Yasunari Kawabata – A Gangue Escarlate de Asakusa (Asakusa Kurenaidan 浅草紅團)

Asakusa KurenaidanKawabata para as massas! Kawabata, Kawabata, Kawabata! É o puro suco da literatura japonesa. Referências a Rodney-Dy à parte, vamos falar hoje mais uma vez desse grande mestre da literatura japonesa que raramente deixa a desejar no que se propõe a fazer. A Gangue Escarlate de Asakusa foi escrito entre 1929 e 1930 – quando o grande mestre tinha apenas 30 anos e estava empenhado em ser um nome moderno para a literatura do Japão. Se não me engano, até então ele só havia publicado A Dançarina de Izu, que era uma narrativa muito modesta, de modo que esse livro é o seu primeiro romance longo.

Pode ser impressão minha ou vontade inconsciente do autor, mas o fato é que Kawabata estava impregnado daquele espírito ocidental do flanêur, da peregrinação urbana de descoberta e estranhamento, descoberta e estranhamento. Pra falar a verdade, depois que descobri que A Gangue Escarlate de Asakusa tinha sido escrito mais ou menos na mesma época da Dançarina de Izu, fez sentido a minha impressão de achar o tom dos dois muito parecidos. Mas volto a isso mais tarde, vou falar um pouco sobre a história do romance para que vocês não fiquem perdidos.

Asakusa era um bairro de Tóquio, mas não qualquer bairro. Era o bairro da boemia, era a Lapa de Tóquio, o Largo da Ordem de Tóquio, a Boca do Lixo de Tóquio, o Kreuzberg de Tóquio, a Montmartre de Tóquio, a… enfim, deu pra entender. Era o lugar sujo com as prostitutas e os buracos de jazz e os freak shows e tudo mais. De certa maneira, o lugar representava a precoce decadência ocidental em um lugar há não muito tempo ocidentalizado como o Japão. Vê que os sujeitos assimilam tudo muito rápido, a começar pela nossa decadência. É lá que o autor-narrador (o próprio Kawabata, imagino), perambula com uma amiga, Yumiko enquanto descobre o lugar, seus atrativos e a tal Gangue Escarlate, também chamada de Companhia Escarlate. Basicamente, uma gangue de pequenos trambiqueiros, composta por jovens adultos e adolescentes imberbes que já saíram do seio da família e foram colocados na teta da maldade. Rodney Dy e Hermes e Renato no mesmo post sobre um prêmio Nobel de literatura, hein? Só aqui no Livrada! você encontra isso. Mas dizia eu, a tal gangue exerce uma espécie de fascínio temerário no narrador, que tenta conhecer um de seus membros enquanto passeia e descobre o bairro com seus olhos de flanêur. É lá que ele conhece uma mocinha de cabeça raspada que sonha em encontrar o homem pela qual sua irmã se apaixonou profundamente, assiste a um espetáculo de um homem que come através de uma boca aberta em sua barriga e assiste cenas cotidianas meio bizarras, como um homem que come comida de carpa e um show de pequenas prostitutas.

kawabata asakusaNeste livro, que a pessoa que fez a orelha (provavelmente a tradutora, a grandessíssima professora Meiko Shimon) descreve como um exemplo da progressão da arte de Kawabata rumo ao desenvolvimento total de sua corrente neo-sensorialista Shinkankaku-ha, por meio de experimentações com a linguagem e o uso MUITO estranho de expressões e analogias nunca antes usadas, como por exemplo “estava andando e de repente parei como se alguém tivesse empurrado um buquê de flores vermelhas contra o meu peito”.  Mas para mim, o maior espanto com essa leitura de Kawabata foi ver a completa ausência de hierarquia entre narração e descrição para o autor. O cenário não serve à narrativa nem à narrativa serve ao cenário exclusivamente, mas ora uma se torna mais importante que a outra, mas nunca a ponto de cidade ou história serem fixados como a linha condutora do romance. Isso não só deve ser difícil pra caramba de fazer como arriscaria dizer que a única forma de fazer isso com a perfeição de Kawabata é uma completa despreocupação sobre a própria força narrativa aliada a uma tradição descritiva milenar da literatura japonesa, digna de uma Sei Shônagon. E é exatamente por isso que achei o livro parecido com a Dançarina de Izu. Em ambos também, Kawabata traz os olhos ocidentais que se espantam com as cenas japonesas mais estranhas, e também com as mais clássicas. É um olhar completamente inocente e desprovido de preconceitos ou expectativas. Isso traz uma sensação para o leitor de estar descobrindo junto com ele as características de Asakusa, e, se lido com atenção, o livro pode trazer um mapa mental perfeito do bairro sem nunca ter ido lá. E essa não é a graça da literatura, afinal de contas?

