Barbara Demick – Nada a Invejar (Nothing to Envy)

Nothing to EnvyVamos falar de Coreia do Norte, já que o assunto é a Coreia do Norte por esses tempos. Os proto-chineses estavam ameaçando bombardear os Estados Unidos caso a Sony Pictures lançasse o filme A Entrevista, uma comédia bobalhóide (olha eu inventando palavras) do Seth Rogen e do James Franco em que eles vão até o supracitado país para matar seu líder extremo, o rechonchudo Kim Jon-Un, neto do presidente eterno do país Kim Il-Sum. Hackers invadiram o sistema da Sony, todo mundo amarelou no projeto, as pessoas começaram a dar nota máxima pro filme no Imdb em solidariedade, a Sony voltou atrás, lançou A Entrevista e o filme agora concorre a várias categorias no Framboesa de Ouro, que premia as piores porcarias que a sétima arte produz no ano. Viva, quase começaram uma guerra por causa de um filme intragável. Mesmo assim, pelas minhas contas e se não me engano, essa é a terceira ou quarta ameaça de guerra que a Coreia do Norte faz e não cumpre, o que já dá praqueles malucos suicidas que adoram guerra e que fazem tantas coisas legais pra gente comprar tomarem como deixa e realizarem a tão sonhada investida.

Fato é que os Estados Unidos não brincam com a Coreia do Norte pelo mesmo motivo que você não olha debaixo da cama a noite: não se sabe o que tem lá. O país é um dos regimes mais fechados do mundo e os turistas só podem visitar a capital Pyongyang e em visitas guiadas, sem falar com ninguém (uma amiga minha foi e eles foram levados pra visitar, entre outras coisas, uma fábrica de fraldas e um boliche). Por causa disso, a jornalista Barbara Demick, que era correspondente em Seul do Los Angeles Times em 2001, começou a querer investigar como eram as vidas dos habitantes da Coreia Caída. Daí nasceu o livro Nada a Invejar: Vidas Comuns na Coreia do Norte, que é, tecnicamente, um livrorreportagem como vários outros que figuram na coleção de Jornalismo Literário da Companhia das Letras (Stasilândia, por exemplo, tem uma estrutura muito parecida). Não entendi direito porque esse livro não ganhou o selo, assim como outros livros de estrutura jornalística publicados pela editora. Concluí que não ganha o selo aqueles livros que eles acham mais ou menos, mas ainda assim bons para publicar. Se essa é a posição deles mesmo, vou discordar, porque achei Nada a Invejar um livro muito maneiro, principalmente quanto ao tema.

É claro que a Barbara não teria como entrar lá e falar com os coreanos, então falou com os desertores do regime que moravam na Coreia do Sul, e as histórias retratadas no livro são tão distintas entre si quanto ricas. A grande parte delas são de mulheres, que tiveram condições mais ou menos favoráveis dentro do país e que sucumbiram, de alguma forma, ao rígido sistema de disciplina e louvor ao partido criado. É assim que conhecemos, por exemplo, a história de Mi-ran, cujo pai havia lutado na guerra contra a Coreia do Sul do outro lado, razão pela qual entrou na lista negra do partido e nunca conseguiria qualquer coisa. Ou a Sra. Song, devota fervorosa do Partido dos Trabalhadores (o de lá, não o daqui) que começa a comer o pão que o diabo amassou quando o generoso líder morre e sua já incompetente gestão de pseudo-comunismo pseudo-maoísta dá com os burros n’água totalmente. A fome, a disputa por um lugar ao sol, a falta de energia elétrica e outras penúrias são uma constante em todas as histórias.

Barbara DemickAlguns méritos do livro, além das histórias. Como a Coreia do Norte é a mesma coisa que nada enquanto país para a cultura do ocidente, a autora consegue pincelar, em meio aos relatos, parte da história do país e um pouco de sua cultura. Como a Coreia foi dividia, como ela era organizada e tudo mais. Ponto pra Barbara. Depois, há o desafio de explicar para mentes que cresceram no mundo livre como se cria o fanatismo por uma causa política e as monstruosidades que vemos na TV, tipo o povo se jogando no chão e chorando por conta da morte do Kim Jong-Il. Os aparatos de controle ideológico do Estado coreano são monstruosamente eficazes, criando nenéns sob a imagem do líder supremo e instalando estátuas em qualquer fim de mundo (e na Coreia, o que mais tem é fim de mundo). É sempre muito difícil entender como as pessoas podem estar passando todos os perrengues no mundo e ainda assim apaixonadas pelo governo e dispostas a morrer por ele (até de fome… quando a comida rareou, o governo iniciou um programa para incentivar as pessoas a fazerem só duas refeições por dia), mas a narrativa das histórias contém elementos em comum que permitem entender um pouco melhor essa maluquice. Ponto pra autora também.

Por outro lado, o livro tem alguns vários problemas. Pra começar, a autora se repete muito, talvez numa tentativa de estressar o real significado do que está sendo narrado, talvez numa demonstração de espanto legítimo, mas é que a gente não pode esquecer de tirar as gordurinhas do texto, né, moça? Além disso, em alguns trechos ela também se contradiz. Em uma hora, ela explica que a política na Coreia organiza as pessoas em uma espécie de sistema de castas no qual não é possível subir, apenas descer, e num momento seguinte conta a história de uma pessoa que consegue ganhar a simpatia do partido, entre outras pequenas coisinhas. A maioria delas é fruto de um claro desprezo por regimes como o coreano, sendo a autora norte-americana, é relativamente compreensível, mas come on! (Aliás, ela também explica como os coreanos aprendem a odiar a Coreia do Sul e os Estados Unidos desde pequenos e como os americanos, coitadinhos, tentam ajudar e são injustiçados). Coisas assim tiram um pouco o tesão pela leitura, mas comprometem pouco o resultado final (mas comprometem).

