Philip Roth – Complô Contra a América (The Plot Against America)

The Plot Against AmericaOlha só, jurava que já tinha falado desse livro antes. As páginas se acumulam nesse blog, então não queira imaginar as páginas que se acumulam aqui em casa. Quando comecei a me transformar em um monstrinho devorador de livros, minha mãe recomendou que eu começasse a anotar os livros que eu lia para que não chegasse à humilhante situação em que eu começasse a ler um livro e falasse “peraí, já li esse troço”, e entrar no consórcio pro próximo lote de remédio pra Alzheimer. Hoje vejo que isso faz muito sentido, e o mesmo deveria ser feito para os livros que eu posto. Mas também, pra isso existe esse campo de pesquisa maroto aí no canto direito superior…

Bom, a galera a essa hora tá bem confortável na caminha com o Nêmesis, a mais nova pérola que o Philip Roth jogou a nós, porcos. Então, pra não começar a falar das novidades e estragar as surpresas, vamos abrir um outro livro do cara, de outra época, onde você tinha que fazer trabalho escolar com aquelas enciclopédias que os almofadinhas vendiam na escola e que começavam a abordagem com “Dá licença, professora, posso atrapalhar sua aula um pouquinho…”. Sim sim, é o Complô Contra a América, um livro em que o Roth deixa de lado as sacanagens e as intelectualidades dele pra abordar outro assunto que ele gosta: os Estados Unidos da metade do século 20 e os pobrezinhos dos judeus.

A história tem como princípio uma situação hipotética – que já não é original, aliás. Sabe o Charles A. Lindbergh, aquele piloto que voou no Smells Like Teen Spirit of St. Louis num voo sem escala, dos estados unidos pra Paris, diretão? Então, o cara é considerado um herói nacional. Em parte porque conseguiu fazer um voo sem escalas, que é basicamente o sonho de todo homem moderno que tem dinheiro mas não pode fretar o jatinho ainda. Mesmo assim, Lindbergh, como muitas outras pessoas – e aqui não vamos esquecer dos nossos próprios políticos – caiu no conto da carochinha do Terceiro Reich de Hitler e foi seduzido pelas ideias do bigode. Isso já bastou para a comunidade judaica americana, que havia crescido enormemente nos últimos anos justamente por causa do exílio ao nazismo, satanizasse o sujeito para sempre. E ninguém lá no lojinha ficou com pena do gajo quando o filhinho dele foi seqüestrado e morto.

Tendo isso em mente, a situação hipotética supracitada do livro do Roth é a seguinte: e se Charles A. Lindbergh tivesse concorrido à presidência em 1940 e tivesse ganho de Roosevelt e os Estados Unidos aos pouquinhos se tornasse uma espécie de estado fantoche da Alemanha nazista? Jesus, toda essa paranóia por causa de uma visita ao Führer na época em que o Hitler era só sorriso pra todo mundo. Até o morocho do Getúlio caiu na lábia… Enfim, a partir daí é montado o circo, e a história é contada a partir do ponto de vista do garotinho Roth, que acompanha tudo de pertinho. Ah, disse que a história não é original, não é? Isso é porque um escritor chamado Eric Norden (que trabalhava na Playboy fazendo as entrevistas, a única parte da revista que você diz pra sua esposa que lê) escreveu uma ficção histórica intitulada The Ultimate Solution, em que o Eixo ganha a guerra. Aliás, “Eixo”? Pô, os caras não viram que eles eram os vilões da história com um nome desses? Gente boa não tem uma gangue chamada “Eixo”, tem nomes do tipo “Aliados”, “Galera do Barulho”, “Exército do Surf”, “Barrados no Baile”, “Jets”, “Montéquio”, “Winterfell”, “Grifinória”, “Porcos” (quem lembrar desse filme do Elijah Wood ganha um prêmio). Ops, divaguei, como sempre. Dizia que quando o Eixo ganha a guerra, os EUA viram, de fato, um estado fantoche, e quem seria o presidente? Quem? Quem é o nazista americano? Rá! Charles A. Lindbergh. E, com medo de ser aquele cara chato que precisa ficar explicando as piadas, Eric Norden era judeu.

A coisa interessante de Complô Contra América é mostrar como situações corriqueiras do governo vão dando margem para situações limítrofes e absurdas. Enfim, uma analogia a como o nazismo passou daquela maravilha em que todo mundo acreditava num banho de sangue desnecessário. Além do mais, esse tipo de ficção histórica é o melhor do Roth, porque vamos combinar que essa onda de velho priáprico xarope já deu, né? Sérião, tio, não precisa bater no peito e gritar que você não toma Viagra. Vai resolver tuas pendengas no psicólogo e livra a gente dessas auto-afirmações literárias. Esses recortes da infância dele são muito bons, ele não se mete a escrever difícil, não come ninguém, não fica naquela punheta mental sobre a velhice e a morte, enfim, é um Philip Roth sóbrio, comportado e com um tiquinhozinho de nada a menos de medo do que ele sente no dia-a-dia. Fora isso, se você já está saturado de livros e filmes sobre a questão judaica, passe longe.

O projeto gráfico da Companhia das Letras é bem bonito, tem um selo nazista na capa, que remete à filatelia praticada pelo garotinho Roth, e tem papel pólen e uma encadernação bem prensada que dá aquele aspecto de tijolinho bonito ao livro.