A Gangue Escarlate de Asakusa é o mais novo lançamento de Kawabata pela Estação Liberdade, uma editora muito simpática e competente que, por alguma razão que me foge completamente a lógica, não está alçada ainda ao panteão das grandes casas editoriais brasileiras pela crítica mainstream, que solenemente a ignora. O que é uma pena, pois não só a editora tem um acervo caprichado de grandes autores, como também tem edições bonitas e bem trabalhadas. A própria tradução desse livro, que sempre é comentada, é exemplo disso. Tudo bem que ela podia ser mais comentada, porque muita coisa sobre o Japão é subentendido como de conhecimento do leitor, o que não é verdade na grande maioria das vezes, mas acho que isso é reflexo dessa falta de interesse de nós, ocidentais de olhos redondos, pelas belezas que se escondem na boa e velha literatura japa. As páginas brancas offset estão sendo substituídas aos poucos pelo confiável pólen soft em alguns livros e a fonte Gatineau dá um charme às páginas internas, completas com cabeço superior e ilustrações originais de Ota Saburo (que fez as ilustrações para a primeira edição do livro) no começo e no final das páginas. Um pitéu.

Comentário final: 216 páginas offset com fonte Gatineau. Sayonara, compadres!

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Don DeLillo – Homem em Queda (Falling Man)

Falling manAdivinha doutor, quem tá de volta na praça? Don Delillo, camaradagem, aquele escritor norte-americano que não deixa barato pra ninguém e faz de cada livro uma verdadeira obra de arte. Todo mundo que lê esse blog sabe que eu sou suspeito para falar do cara, mas saibam vocês que Homem em Queda, seu penúltimo lançamento (antecessor de Ponto Ômega, sua obra mais cabeçuda, na minha opinião), é, sim, um livraço como de costume, mas não prometo me estender no post de hoje por um motivo muito nobre: meu computador quebrou e tá difícil achar onde escrever. Felizmente fim de ano está chegando e quem sabe neste ano eu não dê presente para ninguém a não ser eu mesmo, afinal de contas, ó, mundo tão desigual.

Pois muito bem: se você olhar a capa de Homem em Queda (não olhou? Olhe agora que eu espero) não é difícil perceber que o livro trata dos ataques às torres gêmeas, naquele fatídico onze de setembro de 2001. Não sei por que todo mundo tem essa curiosidade mórbida de perguntar onde a gente estava durante os atentados, mas se alguém quiser saber, eu estava dormindo numa aula importantíssima de física. Pronto, passemos adiante. Dizia eu que Homem em Queda trata das torres, e tem como protagonista um homem chamado Keith, um sobrevivente do atentado que emerge do caos de poeira e destroços como um… eu ia dizer como uma fênix, mas aí pensei em algo menos gay pra falar e não achei, então vai fênix mesmo. Ele, ao invés de tomar qualquer providência racional, volta pra casa da ex-mulher, que mantém uma relação familiar passivo-conturbada com a mãe e seu padrasto, um sujeito misterioso que viaja o mundo e tem família em algum lugar da Europa, e revive o suicídio do próprio pai, que estourou os miolos com um rifle de caça certo dia. A chegada repentina de Keith transforma a relação do casal e cria um ambiente de reaproximação, o que pode ser muito bem visto como as mudanças inesperadas que condições extremas acarretam para a vida de pessoas simples. O filho do casal, Justin, entretanto, se torna obcecado com a figura de Bin Laden (ou Bill Lawton, como ele o chama por entender errado o nome). Ele fica noiado, patrulhando os céus à procura de novos aviões e obcecado com as características físicas e comportamentais do inimigo número 1 dos Estados Unidos.