Em papel pólen e fonte Minion (que é a fonte que a editora usa pros seus livros-reportagens, rá!), Nada a Invejar tem poucas fotos, e muito pequenas. Senti falta das ilustrações até porque as imagens sanam muito mais instantaneamente a curiosidade pelo país do que os relatos, e servem de bons complementos também. Enfim, tem, mas faltou. Papel pólen e a capa do grande monumento de Kim Il-Sum em Pyongyang só nos pezinhos ficou bom na capa, e o título do livro em coreano na lombada também tira uma onda. Ah! O título, aliás, vem de uma das placas motivacionais espalhadas pelas cidades e campos, que diz “Nada temos a Invejar no Mundo”, que é o equivalente ideológico àquele couro que você bota do lado dos olhos do cavalo pra ele não se distrair olhando pro lado e andar direitinho conforme você manda. Iradinho.

Comentário final: 412 páginas em papel pólen. Porrada na cara do gordinho norte-coreano!

Anúncios

Ryszard Kapuściński – O Xá dos Xás (Szachinszach)

jornalismo literarioE ainda dizem que o polonês é uma língua difícil. Xá dos Xás = Szachinszach. Xáxinxáx = Xá dos Xás. É só deixar a intuição fazer a sua parte e começar a ler Bruno Schulz, e entender o que você quiser entender, é claro. Mas bem, os senhores e as senhoras não vieram aqui para ter lições de polonês comigo, que no máximo improviso um versinho ou outro de ogórek ogórek ogórek zielony ma garniturek e não tô aqui para destilar mais do que isso dos meus conhecimentos filolololológicos. Estou aqui para falar desse livrorreportagem do grande mestre da arte Ryszard Kapuściński, esse polaco que deveria ter morrido antes do tempo umas 70 vezes e não morreu. Kapuściński cobriu guerras e escreveu sobre déspotas memoráveis, e ajudou a entender o lado feio e sujo do meio do século 20, lado esse que as pessoas até hoje não sabem pelo simples fato de não ligarem a mínima para o que acontece nesses países. Assim foi com o Irã e sua dinastia Pahlevi.

O livro, obviamente trata disso. Se você não sabe – e tudo bem, ninguém aqui está julgando o fato de você ter feito supletivo – xá é o título dado ao monarca no irã, e é esse o título porque quer dizer “rei”, em persa. Xeque-mate, o rei está morto, você já deve ter escutado isso em algum lugar ou lido em algum almanaque de cultura inútil. Pois bem, o Irã tem uma longa história de xás que massacraram o povo apenas para depois serem mortos ou exilados. É uma história cíclica, e a dos Xás Pahlevi tem muito a ver com o que está acontecendo hoje com o Estado Islâmico – de novo, se você não sabe o que é Estado Islâmico, a gente não julga, MAS…

O primeiro xá é o Reza Pahlevi, um homem de formação militar que ascendeu ao poder e que mais ou menos conseguiu manter tudo em ordem, se é que pode se chamar aquilo de ordem. O Irã não é essa potência cheia de petróleo e gente perigosa que é hoje, antigamente era só mato, deserto e pobre. Nem carroça tinha. Mas o filho, o xá Mohammed Reza Pahlevi, diferentemente do pai, não lidou tão bem com as coisas. Ele era, segundo o autor, um cara inseguro, que precisava ser bajulado, vaidoso e arrogante, e quando seu primeiro-ministro Mohammed Mossadegh resolveu nacionalizar o petróleo iraniano (e o império britânico sofreu uma queda porque até então eram eles quem mais ou menos mandavam por ali), a promessa de um país bilionário botou o Xá pra trabalhar. Assim, ele começou a querer industrializar o Irã, sem perceber que as coisas mais básicas ainda faltavam. E o povo ficou mais irado, e com o povo irado, o movimento nas mesquitas se intensifica, e eis que surge a voz incansável, serena e monocórdica do aiatolá Khomeini, que inspira a articulação do movimento contra o xá. Mas aí já tô contando demais sobre a história e pouco do livro.

Ryszard_KapuscinskiFalemos do livro. Não é à toa que Kapuściński foi o que foi. A escrita dele é um misto de crônica, relato jornalístico, remontagem histórica, ensaio e leves tons de escrita ficcional, tudo misturado num blend gostoso típico desses gênios da raça que surgiram naquele século (Norman Mailers da vida). De modo que ler O Xá dos Xás é algo que você tem que fazer nem que seja pra falar “mas que desgraçado esse sujeito que escreve tão bem e rodou o mundo e viu de perto a história acontecendo… que desgraçado mesmo”. E, claro, aprender um pouco sobre a história do Irã, como já disse, é entender também um pouco do que ocorre no Oriente Médio. Os governantes colocados no poder pelos interesses do ocidente, o descontentamento do povo com a falta de perspectiva e o levante capitaneado pela ideologia formada dentro das mesquistas torna a história cíclica como os espertinhos sempre falaram que era. De modo que O Xá dos Xás é uma aula de boa escrita, de história, de geopolítica e de como viajar pelo mundo (aprendam, seus fanboys da Disney).

O livro faz parte da coleção Jornalismo Literário da Companhia das Letras e é fiel ao padrão de quatro fotos e um textão, uma capa gráfica e um posfácio pra exaltar o autor e o livro em questão. O problema é que achei que nesse caso em específico, o livro carecia de mais fotos. Quem não queria relembrar a beldade de dona Soraya, mulher do Xá, e de ver o levante dos povos, e mesmo as fotografias de que o autor fala na segunda parte do livro – a maior delas, que centraliza o tríptico. Intitulada “Daguerreótipos”, ele conta a história através de fotografias antigas de que dispõe. Por que não podemos ver essas fotos também? Not cool, bro. Not cool.

