Rosa Montero – A Filha do Canibal (La Hija del Caníbal)

Curtam a página do Livrada! no Facebook!

Sempre falo isso no final de cada post, vamos tentar falar por primeiro pra ver se vocês prestam atenção, seus cabeças de vento! Rá, brincadeira, aqui ninguém é cabeça de vento, os leitores do Livrada! são sempre os mais espertos e os mais cheirosos.

Como vocês estão, gente? Susse no musse, de boa na lagoa, suave na nave, de leve na neve, tranquilo no quilo, de bobeira na ladeira, seguro no muro, beleza na mesa, jóia na jibóia, manso como um ganso? Espero que sim, porque aqui tá tudo aquele pandemônio nosso de cada dia. Mesmo assim, é sagrado: domingo sim, domingo não, cá estou eu para encher o seu cérebro de besteira ao mesmo tempo que exerço uma boa influência na sua formação. Tipo quando o Tim Maia começou a ler o Universo em Desencanto, ou quando o Jaime Palilo fugiu de casa e aquele mendigo ensinou ele a tocar gaita.

O livro de hoje é de uma autora que, se vocês são freqüentadores assíduos desse blog (vou fazer uns bottons, quem compra?), não é uma completa desconhecida: é a espanhola Rosa Montero, da qual já resenhei A História do Rei Transparente e História de Mulheres. Bom, ao contrário dos recém-supracitados, A Filha do Canibal é um romance mais limpo, no sentido de que não é histórico, não tem ensaio, não tem nada além de um puro e simples romance com uma dose considerável de suspense. Mentira, tem um pouquinhozinho dessas coisas que eu falei que não tinha, mas a julgar pelo exagero dessas doses na obra da Rosa, é quase como se não tivesse.

A história começa a partir de um mote totalmente banal, mas que abre marge pra toda sorte de maluquice que você desejar colocar num romance a partir disso: Lúcia Montero, uma mulher casada de meia idade, está pronta para viajar com o maridão no réveillon quando o fulano pede pra ir no banheiro. E pronto: o cara some dentro da casinha. A partir daí, a moça fica desesperada pra tentar descobrir o que aconteceu com o rapaz e acaba se envolvendo com uma gangue de malucos, a saber: Fortuna, um ex-toureiro e anarquista que preenche boa parte desse livro com suas historietas da guerra civil, e Adrián, um garotão pelo qual as cocotas se perdem e que parece meio burro.

Paralelo à investigação sobre o desaparecimento do maridão, Lúcia relembra sua vida, incluindo o fato que não lhe escapa que dá nome ao livro: seu pai comeu carne humana quando foi um dos únicos sobreviventes de uma expedição aí que já não lembro pra onde. Francamente, não sei qual é o problema. Eu sou uma daquelas pessoas que não tem remorso de comer boizinho, porquinho, galinha, churrasco de gatinho, enfim, se for gostoso, tô comendo. E isso incluiria, hipoteticamente, carne humana também. Mas enfim, pesquisei sobre isso, a parada é ilegal e não vou ficar falando disso porque logo vem um zé Mané querer me enquadrar no artigo 287.

De qualquer jeito, o barato do livro é ver como a relação que Lúcia achava que ela tinha com o marido já havia mudado muito e que o sujeito já era praticamente um estranho pra ela. E aí vai umas ideias muito erradas de como a gente não conhece as pessoas mesmo e patati patatá, perdi o fio da meada e parei por aqui. Eu posso, eu que mando nessa porra. Posso até fazer um emoticon no meio do texto. 😀

Liga não que o post de hoje é curtinho mesmo. É que lembro muito pouco desses livros que eu li, mas lembro que são bons o bastante para não serem esquecidos, e por isso faço questão de divulgá-los aqui para vocês. Entendam que, apesar de ser de ruim memória, é de bom coração. Fazê-los conhecer os livros queridos da minha estante é o mínimo que posso fazer por tantas coisas boas que eles me trouxeram.