Don DeLilloAo mesmo tempo, Keith entra de cabeça em uma existência vazia de encontros amorosos com a dona de uma bolsa que encontra em meio aos destroços e viagens a Las Vegas para jogar poker, numa retomada de um hábito pré-onze de setembro com amigos peculiares que desempenham papéis diversos após o atentado. Sua mulher, Lianne, também começa a presenciar os feitos artísticos de um louco performático chamado de Homem em Queda, que fica pendurado por um pé com um cinto de segurança de pontes, postes e outros locais altos, para depois cair e se esborrachar no chão. Por último, a narrativa contempla ainda a vida de dois dos terroristas responsáveis por sequestrar os aviões. Em resumo, Homem em Queda, oferece uma multiplicidade de narrativas que servem unicamente para tratar o que toda a literatura que se dedicou ao fenômeno tratou: as diferenças, em vidas diferentes, de um mesmo evento, divisor de águas, histérico e dramático.

Particularmente, o excesso de americanismo nesse livro me chateou um pouco, já que eu sempre vi a literatura do DeLillo como algo universal e sem localismos, mas não dá pra culpar o cara já que todo americano, em maior ou menor grau, acha que o onze de setembro é um troço que diz respeito ao mundo inteiro, e não só a ele (e os posteriores atentados na Europa trataram de reforçar esse discurso). Mesmo assim, acho que a grande sacada do romance, em sua estrutura, é a diversidade de significados do atentado. Uma nova chance para os casais, que não têm outra escolha senão sublimar suas dificuldades ante a catástrofe nacional, um novo monstro para as crianças, para moldar suas infâncias, entretendo-as e amedrontando-as, um novo conceito para a arte, que ganha novos assuntos e ares de ativismo em sua vertente performática (a favorita de DeLillo, visto Ponto Ômega e A Artista do Corpo, já resenhado aqui), e uma necessidade quase urgente de retomar a existência tal qual fora antes, num simulacro de normalidade que só pode iludir os que se propõem a ela em momentos de calma e concentração, já que os tempos são mesmo sensíveis (há uma passagem ótima em que Lianne fica irritada porque a vizinha fica ouvindo “música étnica”, não necessariamente árabe). Mas a prosa do autor é invariavelmente sagaz, aguda, e a rapidez dos diálogos torna algumas partes engraçadas. Fico meio bolado com o fato de todos os personagens dele serem extremamente inteligentes e sagazes. Até as crianças! Sempre fico com a impressão de que, se eu estivesse num universo de DeLillo, seria a pessoa mais burra da face da Terra, mas isso é outra coisa e fica entre eu e meu psicanalista. Vocês ficam com esse belo livro da Companhia das Letras com papel pólen soft, fonte Electra e todos os cuidados de sempre, com tradução do grande Paulo Henriques Britto.

Comentário Final: 256 páginas de pura sagacidade narrativa. Toma essa, Bill Lawton!

Paulo Scott – Habitante Irreal

paulo scottTinha algumas metas de leitura esse ano, que até estipulei para mim mesmo no Desafio Livrada 2013 (como estão vocês com os seus?), mas se dissesse que consegui cumprir algum deles, estaria mentindo. O que não quer dizer que não tenha conquistado outros objetivos com os livros que me passaram pelas mãos ao longo do ano (e devo dizer que este ano foram poucos, em comparação com anos anteriores. Vida que freia, sabe como é, todo mundo precisa parar e respirar mais). Conheci mais dos russos, descobri autores novos muito bons e, mais do que isso, realmente me empenhei em encontrar autores brasileiros contemporâneos que valem a pena ler (e valer a pena ler já é demais pra grande maioria da produção atual). Paulo Scott, com esse Habitante Irreal, foi uma descoberta surpreendente. Jamais imaginaria tanta profundidade cultural, temática e literária em um romance escrito em 2011. Recado pros mau-amados da área: tem spoiler.

O romance tem como ponto de partida o final da década de 80 e um protagonista chamado Paulo, portoalegrense descontente com os rumos que o PT tomou depois de conquistar a prefeitura na capital do Rio Grande do Sul e com seu trabalho numa firma de advocacia. Ele resolve pedir a desfiliação do partido, as contas no emprego e fica meio perdido na vida até que encontra uma indiazinha de 14 anos na beira da estrada pedindo carona. Ao dar carona pra ela, ele começa a se envolver com a vida de Maína, que é o nome da indiazinha, numa espécie de compensação político-cultural pela opressão colonial e pelo descaso do seu partido com as minorias marginalizadas. Pelo menos foi isso que eu entendi. Só que, obviamente a parada pega mal, porque se esse negócio de “estupro de vulnerável”, como costumam chamar, já é complicadíssimo, com uma índia dimenor, rapaz, a turma dos direitos humanos cai matando. O sujeito vai pra cadeia depois de uma merda com a polícia e passa um tempo em Londres porque, sei lá, passar a pior em Londres não é coisa só de Orwell. Enquanto isso, no Brasil, Maína, que tinha engravidado do Paulo, dá a luz ao Donato, um rapaz índio que acaba sendo adotado por um casal de assistentes sociais, ou algo assim. E a partir daí, começa uma história sobre passado, cultura, política, erros e acertos cujo teor preciso generalizar para esse blurb sob pena de entregar mais do livro do que já entreguei.

