Philip Roth – O Complexo de Portnoy (Portnoy’s Complex)


O Complexo de Portnoy

O Complexo de Portnoy

Último fim de semana do mês, amigos. Também conhecido como “fim de semana seminarista” pelo voto involuntário de pobreza que a gente faz pra esperar o advento do salário, que morreu por nossos pecados consumistas e retornará mais uma vez para salvar nossa barriga da miséria, amém. E aí, vamos encarar um programa financeiramente isento neste domingo e ler a resenha do Livrada! É ou não é? Aproveitem que, por enquanto, vocês não pagam nada para ler minhas nada brilhantes resenhas.

E sinta só o drama do ardil: graças às estatísticas do wordpress, pude constatar que o autor mais pesquisado no Google que traz leitores para cá é o nosso querido vovô Philip Roth (tem alguma coisa nele que realmente lembra meu avô, não sei o quê). Então pensei, “que diabos (esse negócio de pensar “que diabos” é um trauma da opressão cultural norte-americana que nem vinte anos de análise curam), vou resenhar mais um livro dele”(dá um tapa na própria coxa). Se bem que, ao que parece, estou fazendo um grande desserviço, porque nunca consigo fazer as pessoas se interessarem pelos livros dele. Vejamos se a gente consegue reverter isso, escolhi um livro beeeem legal dessa vez.

O Complexo de Portnoy é um livro velhão, maluco. Foi publicado em 67 pela primeira vez, e ganhou muitas edições até essa versão lindona que eu tenho em mãos. Foi o segundo livro dele que eu li, e que boa impressão me deu sobre o autor! Em primeiro lugar, por ser um livro muito bem escrito, como são as obras do cara. Em segundo lugar, por ser um livro de comédia, algo muito, mas muito raro hoje em dia (e a raridade se dá, é claro, ao equilíbrio entre humor e boa literatura. Não estamos falando aqui de livros apenas engraçados). Escrever comédia é um troço muito difícil, porque a piada tem que ser lida, interpretada, imaginada na sua cabeça e aí, só depois, se for boa, você dá uma risada. Por isso o humor, além de sutil, tem que ser muito bem trabalhado, senão vai ser só uma parada vergonhosa de ler.

Mas bem, do que trata o Complexo? Alexander Portnoy, o protagonista do livro, é um sujeito balzaco tomado de complexos formados em sua infância, que conta suas histórias para um analista. Pelo menos pra mim, a cultura judia é uma parada muito distante que só começou a ganhar forma no meu imaginário a partir desse tipo de literatura, e dos filmes do Woody Allen e dos Irmãos Coen. Não sei como funciona direito, portanto, mas o Alexander do livro é atormentado pelo famoso estereótipo da mãe judia: grudenta e opressora até o último, e atormenta a todos — ele, sua irmã e seu pai, que é um vendedor de seguros falidão. Claro que não é privilégio apenas dos judeus ter uma “mãe judia”, mas a religião exige uma porção de privações e regras que, como diria aquela música do Patife Band, deixa qualquer um malucooooooooo. E entre as um zilhão de coisas que ele não pode fazer, começa a desenvolver uma tara e um vício por masturbação como válvula de escape. Com toda a rebordosa que lhe bate após todas as vezes que ele bate (caham), ele começa a entrar em umas neuras de remorso e paranóia com a justiça divina, o que seria muito triste não fosse tão engraçado pra gente, que tá lendo.

Philip Roth

Philip Roth

De uma maneira que eu não sei precisar direito, o tragicômico do livro vai se tornando cada vez mais trágico rumo ao seu final. Possivelmente por causa das consequências desastrosas de alguns episódios e os desdobramentos de outros na vida adulta de Portnoy, e isso meio que mata o ritmo nas últimas páginas, o que não quer dizer que fique desinteressante. Mas a nata da obra mesmo tá na primeira metade dela. E quem leu tá ligado.

Essa tradução do Paulo Henrique Britto é bem legal por conservar os termos que a judeuzada usa e anexar um glossário no final. Algumas palavras a gente sempre ouve nos filmes e nem se dá conta que é termo dos judeus, tipo “schmuck”, usado pra xingar alguém, que literalmente quer dizer “pênis”, entre outros. A reimpressão da Companhia das Letras deu uma capa que é uma das mais bonitas da coleção dele (junto com a de Indignação), e o projeto gráfico do interior é muito parecido — senão idêntico — com os livros do Coetzee: fonte Electra, papel pólen, e a diagramação interna que lhe é peculiar. Obviamente que um livro como esse, sobre um moleque judeu punheteiro, causa muito mais frenesi na década de 60, quando foi lançado, do que hoje em dia. Mas é legal ver que, mesmo após 40 anos, ele segue firme e forte como um dos clássicos da literatura (tá na tag!)

Putz, agora que me dei conta que usei as expressões “masturbação” e “punheteiro” nessa resenha. Eu tava querendo satisfazer melhor os leitores que são trazidos pelo Google e acabei de arrebanhar uma multidão de cornos anônimos depravados. Fazer o quê?

Comentário final: 261 páginas pólen soft. Pimba na cabeça do corno anônimo depravado que chegou aqui pelos termos errados!

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19 Respostas para “Philip Roth – O Complexo de Portnoy (Portnoy’s Complex)

    • Ainda não Vinicius, embora já devesse ter lido. Está aqui na fila de espera já faz um tempo. Vou tomar vergonha na cara em breve.
      Valeu!

  1. Ótima resenha, Yu. Eu sei que devo dar mais uma chance pro Philip Roth (aliás, hoje, lendo “A Noite…”, descobri que ele tem um livro de memórias. Acho que ele é amigo do A. Alvarez).

