José Hamilton Ribeiro – O gosto da guerra


Três meses, garotada! Bom, na verdade, tecnicamente, é amanhã, mas resolvi antecipar a comemoração pra valorizar o post de quarta-feira, sempre tão importante na vida do trabalhador. De qualquer jeito, ê! O Livrada!, este espaço esdrúxulo, faz três meses. Olha, Deus sabe que eu batalhei por isso aqui. Divulguei como eu pude, mostrei ele pra gente importante e influente (que nem deu bola, inclusive), fiz blog, fiz e-mail, fiz twitter… e não dá nem pra dizer que não deixo de não me divertir (esse é o famoso empaca-texto, te encontro daqui a duas horas na próxima frase). Maneiríssimo ver gente que se interessa pelo que é escrito aqui, e que até gosta desse tipo de abordagem a esse assunto tão repelente que é a literatura. Também, tem gente que gosta até de sexo com palhaços, ia ficar boladão se ninguém curtisse o blog. O último mês fechou com mais que o dobro de visitas do primeiro mês (aquela sabatina de posts diários, lembram?) e, ao todo, foram quarenta posts, o que significa 40 livros. QUARENTA LIVROS, eu disse. Tem gente que nem lê quarenta livros na vida, quanto mais comentá-los. E não são quarenta livros compostos por Sabrina, Júlia, Coleção Vagalume (com todo respeito), quadrinhos em forma de livro (algum respeito), e best-sellers escrotos tipo A Profecia Celestina e Marley e Eu (nenhum respeito). São livros bons, amigo, pelo menos na minha concepção. Tá, em alguns eu posso ter metido o malho eventualmente, mas ainda assim, esses ficam literariamente degraus e mais degraus acima de qualquer Crepúsculo e Augustos Curyies da vida. Portanto, palmas para todos nós! Clap clap clap clap clap clap clap clap clap clap clap clap clap clap clap clap clap clap clap clap clap clap clap clap clap clap clap clap clap clap clap clap clap clap. Chega, minha mão já tá ardendo.

E que bom livro eu escolhi para esta celebração de terceiro mês de existência! O gosto da guerra, de nada menos que José Hamilton Ribeiro, o Jack Bauer brasileiro (sim, espertão, até rima!). Escolhi esse cara por três motivos. Primeiro: valorizar a literatura nacional (ui, anauê!). Segundo: tem que engrossar o rol de livros-reportagem desta bagaça. Terceiro: essa semana é minha banca final de conclusão de curso. Sim, caros amigos, se tudo der certo estarei formado e com um diploma na mão (que não serve pra nada, aêêê!). Acho que todo jornalista olha, ou deveria olhar, para o Zé Hamilton com admiração incontida e gritinhos de tiete. Afinal de contas, o cara é incrível . Pergunta pro Thaíde, ele sabe, o Zé Hamilton é Ên-Crê-vél (odeio ter que ficar explicando piada, mas, como sei que vocês são inteligentes, morram de vergonha alheia clicando aqui). Bom, eu escrevi um livrorreportagem também, e claro que, nem de longe é bom igual ao Gosto da guerra, nem tão corajoso, nem tão ousado, nem tão caralhudo, mas gosto de pensar que contribuí para o formato da grande reportagem, cada vez mais abominada pelo patrão do jornal: o dinheiro.

A história desse livro é a seguinte: Na década de 60, o Zé trabalhava na revista Realidade, uma revista do tal new-journalism. A Realidade não fazia economia, malandro. Quer ficar um mês escrevendo uma matéria, fica. Quer cobrir a guerra do Vietnã, simbora. E foi isso que ele fez. Embarcou naquelas latas velhas que chamavam de avião na época do paz e amor e se mandou para aquele país agradável cheio de chinês moreninho com cara de sapo. Lá, com o medo que é peculiar a quem está em território hostil, conheceu um japa mutcho loko que já estava a dois anos cobrindo a guerra pelo único motivo de não ter achado ainda “a” foto da contenda. E o japa safado achou a porra da foto no dia em que Zé Hamilton pisou numa mina terrestre que levou sua perna embora (a foto é a capa do livro). O Gosto da guerra é a história dessa cobertura com esse desfecho trágico. Ponto pra galera que adora dizer que jornalista só se fode.