por Renato ParadaO pior de tudo é que está justamente nesse desenrolar a maravilha do texto do Scott, de modo que fica bastante complicado fazer uma resenha adequada desse livro só com essa sinopse geral, mas vou deixar assim mesmo. Se você ainda não teve vontade de ler esse livro pelo que eu falei aqui, leia pelo que eu ainda não falei. O jeito como o autor conduz a obra é de uma maturidade literária jamais vista nessa geração de escritores, e lembra gente do naipe de Don DeLillo e Philip Roth. E a temática – isso de discutir a geração que atualmente está no poder no Brasil, e debater as relações delicadas com nossas raízes – é igualmente sem paralelo na nossa atual literatura. Scott sabe separar bem os estilos, e se resolve ser prosador poético em um capítulo, o faz distintamente da prosa geral do livro, que é densa e sem maiores floreios.

E essa também não é uma história bonita, muito pelo contrário. A literatura dele, comumente suja, chega atropelando em tabus e vira para lados que o leitor não necessariamente quer ler, mas é confrontado com um mundo sujo e amoral à força. E as conexões que o livro sugere são ainda mais assustadoras, mas isso é trabalho para o leitor e não para o comentador do livro.

O projeto gráfico da Alfaguara é demais, e essa capa é meio engraçada e meio assustadora, mas, no geral, não foge muito dos outros livros da editora. À exceção de alguns capítulos, que o autor escreve inteiramente no formato de nota de rodapé, pra dar a entender que a história ali não está sendo narrada, mas meramente comentada e preparada paras as próximas páginas. No mais, é um livro sombrio, delicado e raivoso. Gostei

Comentário Final: 260 páginas de papel pólen. Uma porrada na cabeça do PT.

Thomas Bernhard – Extinção (Auslöschung – Ein Zerfall)

Auslöschung - Ein ZerfallVocê provavelmente já ouviu falar de Thomas Bernhard. Não? Bom, o austríaco nascido na Holanda parece desfrutar de grande popularidade em meio a alguns círculos específicos de pessoas interessadas numa literatura mais “cabeça”. Coloco aqui a gíria entre aspas não por ser gíria, mas por sua pretensa intelectualidade ser extremamente duvidosa ao meu gosto e ao pouco que conheço de sua obra. Ele tem alguns livros publicados aqui no Brasil, todos pela Companhia das Letras, e desses alguns, poucos são romances – a maioria são contos, e eu acho que conhecer um autor por seus contos é meio que fazer um retrato falado de alguém virado de costas pra ela. A menos, é claro, que o sujeito esteja no olimpo dos contistas, com sangue de contista na veia e troféus de contos por livros de contos, e todo mundo aqui conhece um exemplo ou outro de escritor assim.

Pois bem, peguei Extinção pra ler. Seu calhamaço de letrinha miúda não me intimida, mas vou aqui fazer uma breve explanação do livro e explicar porque, na minha opinião, esse romance merece um “meh” de minha parte. E digo opinião porque sei que pipocam dissertações de mestrado e teses de doutorado sobre esse cara, mas, amigo, sinceramente, tô cagando pras análises sobre a obra do sujeito. A mim, interessa sobretudo o que o livro consegue passar como valor absoluto, e posso viajar o quanto eu quiser e atribuir significados ocultos que podem ser ou não as reais intenções do autor na produção do livro, ainda vale o que tá lá e o que pode ser ou não ser.