Agora vamos falar desse projeto gráfico aí. Ó, a imagem que eu escolhi da capa tem um sentido muito legal. Não escolhi essa imagem só porque foi a única que eu achei na internet com um tamanho decente e com o padrão de cores pouco distorcido. Foi também por causa dessa cinta maravilhosa que a editora colocou. “Da autora de A Louca da Casa”! Sensacional, colocaram o título a partir de um dos maiores sucessos da autora que por acaso também é um dos livros mais difíceis dela. Isso é que eu chamo de valorizar a inteligência do leitor. Ponto pra editora. E o papel é pólen e a fonte é Minion! Mais dois pontos! Ê! Mas agora o livro perde todos os outros pontos. Primeiro por causa dessa capa horrorosa, uma espécie de Matisse-de-Ressaca numas cores suspeitas. E principalmente, e aqui vão desculpar a minha arbitrariedade, por causa da editora Ediouro. Veja, não é que eu odeie a Ediouro, mas esse nome e essa logo do bonequinho com um livro aberto provoca todo tipo de relação pavloviana na minha mente, porque os livros que eu precisava ler obrigado para a escola eram todos, ou em sua grande maioria, da Ediouro. E hoje quando eu pego um livro da Ediouro para ler por prazer, eu já penso que vai ter uma prova sobre o enredo. Brrrr, que calafrios me dá isso. Editoras: considerem fazer um selo propositalmente desagradável para os pimpolhos, para que eles não cresçam odiando vossa casa editorial. Enfim, só uma ideia. E com essa me despeço!

Comentário final: 333 páginas. Aprendi a tocar minha primeira música dos Beatles ontem. Isso porque não sou lá fã dos Beatles. Mas curti.

Anúncios

Rosa Montero – Histórias de Mulheres (Historias de Mujeres)

Historias de MujeresMais um domingo, minha gente, mais um post. Esse deve ser o post menos lido da história. Primeiro porque é sobre uma escritora que surpreendentemente não é lida por tanta gente (temos que mudar isso!), segundo porque é domingo que antecede um feriadão enforcado (para o patronato benevolente) e meio mundo está agora fazendo um headbang propício no festival SWU, um festival da galerinha modernete que é a favor das ecobags, que ostenta seus produtinhos da Apple, que curte um flashmob e uma xiboquinha, e vai pra Itu de excursão queimando diesel lá da casa do chapéu pra chegar e pedalar em uma roda-gigante movida a bicicleta ergométrica. Eu acho que esse festival poderia ter sido a coisa mais sensacional dos últimos tempos, mas, como todo festival, tem seus defeitos. No caso, os defeitos são o estacionamento de 100 reais e a presença da banda Los Hermanos. Como diz a minha chefe, “é pra fuder o cu do palhaço”. Mesmo assim, continuemos na nobre missão de resenhar dois livros por semana por aqui.

Como disse ali no nariz-de-cera (de cera ou de praxe?), Rosa Montero — pasmem vocês! — não é tão lida quanto deveria. As buscas pela dona no mister Google também não são lá essas coisas (falando em Google, eu e Michel, o anarco-primitivista descendente direto dos macacos do novo mundo que trabalha comigo, estamos bolando o Jögler, o Google alternativo do Leste Europeu, vai ser maneiro). Gente, vamos ler mais Rosa Montero, a autora é uma das melhores coisas que vieram da Espanha nos últimos tempos no quesito literatura. Claro que essa é só a minha opinião, mas é que acho que, mais do que uma boa narradora, Rosa é uma escritora com bagagem (ruim de ficar falando essas coisas de escritoras mulheres é que neguinho já pensa logo em sacanagem), estudada mesmo, não só uma versadora de mão cheia. E o livro de hoje é justamente uma prova disso. Falemos dele então.

Histórias de Mulheres são, basicamente, ensaios, ou pequenas biografias de mulheres. Figuras importantes na história selecionadas pela autora, de cujas vidas são destacados pequenos e importantes trechos para tentar traçar um perfil não totalmente justo, mas pontual para seus CQDs. As histórias contadas por elas são incríveis: umas donas bem cruéis, outras bem sofridas, algumas dotadas de uma submissão dolorosa a seus maridos fascistas, outras, castradas pela época em que viveram. Discorramos.

Não há muito de específico que me lembre agora do livro, lido no começo do ano passado, se não me engano. Puxa, deveria ter começado esse blog bem antes, os livros estariam mais frescos na cachola. Mas enfim, lembro-me agora da história das irmãs Brontë, entre as quais a mais famosa era a Emily Brontë, que escreveu o Morro dos Ventos Uivantes, livrinho que tá debaixo do braço de toda fã de Crepúsculo que se preze. As três irmãs morreram muito cedo e assinavam com nomes de homem para poder fazer seu público leitor em uma época machista. Também lembro da Simone de Bouvoir, uma mulher mais nojenta que aquela gordinha do The Gossip, porque era nojenta na alma. Tem também a Hildegart Rodríguez, uma mulher criada para ser um símbolo de revolução sexual, assassinada pela própria mãe, Aurora, antes dos 20 anos. Tem também Zenobia Camprubí, esposa do prêmio Nobel (estamos falando muito dos Nobéis ultimamente nesse blog: Kawabata, Vargas Llosa, García Márquez, etc) Juan Ramón Jiménez, que passou a vida à mercê do marido, escrotasso e esquisito com todo mundo. Aliás, tem uma história muito boa do Jiménez da qual não me lembro muito agora, pois não está no livro, que envolve uma visita indesejada, para a qual Zenobia precisou fazer sala enquanto ele se escondia no quarto fingindo não estar. Até que resolveu fugir usando uma espécie de biombo, caminhando por trás dele, como se ninguém visse um biombo andante cruzando a sala. Quem sabe o Cássio consiga lembrar da história direito.

