Chico Buarque – Budapeste

Deeeeeeeesde os tempos mais primórdios, o Livrada taí! (taí, taí!). Criticando obras completas, educando os asceeeeeeeeclas das bibliotecaaas ôôô. Coeeeeetzee, Kadaré e Guimarães Rosa, Pedro Juan e Vargas Llosa (que lindo, que lindo!) Kadaré, Philip Roth e Villa-Matas, quem não gosta do Livrada é um puta filho das patas!

É carnaval, meu povo! É daqui a três dias que o ano começa, daqui a nove meses que os bastardos nascem e daqui a dez anos que os soros-positivo batem as botas. Brasileiro se ferra o ano todo, oprimido pela máquina terceiromundista, sendo roubado pela frente e por trás, mas chega no carnaval… Globeleeeeeza! Ê mundo bão de acabá, mas vamo que vamo que o livro de hoje não vai se criticar sozinho. Opa, mentira, vai sim. Já viu a rasgação de seda que vem atrás de qualquer edição do Budapeste? Em qualquer outro livro, os elogios são do naipe de “Intelectual-do-qual-você-nunca-ouviu-falar”, “Gazeta de Moçoró”, “Mãe do autor”, “Blogueiro-virgem”. Mas rá! Chico Buarque não, negão. Aposto que rolou um leilão pra ver quem iria figurar nos comentários de capa e contra-capa, mas acabou que ganharam Caetano Veloso e José Saramago. Quase nada, né? Dois zés-ninguém, afinal. É esse tipo de coisa que me fazia levantar uma sobrancelha pra literatura do feio bonito, assim como o faço com qualquer unanimidade/vaca sagrada.

Mas, meus camaradinhas, eis que me rendi ao charme do velhote. Budapeste é mesmo um livro sensacional, e digo mais: em termos de ambição literária, poucos autores podem se gabar de ter chegado tão longe quanto Chico com esse livrinho.

Pra quem não tá ligado na história, aqui vai uma desde já malfadada tentativa de resumo da ópera (embora eu sei que não devesse porque acho que esse livro vai entrar na lista de alguns vestibulares esse ano, mas bora lá ser irresponsável e baixar as espectativas do sistema educacional): O protagonista é um ghost-writer chamado José Costa. Para quem não sabe, um ghost-writer é o cabôco que, em troca de muito dinheiro, escreve discurso pra político, autobiografia de alheios e outras paradas afim sem nunca levar o crédito por nada (“Ah, pára com isso, Yuri, todo mundo escreve suas próprias obras!”). Digamos então que é uma espécie de Peninha da literatura. De qualquer forma, parece que os ghost-writers se reúnem em congressos e encontros, uma parada bizarra para profissionais anônimos, eu sei, mas foi exatamente numa dessas, na Turquia se bem me lembro, que José Costa acaba parando em Budapeste, por causa de qualquer incidente com voo, essas bagunças de aeroporto. Lá ele se apaixona pela cidade, e na volta tudo é diferente: sua mulher já lhe parece mais distante, seu emprego pouco satisfatório e eis que surge um alemão sem pêlo no corpo pedindo uma autobiografia. O sujeito trava pela primeira vez na história do tedesco e termina de qualquer jeito antes de se mandar para umas férias de período indeterminado na Hungria, enquanto a esposa viaja pra Londres. E aí que conhece a Krista, a branquinha de Budapeste, que resolve ensinar a língua magiar pra ele. Só que enquanto isso, não é que o livro do alemão que ele escreveu e batizou de O Ginógrafo bomba nas Megastore da vida? É autógrafo pra lá, entrevista no Jô pra cá, um oba-oba dos infernos que começa a mexer com a vontade do Costa de querer ser reconhecido. E aí a vida do cara vira EL DESBARRANCADERO. Mais do que isso é Spoiler, menos do que isso é orelha e mais sério do que isso é redação de quinta-série. Então paremos por aí.