O relato inteiro — não só o diário de guerra dele, as ponderações sobre o episódio ou o depoimentos sobre o regresso do repórter ao país trinta anos depois (não, não foi pra procurar a perna dele, seu sacana!) — reforça a ideia que ele solta lá pelas tantas do livro: a de que guerra é uma merda, mas sem cobertura jornalística é muito pior. Claro que hoje em dia vocês já viram todo o tipo de barbaridade e, caso eu relatasse aqui as coisas que o Zé descreve no livro vocês não se surpreenderiam tanto, mas isso é porque tá todo mundo amortecido pelo excesso de violência. É um livro que merece ser lido para não esquecer do que o ser humano é capaz quando está com medo, com raiva ou cheio de rancor. Vale a pena mesmo.            Isso, sem contar, é claro, na envergadura moral do cara que escreve um diário da própria enfermidade. Se isso não valesse o prêmio Esso de jornalismo, não sei o que valeria.

Esse livro foi relançado pela editora Objetiva, e não tem lá muitas pompas nessa edição. Papel offset maldito, fonte desconhecida (tipo Verdana) e a fotaça do japa safado que tira proveito da desgraça alheia. Mas, mesmo assim, temos que dar créditos e loas à editora por ter relançado esse livro. Caralho, como era difícil de achá-lo. Eu mesmo consegui o meu na cagada, há muito tempo atrás. Graças à Objetiva, vocês não vão passar tanto perrengue assim se quiserem descolar um exemplar. E, na moral: descola um, nem que seja pra botar na estante. Um dia seus filhos pegam lá e vão te agradecer. A gente tem que fazer os livros serem legais de novo. Lembrem-se sempre, meninas: se o cara leva vocês pra casa dele e ele não tem livro em casa, não solta a tarraqueta.

Reforço o pedido: assinem o RSS ou sigam o blog no twitter. Assim, fico mais tranquilo sabendo que vocês vão ler algum post fora de data. Aliás, amanhã devo postar alguma coisa só pra não deixar a data passar em branco.

Comentário final: 129 páginas em offset. Pinga sangue, mas dificilmente vai produzir algum hematoma.

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21 Respostas para “José Hamilton Ribeiro – O gosto da guerra

  1. O Zé Hamilton é o repórter mais lúcido do Brasil. Ele tem a qualidade das pessoas que não reconhecem a convicção como algo bom e está sempre pronto para a mudança e para aprender! Tudo isso do alto dos seus mais de 70 anos! parabéns Yuri!

    • E aí Toni! Finalmente resolveu dar o ar de sua graça por aqui?
      O Zé Hamilton é fodão mesmo, e um exemplo pra essa galera sem amor à camisa de hoje em dia.
      Um abraço, e apareça!

  2. livros reportagem são muito bons, gostaria de ler o de vocês um dia. e como sempre, coloquei mais esse livro na minha lista de futuras aquisições 🙂

    em defesa: marley e eu é tosco, sim, mas é legal, hahaha :p

    • Ai ai ai, Cami, só não brigo com você porque você mesma admite que seu gosto para certas coisas é meio duvidoso. Marley e Eu não, né? Se tiver uma continuação (que deve se chamar só Eu), vou ver se dou uma lida, ok?
      Nosso livrorreportagem está um pitéu, parece livro da Cosacnaify, mas só tenho um exemplar (é muito cara, a impressão). Está na praça para empréstimo, entretanto. Só passar lá em casa qualquer hora para aqueeela sessão de filme escroto, beleza?
      Beijo!

  3. Pingback: Tweets that mention José Hamilton Ribeiro – O gosto da guerra « Livrada! -- Topsy.com

  4. Parabéns, Yuri. É interessante existir um blog que fala sobre literatura, ainda mais porque não fala do jeito maravilhoso que a Flora Süssekind quer que falemos.
    Quanto ao livro; vou confessar que não tenho muito apresso por essas coisas de reportagem e tudo o mais. Não sei bem ao certo o motivo da minha repulsa, mas deve ter alguma coisa relacionada com neguinho dizendo que está apresentando a “Verdade”, ou que fatos são “Verdade”, ou que jornalismo mostra a “Verdade”, e eu, ignorante do jeito que sou, fico pensando que talvez não seja tão simples assim. Você deve estar querendo me dar um fatality agora, mas é por aí. E não acho que só o jornalismo é ficcional, como toda filosofia também. Mas enfim…
    Parabéns pela sua banca e pelo seu trabalho.
    Abraço

    Ps: Não sou tão ignorante assim, o Capote está esperando o Dylan Thomas para ser lido.