Bom, Extinção é narrado em primeira pessoa e fala de um tal Franz-Joseph Murau, um professor austríaco que mora na Itália e é tipo a ovelha negra de uma família tradicionalíssima de algum buraco negro e depressivo do interior da Áustria. De repente, o cara recebe um telegrama falando que seu pai, sua mãe e seu irmão mais novo, todo mundo morreu num acidente terrível de carro, e suas duas irmãs, que se vestem iguais e só fazem palhaçada, o convoca para o funeral. Aí bate o desespero no sujeito de ter que voltar pro buraco de onde veio, e começa um longo monólogo em que ele se propõe a meter o malho na família morta por mais de 400 páginas. O sujeito não para, e o livro segue basicamente nessa toada, com um pequeno plot-twist lá pras tantas do romance que não me cabe dizer porque é muita sacanagem da minha parte estragar pra vocês a única coisa que acontece no livro.

Thomas BernhardCerto. Temos aqui um austríaco esquisitão, que sofreu de tuberculose e foi internado num hospício falando mal da Áustria em um romance longo sobre desagregação familiar – em alemão, é lógico. Ora, meus amigos, quem disser que nunca viu isso antes, que acha que taí uma coisa original, tá precisando se inteirar mais na literatura germanofônica (se é que existe essa palavra). A Áustria, a Alemanha e a Suíça estão cheios de Nestbeschmutzer, como os chucrutes gostam de chamar o povo que caga no prato que come. Aliás, me apresente um escritor austríaco, um escritor que seja, de alcance internacional, que não fale mal da Áustria. E me mostre um escritor de língua alemã que não tenha escrito um livro onde o protagonista se dedica a reclamar da vida e da família. Amigo, isso é a coisa mais normal do mundo por lá! E quantos desses não foram internados em hospícios ou sofreram de doenças ao longo da vida? Vish, esse cara é uma colagem do escritor alemão ideal. E, pô, vamos falar a real, né? Malhar a família deve ser o passatempo nacional desses países, pra chegar no ponto do sujeito precisar inventar uma família fictícia pra falar mal dela. Todo mundo é caipirão, pseudo-intelectual, idiota de nascença, cheio de dedos com os outros, e por aí vai. 400 páginas disso. Não chega a ser necessariamente chato, mas fique ciente desde já do que você vai encontrar nessas páginas.Talvez essa seja a sinopse mais curta da história, mas não tem muito mais além disso. O cara fala mal da família inteira dele, só poupa o tio Georg, que é sangue bão justamente porque odeia a família que nem ele. Ele fala boa parte das coisas pro aluno dele, um tal Gambetti, por quem ele nutre um carinho meio estranho, mas deixemos isso para os outros, porque bem se sabe que o Bernhard era um cara esquisito tipo o Coetzee… ninguém sabia direito qual era a dele.

O projeto gráfico do livro, por outro lado, é excelente. Um cuidado na fonte e na capa estritamente gráfica, e a carona do Bernhard no verso, pra matar de medo quem te vê lendo ele. Legal que a capa é meio que uma orelha do livro, embora os textos não coincidam, sem falar que é de um pretão absoluto de dar medo, que também ajuda na impressão de que você está lendo algo muito sério. Papel pólen, fonte Electra miudinha e uma encadernação de brochura de dar inveja nos maconheiros, de tão prensadinha que ela tá.

Comentário final: 480 páginas em papel pólen. Traumatismo ucraniano… ou austríaco.

Cormac McCarthy – Todos os Belos Cavalos (All The Pretty Horses)

All the pretty horsesTodo mundo que me lê aqui sabe que eu começo falando dos livros pra depois falar da edição. Mas vou inverter a pirâmide hoje (tá ligado em pirâmide invertida? É gíria de jornalista pra prexeca, só quem é malandro sabe) e começar falando da edição. Todos os Belos Cavalos foi lançado pela editora Planeta DeAgostini, que fez a coleção Grandes Escritores da Atualidade, uma dessas coleções de banca de jornal que você compra quinzenalmente pra dar a chance do jornaleiro de ter carne na ceia de natal dele. De modos que esse livro, caso você goste do que eu vou escrever aqui hoje, vai ser meio difícil de ser encontrado, porque a Companhia das Letras, que é quem o publica, deixou esgotar a edição e nem sequer se dignou a fazer uma reimpressão desse que é top 3 das minhas leituras desse ano.