"Você tá igual melancia na roça, gata, tá rachando de boa"

Primeiro: é de babar o jogo de espelhos que o autor constrói nesse livro: Rio de Janeiro/Budapeste, Esposa/Amante, português/húngaro (aliás, me expliquem. Se Búlgaro – Bulgária, por que não Húngaro – Hungária?), anonimato/fama, riqueza/pobreza, etc etc. E a maneira como esses dois mundos vão colidindo é qualquer coisa tão sensacional que se J.J. Abrahams tivesse pensado antes, Fringe não seria a porcaria ininteligível que é hoje.

Segundo: acho que como o Pedro Camacho na Tia Júlia e o Escrivinhador, Chico Buarque quis traçar planos ideais: o que seria o anonimato ideal para um ghost-writer? Qual seri a situação limítrofe que o empurraria para fora desse anonimato? O quanto se pode realmente dominar uma língua estrangeira, e em quanto tempo? Essas questões são levadas ao extremo em Budapeste, e quem é que não gosta de um extremismo por essas bandas? Quem, eu pergunto, quem não liga para extremismo na terra do azeite de dendê, da suruba, do Rio-quarenta-graus, da PM truculenta, do Impostômetro, da surra de bunda, do Pit-boy com orelha de couve-flor, de Otto Maria Carpeaux, de Sérgio Porto, da venda de cimento que aumenta 500% em ano de eleição?

Terceiro: o livro guarda mais ação, suspense e narrativa dinâmica que muito fast-pace de aeroporto que a La Selva se adianta pra colocar na vitrine. Do jeito que a gente anda mal das pernas na literatura nacional, se tivesse só uma narrativa irada já valeria a pena, mas é tão mais que isso que é ou não é pra ficar bolado com esse tal de Chico Buarque que, além de falar húngaro de verdade, ainda por cima tem olho azul. Deus, por que és tão injusto conosco?

Esse projeto gráfico da Companhia das Letras é feito para uma edição econômica, que reduz o preço do livro em uns bons 40%. Fonte janson pra caber mais, papel jornal porque mofo é para os fracos, sem orelha (impressionante o quanto uma orelha pode encarecer o preço final de um livro. E pra quê? Pra conservar as pontas e pagar pra um almofadinha qualquer jogar confete no livro que eles já estão tentando vender) e num formato um tanto maior que não vou medir a essa hora da madrugada. Mesmo assim, tem uma margem confortável na página e a capa é bem bonita, fazendo uma menção ao tal jogo de espelhos a que me referia. E é essa a edição que eu tenho e é essa a edição que eu recomendo pra vocês. Por quê? Porque eu não quero que vocês abram falência por causa desse blog e porque o Chico Buarque já tá rico o suficiente, ele não vai ligar se vocês comprarem a edição barateza mesmo. Fiquem com JAH e usem camisinha.

A propósito: CURTAM A PÁGINA DO LIVRADA NO FACEBOOK. Grato.

Comentário final: 113 páginas em papel jornal. Desses pra enrolar o livro num tubo e dar na cabeça das crianças dizendo “menino levado!”.

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Ruy Castro – Carnaval no fogo

Começo essa semana com um livro que acabei de ler. Não se assustem, criançada, eu não leio um livro por dia, mesmo porque não posso. Até então, tudo o que vocês leram nesse blog foi fruto de leituras pretéritas e uma relativa boa memória para livros que eu tenho graças a minha alimentação balanceada (tudo faz peso na balança) e minha abstenção do Gelol da Alma, o álcool (a benção, André Dahmer). Mas o livro de hoje, que ficou muito tempo figurado ali embaixo, no cantinho inferior direito, onde diz “Estou lendo”, finalmente foi concluído e está pronto para meu comentário nada abalizado, ainda mais em se tratando de Ruy Castro, um cara, que, pelo que eu ouvi, não gosta de nós, morlocks da imprensa. Então fica combinada a regra: enquanto não termino de ler o livro que está descrito ali embaixo, vou colocando outros que já li aqui, e assim que terminar algum, corro para a resenha do dia, ok?

