Anton Tchekhov – A Gaivota (Чайка)

Daniel PereiraOlha só, eu não coloquei uma peça de teatro na lista do Desafio Livrada! 2014 (aliás, como vocês estão indo nele?) mas deveria, e por várias razões. A primeira é que livros de peças de teatro são mais legais do que peças de teatro em si (e isso é a minha opinião. Meu blog, minha opinião, sorry periferia); segundo que vocês não andam lendo tanto teatro quanto deveriam – e deveriam, porque o teatro ensina muitas coisas sobre como montar um ambiente e como explicar coisas só com diálogos, o que é importante pra todo mundo deixar de ser prolixo; terceiro, porque livros de teatro são o contrário dos best-sellers na relação quantidade x qualidade. Se eu pedisse pra vocês lerem um, a chance de algo realmente bom cair em vossas mãozinhas seria muito grande.

Pois o fato é que não está na lista, mas vamos ver essas coisas aqui, e desde já peço desculpas pelo excesso de literatura russa aqui, mas é porque eu realmente tô numa vibe que… peraí! Eu não vou pedir desculpas pelo excesso de literatura russa e vocês tão malucos se acham que eu vou. Literatura russa é vida, literatura russa é o que faz essa máquina de editoração de livros rodar, porque se não fosse a literatura russa, se não fosse essa coisa tão legal consagrada há cento e porrada anos atrás, não ia ter tanta gente querendo fazer algo tão legal quanto hoje em dia. Então, vamos ao objeto de hoje.

Eu li A Gaivota quando tinha meus 20 anos em uma edição antiga do amigo Cássio que vinha junto com Tio Vânia, do mesmo Tchekhov, e achei tanto uma quanto a outra uma porcaria enfadonha, confusa e sem nada de maneiro pra acrescentar à minha ignorante cabecinha de jovem. Mal sabia eu que minha opinião estava em consonância com a do povo russo à época da estreia da peça e inclusive com a opinião do grande Tolstói, que disse, não com essas palavras, que A Gaivota era um belo de um sonífero. Parece que só quando ela caiu nas mãos de Stanislavski e Cia. Que a coisa deslanchou mesmo, e o porquê disso não sei, mas também não estou muito interessado. Vou falar aqui por que A Gaivota tem seus deméritos aos olhos dos outros e o que ela tem de legal.

A peça tem quatro atos, uma porrada de personagens – alguns meio inúteis —, uma peça de teatro dentro dela e se passa numa propriedade rural do tio de um aspirante a escritor, filho de uma atriz famosa e já meio esquecida. O sujeito chama Trepliov e no primeiro ato o vemos se preparando para ver a montagem de uma peça que ele escreveu, mas sua mãe fica de palhaçada, todo mundo perde o foco e a vibe, o troço vira um desastre e ele fica arrasado. Essa percepção é mais agravada pela presença de Trigorín, um escritor famoso que rouba as atenções, inclusive a de sua grande paixão, Nina. O caso aqui é uma quadrilha das brabas: Miedviediênko (ah, que delícia a sonoridade do russo explanada na transcrição do tradutor, praticamente um baby talk), o professor, amava Macha, a filha do tenente Chamraiev. Macha, amava Trepliov, o escritor. Trepliov amava Nina, a mocinha atriz de sua peça. E Nina acha que ama Trigorín, mas na verdade só tá mesmo muito entediada e precisando de um Nintendo Wii. Acrescente-se aqui que Arkádina, a mãe de Trepliov, é apaixonada por Trigorín também, e temos aí a macarronada que é A Gaivota.

Pois bem, coisas acontecem na peça, mas não muitas: Trepliov mata uma gaivota e oferece de presente pra Nina, ela e Trigorín trocam juras, Trepliov desafia Trigorín para um duelo e ele foge da raia, e no final das contas Trigorín casa com Nina, vão morar em Moscou e depois ele abandona ela por Arkádina. Nina reaparece, fala com Trepliov, ele pede pra ela ficar, ela não fica e ele se mata.  Oh, meu Deus, Yuri, que cara sem coração é você, jogando esse monte de spoiler na nossa cara. Pois é, get over it. A gente é a maloqueiragem da crítica literária, e se você não aguenta os caras maus, vá ler blog de miguxa parceira de editora e de marca de esmalte.