Comentário final: 197 páginas em papel pólen. Xuxuxu Xaxaxau.

Yasunari Kawabata – A Gangue Escarlate de Asakusa (Asakusa Kurenaidan 浅草紅團)

Asakusa KurenaidanKawabata para as massas! Kawabata, Kawabata, Kawabata! É o puro suco da literatura japonesa. Referências a Rodney-Dy à parte, vamos falar hoje mais uma vez desse grande mestre da literatura japonesa que raramente deixa a desejar no que se propõe a fazer. A Gangue Escarlate de Asakusa foi escrito entre 1929 e 1930 – quando o grande mestre tinha apenas 30 anos e estava empenhado em ser um nome moderno para a literatura do Japão. Se não me engano, até então ele só havia publicado A Dançarina de Izu, que era uma narrativa muito modesta, de modo que esse livro é o seu primeiro romance longo.

Pode ser impressão minha ou vontade inconsciente do autor, mas o fato é que Kawabata estava impregnado daquele espírito ocidental do flanêur, da peregrinação urbana de descoberta e estranhamento, descoberta e estranhamento. Pra falar a verdade, depois que descobri que A Gangue Escarlate de Asakusa tinha sido escrito mais ou menos na mesma época da Dançarina de Izu, fez sentido a minha impressão de achar o tom dos dois muito parecidos. Mas volto a isso mais tarde, vou falar um pouco sobre a história do romance para que vocês não fiquem perdidos.

Asakusa era um bairro de Tóquio, mas não qualquer bairro. Era o bairro da boemia, era a Lapa de Tóquio, o Largo da Ordem de Tóquio, a Boca do Lixo de Tóquio, o Kreuzberg de Tóquio, a Montmartre de Tóquio, a… enfim, deu pra entender. Era o lugar sujo com as prostitutas e os buracos de jazz e os freak shows e tudo mais. De certa maneira, o lugar representava a precoce decadência ocidental em um lugar há não muito tempo ocidentalizado como o Japão. Vê que os sujeitos assimilam tudo muito rápido, a começar pela nossa decadência. É lá que o autor-narrador (o próprio Kawabata, imagino), perambula com uma amiga, Yumiko enquanto descobre o lugar, seus atrativos e a tal Gangue Escarlate, também chamada de Companhia Escarlate. Basicamente, uma gangue de pequenos trambiqueiros, composta por jovens adultos e adolescentes imberbes que já saíram do seio da família e foram colocados na teta da maldade. Rodney Dy e Hermes e Renato no mesmo post sobre um prêmio Nobel de literatura, hein? Só aqui no Livrada! você encontra isso. Mas dizia eu, a tal gangue exerce uma espécie de fascínio temerário no narrador, que tenta conhecer um de seus membros enquanto passeia e descobre o bairro com seus olhos de flanêur. É lá que ele conhece uma mocinha de cabeça raspada que sonha em encontrar o homem pela qual sua irmã se apaixonou profundamente, assiste a um espetáculo de um homem que come através de uma boca aberta em sua barriga e assiste cenas cotidianas meio bizarras, como um homem que come comida de carpa e um show de pequenas prostitutas.

kawabata asakusaNeste livro, que a pessoa que fez a orelha (provavelmente a tradutora, a grandessíssima professora Meiko Shimon) descreve como um exemplo da progressão da arte de Kawabata rumo ao desenvolvimento total de sua corrente neo-sensorialista Shinkankaku-ha, por meio de experimentações com a linguagem e o uso MUITO estranho de expressões e analogias nunca antes usadas, como por exemplo “estava andando e de repente parei como se alguém tivesse empurrado um buquê de flores vermelhas contra o meu peito”.  Mas para mim, o maior espanto com essa leitura de Kawabata foi ver a completa ausência de hierarquia entre narração e descrição para o autor. O cenário não serve à narrativa nem à narrativa serve ao cenário exclusivamente, mas ora uma se torna mais importante que a outra, mas nunca a ponto de cidade ou história serem fixados como a linha condutora do romance. Isso não só deve ser difícil pra caramba de fazer como arriscaria dizer que a única forma de fazer isso com a perfeição de Kawabata é uma completa despreocupação sobre a própria força narrativa aliada a uma tradição descritiva milenar da literatura japonesa, digna de uma Sei Shônagon. E é exatamente por isso que achei o livro parecido com a Dançarina de Izu. Em ambos também, Kawabata traz os olhos ocidentais que se espantam com as cenas japonesas mais estranhas, e também com as mais clássicas. É um olhar completamente inocente e desprovido de preconceitos ou expectativas. Isso traz uma sensação para o leitor de estar descobrindo junto com ele as características de Asakusa, e, se lido com atenção, o livro pode trazer um mapa mental perfeito do bairro sem nunca ter ido lá. E essa não é a graça da literatura, afinal de contas?

A Gangue Escarlate de Asakusa é o mais novo lançamento de Kawabata pela Estação Liberdade, uma editora muito simpática e competente que, por alguma razão que me foge completamente a lógica, não está alçada ainda ao panteão das grandes casas editoriais brasileiras pela crítica mainstream, que solenemente a ignora. O que é uma pena, pois não só a editora tem um acervo caprichado de grandes autores, como também tem edições bonitas e bem trabalhadas. A própria tradução desse livro, que sempre é comentada, é exemplo disso. Tudo bem que ela podia ser mais comentada, porque muita coisa sobre o Japão é subentendido como de conhecimento do leitor, o que não é verdade na grande maioria das vezes, mas acho que isso é reflexo dessa falta de interesse de nós, ocidentais de olhos redondos, pelas belezas que se escondem na boa e velha literatura japa. As páginas brancas offset estão sendo substituídas aos poucos pelo confiável pólen soft em alguns livros e a fonte Gatineau dá um charme às páginas internas, completas com cabeço superior e ilustrações originais de Ota Saburo (que fez as ilustrações para a primeira edição do livro) no começo e no final das páginas. Um pitéu.

