Gonçalo M. Tavares – Matteo Perdeu o Emprego

Gonçalo TavaresO post de hoje é para provar pra vocês de uma vez por todas que se vocês me indicam um livro e eu realmente me interesso por ele eu leio. Mesmo que demore dois ou três anos pra isso. O processo é lento e o bagulho é loko, jão. Fato é que o leitor Sueliton leu Matteo Perdeu o Emprego, do tuga Gonçalo Tavares e resolveu me indicar com muita insistência para que eu lesse e desse minha opinião. Acho que era isso que ele queria: minha opinião. Sim, porque a análise da obra propriamente dita o próprio Gonçalo já fez no posfácio do livro. De certo que ele ficou com medo de ninguém entender o livro com a profundidade que ele escreveu de modo que encheu o fim de notas filosóficas e analíticas sobre o que acabamos de ler. E depois vocês acham que piada de português é algo criado a partir da cabeça imaginativa dos brasileiros.

Bom, vejamos o que pode ser dito sobre Matteo Perdeu o Emprego, ficando aqui livre da obrigação de comentar coisas profundas sobre a obra (thanks, Gonçalo). O livro é um híbrido de conto e romance. Híbrido porque é um romance em que cada capítulo desenvolve uma história com um protagonista diferente. Um chama o outro, em ordem alfabética, e assim a história vai. Aaronson é um corredor que corre em volta de uma rotatória até que é atropelado por Ashley, que precisava entregar uma encomenda a Baumann no número 217 de uma rua que é composta apenas por números 217; Baumann que limpava o lixo e era observado por Boiman, que é interrogado por Camer, que pergunta sobre o homem dos tiques chamado Cohen, que é convidado por Diamond para uma viagem, e por aí vai. Isso até chegar no tal Matteo, que perdeu o emprego e é contratado por uma jovem chamada Ana, que não tem braços, para fazer as paradas por ela. O fato do título do livro fazer referência a Matteo sugere que precisamos percorrer tudo isso para chegar nele, e isso é dito no meio da história, o que é deveras bizarro, mas enfim. Fato é que a história toda até esse ponto é um exercício de conexão e hierarquia, ao que parece, numa mensagem clara de que algumas coisas seguem uma ordem que não podem ser desconsideradas. E tudo volta ao começo quando Matteo se encontra com Nedermeyer – descrito no capítulo “Nedermeyer e a primeira rotunda”, que é um capítulo marcado no índice sem paginação e sem uma divisão na história (esses portugueses não têm mais o que inventar mesmo) que fala a ele sobre o atleta Aaronson que acabou de ser atropelado. Meio furada porque na história de Diamond a narrativa dá saltos de décadas no futuro, desde que precisou dar aulas a uma classe primária do lado de um montão de lixo. Não sei como a história voltou, mas vamos supor que nesse livro a coisa se trata de mágica. Sim, porque na capa do romance, tem um suposto elogio do Le Figaro que diz que Matteo Perdeu O Emprego é um Kafka português. Bom, gente, o Le Figaro não é exatamente um expert em Kafka como se pode perceber por esse comentário, mas por outro lado, acho que qualquer coisa que pareça desnecessária, sem sentido e aparentemente muito mais profunda do que se supõe é chamada de kafkiana. Há que se acabar com esses adjetivos, manolo. Há que se acabar com eles. Já deu o que tinha que dar. E o que pensaríamos sobre essa condução narrativa que usa personagens como elos de uma corrente para chegar a uma ponta e contar dez páginas de história? Existe uma história única? Existe uma história, afinal de contas? Sei lá, vou deixar a análise pro posfácio do Gonçalo, acho que ele já disse o que queria dizer sobre a obra. Da minha parte, cativou como Gonçalo M Tavaresexercício, mas não como livro. Broder, na boa, não encerre um livro maluco com um posfácio que começa citando Musil que não vai dar pra levar em consideração. Eu posso ser um cara raso, mas pelo menos eu sei disso, e não vou ficar citando Musil na tentativa de dizer o contrário. E na verdade eu tava gostando bastante da coisa toda até chegar a essas notas. Sério, pra quê isso? Argh, cara, tô indignado. Por quê, mano? Por quê???? Pra quê? É um livro, cara! Um livro que seria bom se não me metessem uma porção de análise goela abaixo. Isso me irritou e pode não ter sido essa a intenção e a coisa toda – as notas – podem ter uma razão de ser dentro do romance, e podem ser parte do romance apenas divididas em um capítulo chamado “Posfácio” só pra te enganar. Mas isso é dar muito crédito pra coisa. Minha sugestão: leiam o livro, não leiam o posfácio. Leiam o Posfácio, o site, mas não leiam o posfácio de Matteo Perdeu o Emprego, porque não fez nada a não ser me aborrecer. É o mesmo tipo de irritação que senti quando assisti O Fabuloso Destino de Amélie Poulain e percebi que o filme não tava me dando margem pra não gostar dele sem parecer um velho rabugento mal amado. Ao contrário do povo do Facebook, eu gosto de ter minhas próprias análises e minhas próprias opiniões a respeito das coisas. Mas esse sou eu, né? Eu entendo como as pessoas podem se encantar por esse livro, porque afinal é um livro verdadeiramente autêntico e esse mérito ninguém lhe tira, mas acho que o lugar dele na história é algo para ser decidido pela própria história, e o Gonçalo não é nenhum poeta bobo de esquina pra ficar falando pras pessoas porque é um sujeito ímpar. Ele ja é consagrado, respeitado e talentoso, não precisa desse troço aí.