Anton_Pavlovich_ChekhovDe tudo isso que eu já contei, já deu pra sacar por que A Gaivota não foi um grande sucesso. Quatro atos disso aí só passam rápido se o cara tiver muito na pira de ver um Tchekhov boladão. Se não tivesse o sobrenome, dificilmente sairia do circuito do teatro sério dentro do teatro experimental universitário. Mas isso não quer dizer que não valha a leitura, e é claro que vamos dizer o porquê.

Primeiro, pela angústia do personagem principal. Trepliov é um escritorzinho que precisa competir com Trigorín, que é um escritorzão, e os dois precisam competir com Tolstói e Turguêniev e todos os clássicos. Está aí um dos pontos chaves do livro: o embate do novo com o velho e já consagrado. Não é à tôa que Nina se apaixona por Trigorín, escritor já consagrado e não por Trepliov, e não é à tôa que Trigorín se apaixona por Nina, uma jovem atriz, mas troca ela por Arkádina, a atriz mais velha e já consagrada. E você achando que o Larry Clark era revolucionário por fazer um filme como Ken Park. Rá! A coisa é tão fora de propósito que o sujeito novo não sabe o que fazer e mata uma gaivota pra dar de presente pra mulher. Se a gaivota é uma metáfora para alguma coisa nessa peça, e eu acho que é, é a metáfora para a falta de sentido em pirar errado e na destruição do belo em função de ficar pirando errado.

E isso tem a ver com a segunda coisa legal desse livro, e isso você pode ler no belo texto que o tradutor Rubens Figueiredo (falemos dele mais tarde) preparou para a edição (falemos dela mais tarde também). A Gaivota é uma “comédia em quatro atos”, segundo o autor. Mas não tem nada de engraçado nisso. Mas aí o Rubens lembra a gente que comédia aqui tem o sentido de expressar sentimentos menores, menos nobres, em oposição à tragédia, que é elevada. É uma comédia porque todo mundo é meio patético em suas vidinhas miseráveis e ninguém se entende, ninguém corresponde o amor um do outro e as pessoas fazem coisas estúpidas por causa disso, tipo matar uma gaivota e se matar. A comédia é a vida comum, a comédia somos nozes.

Já falei que o livro da Cosacnaify é da coleção portátil? Não? Pois é. Bela coleçãozinha essa, com suas escalas pantone na capa, suas fontes esquisitas de nome esquisito e sua encadernação artesanal com cordinhas bonitas. E já falei que o livro é traduzido pelo Rubens Figueiredo? Ah, isso já, né? Porque o Rubens é demais e não há porque se cansar de falar dele aqui, principalmente retribuindo a gentileza da vez em que ele disse que eu era parecido com o Tchekhov em pessoa. Ah, como eu sou gatão, foi mal aí, galera! Meninas, façam fila que o papai chegou. Hue hue hue br br. Gosto das traduções do Rubens, principalmente nos nomes, em que ele tenta preservar a sonoridade do russo, e não poupa acentos em lugares desconfortáveis para nossos padrões de leitura em língua portuguesa. Viva!

Um último pedido: se inscrevam no canal do Livrada! no Youtube! É super fácil, é só entrar no Youtube logado com sua conta do google e clicar no botão vermelho embaixo do vídeo onde diz “Inscrever-se”. É a minha chance de fazer isso aqui ir além e render um trocado pra pagar a hospedagem do site, então me ajudem, amigos!

Comentário final:127 páginas portátil e em papel pólen. Russos, ê!

Wole Soyinka – O Leão e a Joia (The Lion and the Jewel)

the lion and the jewelLiteratura africana, pois sim! O povão vira a cara, fala que não gosta, mas tem que ler, cara, tem que ler literatura da África porque enquanto seu escritor germânico favorito precisa suar a camisa pra encontrar temática substancial capaz de preencher um livro (geralmente com histórias de desagregação familiar), o africano caminha pelas ruas e os dilemas e a vida complexa brota do chão para que ele colha e faça literatura de qualidade com ela. Wole Soyinka, nigeriano prêmio Nobel de literatura de 1986, sabe fazer isso, mas a gente não sabe que ele sabe porque até a Geração Editorial lançar O Leão e a Joia, a gente não tinha absolutamente porcaria nenhuma dele traduzida.

O Leão e a Joia, entretanto, é uma peça de teatro, e embora o sujeito tenha escrito toneladas de peças, também escreveu toneladas de romances e ensaios, então não dá muito pra saber qual é a vertente principal dele, se é que ele tem uma. De qualquer forma o livro dá uma boa ideia das questões que lhe preocupam, já que é uma peça estritamente alegórica, sendo bem pobre de valor literário, na verdade.