Comentário final: 216 páginas offset com fonte Gatineau. Sayonara, compadres!

Anna Funder – Stasilândia (Stasiland)

Oeoeoeoeoeoeoe bumbabumbabumbaê (bumbabumbabumbaê). Rá, te peguei, não estamos na banheira do Gugu, estamos no Livrada! o seu espaço quinzenal de crítica literária rasa, rasteira e desprezível. Olha que legal: hoje todo mundo acordou com seus comentários devidamente respondidos (parece que deu problemas em alguns, mas vou esperar pra ver se entra ainda. Caso contrário, respondo de novo). Juro que dessa vez vou tentar manter todo mundo com minha abalizada tréplica, mas vai ter que ser a partir da semana que vem, porque nessa semana estarei em Passo Fundo, tchê, para ver a Flip gaúcha (uma pérola do Cone Sul, pelo que ouvi). Fiquei sabendo que no Rio Grande não se diz o nome de algumas cidades sem seguir de um tchê, então: Passo Fundo, tchê, aí vamos nós.

Antes da resenha, duas coisitchas: a primeira: mandem-me e-mails ou comentem na página do facebook do Livrada os blogs que tem o Livrada! linkado, por caridade.

A segunda é a história do valter hugo mãe ter lido a minha resenha, já que fui assediado e coagido a contar a história. É o seguinte: pra fazer isso vou precisar da autorização de uma certa leitora, responsável pelo caso, já que contar a história com meus dotes humorísticos poderia incorrer no crime de difamação. E Deus sabe que não quero difamar ninguém, apenas ser feliz e andar tranquilamente na favela onde eu nasci. Então, dona leitora, que me diz: depois do imbróglio, aceita a brincadeira? (Aceita! Aceita! Aceita! Todos gritam em coro).

Bem, vamos lá: Stasilândia, essa maravilha de livro que ganhei da Carlinha, essa maravilha de pessoa, no começo do ano. Parte da coleção Jornalismo Literário da Companhia das Letras, Stasilândia não é um clássico do gênero, como a coleção geralmente demanda, mas um livro relativamente novo, ousado na sua forma e de uma autora pouco conhecida.

A australiana Anna Funder, essa pantera de meia-idade (essa foto peguei do Feice dela, a gente é amiguinho, tá?) é uma jornalista e advogada que tem uma relação muito próxima com a Alemanha, mas que não me atrevo a contar porque já é altas horas da madrugada e temo confundir a história da Anna com a história da Alison Entrekin, outra australiana, tradutora do português para o inglês. É, amigos, eu não bebo, mas também não raciocino direito num sábado à noite. Melhor assim, essa vibe Bukowski tomando Kronenbier reina nesse blog faz tempo, e não se mexe em time que está ganhando.

De qualquer jeito, a Anna queria explorar uma história pouco conhecida para o mundo até então: como funcionava a Stasi, a polícia secreta da Alemanha Oriental que vigiava tudo e todos com um sistema maluco de vigilância (olha eu aí repetindo palavra… que soninho). Ela se deu conta disso quando um telespectador escreveu para um programa de TV em que ela trabalhava na Alemanha, reclamando que o mal da história é a demora para que o assunto comece a ser falado e discutido, como foi o caso do nazismo. Pra piorar, o assunto era de pouco interesse mesmo entre os próprios alemães: primeiro porque, por alguma razão explicável apenas com ratinhos de laboratório, os alemães do ocidente não têm lá muito respeito pelos do outro lado, os ossies, e isso não vem do lance deles não trabalharem depois que o muro caiu. A pendenga parece que começou cedo. Enfim, vai entender. A segunda razão é que alemão sofre desse mal que é esconder as merdas feitas do mundo, como se ninguém visse. Sabe quando a Angelina Jolie deu uns amassos no próprio irmão e depois foi pra África adotar crianças, achando que fugindo do continente ela poderia fugir também da verdade? É mais ou menos por aí, a Alemanha é uma Angelina Jolie que foi flagrada passando a mão na bunda do John Voight. Então esqueçam o nazismo, a Stasi, a silésia, a Alsácia-Lorena, o Gengis Khan (a banda, mongol, não o mongol), o Lou Bega, o Sig Sig Sputnik, esqueçam todas essas coisas escrotas e vejam aqui o Schuma, a Oktober, os carrões, as lindas tirolesas, o Günther Grass, o Marx, o Nietzsche, o Einstein, o Beethoven, etc. É assim que o país opera. O que mais explicaria uma gatinha tão incompetente no poder quanto a Angela Merkel?

Foi aí que Anna Funder começou a buscar histórias de fulanos que foram perseguidos pela Stasi, presos, torturados, mortos. Mas não só isso: ela também achou ex-agentes, militantes, enfim, todo mundo que já teve alguma coisa com a farofada entrou no balaio das fontes. O resultado é esse livraço, pouco conhecido, mas unanimidade entre quem leu. Contando tudo de uma maneira pessoal, narrado em primeira pessoa, Anna faz a reportagem e o making of ao mesmo tempo. É como ver o Profissão Repórter, só que muito melhor por razões óbvias (tá, nem tão óbvias assim, mas tô com sono e meu braço direito começou a doer. Espero que não seja infarto, mas se for, vou botar a culpa em vocês, seus lindos).

