Yasunari Kawabata – A Dançarina de Izu (Izu no Odoriko, 伊豆の踊り子)

Deus sabe que não gosto de literaturas muito descritivas. Mas esse livro, A Dançarina de Izu, do japa Yasunari Kawabata, prêmio Nobel de literatura em 1968, bateu fundo no peito. O livro é curto — menos de 60 páginas — e é de uma singeleza que dói. Kawabata escreve o livro como um pintor que não tem dinheiro pra comprar tinta pinta uma tela — economizando em tudo. E como dizem algumas peruas que, quando saem na rua mais parecem árvore de natal, o menos acaba sendo mais.

O livro foi publicado em 1926, e escrito a partir de uma experiência autobiográfica de sua vida de estudante. O mauricinho, então com dezenove anos, faz uma viagem de férias à península de Izu, a oeste de Tóquio. Hospedado em alguns albergues familiares, conhece uma trupe de artistas mambembes de Oshima, uma das ilhas de Izu (procura no Google Earth que é bem bonito o lugar). Uma das integrantes dessa trupe é uma pequena dançarina chamada Kaoru, de treze anos. Ele se encanta com a graça da menina e faz amizade com os outros artistas da companhia, todos de sua idade ou mais jovens do que ele. E ao final de suas férias, ele volta para a cidade grande. Essa é toda a história do livro. Simples, não?

Não dá nem pra chamar isso de Spoiler. A graça de A Dançarina de Izu está na beleza das descrições de Kawabata, das cenas que ele coloca na sua cabeça de uma maneira tão universal que chega a ser difícil haver muitas diferenças nas diversas adaptações que o livro teve para o cinema.

E a gente fica pensando: Como um ser tão sofrido como Kawabata pode ter escrito uma obra tão bonita? Para quem não sabe, o escritor perdeu o pai com dois anos e a mãe com três. Seus avós maternos abrigaram ele e sua irmã mais velha em Tokoyama, Osaka. Com sete anos, sua avó morreu; com dez, sua irmã; finalmente com quinze, seu avô. Ao longo de sua vida, perdeu vários amigos que suicidaram. Até que em 1972, ele passou por uma operação de apendicite que debilitou sua saúde. No mês seguinte, se matou inalando gás de cozinha. O cara é praticamente um coelho sem patas da má sorte total.

A beleza da obra está, eu acredito, na aventura de conhecer um lugar novo com pessoas novas. A trupe, toda composta por jovens, independente em sua arte, itinerante permanentemente ao contrário dele próprio, que está só de passagem. A história velada que cada vida possui, um grupo só de adolescentes (quase uma turma de Garotos Perdidos). O deslumbramento pela menina e o amor impossível que sente por ela (já naquela época essas coisas davam cadeia), não carnal, mas etéreo e idealizado. E depois a volta à realidade.

A editora Estação Liberdade está de parabéns por publicar a obra completa de Kawabata com projetos de capas (para esta, Midori Hatanaka, acrílico sobre folha de ouro. Incrível, hein?) e fonte Gatineau, que eu nunca tinha ouvido falar até ler o livro. Gostei mais ou menos da fonte, acho que até combina com a diagramação que fizeram. O ensaio complementar ao livro, que tem quase o tamanho do romance, é um pitéu. A gente tem que agradecer a esses heróis que se dispõem a estudar esses caras. Meiko Shimon, um abraço pro senhor. E um abraço também para o tradutor Carlos Hiroshi Usirono, que decifrou aquela escrita maluca que é o japonês. Vou ficar devendo suco pra muita gente depois desse blog. A parte chata do livro é, de novo, a merda do papel off-set. Sério gente, parou com isso.

Comentário Final: 101 páginas, incluindo o ensaio, em gramatura alta. Se tacar igual estrelinha ninja, é capaz de decepar a cabeça de alguém.

Pedro Juan Gutierrez – Trilogia Suja de Havana (Trilogia sucia de la Habana)

Estenda sua mão, dê um pescotapa e diga “se liga, mané”  em quem disser que Pedro Juan Gutiérrez escreve de um jeito bem parecido ao de Charles Bukowski. Essa afirmação é de uma imbecilidade que deveríamos ignorar, mas, ao invés disso, vamos explicar direitinho, para encerrar qualquer discussão.

Embora o Realismo Sujo (gênero de Gutiérrez) tenha alguns elementos físicos da literatura beatnik (de Bukowski), a forma como esses elementos são tratados é bem diferente. A principal diferença é que no Realismo, os espaços urbanos não são concebidos para serem o que são, e o personagem realista transite por esse espaço como um estranho, ao passo que os beats (bear, beats, battlestar gallactica) são incorporados ao lugar e sua destruição (boemias, sarjetas, bàs-fonds, etc). É uma explicaçãozinha meio rápida e vazia, mas se você quer aprender alguma coisa a fundo, sugiro não tentar fazê-lo em blogs.

Dizem que o cubano Pedro Juan resolveu escrever esse livro depois de ver uma criança fuçando o lixo em busca de comida, em plena Havana. É uma imagem poética para uma realidade ainda mais dura. Cuba passava por uma grande crise na década de 90, nos anos que se seguiram ao fim da União Soviética, a única amiguinha daquela ilhota em mais de cinquenta anos. Não havia comida, dinheiro, remédios, energia, nada. A maioria dos veículos de comunicação havia sido fechada por intervenção do governo. Para piorar, a vida do autor ia de mal a pior. Tinha três filhos para sustentar (sendo um bastardo), ganhava três dólares por mês e sua mulher estava a ponto de deixá-lo quando descobriu que ele tinha pelo menos umas seis amantes. Ficou completamente abandonado. E então escreveu essa coletânea de contos duros, crueis e desencantados com a realidade do país.

Tem de tudo na Trilogia Suja. Estupro, tráfico de órgãos, de drogas, de comida, tráfico de tudo na verdade, assaltos, assassinatos, e muito sexo, sempre. A literatura de Pedro Juan recende a cecê de longe. Difícil ler este livro e não se sentir incomodado pelas situações ali descritas, em uma mistura de ficção e realidade.

Hoje em dia, a edição que se encontra é a da Alfaguara (por isso mesmo vou colocar a tag na editora), mas eu li a publicação da Companhia das Letras. Um livro menor em tamanho, com uma fotografia sensacional na capa. Em tons pastéis, o fotógrafo captou muito bem a essência da literatura e da  Cuba de Gutiérrez (aliás, as fotos dos outros livros do autor também são sensacionais). A edição da Alfaguara tem um acabamento característico da editora, que é de excelente qualidade. A capa porém, preferiu privilegiar essa pluralidade (cheio de palavra com pê, hein?) de elementos da cultura latino-americana, colorida e um pouco sombria no conjunto. É bem da cultura cubana, mas pouco tem a ver com a escrita do autor.

Fui apresentado à sua literatura pela amada Carla Cursino, e hoje digo a todos: Leiam Pedro Juan Gutiérrez e sua Trilogia Suja.

Comentário Final: 382 páginas pólen soft molengas. Se quiser fazer estrago mesmo, melhor bater com a edição da Alfaguara.