Jeffrey Eugenides – As Virgens Suicidas (The Virgin Suicides)

The Virgin SuicidesJá viram esse filme, né? As Virgens Suicidas foi para o cinema pelas mãos da diretora Sofia Coppola, que é uma espécie de Midas às avessas: transforma tudo em que põe as mãos em pura merda. Como, por exemplo: história da França. Não sei se alguém viu Maria Antonieta, mas, se não viu, continue assim com essa atitude positiva com a vida e fique longe dessa aberração cinematográfica. E sei que estamos vivendo em tempos muy delicados, em que não faltam dedos para acusar o próximo de sexismo e homofobia, mas a impressão que eu tenho vendo a obra dela é a de que ela transforma toda a realidade sob uma ótica de menininha deslumbrada, uma vibe meio revista capricho, meio jovem indie inculta.

Mas não estamos aqui pra falar da obra da Sofia Coppola, embora ela me sirva de ponto de partida. Pois foi o que pensei quando vi As Virgens Suicidas, o filme baseado no romance de Jeffrey Eugenides. Pensei: “taí um filme que estragou o que deve ser um belo de um livro”. Mas naquela época não conhecia a obra de Eugenides. Tempos depois li A Trama do Casamento, que achei um livro muitíssimo divertido, embora tenha terminado com uma leve impressão de que ele se pretendeu muito mais profundo do que realmente é. Daí peguei esse As Virgens Suicidas pra ler e acho que quando você lê 66% da obra de um autor, você já é capaz de dar um juízo mais ou menos certo sobre sua carreira. E vou dizer que, embora todo mundo me diga que o Middlesex, o outro livro dele que ainda não li, é muito bom, o sujeito é fraco pra diabo. Desses esforçados, coitado, mas ainda assim, fraco. Felizmente pra ele, esse romance virou Cult e agora as pessoas gostam mesmo sem saber o porquê. Bom, eu vou dizer exatamente por que eu não gostei.

Antes de mais nada, uma ressalva à tradução. O título original, The Virgin Suicides, tem um significado diferente da tradução, As Virgens Suicidas, embora pareça a mesma coisa. Do jeito que foi traduzido, tem-se a impressão de que o livro trata de meninas virgens com tendências suicidas, ao passo que, penso eu, o original traduz-se mais como Os Suicídios Virgens (até porque a virgindade das meninas não é exatamente atestada). E eis aí a real intenção do autor, suponho de novo. Tratar do incidente como sendo um ato irracional perpretado por quem não tem experiência suficiente para deliberar sobre a própria vida, verificar se há uma sabedoria tirada da vivência necessária para cometer suicídio, enfim, tentar entender o mistério da vida e da morte que não se explica quando acontece com gente jovenzinha. Mas talvez isso tenha sido culpa do cinema, que (eu acho, mas não tenho certeza) traduziu o filme primeiro e o livro pegou o título pra justificar a frase promocional que vem embaixo.

Pra quem não gosta, pode ter spoiler. Ou não, não decidi ainda, mas por via das dúvidas, se isso te incomoda, não leia. A história, pra quem não sabe, gira em torno de uma família de cinco meninas, um pai e uma mãe, übber religiosos, que é devastada quando a menorzinha se mata assim no mais. O lance vira especulação da mídia, dos vizinhos fofoqueiros, dos colegas de escola, e como se dá a convivência da família com a vizinhança depois disso, até o derradeiro momento quando não sobra mais filha pra contar história. Isso tudo não é spoiler porque é contado pelo narrador (e porque o livro chama AS VIRGENS SUICIDAS, por Tutatis, se você não quer presumir nada a partir desse título, você é um péssimo leitor, sabia?), um dos meninos da escola que vivencia tudo como um atento observador que, décadas depois, tenta reunir com os amigos seus documentos sobre a época para, como disse, desvendar o mistério da morte das meninas. Um narrado que está na história, portanto, mas poderia muito bem não estar, porque é inexpressivamente chato e não participa de quase nenhum momento importante do romance. Aqui, mais uma vez, têm-se o subterfúgio do autor que precisa de desculpa pra escrever suas linhas, não vamos julgar – pelo menos não ainda.