O livro revela detalhes interessantes sobre os métodos de vigilância e interrogatório da Stasi, como o banco de cheiro, coletado a partir do assento do banco em que os interrogados se aboletavam, e eram obrigados a permanecer com a mão embaixo da bunda, pra suar no paninho (é, também me pergunto o que passa na cabeça dos alemães, esse povo não pode ser muito normal). Também mostra o como o sistema era absurdamente grande: 1 agente da Stasi para cada 63 habitantes. Pra quê Big Brother, amigo? Entrou no elevador, tem um Stasi ali. Chegou no Bob’s (porque comunista não come Mc Donald’s, então deve comer no Bob’s porque Giraffas ninguém agüenta), tem um Stasi lá fritando batatinha pra você. Isso sem falar nos grampos e escutas em residência, tudo montado com a conivência dos habitantes, que eram uma espécie de fiscal do Sarney só que com alguma coisa na cabeça: tirar o próprio da reta. Sabe aquele capítulo do Chapolin que ele procura microfones em cascas de banana e abajur? É mais ou menos por aí.

Mais tarde, o assunto de Stasilândia virou o premiado filme A Vida dos Outros, que ganhou o Oscar (ganhou, né?) de melhor filme estrangeiro, com o maravilhoso ator Ülrich Muhe como o agente da Stasi bonzinho – uma contradição, segundo Anna, que fez essa e outras críticas ao filme. Mesmo assim, vale a pena ver, mas é mais legal de vê-lo depois de ler o livro. É um choque ver aquilo que está escrito sendo encenado, dá um gosto da realidade que chega a ser palpável. Na época, inclusive, interessei-me demais pela cultura alemã e devorei os filmes que achei pela frente. Até hoje, Michael Haneke é o meu diretor favorito (embora seja tecnicamente austríaco. Mas é igual falar que paraguaio e uruguaio são povos diferentes).

Essa coleção é boa, é bonita, o livro é legal, bla bla blá, não vou mentir. Tô com sono e quero cama. Rá, aposto que o crítico literário da Veja não tem essas liberdades. Não é só um dinossauro que seu dinheiro não pode comprar, Sr. Todo Prosa cujo nome eu esqueci mas cujo rosto aparece-me nos pesadelos.

A propósito: minha gloriosa banda fez uma música em homenagem à Stasi e em homenagem à Intolerância à Lactose, uma condição séria que acomete muitos brasileiros e brasileiras, tudo isso na mesma música. Laktostasi, a Stasi da Lactose, é uma música tipicamente alemã cuja letra é uma lista de coisas que não se pode comer com esse problema. Você pode vê-la em sua primeira versão tosca, quando ainda se chamava Laktonazi, aqui:

Comentário final: 375 páginas de papel pólen soft. Leiam e só me acordem quando terminarem de ler.

Curta o Livrada! no Facebook!

John Steinbeck e Robert Capa – Um Diário Russo (A Russian Journal)

A Russian JournalVê só como você tira um blog da miguxice, mas não tira a miguxice de um blog. Fico três semanas sem postar e já me vejo a dar satisfação para vocês no melhor estilo Marimoon da época do fotolog GOLD. Pra quem não era vivo nessa época, eu explico: ela pegava uma foto em que parecia que ela acidentalmente pagava peitinho mas não chegava de fato a pagar (o que só deixava a bagaça mais patética), depois metia um porrilhão de efeito de photoshop, uns arabescos, uma assinatura na foto e voilà: material masturbatório para tarados por moderninhas na era pré banda larga. E a legenda era a cereja do bolo: “Ai gente, tô tão sem foto, vou postar essa daqui só pra vocês não dizerem que não atualizo :**** ==^^==” ou sei lá que outros emoticons bizarros eram criados por essas mentes insanas. Graças ao bom Deus passei alheio a todo esse bafafá, dedicava meus dias e minhas noites a tocar guitarra, e nada mais.

Pois bem, cá estou eu como uma Marimoon sem vergonha, postando qualquer livrinho pra não dizer que não ligo mais pra vocês *smack* fofuras. Rá, mentira! Um Diário Russo, de John Steinbeck e Robert Capa é um livraço, e uma leitura agradabilíssima. Vamos a ele, pois bem.

Antes que certas *cof cof* pessoas (é, você mesmo) queiram desistir de ler por achar que Um Diário Russo é um livro reportagem, já digo que não é nada disso. Ainda que Steinbeck e Capa tenham lá seus pezinhos metidos no jornalismo (hey, naquela época, quem é que não tinha?), há de se distinguir um livro reportagem de um diário de viagem e, mesmo que o diário tenha uma certa linguagem jornalística e termine por desvendar certas verdades a olhos não acostumados com a realidade soviética, nunca foi a intenção dos autores fazer “um retrato DEFINITIVO da união soviética no começo da guerra fria” ou qualquer outra etiqueta que tentem colocar na capa desse livro em edições futuras para tentar vendê-lo para os war freaks, esse povo tarado num uniforme nazista, num panzer division, num operação Valquíria, num Lili Marlene, enfim, esse povo que, se tivesse pacote da NET só com o History Channel, fazia o favor ao próprio orçamento de cortar todos os outros canais.

Um Diário Russo nasceu principalmente de uma curiosidade discutida num balcão de bar, esse antro místico que as pessoas têm em alta consideração, como um berçário de boas ideias, um mangue da criatividade. Capa e Steinbeck estavam no bar e comentaram com o barman, esse fast-food da psiquiatria, que as notícias que chegavam da Rússia diziam respeito aos planos de Stálin e suas relações com as amadas bombas atômicas, e que nunca as pessoas ficavam sabendo como tavam vinvendo os russos, aquele povo exportador de belas tenistas e políticos engraçados. Decidiram então começar a se mexer para ir para lá registrar tudo e fazer, de acordo com eles, não o retrato russo, mas um dos possíveis retratos.