Enfim, a coleção foi lançada em 2003/2004 e era vendida a R$16,90 cada exemplar. Só que os caras fizeram uma coleçãozinha matadora, com títulos como Reparação, Abril Despedaçado, Voragem, Pastoral Americana, Ruído Branco, Todos os Nomes, O Ano da Morte de Ricardo Reis, Os Versos Satânicos, Santa Evita, Quando Éramos Jovens, Os Cadernos de Dom Rigoberto, Se Um Viajante de Uma Noite de Inverno, Os Mímicos, Coelho Corre.. ah, é demais, cara. Quando descobri isso fiquei meia hora batendo a cabeça na parede me perguntando onde diabos eu estava com a cabeça em 2003 que passei por várias bancas de jornal e não comprei nada disso. Enfim, passou e esse livro foi resgatado pela digníssima num sebo via Estante Virtual, anteriormente propriedade de um certo Ariel R. Pinheiro, que, vou dizer, deu mole ao vender essa joia provavelmente pelo valor de um maço de cigarros. A coleção é caprichada, com capa dura, uma foto boa pacas na capa e de resto, a mesmíssima tradução da editora original, que provavelmente fez com capricho. Recomendo, e agora que vocês já estão ávidos pela coleção, vamos ao livro em si.

Todos os Belos Cavalos é o primeiro volume de uma trilogia chamada “The Border Trilogy”, ou a Trilogia da Fronteira. São romances ambientados na fronteira entre os Estados Unidos e o México. Seguem a esse o A Travessia (também esgotadão na editora, nem adianta chorar) e Cidades da Planície (talvez esse ainda tenha alguma coisa), os quais certamente estão entre as minhas próximas leituras, todos devidamente providenciados. Por hora, posso falar do primeiro. O livro conta a história de um sujeito chamado John Grady Cole, que veio de uma família de fazendeiros do Texas e cujo sonho maior é… tchanam! Ser fazendeiro. Mas justo quando chega a vez dele de assumir, o avô morre e o resto da família acha por bem vender a droga da fazenda que nunca deu dinheiro mesmo. Ele luta com isso o quanto pode, mas quando vê que não tá dando pé pra ele, resolve pegar um cavalo junto com o primo, de sobrenome Rawlins, e partir pro México, sem nenhum plano muito mais elaborado na cabeça. E aí ele chega numa fazenda mexicana, resolve domar os potros selvagens, se apaixona pela filha do hacendado e se mete em altas confusões, ao estilo faroeste cabôco do McCarthy. Seus personagens são todos sábios taciturnos, ninguém fica desfiando muitas teorias e ninguém vacila  com os sentimentos na frente de ninguém. Onde os fracos não tem vez.

The Border TrilogyA sacada é que tudo isso se passa no ano de 1949, se fiz as contas direito, ou seja, algum tempo depois da época das grandes diligências e da época em que as pessoas faziam viagens de cavalo. A guerra já tinha acabado, “Guerra Fria” era um conceito moderno, como “sustentabilidade” é pra gente hoje, o bebop tocando nas vanguardas e tudo mais, e o cara viajando a cavalo. É justamente essa a graça dos romances desse senhor. Sabe quando você vê essas propagandas patéticas do governo incentivando as pessoas a lerem dizendo “quando você lê, você se transporta para outro mundo”. Bom, isso é balela pra 90% dos livros que eu leio, mas não para os livros do Cormac McCarthy. A parada sempre vai numa vibe meio Red Dead Redemption, meio Sergio Leone, meio propaganda de cigarro (galera que é mais novinha que lê esse blog nem deve saber do que eu tô falando). Bate uma sensação de liberdade, um isolamento do tempo, um despreendimento dos problemas mundanos em favor de questões existenciais.

Porque essa é outra beleza da literatura de McCarthy. A ideia de que mesmo entre pessoas de vida mais simples, ainda há a inquietação cósmica, a vontade de entender o ininteligível, o desassossego da alma e o debate metafísico. Talvez até com mais propriedade, ante o contato maior com a vida do que nós, citadinos bunda-moles. E talvez por isso também o livro faça referência, em seu título, apenas aos cavalos, esses seres que são tratados com todo o carinho e veneração por seus donos. Os personagens de Todos os Belos Cavalos conhecem histórias de cavalos famosos, leem sobre cavalos, discutem sobre cavalos, comparam cavalos, matam e morrem por cavalos. E os cavalos continuam bichos, não são repletos de humanidade como em um certo filme do Spielberg que deveria inaugurar o Oscar de Melhor Cavalo, mas também nem por isso são desprovidos de profundidade ou vida. Entendem os homens, criam laços com eles, mas não se furtam a arroubos de susto e surpresa ante suas atitudes. Ainda são apenas cavalos, mas paradoxalmente são muito mais do que isso.