O livro foi publicado pela editora Foz, que achava que era portuguesa, mas na verdade é de Ipanema. Que coisa. De qualquer jeito, a editora caprichou bem no formato e no projeto gráfico do livro, com papel pólen de gramatura 90, o que é algo fortíssimo pra um livro hoje em dia, fonte Celeste, que é um pouco mais arredondada do que eu estou acostumada, mas boa tamém, uma capa meio bizarra e meio assustadora de um boneco segurando um jornal e um cigarro e ah! O livro acaba ainda com uma citação do Giorgio Agamben. Já dá pra puxar a alcunha de pedante pra esse livro ou tá cedo ainda? Tem Musil, Agamben, Burroughs na epígrafe do posfácio, “Um Kafka português” assinado pelo Le Figaro na capa e uma orelha escrita por alguém que entendeu tanto desse livro quanto eu, e na contracapa ainda tem o Saramago falando que o cara vai ganhar o Nobel um dia! Calma, galera, segurem suas vadjáinas aí que assim eu não aguento!

Ps: Mas a história do cara com o macaco no final é legal pra caramba. Realmente gostei.

Comentário final: 156 páginas em papel pólen 90. O maior, o mais magnífico, o mais inteligente livro já escrito está aqui!! Corram antes que a profecia do Saramago se concretize!

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Sérgio Sant’Anna – O Livro de Praga

Hoje é domingo, pé de cachimbo, dia das mães, todo mundo enchendo a pança em família e fazendo as mesmas piadas de “é pavê ou pá cumê” e “afinal, avó é mãe duas vezes”, enquanto têm-se a ligeira impressão de que mais um domingo acaba, mais um final de semana chega a seu ocaso e mais uma vez, os objetivos alcançados foram mínimos. Suspira conformado e vai para a cama esperar o começo de mais uma melancólica semana. Mas não tema, homem moderno e exemplo patético da herança orgânica da Terra, cá está o livrada para colocar mais miolos nos seus miolos e mais tutano no seu tutano. Sente-se, relaxe e aproveite mais esse livro do dia, quem sabe quando você chegar ao final você se anime a visitar uma livraria e comprar algo bonito para a sua estante e seu cérebro.

Bom, este é o penúltimo post antes das minhas tão merecidas férias, e fala logo sobre Praga, cidade que estarei visitando daqui a exatamente um mês. Por isso achei conveniente e vamos lá, é livro nacional, sempre uma boa pedida!