    • Valeu, Lucas! Realmente, aqui Floras Süssekinds do mundo iriam enfartar.
      Quanto ao livrorreportagem: não sei que imbecil andou falando essas coisas pra você, mas pode desconsiderá-las. Qualquer jornalista minimamente sério sabe que o que é apresentado nada mais é do que uma versão da realidade. Portanto, olho vivo nesses cabras da Teoria do Espelho.
      Porém, o livrorreportagem (manerasso esse novo acordo ortográfico, hein? Daqui a pouco isso aqui vai virar alemão) é sim UMA realidade, e uma realidade muito interessante. É igual a um livro de história, só demora muito menos pra fazer. Mais ou menos como esquentar a lasanha no forno ou no microondas. E ainda por cima, é narrado como romance, o que dá um tchananã especial para a história. Recomendo a leitura desse livro pra tirar esse tipo de preconceito.
      Ah, e cuidado pra não capotar de sono lendo Capote. Ô livrim chato…

  5. Ainda não li mas conheço o livro pela fama. Ah, os anos 70! Como era bom ser jornalista naquela época, agora nem tanto… mas enfim!
    O Zé Hamilton foi um dia na UniBrasil, não pude vê-lo pq tava trabalhando, mas o pessoal contou q ele é um velhinho batuta!
    Parabéns pelo niver do broguis! =D

    • Ora, Lálika, não me diga que você era jornalista nos anos 70?!?!?
      Ouvi dizer o contrário justamente: era uma época em que pessoas pegavam o certificado de jornalista (já que diploma não era indispensável) para ter direito a cela privada em caso de cadeia. E, sei lá, uma classe que se confunde com bandido e é explorada a torto e a direito não deve ser muito legal. A exceção devia ser os jornalistas como o Zé Hamilton, uma lenda já naquela época. Ele parece mesmo ser um cara batuta, por isso acho que a galera aqui do blog deveria se unir e todo mundo mandar o link dessa resenha pra ele por e-mail. hehehe
      Beijo!

  6. Aê, Yuri. Eu sempre digo que com um prêmio Esso, você é um cara foda. Com SETE prêmios Esso, você é José Hamilton Ribeiro. Tudo o que a gente aprende na faculdade tá expresso em cada detalhe o cara. Ele é tipo o ideal de jornalista. Vai lá viajar com uma puta pauta na cabeça, presta atenção em cada detalhe, escreve bem pra caralho e faz com que a reportagem dele tenha leitura por anos e anos. Ou seja, ele é o contrário do jornalista do dia-a-dia, que trabalha como um louco para que sua reportagem morra no dia seguinte – ou, na melhor das hispóteses, no mês seguinte. O Zé Hamilton (como eu já me permito chamá-lo) faz toda a apuração como um velhinho paciente, que absorve e reflete pausadamente tudo a sua volta. Enfim, sou fãzaço dele e espero um dia poder ser um pouco do que ele foi.

    Fica uma dica: tem uma coletânea das sete reportagens dele que ganharam o prêmio Esso mais o Gosto da Guerra (esta não foi premiada porque o regulamento impedia matérias feitas em território estrangeiro). A editora batizou de “O Repórter do Século”.

    Ah, eu já conversei com o Zé Hamilton (graças à Camila) pessoalmente, e ele é também um velhinho muito gente-boa.

    • Fala Sr. Pupo! Sempre bom tê-lo por aqui.
      Realmente cara, o jornalismo do Zé Hamilton beira o ideal. Por sorte, temos aí hoje em dia alguns repórteres que servem de inspiração para a gente, que tá escapulindo da faculdade só agora: ele, a Eliane Brum, o próprio Caco Barcellos, o nosso querido José Carlos Fernandes e até o Mauri Konig. O problema é que daqui a pouco esse time aí vai estar velho e vamos precisar reabastecer o jornalismo de ídolos. E aí? Eu voto em você!
      Abraço!

  7. Juro que ao começar a ler o post (digo, a parte sobre o livro mesmo), me lembrei do Fábio. E olha quem aparece por aqui! Fábio Pupo, o mais promissor jornalista da nossa sala.

    Irei ler este livro um dia! Com certeza. Yu, parabéns pelo blog. Tenho certeza que muita gente está curtindo isso. E é admirável seu gosto e sua paixão por literatura.

    Beijos 😉

    • O jornalismo chama o Pupo, Carlinha, é assim mesmo!
      Obrigado pelo elogio, querida, espero que você leia e goste desse livro.
      Beijo!

      • Pôxa, gente, quem dera eu poder fazer algo parecido com os trabalhos do Hamilton Ribeiro. Fico realmente feliz com os votos de confiança. Brigadão, Carlota! E parabéns mais uma vez pelo blog, Yuri. Continua muito bom!

