Yasushi Inoue – O Fuzil de Caça (Ryōjū 猟銃)

RyojuJá ouviu falar de Yashushi Inoue, malandragem? Pois é, eu também não conhecia, mas o cara é ganhador de um Akutagawa, que, pra quem não sabe, é um Goncourt japonês, que dá dinheiro mesmo (e um relógio de bolso). Bom, ignorâncias ocidentais à parte, O Fuzil de Caça é o primeiro romance do Inoue, e ganhou muita visibilidade quando saiu, e dá pra ver o porquê.

O romance, curtinho, é escrito por meio da gloriosa e sempre relembrada tradição da narrativa epistolar. O sujeito que quer contar uma história por meio de cartas, quer primeiro que você conheça os personagens em suas próprias vozes, mas também quer descortinar a história aos poucos, cada hora sob a ótica de um deles, e, principalmente, quer contrapor um diálogo unilateral entre seus personagens, no qual ninguém responde ninguém a tempo. Pegar toda essa intenção e transformar em uma coisa legal é algo difícil e trabalhoso, e até hoje só vi isso bem feito nesse livro e no Caro Michele, da Natália Ginzburg, também já resenhado aqui. Vamos ver o que eu consigo lembrar da história para falar pra vocês.

O Fuzil de Caça tem sua premissa numa carta que o autor fictício/narrador real recebeu de um caçador, em quem o escriba, notadamente um poeta, teria se inspirado para escrever um poema sobre caça publicado numa revista de caça. O sujeito remete a quem conta a história uma série de cartas endereçadas a ele, donde se desenrola a verdadeira história. Temos aí então uma estrutura de tríptico narrativo, com prólogo, romance e epílogo.

A história em si gira em torno de um quadrângulo amoroso entre o caçador Josuke, Midori, sua esposa, Saiko, aparentemente irmã de Midori e o marido de Saiko, que passa de revesgueio na história. Bom, Saiko meio que roubou o marido de Midori como amante depois que ela se separou do marido, e manteve tudo num segredo mortal, que, uma vez revelado, culmina em sua própria morte. Nessas cinco linhas de sinopse já entreguei mais do que deveria do livro, seria melhor não falar nada sobre ele porque a cada nova descoberta a história muda diante de seus olhos. Mas aí, por outro lado, iria falar do quê exatamente, né? Vai ser a resenha mais curta da história desse blog. O que posso falar é que as três cartas pelas quais é possível conhecer a história de Josuke são cartas de Midori, Saiko e de Shoko, filha de Saiko, a primeira a ler o diário secreto da mãe, aquele em que a história de amor entre os dois é revelada. Vish, já to entregando mais do livro, é melhor parar por aqui.

fuzil de caçaVejamos aqui os pontos altos do livro. O Fuzil de Caça é um romance que já começa a explorar algumas imagens líricas típicas da literatura japonesa da segunda metade do século 20, e tem em seu centro uma singeleza apenas percebida pelo tom seco e ao mesmo tempo reflexivo dos personagens. Não sei se poderia dizer que Inoue soube fazer vozes diferentes para cada um, pra mim pareceram estilos muito iguais, mas isso pode ser da tradução também, então é melhor não apontar dedos nesse momento. O fuzil de caça mesmo, citado em certa parte da história, simboliza uma solidão absoluta do ser humano na experiência, o fato de que sempre se está sozinho em sua própria experimentação, e que mesmo pessoas muito próximas não se igualam em companhia ou em compaixão, o que é uma coisa bonita, acho eu. Mas posso não ter entendido o livro direito, veja bem, essa é uma possibilidade não muito impossível. Apesar de pequeno, o livro é denso e muito aberto em sua interpretação. Se é que foi feito para ser interpretado dessa forma.

 A história, que poderia ser mais um caso de amor e traição, fica mais legal nas circunstâncias de sua escrita (o pretexto do narrador poeta que recebe cartas) e certamente o fato de serem apenas três cartas que resumem tudo a um destinatário que não se manifesta diretamente no romance faz de O Fuzil de Caça um daqueles petardinhos que certamente vão animar o seu dia. É aquele livro que te faz pensar “vê só como tem muita coisa boa aí que a gente nem imagina que exista”.

O livro foi publicado pela sempre presente Estação Liberdade, quando o assunto é literatura japonesa, e como sempre a editora não desapontou – à exceção, talvez, do papel offset que representa tempos outros já enterrados por esta época de ouro da editoração de livros. Fonte Gatineau e uma das capas mais bonitas que já vi. E o lado bom de comprar os livros da estação liberdade é que você ganha um marcador de página largo e bonito com a foto da capa. Dá vontade de emoldurar todos, mas não vou fazer isso porque não sou fetichista feio uns e outros que leio por esses recônditos da internet literata. Lê quem quer, mas que vale a pena, vale. Mais um pra coleção dos livros de uma sentada só.