O Livro de Praga é obra do escritor Sérgio Sant’Anna, que obviamente já viu dias melhores na hora de bolar um título criativo. Sant’Anna fez parte do time da coleção Amores Expressos, do almighty Rodrigo Teixeira, da RT Features, produtora paulistana de qualquer coisa. Pra quem tá de bobeira, vou explicar: dezesseis autores viajaram bancados pela empresa para passar um mês em alguma cidade do mundo com a missão de voltar e escrever uma história de amor situada nessa cidade. Primeira consideração: vida chata, hein galera? Fala sério, ser chegado do Teixeirão aí é a maior jogada (me liga, cara, vamos jogar uma bola qualquer hora!) E isso prova que eu não teria o menor tino pra coisa, o santo aqui ia desconfiar dessa esmolada toda e não ia arredar o pé com medo de ter a alma roubada depois. Sério, gente, não me ofereçam dinheiro, morro de medo… Bom, de qualquer jeito, até o momento, sete livros já saíram pela Companhia das Letras: esse, o Cordilheira do Daniel Galera (Buenos Aires), , Estive em Lisboa e Lembrei de Você do Luiz Ruffato (Lisboa… dã), Do Fundo do Poço se Vê a Lua, do Joca Reiners Terron (Cairo), O Único Final Feliz Para Uma História de Amor é um Acidente, do João Paulo Cuenca (a vírgula se faz necessária aqui… Tóquio), Nunca Vai Embora, do Chico Matoso (idem… Cuba) e O Filho da Mãe, do Bernardo Carvalho (ibidem… São Petesburgo). A coleção prevê ainda livros do Lourenço Mutarelli sobre Nova York e um livro rejeitado de um gaiato de Goiânia que foi para São Paulo (o azarento da turma, provavelmente), entre outros. Olha, já vi ideias melhores para coleções literárias, e essa me parece a Paris Hilton das coleções literárias: perdulária, superficial e altamente desejada por fashionistas antenados nas tendências. Isso enquanto coleção, o que não quer dizer que, individualmente, a parada não guarde boas surpresas, como é o caso desse livro. Vamos a ele.

Sérgio Sant’Anna teve muito culhão pra fazer o que fez no Livro de Praga: pegou a grana que lhe foi dado, passou um mês usufruindo sabe-se lá de quais serviços do Leste Europeu e voltou não com um romance, mas com um livro de contos mascarado de romance e com um roteiro de filme pornô mascarado de história de amor, usando como pano de fundo a maior parte dos clichês da capital checa – coisa que uma semana na cidade ou duas semanas na Wikipedia resolveriam de forma igualmente eficaz.

O protagonista é um sujeito chamado Antônio Fernandes, um cara que guarda grandes semelhanças com o autor do livro à exceção do excesso de swag que lhe permite passar o rodo em Praga. Fernandes – olha só! – também está passando um mês em Praga a pedido de um ricasso para uma coleção literária. É, a imaginação do cara voou longe pra bolar essa história… O “romance” é dividido em vários contos e em cada um deles o herói Antônio Fernandes (que também poderia ter sido batizado Dirk Diggler) se envolve com alguma peripécia artística e sexual: numa hora é precisa desenbolsar uma bolada para ver e trepar com uma pianista reclusa e seleta, noutra descobre que um sujeito cafetina a irmã que tem tatuado um manuscrito inédito de Kafka no corpo, noutro compra uma boneca no teatro que ganha vida na cabeça dele, noutro ainda transa com uma santa fictícia num altar. Tudo no maior delírio, na maior loucuragem, na maior psicodelia libertina. O sujeito está em alfa, em nirvana, pra lá de Bagdá, viajando na maionese enquanto essas coisas acontecem nos seus sonhos diurnos. Cada uma das aventuras é um tipo de tara e um tipo de arte: felação e música, penetração e escultura, literatura e donkey show, sei lá, o cara vai misturando as taras da cabeça dele com as artes que vai encontrando.

E aí vai aquela coisa, aquela ambiguidade onírica gostosa: é sonho ou é realidade? É sexo ou é amor? É romance ou é conto? É arte ou charlatanismo? Você decide, você julga e você escolhe, porque a minha opinião está guardada na minha cabeça e se eu intercedesse nesse ponto eu interferirira da pior maneira na sua leitura: limando a sua imaginação e sua capacidade de julgamento e discernimento. Como eu não tenho cara de televisão, jogo pra galera.

Esse projeto gráfico é uma maravilha, faz todo mundo querer fazer a coleçãozinha, porque vem com um carimbinho e o público gosta disso: gotta catch ‘em all, mr. Pokémon. Essa capa é mais bonita que as outras, na minha modesta opinião, por ser menos pop, menos teen e menos hype. Papél pólen, fonte Electra e todo mundo fica feliz. Alright!

Eis os meus recados:

1-    Essa é a última quinzena para mandar seus autógrafos. Tô querendo fazer uma parada massa aqui e a galera não colabora. Não adianta nada ter dez mil acessos no mês e receber quatro e-mails, sejam participativos, colaborativos, sejam mais Che Guevara e menos “com 5 mil ‘curtir’ o médico vai fazer um transplante de rim pro labrador dessa garotinha com câncer”. Vamos lá, vai ser legal: envie fotos ou imagens scaneadas de seus autógrafos favoritos para bloglivrada@gmail.com

2-    Não sei se já viram, mas agora além de criticar livros, também critico hambúrgueres – um trabalho bem mais gostoso, vá lá. Se não conhece ainda, passa lá no Good Burger a qualquer hora e procure os meus textos, mas leia também os do Murilo, meu camarada que tampouco foge à luta.

