isso ajuda a ranquear a página, então pense que o comentário é o riso pro palhaço 😀

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11 Respostas para “Ian McEwan – Na Praia (On Chesil Beach)

  1. Vei. do caralho.

    Li o reparação e achei incrível, mas tudo que ouvi sobe o mcewan desde então é que ele era um escritor one hit wonder. será que vale a pena tentae de novo?

  2. Ahh, eu gosto desse livro… Só qie acho que os seus méritos estão na narrativa (do cacete) do que no enredo em sí… o enredo é bem decepcionante… estilo ejaculação precoce mesmo! Não é o melhor do McEwan, o melhor na minha opinião é Solar. 🙂

  3. Meu velho, gosto dos teus posts, só não gostei do palavrão [rs], mas vamos lá. Gosto do MacEwan, mais ainda não li esse livro, seu texto me deixou desejoso, vou colocá-lo em minha lista de compras. Dele já li Serena e gostei muito, já li também várias reportagens sobre o autor e tenho muita curiosidade a respeito de sua trajetória enquanto escritor! um abraço!

  4. Quando vc escrever livros eu quero ler (muito) é divertido seu jeito de esculhambar com os escritores, não exatamente desencorajando a leitura, apenas é seu estilo encantador!

  5. Reparação e Na Praia são ótimos, Solar e Amor Sem Fim são muito bons. Amsterdam é bom. Na fila de leitura ainda tem Serena e Sábado.. Todos de McEwan, logicamente. Também não apreciei os palavrões, mas se na hora de escrever você pensava numa certa pessoa petista, então tudo bem.

  6. Não vou falar sobre o livro que você resenhou, eu queria te dizer que estou sentindo falta no seu blog de um livro nacional, uma coisa boa mesmo, os livros que tu tens resenhado não tem me interessado, não é uma crítica, tenho certeza que são bons, mas falta. Nem que seja para relembrar, mas um romance, um conto, algo que não possa deixar de ser lido por ninguém. Eu queria te agradecer também, foi através de você que eu conheci o valter hugo mãe e me apaixonei de verdade pela máquina de fazer espanhóis. Obrigada.

  7. eu adorei esse livro. Acho que ele fala de algo muito mais contemporaneo do que a maior parte das pessoas imagina, por sinal pelo que me lembre, logo no inicio ele escreve talvez a unica frase em tempo presente ( era um tempo em que era dificl falar sobre sexo, mas nunca eh facil…algo mais ou menos assim)..rs. achei um livro muito bem escrito, a forma como a historia se acelera, as nuances daquele ato, enfim, foi um dos meus livros favoritos desse escritor.

  8. Do autor eu li Serena. Não gostei. Fiquei com preconceito e não tive vontade de ler mais nada dele… mas sua resenha me deixou curiosa com A Praia! 😉 ACHO, acho… só acho que vou ler!

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