jeffrey eugenidesE aí cabe ao leitor tentar interpretar os acontecimentos à luz da desgraça e concluir o que todo mundo sabe: as minas se mataram porque os pais eram todos Jesus freaks bitolados que não queriam saber de namorinho, mão na coxa e rock n’ roll, elementos essenciais para uma adolescência saudável como todo mundo sabe. O problema é que isso é muito óbvio, e ele sabe que qualquer leitor com três gramas de tutano no cérebro vai conseguir inferir isso da leitura, então ele tenta mascarar com passagens dúbias, as quais, mesmo assim, não apontam para qualquer outra explicação. E no final resolve ainda deixar o caso inconcluído na opinião do narrador-observador. O narrador, aliás, mal cogita essa hipótese do bitolamento dos pais, o que só explana o quanto o Eugenides falha miseravelmente em esconder a obviedade do seu livro, porque os velhos ficam malucos e viram a casa num chiqueiro em pouco tempo, tergiversam do assunto e etc.

O autor faz o diabo, é verdade, pra te convencer do contrário: deixa a entender que pode se tratar de pacto com Satanás, bota a culpa nos garotos, na escola, no julgamento que as pessoas fazem depois que a menorzinha se mata, e até numa música que se chama, vejam só, Virgin Suicide. Mas, tal como Moisés, não consegue. E todo o resto do clima que ele tenta dar pra história é igualmente falho. Um arzinho policial pro mistério das mortes? Não consegue. Uma tentativa masculina de desvendar o espírito de jovens mulheres? Não consegue. Uma intenção de marcar o zeigeist com música pop e menções à guerra? Não consegue. Frases profundas? Não consegue. O livro inteiro é um erro na mão desse cara, e a Sofia Coppola, hoje posso dizer, melhorou a bagaça simplificando e enxergando nele o que todo mundo enxergou, e deixando de lado toda a gordura inútil que ele tentou usar para enriquecer a trama.

Contudo, é preciso dizer, o livro é fácil de ler e é uma leitura agradável de tão boba, dessas que passam rápido e nem se sente. Diria que é um desses livros pra você levar pra ler na praia naquele dia em que cai um temporal e acaba a luz durante o dia. É, esse seria o melhor cenário para se ler Jeffrey Eugenides. E baixe a guarda do seu senso crítico também, senão o pretenso pedantismo desse cara vai te matar de desgosto. Aliás, talvez não devêssemos confiar num sujeito que tem cara de quem está tentando um papel em Don Giovanni versão pornô…

Comentário final: 230 páginas em papel pólen com uma capa horrorosa que parece livro da Meg Cabot. Vou nem comentar mais nada.

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Jeffrey Eugenides – A Trama do Casamento (The Marriage Plot)

The Marriage PlotAs Olimpíadas estão rolando, e obviamente o grau de interesse do brasileiro na cobertura é diretamente proporcional ao número de medalhas que os atletas conseguem para o Brasil. Pra quem não é deslumbrado com quem nada mais rápido, quem cospe um caroço mais longe, quem apanha a maçã voadoura de ouro, quem consegue achar o Bin Laden primeiro, enfim, essas aleatoriedades que usamos como qualificadora de caráter, vem com o Livrada! porque a literatura, para os poucos e bons, é perene e não é competitiva.

Quer dizer, é competitiva para uns loucos que descobri que ficam competindo pra ver quem lê mais livros no skoob, cadastrando tudo quanto é gibi, bula de remédio e livrinho infantil de cinco páginas (abram mão de vossas existências pela sanidade do mundo). E também é competitiva para o Jeffrey Eugenides, nosso objeto de estudo de hoje. Quer dizer, o cara é o nêmesis do Jonathan Franzen, e embora sejam amiguinhos e joguem kinect juntos, representam, cada um a sua maneira deturpada, duas vertentes da nova literatura americana – que, se você me perguntar, vou dizer honestamente que nem é tudo isso, prefiro o Cormac McCarthy e o Don DeLillo ainda.