3-    Já que nunca é pedir demais: curtam o Livrada! no Facebook e sigam @bloglivrada for more.

Comentário final: 144 páginas pólen soft. Voando daqui até Praga, uma porrada no orelhão do Kafka.

Franz Kafka – O Veredicto/Na Colônia Penal (Das Urteil/In der Strafkolonie)

Das Urteil/ In der StrafkolonieÉ gente, eu avisei. A coisa tá corridona. Vamos fazer assim? Deixemos as resenhas apenas para os domingos, alright?

E pra quem não viu, temos um patrocinador. O Sr. Victor Almeida está divulgando seu novo livro, que saiu na forma de e-book para kindle também. Cliquem ali no banner de seu Juntos no Paraíso para saber mais e comprá-lo, pra ele ver que é boa ideia anunciar aqui.

Olha só, um ano se passou e nem me toquei que não tinha falado ainda de Franz Kafka (não confundir com Franz Café, aquele Coffee Shop que fica aberto 24 horas ali na Praça da Espanha que só dá um povo bem esquisito que nasceu em Arapongas, mora no Cotolengo, usa cachecol em fevereiro e acha que é britânico). Já li essa coleçãozinha inteira dele, à exceção de O Processo, livro que não engulo nem misturado na sopinha. Restava falar de um de seus inúmeros livros de contos, incluindo o belíssimo Um Médico Rural, ou então falar do óbvio A Metamorfose, cuja resenha você pode ler em qualquer outro blog miguxesco por aí (aqui, ora pois, tratamos de literatura não-óbvia), ou então os inomináveis Carta ao Pai ou O Castelo (que raiva que eu tenho desse livro O Castelo, depois dele nunca mais li livro póstumo nenhum, só O Mestre e a Margarida por razões óbvias). Pensei então que poderia falar de O Veredicto e o insuperável Na Colônia Penal, dois contos/livrinhos surpreendentes e dignos de tudo o que se fala de bom do Kafka. Porque convenhamos, o sujeito escreveu muita porcaria também. Sério, tem um conto naquele A Contemplação, que foi o primeiro livro de contos dele, que quase me deu vontade de tacar o livro na testa do desinfeliz que deixou eu comprá-lo.

Pois muito bem. O Veredicto (Veredicto não tem mais esse c mudo, ou tem? Taí algo que faz a gente se sentir velho. “No meu tempo, netinho… cof…cof… Veredito se escrevia com c antes do t… agora passa esse balão de oxigênio aí… cof…”) é um livro curtinho cuja história, de longe, pode não impressionar muito. Um carinha que tem um amigo que mora longe, e com quem tenta se comunicar por cartas (os estadunidenses chamam isso de “pen-pal”, ô palavrinha feia da gota!) embora não tenha resposta dele há muito tempo, fica preocupado se comunica ou não que está noivo de uma gatinha. Ele está tomando conta de seu velho pai, assumindo os negócios da família, aquela coisa de homenzinho que acha que virou homenzinho. Até que o pai sobe nas tamancas, fala umas verdades, revela umas revelações e condena o filho à morte por afogamento, ao que ele responde com uma saída abrupta de casa para se afogar pulando de uma ponte. É isso aí, contei Spoiler e nem avisei que ia spoilar a bagaça toda. Deal with it. Como diz o Boça, eu também sei ser maloqueiro e quando eu quero zoar, sai de baixo, meo!

Nesse livro é legal a gente observar, em primeiro lugar, a relação do filho com o autoritarismo do pai. Falei que é legal observar isso porque qualquer crítico Mané vai te fazer enxergar esse fator e ai de você se desconsiderar o paralelo entre o pai de O Veredicto e o pai de Kafka. Assim são os críticos. Sabe quando você pede uma porção de batata frita pra todo mundo e sempre tem um babaca que joga ketchup na batata inteirinha, desconsiderando o gosto dos demais por ketchup? Pois esse é o crítico. É o cara que obriga você a degustar as coisas do jeito dele, e que se dane sua própria experiência. Quer dizer, não é todo o crítico que é assim. Só o são os críticos do cânone, os críticos do óbvio, os críticos do “ó-meu-deus-eu-sou-tão-esperto-que-se-eu-fosse-mulher-eu-me-traçava”. Aqui eu estou fazendo esse papel ingrato porque tem um povo que tá entrando aqui e falando que as minhas leituras são muito superficiais, então taí uma leitura que você pode ler no posfácio do livro e que, mesmo assim, todo mundo alardeia. Satisfeito?