  8. Então, só para fechar essa nova conversa. A minha namorada escreveu um livrorreportagem (vira alemão quando tem mais de 3 palavras. ahuah), e eu li, claro. O que caso é que – é agora que começa a bobagem – é que eu penso que talvez não exista nenhuma parcela de realidade quando escrevemos. Assim, reportagens são ficção e romances são ficção e tudo o mais é ficção quando toma essa forma escrita e cuspida assim. Dessa forma acaba com a presunção de verdade do jornalismo, não? Pois é, eu tenho problema com esses donos da verdade, grande problema. Mas enfim, me desculpe se falei besteira. Juro que poderia justificar esse pensamento, mas não vou te estafar com isso.
    Abraço.

    Ps: Por favor, mande um e-mail para que possamos nos comunicar por outra forma que não essa, pública. Caso queira, é claro.

    • Calma, Lucas, não precisa ser sunita desse jeito (vamos mudar essa sinédoque aí porque o Osama é sunita, blz?). Alguma parcela de realidade existe, né, sujeito? Nem que seja a experiência vivida pelo cara. Claro que se você for ficar se enrolando nos jogos semânticos, até definir o que é realidade a mulher já perdeu o tesão. Mas te garanto que, se você aceitar isso, que alguma realidade existe nessa história toda, você vai ver que é um gênero muito interessante, tá feito?
      Dê uma chance para o livrroreportagem (Berichtbuch, Heil!)

  9. Esse livro deve ser muito interessante, como o do Mauro Santahyana, que estava em Praga em 68 quando o Pacto de Varsóvia invadiu o país e fez um relato pungente do país e dos eventos. E de seus ricos contatos humanos com gente de lá. Ou o do Rubem Braga, que escreveu crônicas belíssimas sobre a campanha brasileira na Itália na Segunda Guerra, e que tive a satisfação de encontrar e ler na biblioteca empoeirada de meu pai de onde, depois que entrava, não saía mais. (Entre as raridades da biblio, uma primeira edição da “Velhice do Padre Eterno”, de Guerra Junqueiro.)

    Há uma safra boa de bons jornalistas jovens ou relativamente jovens, como o Gustavo Chacra, o Marcos Guterman (para citar dois do Estadão), ou o Melbeguier e o Schwartzman, da Folha. Antigamente, porém, o diploma de Jornalismo não era obrigatório – como nos EUA – e talvez por isso o nível do jornalismo era melhor. (O Vamiré Chaco, por exemplo, formado em História, era fantástico; outro, de nome ucraniano que agora me foge agora à memória, formado em Sociologia na USP, produzia análises sensacionais. Ambos trabalharam na Folha até os anos 80).

    • Oi Juvenal! Não li nenhum desses livros que você falou aí, e eles parecem ser difíceis de achar. Acho que, assim como toda reportagem, os livros do gênero tendem a ser esquecidos, pelo menos pelas editoras, que acreditam que a parada não vai mais fazer sentido se publicada uns vinte anos depois do fato. O que é uma pena.
      Quanto aos novos repórteres: pode ser que eles despontem no cenário nacional e sejam as referências que eu citei lá em cima no futuro. Só espero que o corporativismo dos jornalões não esmaguem as ganas desses caras antes. É deixar na mão de Deus, né?
      Abraço!

  10. Em primeiro lugar, Alguns dos melhores escritores que se acha por aí escrevem para os quadrinhos, como Frank Miller, Neil Gaiman e Grant Morrison, portanto acho que eles merecem mais respeito (apesar do monte de lixo publicado nesse formato também)

    em segundo lugar… Saudades do tempo em que matéria de jornal tinha uma deadline maior e o jornalista tinha vontade de fazer um trabalho bem feito. hoje em dia nem o jornal permite nem o jornalista quer pelo que tenha visto.
    Aquele caso dos maroons na Guiana que o diga.

    em terceiro lugar, proposta inteligente, linguagem cativante e bom blog. Mas nada disso valeria uma pataca sem bom gosto literário, portanto parabéns.

    • Oi Cochise,
      Tudo isso o que você falou é verdade, e nem tenho muito o que replicar. Só que existem ainda alguns bons jornalistas nesse mundo, e esses gênios da raça vão segurar as calças do jornalismo vovô em uns 20 ou 30 anos, então dê uma chance pro jornalismo fodão!
      Obrigado pelo elogio!
      Um abraço.

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