Basicamente, é um triângulo amoroso entre a jovem Sidi, que é a gostosinha da tribo yorubá de Ilujinle, ou a joia de Ilujinle, Baroka, que é o velho bale da tribo (bale é tipo um vassalo do Obá, que é o rei da nação), também chamado de Leão, e Lakunle, o professor da tribo. Aí você já consegue perceber os contornos das alegorias: Baroka representa a África hardcore, a parada tribal, ritualística, tradicional, de faca no bucho e tripas na frigideira, e Lakunle é a cultura europeia assimilada, a caricatura pós-colonizatória do africano pseudo-intelectual. E Sidi, ela mesma, é a África dividida entre abraçar o novo ou aferrar-se às raízes. Contudo, sua personalidade egocêntrica é a própria razão da sua ruína. Cabe que ela fica se achando a gostosa depois que um rapaz de Lagos, que está para Ilujinle assim como São Paulo está para Curitiba, tira fotos dela, o que automaticamente alça a garota a um patamar superior ao do próprio bale.

Wole SoyinkaMas Sidi não está necessariamente inclinada a um ou a outro. Ela acha Baroka velho demais para ela, e como o cara já é cheio de esposas, ela acha que isso é um futuro pouco digno pra preciosidade que ela é. Por outro lado, Lakunle é bundão, não quer pagar o “preço” da noiva, e é cheio de ideia de zé ruela, tipo achar que as mulheres são mais burras que os homens e que isso é um fato cientificamente comprovado. Fazendo uma leitura rápida, dá pra sacar que se por um lado, optar por permanecer no que os europeus consideram primitivo, somente à guisa de automatismo, é por demais pobre e simplista para um continente tão rico e poderoso. Por outro lado, o povo africano não se sente completamente pronto para abarcar uma opção civilizatória feita nas coxas, sem qualquer estrutura maior do que a apresentação dos elementos. A coisa parece falsa, e mais do que isso, parece forçada e caricata. E isso não sou eu quem estou dizendo, é tudo o que os personagens dizem sobre os papeis que representam com gestos, falas e atitudes.

Acho que falar mais do que isso sobre a trama seria estragar muito a diversão, já que essa é uma das maiores qualidades do livro: seu desfecho razoavelmente imprevisível. O que posso acrescentar a essa breve explanação, e não pretendo me estender muito no post de hoje, é que, como parte de todo espetáculo africano, a coisa é construída muito mais do que com palavras. Danças, pequenas peças dentro da própria peça (peçaception?), e gestos muito caricatos por parte dos personagens não deixam muita margem para sutilezas. Tudo em O Leão e a Joia é muito escancarado, o que é uma coisa boa se você não tem muita paciência pra teatro, mas uma coisa ruim se você esperava um pouco mais de profundidade dos personagens. No fim das contas, é uma peça extremamente didática, dessas pra ser debatidas na sala de aula mesmo (atenção, professores que ainda não foram rendidos pelo sistema!), mas dificilmente seria um material literário mais rico do que isso. Tenho certeza, contudo, de que essa peça montada deve ser um show.

Aliás, essa edição da Geração Editoral, embora tenha uma capa que não é muito do meu agrado, é bem completa com fotos de montagem da peça, diversas notas para explicar as coisas africanas que a gente não entende e um prefácio razoavelmente esclarecedor para os mais ávidos por subtextos. Papel pólen, fonte grande e uma gramatura boa para fazer um livro de dramaturgia parar em pé e ainda por cima, machucar alguém, caso arremessado com força suficiente. Vou parando por aqui.

Pra quem quiser ler um pouco mais sobre literatura nigeriana, deixo aqui outras duas resenhas que eu fiz. Meio Sol Amarelo, da Chimamanda Ngozi Adichie, e O Mundo se Despedaça, do Chinua Achebe. E para quem quer mais África geral, fica esse aqui.

PS: Seu blogueiro atencioso agendou o post de hoje para sair ontem, de modo que ele já está a 24 horas no ar e isso não é justo com o assinante do Livrada! De maneira que vou fazer uma promoção relâmpago no dia de hoje. Quer ganhar esse livro? Seja o último a comentar nesse post até a meia-noite de hoje. Vale comentar quantas vezes quiser. Vai.

Comentário final: 150 páginas em papel pólen. Epa epa Ê!