Partem então para a terra proto-inimiga, aquela que tava ainda dentro dos conformes de Yalta, ninguém tava ligando muito, ainda não tinha rolado aquela não-eleição que emputeceu os norte-americanos (e se tem uma coisa que deixa esse povo tiririca da silva é não fazer eleição). A realidade é cruel: a narrativa de Steinbeck sobre o avião caindo aos pedaços que pegaram na escala na Dinamarca (ou Suécia, Noruega, não lembro… algum desses países com sexo explícito em filme de Sessão da Tarde) faz você se sentir um lorde por viajar de Webjet e um fresco por achar que vai morrer a cada pane mecânica que o avião dá. A situação sempre foi precária na Rússia, e em épocas comunistas, imagine só! Se em Cuba, onde não há dinheiro pra nada, a vida já é ruim, imagine num lugar onde há dinheiro mas todo dinheiro precisa ser direcionado pra construir bomba. Antes que a última árvore fosse cortada e o último urânio fosse enriquecido e o homem branco percebesse que as bombas não podem ser comidas (a não ser as bombas de chocolate), essa insensatez começou a tomar outro rumo, ainda bem. Mas até então, era o jeitinho brasileiro dominando tudo. Pior, era o jeitinho russo, o jeitinho desse povo que não dá jeitinho nem pra construir uns carros mais decentes.

Não foi só na Rússia, porém, que os autores ficaram. Visitaram a Ucrânia, que revelou ser um nascedouro de gente trabalhadora, e a Geórgia, onde disseram que os georgianos eram todos poetas, cantores, amantes insaciáveis e etc. Sei não, hein, acho que rolou um jabá lá na Geórgia… Enfim, imagine que o livro foi legal para diferenciar essa gente diferenciada, pros americanos burros, que acham que soviético é tudo a mesma lata um do outro.

A escrita de Steinbeck é primorosa, e quem conhece sabe. Ele escreve de um jeito muito fluído e altamente informativo. Tem um estilo mais denso que o de Capa, por exemplo, que se preocupa mais em fazer uma graça pro leitor. Nesse livro, aliás, Capa só escreve em um capítulo, se justificando pelo fato de passar duas horas trancado no banheiro, para o desespero da bexiga de seu companheiro, entre outras coisas de que Steinbeck reclama sobre ele ao longo do livro.

Talvez seja esse um dos pontos não-intencionais do livro dos mais interessantes: a figura de Capa sob o filtro do olhar de seu camarada John Steinbeck. É difícil obter esse tipo de coisa, e é como uma corrente: no livro de Steinbeck você sabe de Capa, nos de Capa você sabe um pouco mais sobre Hemingway, e assim por diante. Bom, eu tenho uma grande admiração pela vida e obra do Robert Capa, então esse livro me pegou por causa disso também.

Um Diário Russo é, claro, todo recheado com as fotos do fotógrafo húngaro (aliás, por que a Bulgária chama Bulgária e a Hungria não chama Hungária?), que são todas matadoras. Isso faz com que a leitura do livro, que parece grande, se torne mais rápida do que se pensa. Eu terminei ele em dois ou três dias, então é porque o lance é bom.

Essa edição da Cosacnaify é primorosa! Queria ter comprado esse livro antes, mas na edição antiga custava uns 90 reais. Ainda bem que fizeram essa versão nova, com papel offset (dessa vez nem reclamo, se é pra abaixar o preço…), e uma capa diferente, com uma foto do Capa. O que faz muito mais sentido do que uma versão estilizada de uma das votos, vetorizada e impressa numa parada meio Matisse encontra Picasso da fase escrota em azul e preto. Serviu também pra ornar com o livro do Capa que estavam lançando na época, ficou legal na estante. Fonte Freight e capa dura, pra fazer maldade mesmo! Como diria Clint Eastwood em boa parte do Gran Torino: Grrrrrr….

Comentário Final: 330 páginas em offset e capa dura. Mais duro que a cara dura do Palocci.

Ps: Feliz dia dos namorados para todos. Não importa se você é hetero, gay, bissexual, namora dois ao mesmo tempo, é zoófilo, todo mundo tem o direito de, hoje, levar o ser amado pra churrascaria e comer até cair.

 

Rodolfo Walsh – Operação Massacre (Operación Masacre)

Operación Massacre“Não, Yuri, por favor, mais um livro-reportagem não! Eu prefiro cortar meu saco fora do que ter que ler outra resenha sobre esses jornalistas sebosos que se acham donos da verdade!” Calma lá meu povo, eu não coloco vocês em roubada, já disse, e ó, digo mais: se vocês tiverem que ler um livro reportagem que seja, unzinho na sua vida, pra depois passar 50 anos lendo Bruna Surfistinha e Diário de uma ex-BBB (“já fui lésbica sim e não tenho medo de falar o que penso!”), leia Operação Massacre de Rodolfo Walsh. Quero explicar hoje, tim-tim por tim-tim, porque eu considero esse um dos melhores livros do gênero já escritos.

Tudo bem que não sou nenhum expert em literatura jornalística, mas já li algumas dúzias desse tipo de livro e nenhum bateu tão forte no fundo do coração como esse (Agora que falei em bater no coração, lembrei daquela música: “A saudade é um prego, o coração é um martelo”. Uma das metáforas mais sinistras da música brasileira, sem sacanagem. Zeca Baleiro, Paulinho Moska e Cia., aprendam com esses caras). Primeiro porque a história é grandiosa em todos os âmbitos. Não é algo microscópico como o assassinato de A Sangue Frio, embora pareça, e não é algo que seja, por outro lado, grandiloqüente, que tenta dialogar com todas as esferas em que está metida a coisa, como, sei lá, Hiroshima (que é bom também). É uma história coesa com seu tempo e com seu espaço, momento e lugar, tudo nela tá complicado e perfeitinho. Depois que é um livro super bem escrito, um trabalho jornalístico nota dez e estilístico nota mil. Tem muito romancista hoje em dia que não tem uma voz tão forte como a de Walsh. Tenho a impressão, depois dessa, que vou saber reconhecer qualquer texto que ele tenha escrito. E por último, vale o livro pela experiência forte que mudou a vida do autor. E, como diz Eliane Brum (que não vamos chamar de a mãe do jornalismo cojonudo brasileiro porque ela não é velha, vamos dizer que seja aquela prima independente que desde cedo se mostrou muito safa do jornalismo cojonudo brasileiro), se a história não transforma o jornalista, é porque tem algo de errado. E mudou, amigo, mudou. Vou dizer o porquê.