Comentário final: 488 páginas. E eu li em pouquíssimos dias graças à viagens desnecessárias para a tenebrosa cidade de São Paulo.

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John Hersey – Hiroshima

Esse livro estava na minha mochila na última quarta feira, porque a Kariny, nossa traficante oficial de trufas de brigadeiro e coco, havia me pedido o livro emprestado para um trabalho da faculdade e o queridão aqui — adivinha! — só lembrou de trazer o livro umas duas ou três semanas mais tarde. Como nem adianta pedir desculpas, resolvi falar um pouco dele aqui no Livrada!. Quem sabe alguém consegue aproveitar alguma coisa para o trabalho da faculdade?

Bom, Hiroshima é um clássico do jornalismo literário que teve, na minha humilde opinião, seu sucesso repartido entre 20% de talento e 80% de cagada. Aconteceu que o bicho achou lá seis pessoas que sobreviveram à bomba de Hiroshima. Bomba essa que, aliás, foi muito menos devastadora que a de Nagazaki, mas ficou muito mais famosa. Mistérios inexplicáveis, como o porquê do holocausto ser mais famoso que o genocídio dos armênios pelos turcos. Sei lá, talvez seja mesmo a propaganda a alma do negócio. De qualquer forma, lá foi o china (sim, John Hersey é Chinês e se mudou para os Estados Unidos lá com seus dez ou onze anos) colher o depoimento dos sobreviventes, os perrengues que passaram no dia em que a bomba caiu. Já começa aí a primeira cagada dele: a bomba foi jogada logo pela manhã, o que possibilitou aos sobreviventes uma memória marcante e indelével daquele dia inteiro, dando uma narrativa maior e uma experiência impactante.

A reportagem foi publicada numa edição especial da The New Yorker, aquela revista de gente inteligente, sem chamada na capa e cheia de piadinha sem graça que ninguém entende (mas aí, galera da New Yorker, se quiserem me contratar, faço umas charges aí, valeu?). É igual ler o livro, só que em Revista. Loko, né, truta? Agora a cagada mor do sujeito foi ter voltado aos mesmos personagens quarenta anos depois, conseguir encontrar todo mundo e ver como andavam a vida deles. Se não me engano, só um havia morrido, uma moça, de câncer. Primeiro porque até então eu, que não sou nenhum especialista em bomba atômica, achava, do alto de minha ingenuidade, que não havia sobrado viv’alma (coisa de poeta, né?) em Hiroshima. Pô, os sujeitos passam anos metendo o pau nessa bomba, que foi construída toda sob sigilo de governo, todo mundo se descabela quando a Coréia diz que tá fabricando, todo mundo tinha medo do Enéas porque ele queria fazer uma no Brasil e, enfim, a bomba atômica não mata todo mundo de uma cidadezinha japonesa? Acho que minha impressão sobre bombas atômicas vem inteiramente daquele maravilhoso filme “O dia de Amanhã” (The Day After), ou seja: a bomba cai, a imagem congela e por alguns segundos, dá pra ver a caveirinha de todo mundo.

Outro mérito de sua imensa cagada foi ter sobreviventes da bomba durarem mais de quarenta anos. E depois neguinho fica aí metendo o pau na energia nuclear. Pô, se um cara vive mais de quarenta anos depois de sobreviver a uma bomba atômica, dá pra ter mais usina nuclear tranquilamente, afinal de contas, viver até os sessenta ou setenta e poucos anos é uma meta digna na população brasileira (explicando a piada para os idiotas: É BRINCADEIRA, animal!). E os caras tão bem ainda por cima: ficaram famosos, fundaram empresas, ongs para combater a monstruosidade da bomba, etc. E depois dizem que é só brasileiro que gosta de celebridade instantânea. Tudo bem que não teve ninguém pousando para a Playboy, sob o título e a efígie do mestre Tom Jones: “Sexbomb, sexbomb, you’re my sex bomb!”, mas ainda assim rolou um shocksploitation em cima da galerinha.

Vamos ao porquê desse livro ser estudado na faculdade de jornalismo. Bom, além do fato de estar escrito na capa que é “A mais importante reportagem do século XX”, e influenciar por isso a ementa dos professores, acho que ele é importante pra ensinar o jornalista a não largar o osso tão cedo e fazer o estudante maconheiro sem vergonha que se ele voltar à pauta tempos depois, ele pode muito bem fazer a mais importante reportagem do século também. Fora isso, sei lá, pode ser um livro bacana de ler, só depende de você e do seu saco pra tal leitura.

A coleção Jornalismo Literário da Companhia das Letras é uma das mais legais que já vi. Além de vários livros sobre o gênero (no qual não foram incluídos alguns como o A Mulher do Próximo, do Gay Talese), eles tem uma certa padronização de capas e diversas cores que dão um charme a mais. Sem imagem nenhuma na capa, afinal, jornalista curte mesmo é letrinhas, garrafais de preferência. Esse ainda conta com as fotos dos sobreviventes e um posfácio mais que elogioso sobre o livro, assinado pelo jornalista Matinas Suzuki Jr. No mais, papel pólen e fonte minion, padrão da editora para os livros de jornalismo literário.

Comentário final: 172 páginas pólen soft. Faz menos estrago que uma bomba atômica.