Rosa MonteroEnfim, são histórias variadas sobre mulheres variadas. Tem Frida Khalo (já chegou para algum amigo que apareceu com uma nova namorada de buço considerável e comentou: “e aí, tá comendo a Frida Khalo?”? Se ainda não fizeram isso, não façam. Estraga as amizades, vão por mim), tem Agatha Christie, a mocinha que era modelo pras esculturas do Rodin, enfim, um leque aí de opções que não são exatamente o calendário de 1997 da Playboy, mas que impressionam pelas histórias de vida, para o bem ou para o mal.

O prefácio também vale muito: um panorama geral da situação da mulher ao longo da história, em diferentes civilizações, faz uma boa entrada para o assunto do livro. E o posfácio trata de falar da predileção dos ingleses pelas biografias, gênero pouco lido na Espanha. A autora cita também sua empatia (ou antipatia) pelas figuras retratadas, enfim, faz aquele “finalmentes” bacana. Geralmente os leitores tendem a pular o posfácio e o prefácio (você é desses?), mas vale a pena se não é uma jogação de confete de algum especialista em literatura. Ah, já falei que a narrativa do livro também é muito tranquila a ponto de agradar até as donas de casa do clube do livro? Então, mérito da Rosa Montero. Rosa pra presidente do clubinho, já!

Essa edição da Editora Agir é muito boa, apesar da capa, que não gosto muito. Um sofá em forma de lábios não é algo que eu considere muito legal, sequer pouco legal, e francamente, odeio essas paradas de “Da mesma autora de ‘A Louca da Casa’”. Tudo bem que é uma chamada comercial, mas acho que isso deveria vir em cintas ou de outra forma que você pudesse jogar fora depois, acho extremamente constrangedor. É muito querer rebaixar o sujeito a um trabalho. Ou você queria que a novíssima vigésima coletânea do Chico Buarque viesse com a tarja: “Incluindo os hits ‘Roda Viva’, ‘Construção’ e ‘Geni e o Zepelin’” ou com o aviso “Do mesmo compositor de ‘Noites de Gala, Samba na Rua’, tema do personagem de Marcos Pasquim na novela Cubanacan”? Não, né? Pois é, o mesmo rola aqui. Ah, e colocar citação de resenha da Revista Cláudia não é exatamente um bom marketing, ok? Principalmente com os dizeres “As mulheres elegeram Rosa Montero a autora do momento. Ela é tão envolvente e sincera na escrita que faz qualquer um se sentir seu amigo íntimo”. Vontade de soltar um palavrão ao ler isso, mas vou me segurar. Sei que o leitor experimentado que ler uma porcaria dessas num livro corre como se não houvesse o amanhã. Mas, acreditem, embora as leitoras de Cláudia leiam Rosa Montero (duvido muito disso, aliás), a escritora é excelente. No mais, papel pólen fundamental e fonte Minion. Um cabeço é necessário em qualquer livro de contos ou ensaios, ponto pra eles. E por hoje é isso.

Ah, ainda dá tempo de mandar a foto da sua estante para bloglivrada@gmail.com Manda aí, vai ser maneiro!

Comentário final: 223 páginas pólen soft. Se bater em mulher, Maria da Penha no seu rabo, mané!

 

Rosa Montero – História do Rei Transparente (Historia del Rey Transparente)

E começou as postagens do meio da semana. Agora é assim. Tá cansado de ter que esperar o domingão, o único dia que você tem pra passar longe de um livro, ou o único dia que você tem pra LER um livro, pra ler uma resenha ixperta aqui nesse blog horroroso (esteticamente falando)? Tudo bem, agora tem postagem quarta feira também, maluco!

Vixe, demorou pra esse livro ser a bola da vez aqui, hein? Rosa Montero é a minha escritora espanhola favorita (até porque nem sei se eu conheço mais escritores espanhóis — e Cervantes não vale né, porra?), e a Historia do Rei Transparente foi o primeiro livro dela que eu li. E digo mais: li no original, em ER-PA-NIOL. Éééééé cumpádi, tá pensando o quê? Aqui não tem filho de pai assustado não! E que satisfação ler um livro tão bom no original. Dá a sensação de que, se alguma coisa se perdeu na tradução, você não deixou passar.