Operação Massacre fala de uma história que se passa na Argentina da década de 50, época em que Chuck Berry estourava com Johnny Be Good. Coitado do Chuck Berry. Tem gente que acha ruim que o Lobão só tenha feito sucesso por causa daquela musiquinha chata pra diabo que eu já nem lembro o nome e não faço questão de que me lembrem, e desconsideram que o Chuck Berry está a CINQUENTA anos tocando a mesma música no show (sim, eu sei que ele tem outras, Mané, mas pra ouvir Route 66 ninguém paga ingresso). Imagine como deve ser a vida desse cara! Sabe quando você ouve “dança da manivelaaaaaaaaa” e fica com a música na cabeça durante uma tarde inteira? Então, amigo, Chuck Berry está com Johnny Be Good grudada no cérebro há cinquenta anos. Ele acorda com essa música na cabeça e dorme com ela na cabeça, e ninguém garanta que ele não sonhe com ela também. Que terror, meu deus, que terror!

Divaguei porque me compadeci do pobre velho Chuck Berry. Mas dizia eu que, na Argentina dos anos 50, quando a junta militar tomou o poder e o peronismo começava a ser formar como um movimento sólido (e clandestino, o nome Perón foi proibido de ser falado), os militares tavam naquela caça às bruxas que é típica deles, e é típica também do cara mau amado que não faz ideia do que as pessoas estão falando dele e começa a ficar paranóico (façam as analogias necessárias e tirem suas conclusões). Eis que, numa noite de 56, minutos antes de baixar a lei marcial que autorizava fuzilar os terráqueos que fossem presos pelos milicos, a puliçada baixou numa casinha onde uma galera estava reunida pra chogar uma caxeta (Wilmutt), ouvir uma luta de boxe no rádio, etc. Como todos bons agentes da lei, nego chegou lá não querendo saber de nada, não tinha desculpinha, não tinha nervosinho, não tinha fortinho, não tinha necas. Chegaram descendo o cacete e mandaram o teje preso pra geral. Todos foram levados pra uma estrada longínqua, onde desceram do caminhão, fizeram fileiras e amorteceram inúmeras rajadas de balas dos gambé. Entretanto, a parada foi tão mal feita que metade escapou com vida pra contar a história (não lembro do número exato agora, mas acho que tinham doze e sobraram cinco, seis ou sete).

Aí que entra Rodolfo Walsh. O cara tava na dele, escrevendo seus livrinhos policiais (se Dan Brown é o McDonald’s da literatura, romance policial é o Subway: mais saudável, mas ainda assim é fast-food. Ah, e livro do André Vianco é o Bobs), e a oportunidade de escrever essa história cai na mão dele. Ele busca os sobreviventes, entrevista cada um 486 vezes, cruza as informações, monta uma cronologia, ataca a rinite revirando papel velho, passa noites em claro, almoça miojo todo dia, e no final obtém um puta dossiê. Sei que quando a gente fala de dossiê aqui no Brasil, nego logo pensa que é um monte de documento forjado que serve pra tentar derrubar o inimigo político, mas esse dossiê não, esse é dossiê de verdade. Com ele, escreve esse belo livro, com muita perspicácia na narrativa (tem passagens que me deixaram com dor no peito por dias) e, desnecessário dizer e com o perdão da palavra, joga merda no ventilador dos milicos, água no chope do governo, pimenta no cu da Argentina. A parada ia feder pra todo mundo, ele vira o autor da acusação contra o regime. Sim, o autor mete a colher, o bedelho, mete tudo no meio, toma o lado da briga dos caras e entra com um processo. E vocês aí achando que jornalista ainda quer ser imparcial. Tolinhos.

Pois bem, quando a parada tá quase ganha, o tribunal passa a batata pro tribunal militar e lá tá tudo entre amigos, o juiz alivia a barra dos manolos e fica elas por elas. Rodolfo Walsh sobe nas tamancas com essa palhaçada toda, escreve uma carta, fulo da vida, endereçado ao governo, entrega lá na porta, e um dia depois toma chá de sumiço. Suspeita-se que tenham largado o prego nele em alguma esquina, fato é que o serviço foi rápido.

Essa edição da Companhia das letras contém, além do livro, a carta de Rodolfo Walsh que lhe custou a vida, explicações sobre a versão cinematográfica do livro, prólogo para a primeira edição, introdução, apêndice obrigatório, epílogo provisório, outro epílogo, enfim, uma cacetada de textos curtinhos que até são importantes para entender a obra, mas a maioria não tem lá muito valor literário. De qualquer jeito, tá tudo ali, pro leitor conferir que não é caô, um trabalho aí que se deve ao Matinas Suzuki, organizador da coleção Jornalismo Literário. O livro segue o padrão da coleção. Papel pólen, fonte minion, três fotos que dizem muito pouco, quase nada, sobre a história (também, né? Três fotos pra um livro inteiro é sacanagem!). Tradução do Hugo Mader e o resto é ler pra crer. Consegui falar da importância do livro. Espero que sim, porque ele é importante pra mim. E se não consegui, melhor, vou dar uma de indie e guardar meus gostos só pra eu mesmo, e reclamar se virar best-seller. Pô, esse Coetzee tá um vendido, todo mundo tá lendo. Nem gosto mais desse cara *ar de blasé*.

Comentário final: Pior do que tocar a mesma música por cinquenta anos é ter essa música arranjada pelo Cidade Negra num acústico. Obrigado, Chuck Berry, por não estourar os miolos depois dessa, você é um bravo.