Se Ruy Castro tem um talento visível aos olhos, é o de fazer o leitor se interessar pelos seus temas, mesmo que o tema em questão ainda não seja do interesse de alguém. Não me admiraria se houvesse, por exemplo, mais gente que leu o Anjo Pornográfico do que leitores assíduos de Nelson Rodrigues. Ou ainda, leitores que devoraram o seu Chega de Saudade e torcem a cara quando uma bossa nova qualquer toca no elevador de algum prédio chique. E com certeza há mais gente que leu Carmen do que gente que já viu algum filme da gaja mais brasileira aos olhos de Hollywood.

Sua fluidez de narrativa não é diferente em Carnaval no Fogo – crônica de uma cidade excitante demais, publicado pela Companhia das Letras e parte da coleção O escritor e a cidade, uma dessas coleções que eventualmente as editoras fazem para atacar o mercado com a força de quatro ou cinco escritores. No caso, mais três além de Castro: David Leavitt, que escreveu sobre Florença; Edmund White, sobre Paris e Peter Carey, sobre Sidney. Carnaval no Fogo é uma extensa crônica sobre a cidade do Rio de Janeiro, as particularidades e a história dos principais bairros e histórias curiosas sobre seus habitantes. Foi um dos vários livros que li sob a recomendação do José Carlos Fernandes, jornalista da Gazeta do Povo que, entre nós, ganhou a alcunha de o Gay Talese brasileiro. E ó, vale a pena, hein?

Ruy Castro, com esse livro, pode ser considerado talvez o primeiro escritor sustentável que já existiu. Não sustentável no sentido de que o papel do livro foi impresso em papel higiênico usado ou outras maluquices ecológicas, mas sustentável em seu tema. Ora, o sujeito passou a vida inteira falando de Carmen Miranda, Garrincha, Nelson Rodrigues, Bossa Nova e o caralho a quatro mais que tiver passado pelo Rio de Janeiro. Que mal tem então pegar todo o rebotalho dessas pesquisas, dar uma recauchutada em tudo e lançar um livro cujo personagem maior é o pano de fundo de todos seus outros livros? E, ao contrário da sobra da pasta de coca que vira merla e crack, o Carnaval no fogo não tem sua qualidade prejudicada por essa reciclagem de informação. Pelo contrário: a quantidade de informação do livro é tão grande que talvez seja a crônica mais bem escrita sobre uma cidade e seus personagens históricos. Parece que Ruy viveu esses anos todos no Rio e ficou só olhando quinhentos anos de história para escrever essa pequena obra. Na verdade, tem horas que ele exagera — o leitor ideal dele nesse caso teria que, além de ficar de falcão na história brasileira, obter conhecimento de mundo referente à história da Europa e das navegações de uma maneira geral. Então cuidado se você for um desses que se perde em meio a muitos nomes e datas, o Carnaval no fogo pode foder sua cabeça bonito! Mas calma, muito provavelmente é só impressão minha. Acho que, às vezes, ele só usa algumas referências obscuras pra não perder o ritmo e não pecar por falta de adjetivação. Com seus leitores, Castro não se incomoda se alguns são burros. Com os jornalistas, entretanto e já dissemos, parece que a banda toca diferente…

A edição da Companhia das letras é simpática, então palmas para o Raul Loureiro, seu idealizador. Com ilustrações de traço livre de Felipe Jardim, papel pólen soft de praxe e fonte Filosofia, uma fonte com as serifas redondinhas. Achei irada. E o melhor: encadernação e acabamento em capa dura, que, pelo preço dos livros hoje em dia, devia ser praxe também.

Comentário final: 254 páginas pólen soft com capa dura. Bom pra quando você não acha o martelo…