Bom, esse livro é também, de longe, o maior sucesso editorial da Rosa. Ela tem uma santíssima trindade dos seus livros: pra quem curte uma história mais fantasiosa, a História do Rei Transparente não tem pra ninguém. Pra quem curte algo um pouco mais pé no chão e ainda assim, igualmente boladão, o livro certo é a Filha do Canibal. E, finalmente, pros cabeçudos e pseudo-cabeçudos que curtem um ensaiozinho assim, de leve, mel na chupeta, A Louca da Casa é o que há. Espero falar de todos, mas hoje, nos interessa aqui o primeiro, o fantasioso bolado, LESKE (ih, quem não é do Rio boiou agora).

A História do Rei Transparente é o resultado de uma grande pesquisa da autora sobre o período medieval — as cruzadas, mais especificamente. Se passa na frança rural e conta a história de Leola, uma mocinha roceira daquelas de dênti pôdi que dá na festa junina que, um belo dia, se vê órfã no mundo por causa dos cavaleiros que passaram ali e mataram todo mundo. Como não bastasse, o namoradinho, Jacques, se manda pra lutar pela causa, arrastado contra sua vontade. Sem ter muito o que fazer, ela se veste com a armadura de um homem morto e se passa por homem para sobreviver em um mundo de homens. E não é isso que a mulherada (não todas, só as que tem juízo) anda fazendo nos dias de hoje?

Aventurando-se pelo mundo, ela conhece Dhuoda (gente, desculpa se os nomes são outros na versão traduzida, ok?), uma bruxa que não é bruxa mas sim, antes de tudo, uma mulher de razão e conhecimento, a bruxaria da época (deixa só eles saberem que ser bruxa hoje é ser gordinha de batom preto, cabelo bom e escutar Tristania). Juntas, as duas vão, aos poucos, arrebanhando um exército de desajustados, ou melhor, de desqualificados para a época. Anão, gente com síndrome de down, enfim, tudo com o que o Todd Solondz poderia fazer uma piada só está ali, é a sua trupe.

A História do Rei Transparente é, antes de tudo, um romance sobre a intolerância e sobre a inadequação ao mundo — algo que todos nós (não todos, só os que têm juízo) já experimentamos uma vez ou outra. Sabe aquelas merdas que falam sobre os clássicos da literatura que é um livro que, embora se passe em outra época, é atual e blá blá blá whiskas sachê? Mentira, amigo. Tô lendo Anna Kariênina e nunca aquilo ali vai ser algo atual depois dos anos 60. Tá ali um livro que cheira a museu, rapaziada (tá certo, alguns podem ser de fato atuaizassos, mas a grande maioria vai só na aba dessa mesma justificativa que, acredite, não se encaixa em todos os clássicos). Esse livro sim é atual. Tá certo, foi escrito em 2005, mas é atual na alegoria de algo antigo que se faz atual (Ah, não vem não, que você entendeu). Por isso, é um clássico da literatura. Como que eu sei? Tá com a tag “clássico da literatura”. Tá ali, pode ver, é clássico sim.

E que personagens memoráveis, amigos. Que narrativa fluída (mesmo em erpaniol), que sagas emocionantes, que história cativante. Fico boladão como a galera não tá tão ligada nesse livro quanto deveria estar. Candidato a ser livro favorito de muita gente. Quero ver engolir o choro lendo esse livro, quero ver! Quem não leu tem que ler e quem já leu tá ligado na missão. Ó, tô recomendando, hein? Não é todo dia que eu recomendo livro aqui, só limito-me a comentá-los, mas tô recomendando esse.

Boa notícia pra quem gosta de erpaniol: Dá pra achar esse livro no original, numa belíssima edição da Alfaguara. Talvez na Fnac. Senão, o jeito é ler a versão em português, da Ediouro, numa edição bonita também, mas não tão bonita quanto essa da Alfaguara. Por isso, as duas editoras levam as tags de hoje. No começo do livro ainda tem, como é peculiar dos livros medievais, um mapinha, inclusive com a suposta indicação da ilha de Avalon. Isso, aquela mesma que aparece na revista dos famosos… Animal!

Ah, e o que é a História do Rei Transparente? Por que esse livro tem esse título? Eu é que não vou contar, tenho amor à vida.

Comentário final: 574 páginas pólen soft. Sabe aquela cena do extintor de incêndio em Irreversível? Dá pra trocar o extintor por esse livro.