O que é estranho (e não deixa de ser uma qualidade) é o apelo comercial desse livro, que poderia muito bem virar um drama de faroeste moderno nas mãos de um charlatão de Hollywood. Acho que isso é uma técnica de sobrevivência dos escritores nos Estados Unidos. Nunca fazer um livro puramente contemplativo ou sisudo demais. Sempre tem que dar uma brecha pra, caso surja o desejo, adaptar a coisa pro cinema. Deve ser bem difícil conviver com esse povo ignorantão que mora nessa terra esquecida por Deus por causa disso, mas por outro, a coisa trabalha como um darwinismo literário: quem se sobressai, vira sucesso de crítica e público, e isso nunca vai ser algo ruim em tempos de Quentin Tarantino.

Por fim, Todos os Belos Cavalos pode ser o livro que vai te distrair durante um final de semana ou uma leitura que vai te marcar pela beleza, singeleza e profundidade. Assim como num finado programa da Globo, você decide.

Comentário final: 272 páginas do mundo de Marlboro. Oh yeah!

Milan Kundera – A Brincadeira (Zert)

zertEstavam com saudades? Puxa vida, hein, não dá pra ficar nem mais uma semana fora que esse povo me cobra! Brincadeira, seus queridos, vocês são até muito compreensivos, dado o fato de que não escrevi na semana passada porque fiquei jogando Skyrim. Bom, eu pago minhas contas e, por outro lado, não tem ninguém pagando pra eu fazer esse trabalho periódico de leitura e resenha, leitura e resenha, leitura e resenha, de maneira que não nutro maiores ilusões de que não posso desapontar os fãs. Mas a verdade também é que dei uma desacelerada boa no ritmo das minhas leituras esse ano, e já está ficando difícil ler um por semana para resenhar por aqui, especialmente porque preciso e quero ler uns calhamaços que sejam dignos de nota e… ah, mas vocês não vieram aqui pra ficar lendo minhas lamúrias de leitor preguiçoso e gamer proativo, então vamos ao livro de hoje.

Zert! Zert, ou A Brincadeira, esse que é o primeiro romance do tcheco Milan Kundera. Aquele da Insustentável Leveza do Ser e de A Ignorância, já resenhado por aqui. Vou dizer uma coisa sobre o Milan Kundera desde já, e que serve tanto para quem o leu quanto para quem nunca o leu: Milan Kundera é um excelente narrador e contador de histórias, mas quando ele quer mostrar que é inteligente ou quer pagar de putanheiro, sai de baixo. Ô bichinho chato. Sinceramente, não entendo porque ele faz isso, ele e um cara legal e não precisa ficar se exibindo desse jeito – mesmo porque acho que ninguém vai ler o cara por causa de sua falsa erudição. Por outro lado, talvez esteja aí o segredo do sucesso que o rapazote de 91 anos faz com a juventude. Ora, quem nunca leu A Insustentável Leveza do Ser com seus 15, 17 anos e se achou muito esperto por ler aqueles ensaios sobre a alma feminina e a união soviética? O problema é que o sujeito para de fazer a sua cabeça quando você faz a curva dos vinte e tantos (se não houve nenhum obstáculo no seu crescimento sadio), e foi por isso também que peguei esse livro para ler. Queria ver o que havia na literatura desse cara que me abalasse.

E a resposta é: pouca coisa. Mas a parte que me toca, que é a da diversão de se ler um livro gostoso, acessível e minimamente inteligente, compensa. Antes de falar do livro conteúdo, porém, um adendo sobre o livro forma: Essa capa que vocês estão vendo aí é de uma edição da Companhia das Letras que já pode ser considerada mais ou menos rara. Especificamente, essa imagem é a minha edição escaneada, porque eu mesmo não achei uma imagem boa para publicar aqui no Sr. Google imagens. Acontece que a editora tinha feito uma coleção caprichadinha com xilogravuras e outros rabiscos do Segall na capa, mas como só adolescente lê o Kundera e adolescente, no geral, é um bicho muito duro, praticamente todo o acervo do autor foi transferido para o selo de bolso. Não sou muito dado aos fetiches de colecionador, mas depois que eu compro três livros formatados na mesma edição, eu quero ter os outros da mesma forma. De maneira que, se alguém tiver Risíveis Amores ou A Identidade nessa edição, por favor entre em contato para fazermos negócio. Pois bem.

