Daniel Pellizzari – Digam a Satã que o Recado Foi Entendido

Daniel PellizzariDeixe me começar dizendo que eu nunca havia lido nada do Daniel Pellizzari e que também não acho que esse livro seja parâmetro para julgar a obra dele. Por quê, vocês me perguntariam, se basicamente tudo o que a gente faz aqui é essa crítica metonímica de quem tá com pressa e não vai perder tempo com quem seja minimamente medíocre? Ora, porque Digam a Satã que o Recado Foi Entendido faz parte da coleção Amores Expressos. Aquela em que os escritores vão todos para um canto do mundo passar um mês com a missão de voltar com um romance que fale de amor e que seja ambientado nessa cidade. Deixe-me dizer que não acredito nem um minuto nessa premissa, e não acredito que algo de bom possa sair disso. Afinal, pode a expressão ser encomendada? Pode um sujeito receber uma missão limitadora como essas e voltar com algo genuinamente relevante? Eu duvido muito, até porque já li outros livros dessa coleção e ainda não vi nada que fosse realmente digno de nota. E isso não tem, objetivamente, a ver com a qualidade dos escritores, pelo contrário, gente respeitadíssima deu com os burros n’água nessa aí. A diferença da coleção Amores Expressos para outras coleções que deram certo, como a Plenos Pecados, por exemplo (bom, é bem verdade que só uns quatro livros daqueles prestam, mas são quatro de sete, então a média é boa), é que enquanto ele é geograficamente limitado, é tematicamente genérico. Pensar cada um dos pecados capitais, ou mesmo algo aparentemente mais leviano, sobre os dedos da mão (como na coleção Cinco Dedos de Prosa), é algo infinitamente mais produtivo do que pensar em histórias de amor situadas em diferentes partes do mundo. A boa coisa é que a pancada é amortecida, em boa parte, pelo fato de metade dos escritores incumbidos da missão desrespeitarem essa lei e acabarem trazendo uma história sobre absolutamente qualquer coisa. Senão a coisa ia ser pior ainda, imaginem vocês!

De modo que estamos entendidos que este é um livro conceitualmente único na carreira desse senhor Pelizzari, segundo que o livro encomendado é o livro do escritor profissional, aquele que escreve pra ganhar o cheque, não necessariamente para dar vazão à sua expressão literária (embora isso seja até possível). Mas vamos lá: Digam a Satã que o Recado Foi Entendido se passa em Dublin, capital da Irlanda, e cruza algumas histórias de alguns personagens, todos ou quase todos imigrantes no país de Joyce: a história de um sujeito com o inacreditável nome de Magnus Factor (sério mesmo?), que trabalha numa agência de turismo especializada em roteiros mal assombrados pela cidade, e que se apaixona por uma eslovena vida loka, uma garota de 12 anos que quer fazer uma peregrinação suicida, uma modalidade cada vez mais em voga nos dias atuais, e uma seita que louva deuses celtas para os quais ninguém a não ser a Enya dá a mínima. Isso e outros personagens tão bidimensionais quanto as folhas de papel nos quais estão inseridos. A história do livro é a história do cruzamento desses personagens, não havendo um eixo central da história, nem algo relevante para ser usado como fio condutor. O amor exigido pelas regras da coleção? Meramente protocolar, esqueçam. A Irlanda em si? Talvez, mas essa é uma abordagem muito da superficial para um livro tão curto e tão despretensioso. Os fatos relacionados a Dublin, sua mitologia, sua história e seus elementos são meramente citados com conhecimento enciclopédico. Sério, essa viagem a Dublin poderia muito bem ser substituída pela leitura extensa e excessiva de um almanaque sobre a cidade. Esse conhecimento enciclopédico, irreflexivo e meramente descritivo é a tônica do romance, e é amplamente utilizado pelos personagens, como um polonês, coadjuvante na história, obsessivo por listar epidemias. A coisa em si não serve à história e serve poquíssimo ao personagem – quando muito dá um traço da personalidade dele.

Renato ParadaTalvez o ponto central da história aconteça nas páginas finais. É como aquele caseiro do Iluminado que passa o filme inteiro viajando até o hotel onde um pai de família está despirocando e atrás da família e quando finalmente chega, toma uma machadada nas costas e morre. Tudo converge pro final, mas não necessariamente é o final que você esperaria. E tudo então é muito rápido, abrupto, como se o autor estivesse já meio de saco cheio da história e quisesse colocar o ponto final logo.

Falei até aqui da trama, que tem todos os elementos que você aprende numa oficina literária: múltiplos personagens, coadjuvantes minimamente interessantes, digressões sobre temas populares, conhecimento de almanaque e final convergente. O estilo também segue a fórmula: uso excessivo de oralidade, gírias, neologismos se necessário e uma fórmula bem característica de pequeno ensaio temperado na crônica. A linguagem parece muito a da tradução do Trainspotting, do escocês Irvine Welsh, que foi traduzido justamente pelo autor e pelo Daniel Galera, então, sei lá, deve ter ficado essa influência do que seria uma escrita britânica traduzida na cabeça do Pellizzari, essa que ele ajudou a criar. Quem lê esse blog há muito tempo sabe que eu não sou muito de ficar pinçando trechos pra provar meus pontos de vista, porque trechos servem justamente pra isso: provar pontos específicos, e isso é extremamente tendencioso. Essa opinião é a ideia geral do romance, que o permeia do começo ao fim. Particularmente, não é dos meus estilos literários favoritos, mas parece que a garotada gosta muito hoje em dia. Aliás, suspeito que essa coleção Amores Expressos tenha definido um público que fica entre os 17 e os, sei lá, 22, 23 anos. Pra essa galera os romances têm um apelo de descoberta de mundo e de frescor literário, então sempre é uma coisa boa.

Aliás, deixe-me dizer aqui uma coisa que parece que vai contrariar tudo o que eu já disse: ler esse livro não é uma experiência ruim. É uma leitura rápida e não é irritante, de maneira que se torna uma boa opção de fast-pace, pra ler no aeroporto, no hospital enquanto um parente querido é operado, pra quem visita o Detran regularmente, ou simplesmente pra quem tem com livro aquela atitude de frequentador das extintas locadoras de filmes, que pedem “um filme pra não pensar muito”. É um livro que discute alguma coisa? Não. É um livro que vai mudar a sua vida? Provavelmente não. Mas como a produção atual anda nivelando por baixo, esse Digam a Satã que o Recado Foi Entendido pode servir como o gengibre em conserva, o gari da comida japonesa: tira o gosto da boca entre uma comida e outra.

O projeto gráfico da Companhia das Letras, como sempre, é bem impressionante, e o estilo pop e chapado da capa passa bem essa ideia de uma leitura rápida e para jovens. Por dentro, papel pólen, fonte Electra e uma gramatura boa pra fazer o livro parar de pé. Para se ler em um ou dois dias.

Comentário Final: 184 páginas de papel pólen e gramatura alta. Tá ficando cada vez mais difícil fazer um comentário final. Acho que vou parar com essa ideia.

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