Fiodor Dostoievski – Noites Brancas (Belye nochi – Белые ночи)


Белые ночиDostoiévski é o Karl Marx da ficção. Todo mundo adora comentar, mas ler que é bom, pouca gente de fato leu. Mas não tem problema, o importante é botar na boca do povo esse autor importante para a literatura mundial, e vamos comentar aqui hoje um livro nadavê dele, e vamos logo que eu tô com pressa.

Noites Brancas é um dos primeiros romances do Dostoiévski, na fase de boa dele. Pra quem não sabe, o Dostô foi preso e exilado na Sibéria durante um tempo, de onde ele voltou com sangue nozóio e disposto a escrever as coisas mais famosas dele que conhecemos: Crime e Castigo, Os Irmãos Karamazov e Memórias do Subsolo, o livro menos de boa da carreira do hômi. Pra quem não sabe, o título remete a uma bizarrice astronômica que acontece no norte do planeta em que o sol não se põe durante alguns dias no verão. Isso, segundo os estudiosos do autor, criam uma atmosfera fantasmagórica para a São Petersburgo, a então capital do império russo e maior cidade da nação russa. É por ali que flana o nosso protagonista, um homem delicado, sem muito traquejo para a vida em sociedade e amarguradamente romântico, naquele medley de suspiros e soluços de que eram compostas as prosas românticas do período anterior. Ele anda pela cidade conversando com os prédios e construções (a menção do que algum espertinho escreveu que a cidade se revela ela mesma um personagem. Eu adoro quando falam isso, esses clichês da literatura de orelha), quando encontra uma mocinha chorando junto a uma ponte.

É aí que o rapazote que nunca falou com nenhuma mulher de uma maneira decente resolve puxar papo e saber por quem a moçoila pranteava. Assim sabemos um pouco da história de cada um dos dois personagens da novela. E sabemos que Nastenka morava numa casa com a avó maléfica que não a deixava sair de perto dela, e que, numa dessas de sublocar um dos quartos, apareceu um bonitão que roubou o coração da moça, e que partiu prometendo voltar dali a um ano com um anel de noivado e coisas do tipo, só que passado o tempo previsto, Nastenka constatou que o homem de fato voltou mas não a procurou, deixando-a em profunda amargura da alma.

Noites BrancasE enquanto ela narra seus infortúnios, o nosso protagonista, que já era bobão antes de aparecer mulher na história, fica mais bobão ainda. Com uma eloquência digna de um poeta romântico e uma capacidade para a aporrinhação digna de uma testemunha de jeová começa uma ladainha imensa de paixão e devoção à nova amiga. Até que… ah, isso eu não vou contar, senão estrago a diversão pra vocês que não gostam de spoiler. O que precisam saber é que a parada dá ruim pra todo mundo e mesmo assim um ar de otimismo se mantém no ar, o que é algo para se considerar em se tratando de Dostoievski.

O estilo do livro é verborrágico, lúgubre e apaixonado, um resgate muito provável da predileção dos românticos do século 18, e é nesse clichê e nessa sátira que Dostoiévski faz a sua reconstrução novelística. Resgatando valores que ele provavelmente achava que estavam em infeliz decadência naquela época, o que reforça a minha teoria de que Dostoievski ficaria malucão igual o Tolstói se não tivesse passado por essa coisa do exílio (ele foi preso por supostamente conspirar contra o czar, mas isso é outra história).

O que é importante para vocês saberem sobre Noites Brancas é: 1- é uma novela curta e pungente sobre o amor platônico. 2- não tem nada a ver com as coisas mais famosas que o Dostoievski escreveu. 3- É Dostoievski de começo de carreira, Dostoievski de mesa, Dostoievski de entrada, Dostoievski do grupo de acesso, então vale a leitura apenas se você já tiver passado por uma ou duas obras mais significativas do homem, para ver como o sujeito amargou geral depois de enxugar gelo por um tempo. Por isso vale a leitura. E, por último, ainda é uma historinha legal.

Noites Brancas faz parte da Coleção Leste, da Editora 34. Já falei que a Leste é a minha coleção favorita de todas as publicações brasileiras? Autores fodões, tradutores idem, posfácios interessantes e tudo padronizadinho para acalmar meus ímpetos virginianos de organização. Esse título tem tradução e posfácio do Nivaldo dos Santos e umas xilogravuras mutcholokas no meio do Lívio Abramo. Vale a pena!

Comentário final: 96 páginas em papel pólen. Enxuga três cubos de gelo na Sibéria.

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3 Respostas para “Fiodor Dostoievski – Noites Brancas (Belye nochi – Белые ночи)

  1. Certa vez, comprei o conjunto completo das obras de Dostoievisk em quatro volumes, lançados pela editora Nova Aguiar em papel Biblia. Li alguns contos e uns dois romances, inclusive esta novela. O escritor possui uma escrita psicológica, que tenta explicar os devaneios do homem. Ao lermos essas obras, devemos entender que o bom livro, nem sempre te afaga…mas te bate até você se colocar no devido patamar, sem ilusões…um escritor que lhe dá livrada. escritor/ Leitura recomendada.

  2. Comprei um livro da Leste e também achava que eram todos padronizados! Mas para minha surpresa, ele é bem menor do que os outros! Não sei o que vou fazer da minha vida rsrs deixei o bendito longe da coleção pq sim, coleção é coleção e eles precisam ser iguais rsr

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