A brincadeiraO livro tem vários personagens principais, mas podemos restringi-los a três: Ludvik, um rapazote entusiasta do partido comunista que um dia, só de brincadeira, manda uma frase trotkista via cartão postal pra uma namoradinha e cai em desgraça eterna por causa disso; Helena, uma moçoila que recebe o pior dos castigos psicológicos vindo do mundo masculinizado e canastrão da literatura do Kundera; e Jaroslav, o último dos folcloristas morávios, que tenta com todas as forças resgatar as tradições ainda que nem todo mundo esteja na mesma pira. Nossa, esse resumo saiu muito mais conciso do que eu tinha imaginado. E resume bem até!

A coisa acontece mais ou menos assim: Ludvik é escrachado nas reuniões de crítica e autocrítica do partido, uma parada muito comum na época que servia pra todo mundo vigiar todo mundo e manter a humildade ao mesmo tempo. O principal carrasco de sua queda é um cara chamado Pavel Zamanek, que vem a ser o marido de Helena. Ludvik vai trabalhar numa mina de carvão junto com outros traidores do movimento e se envolve com uma menininha chamada Lucie, que o atormenta a vida toda por regular a mixaria pro rapaz sedento de sangue nozóio. Depois de muito tempo, quando Ludvik deixa a mina e se torna um carinha amargo, ele resolve tramar a vingança de sua vida, que é: tchanam: comer a mulher do seu carrasco. Sério, cara, é esse seu plano? Daí você entende porque os adolescentes gostam dele, olha que parada mais Malhação! Que revoltinha do pipoqueiro, hein, amigo. Só vivendo num mundinho de muita putaria sexista isso é considerado uma vingança. Mas tudo bem, prosseguimos. Jaroslav, enquanto isso, é um cara considerado por todos por resgatar a cultura Moravia, que é uma cultura da região de Ostrava da República Checa, onde o livro se passa. Ele faz umas procissões, toca música folclórica e nos enche o saco com mais de um capítulo explicando (com partituras até) porque a música morávia de raiz é complicada e única nesse mundo de meu Deus. Isso é legal se você é musicólogo, tá lendo Kundera e opa! Aparece uma referência rasa sobre um tipo de música a que você nunca deu muita atenção. Mas tirando isso, sério, pra quê? Pra mostrar que você manja das putarias? Você deve ser muito divertido em festas, hein, cara? Só que aí, em sua última brincadeira (outra brincadeira), ele vê que é tão sozinho quanto o rei sozinho do seu pequeno ato dramático.

E que podemos mais dizer sobre esse livro? Bom, ele é, primeiro, uma cutucada no comunismo, uma tara que qualquer leste-europeu tem vez ou outra nessa vida. A coisa do partido que se leva a sério demais e que se empenha mais em castigar seus adeptos do que discutir as ideias que podem levar a coisa pra frente, a linha tênue que o regime guarda com um tipo mundano de religiosidade, essas coisas, você sabe. Isso não é novo, só que ele também fez. Depois, é um livro em que o Kundera desfia – não com tanta maestria como na Insustentável Leveza do Ser – o seu medo de ser corno. A traição está em seus livros como a maior de todas as desgraças, e ele fala um pouco mais sobre ela aqui justapondo-a com outro de seus medos: o de parecer um liso que não come ninguém. Por isso, ele mostra, encarnando no personagem do Ludvik (sempre tem um personagem que é ele mesmo), que manja do que a mulherada quer, e sempre que pode solta algo do tipo “então, teve uma vez que comi uma mina assim, teve outra vez que veio uma cocota e aí… pãnz”, etc. Sinceramente, amigo, já passei da idade de achar isso uma parada legal. E, por último, é uma história bem contada sobre vidas na Chéquia, e isso é o que vale pra mim. Vocês podem gostar do que vocês quiserem no livro, mas pra mim, é só um livro bom que se esforça pra ser um livro ótimo e que não consegue e fica elas por elas. Finito.

Comentário final: 352 páginas em papel pólen. Machuca osso, cartilagem, ideologia política e faz uma boa sequela para o século vindouro.