 

Valêncio Xavier – O mez da grippe e outros livros

Galerinha, novidades! O Livrada! tem o seu primeiro parceiro: a editora Prumo (como podem ver pela seção de parceiros na barra ao lado). Então aguardem livros da editora e sorteios de títulos, okapa?

Outro aviso: o próximo post será sobre as estantes, então, quem não mandou, mande logo a foto da sua, vai ser maneiro! (estamos sucintos hoje, hein?)

Então vamos ao que interessa: o mês de dezembro me lembra muito do Valêncio Xavier, por uma razão que só faz sentido pra mim: em 2007 meu pai me deu de presente de natal uma farrinha na Fnac, onde comprei seis livros: Ficções, do Borges, o Ninho da Serpente, do Pedro Juan Gutiérrez, Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra, do Mia Couto, o Continente vol.2, do Erico Verissimo, O evangelho segundo Jesus Cristo, do Saramago, e este, o Mez da Grippe, um dos melhores e mais bonitos livros da minha estante. Claro que todos eles já haviam sido lidos ao final de janeiro, mas o fato é que foi um dia muito irado pra mim, que me senti fazendo as compras de mês na livraria. Tudo isso pra explicar por que escolhi esse livro hoje. Opa, voltamos à encheção de linguiça que nos é peculiar

Valêncio Xavier, pois bem. Ao mesmo tempo em que a mídia fica aí dando tapinha nas costas dele, dizendo que ele é o cara, ele sempre foi muito pouco comentado e muito pouco lido. O cara tem uma panelinha de leitores mais fechada do que a galera do Ignácio de Loyola Brandão. E digo pra vocês: é preciso ler mais Valêncio Xavier. Muito mais. Estou falando desse livro óbvio dele, mas pretendo falar de outros, afinal, quando deu a notícia da morte dele no jornal, todo mundo esqueceu o Desmembranças da menina de rua morta nua e do Minha mãe morrendo e o menino mentido. Então, vamos fazer aqui um favor à humanidade e tornar os livros do Valêncio prestigiados outra vez. Larga aí o Crepúsculo e se liga nessa história.

O Mez da Grippe e outros livros já chama atenção no título. Não só tem uma grafia escrotassa de mil novecentos e guaraná de rolha, como o “e outros livros” faz parecer que espremeram tomos aí nessas poucas páginas que o livro apresenta. Acontece que o autor escreve seus livros com um mínimo de texto e sempre com o recurso das imagens e do projeto gráfico montado exclusivamente para suas histórias (e por isso ele interessa tanto aqui para o Livrada!).

Por partes então, e falarei aqui dos principais. O livro que dá nome ao livro (hã?), O Mez da Grippe, é a história da gripe espanhola em Curitiba. Pra quem dormiu na aula de história, a gripe espanhola foi o surto de Influenza A H1N1 (sim, aquela que ganhou o prêmio Revelação de 2009 no Doença Awards) que, em 1918 chegou no Brasil e matou gente a dar com pau. Você imagine só que se essa gripe matou gente pra dedéu no ano passado, com todos esses avanços da medicina, bebedouro de Tamiflu, polícia paranóica no aeroporto, todo mundo andando com máscara e até comércio fechando, imagine só naquela segunda década do século XX, quando remédio não servia pra muita coisa e ainda assim todo mundo era hipocondríaco. Ora, vai dizer que seu vô não tinha umas histórias de tomar uma injeção na farmácia pra ter pique para ir pro trabalho? É, amigo, a gripe botou a dona morte pra fazer hora extra por dois anos. E Valêncio deu uma noção geral do que foi a parada, usando para isso depoimentos colhidos na época de velhas polacas curitibanas, recortes de jornal, fotografias e etc. Tudo isso com muito bom humor. É de cair o queixo a forma como as autoridades fecharam o olho pra doença, tentando não alarmar a população. A situação fica patética, então, e dá até pra imaginar a cara de bunda que o governo faz quando a parada sai de controle. Chegou a faltar caixão no mercado, e as pessoas até esperavam pra enterrar alguém, porque vai que mais gente morria, pra aproveitar o cortejo. Sinistrão, maluco.

Daí tem os outros livros dele. Maciste no inferno, por exemplo, é um filmão thrash do cinema mudo, que ele narra com imagens do filme, partituras da trilha sonora e uma locução doidona. O minotauro é um livro que se passa num hotel que é um verdadeiro labirinto, e a cada hora o personagem está diante de uma porta, cujo número aparece no cabeçalho. E, por último, gostaria de falar do conto O mistério dos sinais da passagem DELe pela cidade de Curitiba que, em resumo, fala de um terreno baldio na Rua XV onde, segundo o autor, Deus passou para dar um barro, leu e limpou a bunda com a Tribuna (o jornal que pinga sangue da cidade). Imagine o que é isso na cabeça de um moleque influenciável como eu e tirem suas próprias conclusões. O cara é bom ou não é?

Que esse livro é lindasso eu já disse. A Companhia das Letras, que geralmente tem um capricho com as obras que lança, foi extremamente cuidadosa com esse, que ganhou o Jabuti de 1999 na categoria melhor produção editorial. E não é pra menos. Repleto de fotos, recortes e diagramações a cada hora diferentes uma da outra, o livro tem um formato quase quadradão, generoso, com capa em papel cartão e mais papel cartão bordô-mamãe-tô-dando dentro. O papel é o legítimo pólen soft, mas as fontes variam muito. Tem até letra japonesa no livro, cara. Além disso, uma linda encadernação artesanal que vemos poucas vezes, e que dá um tchã especial pra obra. E chega de babar na minha edição, arruma a sua aí.

Comentário final: 324 páginas em papel pólen soft. Pimba na gripe suína!