    Ah, falando em livros de comédia, o livro do Hugh Laurie pode não ter valor literário nenhum, mas li bastante com ele.

    Beijo!

  2. Ah, o Complexo de Portnoy eu li há muito, muito tempo. Só que, como Nelson Rodrigues, não é leitura para degenerado. Bem pelo contrário, é um texto bastante elucidativo, pois dá uma ideia do que é ter uma educação judaica – e não só nos EUA.

    Foi ruidosa e duramente criticado à época pela mídia judaica por descrever a comunidade, na opinião dela, de modo depreciativo, tendo depois disso escrito ao menos um livro para se expiar desse pretenso pecado.

    Tive à mão “Um mês só de domingos”, do mesmo autor, mas hesitei em lê-lo: O Philip Roth de quem realmente gosto é o do “Complexo”. Acabei lendo “O legado de Humboldt”, também de um autor judeu americano, o grande Saul Bellow.

    O mundo que o autor descreve era mais discriminador e politicamente incorreto que o atual. A baixa tolerância à discriminação é flagrante em diversos eventos no livro: a personagem gosta de frequentar restaurantes porque, para os chinas, judeu é apenas mais uma variante de “brancos”.

    Outro episódio de que me lembro é sua tentativa de transar com uma italiana, digamos, “dadivosa” do bairro. Ao cometer uma falha, ela lhe grita na cara: “Seu judeu pele de pica!”. Todavia, utiliza também estereótipos raciais, quando comenta que alguém “tocava bumbo/percussão como um mulato/negro”.

    Alexander do livro é atormentado pelo famoso estereótipo da mãe judia: grudenta e opressora até o último

    O que me lembra da velha anedota:

    Sabe a diferença entre a mãe judia e a italiana? As duas dizem: “Filho, se você não fizer o que lhe pedi, me mato”. Uma só blefa, a outra se mata mesmo (não sei se é a judia ou a italiana).

    • Oi Juvenal! Sei bem que você está comentando o livro do Philip Roth, mas você tocou num aspecto do Saul Bellow que eu queria discutir. Afinal, o cara é meio racista ou é só criação típica da época? No Henderson, o rei da chuva, enquanto para falar do sotaque do rei dos Wariri ele só faz uma descrição (algo como “ele tem um inglês nasalado” e outra característica que esqueci), para o guia turístico dele, ou seja, o negro civilizado, ele faz questão de escrever o que o tradutor traduziu como “siô” ao invés de “senhor” e todos os errinhos gramaticais que ele comete. Veja que ele poderia ter omitido ou fazer uma descrição do sotaque dele como fez com o rei Dahfu. Você que já leu ele mais vezes, falaí!
      Abraço

  3. Oi, Yuri. De Saul Bellow li somente “O Legado de Humboldt” e “Aqui e Agora, dois livros maravilhosos que li e reli com prazer. Fora isso, apenas algum ensaio dele sobre a cultura e ensaios sobre ele.

    Ele me parece um autor tão sensível, que não cometeria a grosseria de Roth que, ao mesmo tempo que se ressente de estereótipos étnicos quando dirigidos a si, faz uso da mesma prática questionável quando se refere a outros (isso ocorre pelo menos uma vez no “Portnoy”).

    Bem pelo contrário, Bellow quando escreve parece ter uma atitude de cientista, de sociólogo ou antropólogo cultural ao observar seu “objeto de estudo” (os questionamentos de seu tempo, as pessoas, suas mentalidades, seu dia-a-dia, suas crises): ele o descreve, porém não o rotula. Ele parece, fascinado, mais preocupado em conhecer as pessoas e o que as move do que em classificá-las. Se há alguma observação crítica, ela está geralmente nas entrelinhas.

    Assim, apesar de não ter lido a obra que menciona, creio que Bellow talvez descreva um linguajar característico do personagem que o impactou/chamou a atenção. Mas – repito – não li o “Rei da Chuva”. Comento apenas com base no pouco de Bellow que conheço.

    Já se fosse o Roth, diria o contrário: é o típico discriminado que discrimina.

    • Oi Juvenal, obrigado pelas informações. Realmente, Bellow não rotula os personagens, nem em um romance narrado em primeira pessoa por um personagem tão amável e desprezível ao mesmo tempo como Henderson. De qualquer jeito, pareceu-me uma atitude um pouco preconceituosa, dessas que a gente entende melhor quando vê aquela montagem de filmes antigos no final de Bamboozled, do Spike Lee. Mas, pensando bem, se ele fosse mesmo racista declarado, não teria ganhado o Nobel. Afinal de contas, esses caras negaram o prêmio pra sujeitos reaças/fascistas/direitistas como Borges, Céline e Vargas Llosa, respectivamente. Só se for mesmo algo muito sutil e velado, ou então, formação da época, né?
      Um abraço!

  4. Concordo em gênero, número e grau. Se há algo no sentido que mencionou, é muito sútil e velado para se afirmar com certeza.

    Para mim é sempre um prazer ler seu blog e trocar “figurinhas” com você.

    Grande abraço

  5. Esse eu me interessei bastante! Ele é fácil de encontrar ou já se tornou raridade? Livros com analistas sempre me interessam, vou ver se encontro ele em algum lugar.

    Enfim, quando você falou de livros de humor que são só vergonhosos de ler, eu lembrei de um livro que vi outro dia, “O Vampiro simplesmente não está a fim de você”, haha! Queria ver você resenhar esse 😀

    beeijo!

    • Oi Cami! Esse livro era dificílimo de encontrar quando eu comprei ele. Hoje em dia, qualquer Saraiva da vida tem. Acho que você ia gostar mesmo dele.
      Acho que não quero resenhar esse livro de vampiro que não tá afim, hahahaha. Mas me vendo por pouco!
      Beijo!

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