Pode ver nesse livro também o absurdo do mote de Kafka, que vem de um certo estoicismo ao qual ninguém se acostumou direito depois da febre da Profecia Celestina. Veja só o que é o pai mandar o filho se afogar e ele ir, contra a vontade, morrer afogado? É uma forma de passivo-agressividade fora de controle (o que é ótimo porque eu acho que o gene da passivo-agressividade tem que ser extinto), uma rebeldia adolescente que a gente vê muito hoje em dia. Já viram a cena: o moleque, de preto dos pés à cabeça, com uma camiseta do Good Charlotte, muita maquiagem no olho, dizendo “eu queria nunca ter nascido!”, os pais fazem aquele drama de “és base, é protetooooooooooooor” e o moleque sai de casa batendo porta pra fumar Carlton Red na porta do Shopping Center com os amiguinhos de cabelo ensebado dele. É mais ou menos isso, só que no começo do século, e com morte de verdade, não apenas a morte da rebeldia verdadeira.

Falemos agora de Na Colônia Penal, o conto/livro mais sinistro já inventado por uma mente humana meio doente. Lembro que na época do Orkut tinha uma comunidade chamada “Kafka, fica de boa…” e realmente, ele precisava mesmo dar uma relaxada. Acho que o carinhômetro dele estava sempre em baixa. Deve ser por causa dessa cara feia que ele tem. Inclusive peguei essa foto aqui pro post de hoje porque tinha um porteiro no meu antigo prédio que era a cara do Kafka.

Divaguei, desculpem. Comecemos de novo. Na Colônia Penal é doente, já disse isso, né? Então, a história é isso aí, um cara vem de outro país para visitar uma colônia penal no país da história, e eles estão para executar um coitado com um método muito do sinistro. Consiste numa geringonça que deixa o infeliz penduradão e vai matando ele aos poucos enquanto várias faquinhas vão escrevendo uma frase de pára-choque de caminhão nas costas dele, uma lição de moral ou algo assim, até que ele morre esvaído na própria papa de sangue. É mais ou menos como aqueles “shows” em que os hã… malucos ficam pendurados por ganchos nas costas achando tudo o máximo. Acho que essa modalidade tem nome, mas tô com preguiça de procurar no Google e vou chamá-la de falta de enxada e meio lote pra carpir.

A crueldade da execução choca o estrangeiro (espero não estar confundindo com um conto do Italo Calvino) e pro executor, tá tudo numa naice. E aqui lá vamos nós jogar ketchup na sua batatinha de novo. A ideia do sofrimento sem uma sensação de que ele logo terá fim é uma constante nos livros do Kafka que falam do assunto. Você bem sabe que quando você se prepara para fazer algo sofrido, parte do sofrimento é amenizado pela sensação de fim iminente. Como por exemplo fazer uma tatuagem, tirar sangue, tratamento de canal, exame de próstata, andar de Cabral/Portão, etc. Agora, e se o sofrimento não tiver um fim visível na linha do horizonte? E não só isso, pensem também na engenhosidade de uma máquina projetada para te fazer sofrer. Eu sei que vendem máquinas assim pela televisão no Shoptime, que dá pra dobrar e guardar embaixo da cama, mas essa é projetada para o mal extremo, a morte e uma lição de moral ainda por cima. É doente ou não é, meu povo?

Chega que a resenha tá longa. A saudade é um prego, o coração é um martelo, por isso me estendi. Esse projeto gráfico da Companhia das Letras é sensacional. Livros branquinhos que já vem encardidos da livraria porque ninguém compra tanto Kafka quanto deveria, posfácios mais que elogiosos do tradutor Modesto Carone, o homem-Kafka (equivalente ao Elidio Lopes para o vinho), fonte Garamond e imagens da capa de Amilcar de Castro (embora tenha quase certeza de que um dos desenhos é uma fraude feita por outra pessoa, mas teria que verificar e já tá tarde pra isso). É uma beleza. Faltou mesmo pra minha coleção O Processo, edição esgotada há muito tempo, só acho de bolso. Uma vez vi um cara com esse livro num ônibus e pensei seriamente iniciar ali minha carreira de assaltante. E aí, quem topa fazer uma campanha para me doar essa edição d’O Processo pra eu completar a coleçãozinha?

Comentário final: Kafka, fica de boua, meo…