Enfim, Eugenides, que escreveu o livro As Virgens Suicidas, que virou filme nas mãos da Sofia Coppolla — não devia ter deixado, Eugenides, isso é que nem construir um avião e deixar os amigos do Bin Laden pilotar – é um cara por cima da carne seca por esses dias. Isso porque ele não escreve muito e quando escreve lança A Trama do Casamento, um meta livro.A história, vejam vocês, gira em torno de uma mocinha chamada Madeleine Hanna, recém-formada em Letras e no frescor de sua juventude em plenos anos 80, época em que eu imagino sempre ao som de Don’t You Forget About Me, do Simple Minds (obrigado, John Huges, por tudo). O foco da pesquisa de Madeleine são os chamados “romances de Casamento”, aquele tipo de livro do século 19 em que uma mocinha tem dois pretendentes para escolher e a história inteira é isso, uma espécie de romance policial misturado com novela mexicana, tipo Orgulho e Preconceito e afins. A tioria da menina é que esses livros são o último resquício de machismo visível na literatura, que coloca a liberdade da mulher como o poder de escolha entre um ou outro, e que mulher gosta de ler isso porque é burra e alienada. Então a Mad aqui representa a entrada dos estudos feministas na universidade, algo novo para a época. Mas, surpresa! Madeleine tem, ela própria, dois pretendentes para escolher. De um lado, Leonard, um bad boy esquisito que estuda letras e biologia e sofre de bipolaridade – uma doença que eu nem sabia que existia na década de 80 – e faz todo mundo à sua volta sofrer enquanto ele acha que todo mundo tem que entender o lado dele, coitadinho. Do outro, Mitchell Grammaticus, um sujeito que também estuda letras e estudos religiosos e preprara uma virada em sua vida fazendo uma viagem pós-formatura para a Europa e depois Índia, trabalhando com os pobres com a Madre Teresa de Calcutá enquanto passa dias sem tomar banho.

(Só um parênteses: conheci em Paris uma menina que é a versão de saias do Grammaticus. Ela também estudava estudos religiosos, também não tomava banho e estava viajando após se formar e prestes a fazer o caminho de Santiago de Compostella. Perguntei se ela tinha lido esse livro e ela disse: “Não, sobre o que é?”. “Sobre você”, eu respondi)

E, pronto, aí está a genialidade de Jeffrey Eugenides em A Trama do Casamento. O resto são 500 páginas de discussões leves e agradáveis sobre literatura e uma história que vai e volta no tempo, e se o leitor quiser escolher pela rapariga, boa sorte, porque os dois são dois trastes na minha opinião – estando aí outra sacada do cara, habilidade para não pender um dos lados da balança.

Agora vocês me perguntariam: “Mas Yuri, A Trama do Casamento é um livro machista como os romances de casamento da Jane Austen que a Madeleine estuda?”. Bom, vocês podem achar que não, mas a resposta é sim. Primeiro porque, realmente, não resta nada à Madeleine a não ser escolher um dos dois e sofrer na mão de sua escolha pro resto da vida, e isso nem o “kit da jovem solteira” salva (vocês vão saber do que eu estou falando se lerem o livro). Segundo que ela nem é, propriamente falando, a protagonista do livro, já que o Eugenides dedica mais páginas aos dois pretendentes do que à própria Madeleine. Terceiro porque a moral do livro é essa: mesmo que você seja uma mulé super descolada e antenada à opressão feminina nesse mundo louco, você tá presa para sempre nessa vidinha e consciência nenhuma vai te libertar. Pelo menos foi isso que eu entendi. Eugenides, esse malévolo…

Esse projeto gráfico da Companhia das Letras valoriza na capa o apelo pop do livro, já que é um livro pop mesmo, pra garotadinha curtir numa boa, sem neurose, e porque afinal, que garotinha de 17 anos metida a alternativa não ama os filmes da Sofia Coppola a começar pelo Encontros e Desencontros e a terminar pelas Virgens Suicidas? Sério, é um livro bacanasso de ler, e eu li nas minhas férias e devo dizer que essa resma passou rápido. O formato do livro é grande e tem papel pólen de gramatura leve e fonte Electra. Um livro bem charmoso, resumindo. E a lombada não é dessa cor, mas é esse fúscia/púrpura da palavra “casamento”, dando a impressão, uma vez na estante, que você é fã de Rosamund Pilcher e Nora Roberts. Boa sorte, então!

Comentário final: 438 páginas grandes. Desloca o maxilar pra ficar falando engraçado pro resto da vida.