Comentário final: 102 páginas de papel offset.

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Natalia Ginzburg – Caro Michele

Alô você! Parabéns, conseguiu chegar vivo até o começo de dezembro, e até o meio da semana (sabia que quarta-feira em alemão é Mittwoch, sendo mitt = meio e woche = semana? Livrada! também é cultura, malandro!).

E olha só, não costumo falar isso aqui, mas eu tenho uma banda de roque que se chama Sua bunda. Pois bem, Sua bunda vai se apresentar nesse fim de semana no Hermes bar (se tiver interesse em ir, só mandar e-mail) e vai ser legal. Tocamos um funk metal satírico e entretemos a audiência com muito humor e pauleira. Plim-plim, cabô o comercial.

O livro de hoje tem o mesmo título em italiano e em português, por isso não precisei dos parênteses com o título original. Trata-se de um livrinho bacaninha demais de uma escritora italiana chamada Natalia Ginzburg. A moça defendeu causas nobres em vida, deu uma de antifa no rabo dos que cismaram em dar as caras na Itália depois que o Ducce foi pro pau. E, entre uma antifada e outra, escreveu este belo livro, singelo por fora, mas intenso, triste, revoltante, arrebatador, surpreendente e emocionante por dentro. (Aprendi com as resenhas de filmes que saem nas capas a classificar as coisas com os adjetivos ‘arrebatador’, ‘surpreendente’ e ‘emocionante’.) Falemos dele então.

Caro Michele é um livro totalmente (ou quase totalmente) contado por meio de cartas, endereçadas ao tal do Michele. Bom, nem sempre, a maioria das cartas são para outras pessoas, mas todas elas, ou quase todas, falam do Michele, que é um jovenzinho estudante meio porralouquinha que tá perdido na vida, morando fora de casa e preocupando a mãezinha dele, que se vê às voltas com a vida que o filho deixou para trás: amigos do filho, problemas do filho, ex-namoradas do filho, etc. O Michele mesmo não dá muito sinal de vida. Aparece com uma namorada meio doida, meio hippie, e depois arruma outra, mais velha, que quer se mudar com ele pra não sei onde. De vez em quando lembra da mãe, que está velha, cansada, acabada e sozinha, reclamando de tudo e de todos, embora demonstre grande paciência. Alinhaz, esse é um dos pontos altos do livro: os personagens são muito bem construídos, mas, manja, tipo, muito, tá ligado, bróder? Pra dedéu, morô?

Então, há a questão das camas de texto. Se você pegar o Caro Michele pra ler de boua numa tarde, vai achar uma historinha bonitinha, meio triste, mas bem tranquila. Agora, se começar a esmiuçar o livro, sacar as idiossincrasias dos personagens, entender o que há por trás de cada hesitação, cada informação ocultada, cada sorriso amarelo, vai ver que o que há é uma família destruída que se mantém pelas aparências. E quando eu digo “família destruída”, não estou querendo que vocês façam analogia a um núcleo rico qualquer de novela das oito. Digo destruída individualmente: cada um é derrotado à sua maneira, e cada um esconde sua derrota por um motivo diferente. E aí o livro que já era bom fica excelente. Vai por mim.

Por fim, acho esquisito o narrador desse livro, que dá um estarte na parada e some depois de umas duas páginas. Não sei se a autora poderia ter se esforçado um pouco mais para fazer um livro sem narrador nenhum, só com as cartas mesmo, mas o fato é que o pouco que ele aparece dá a entender que se trata de uma muleta literária, no qual Ginzburg se apóia quando sente que não vai dar conta de tratar bem a história em algum aspecto. Mas essa é só a minha impressão.

Esse livro é parte da coleção “Mulheres Modernistas” da Cosac Naify, uma belíssima coleção aliás. Gosto da cor da capa, porque gosto muito de qualquer tom de verde escuro, e de estampa xadrez também. O livro conta com fotos legais da autora, sugestão de leitura, pósfácio de Vilma Arêas (Vilmaaaaaaaaaaaaaaaa) e tudo mais o que você tem direito. Papél pólen, fonte Nofret (alguém conhece essa fonte?), capa dura e página preta em papel cartão pra dar uma reforçada na belíssima encadernação artesanal. E, tá, a Natalia Ginzburg tem mó cara de caminhoneira, ou uma dessas velhinhas amargas, mas é uma das mais gatinhas das mulheres modernistas dessa coleção. Cada baranga que você não acredita, meu deus! Tipo, terceira mensagem secreta de nossa senhora de Fátima mesmo. Visão do inferno!

Ah, esqueci de dizer: escolhi esse livro hoje porque ele foi adaptado para o cinema pelo Mario Monicelli, o simpático vovozinho que saltou no vazio essa semana. A benção!

Comentário final: 192 páginas pólen soft 80 g/m² e capa dura. Toasty! (referência obscura essa, não?)