Bernardo Kucinski – K. – Relato de uma busca

Bernardo KucinskiNão sei quanto tempo faz que a gente não comenta um romance nacional aqui, e isso tem mais a ver com a minha pré-disposição para ler brasileiros contemporâneos do que propriamente com a qualidade da produção atual, embora saibamos desde já que nem um nem outro andam despontando exatamente pela excelência. Aí que uma leitora comentou aqui ainda ontem que tava sentindo falta desse tipo de livro por aqui e pensei, ora, por que não? Vamos ao que interessa, mas aviso desde já que tenho opiniões muito parciais sobre esse livro, e explico o porquê.

K. – Relato de uma Busca, o romance de estreia do jornalista Bernardo Kucinski, junta duas temáticas que eu, particularmente, odeio: história da ditadura militar e história de judeu. E odeio ambas não por uma falta de empatia com os protagonistas, pelo contrário, gosto deles, mas por uma overdose do gênero, já que são dois casos em que os sobreviventes são, hoje, o poder estabelecido no mundo. De qualquer forma, é meio complicado pra mim falar disso porque preciso ser sensível ao fato de que o romance de Kucisnki é, em grande parte, real, já que sua irmã desapareceu durante o período do regime burocrático-autoritário que vigorou neste país durante duas décadas, de modo que me perdoem desde já por ser insensível e analisar o livro como criação ficcional. Porque é a partir deste caso que o autor cria uma ficção que tem como protagonista seu próprio pai, que sai em busca da filha desaparecida e é enganado até se perder no labirinto engendrado da guerra psicológica militar contra os familiares dos subversivos.

É assim que ele sai e começa a receber pistas falsas de que sua filha está presa e depois não está mais presa, e ninguém nunca ouviu falar dela, e quem se propõe a ajudar na verdade é informante dos militares, e as notícias de que sua filha está na verdade em outro país ou em outra cidade começam a chegar pelo correio e todo mundo que se propõe a ajudar não consegue ou não quer mesmo ajudar e ele fica maluco tipo um personagem do Kafka – acho que é inclusive por isso que o protagonista do romance chama K., como os Kas do Kafka, perdidos em uma engenhoca burocrática kafkiana sem nenhuma esperança de sair dela algum dia. Ao mesmo tempo, lida com os sentimentos de culpa por ser um escritor meia-boca que escreve em íidiche, a decadente língua dos judeus pré-Estado de Israel e que por conta disso se afastou da família e não viu os filhos crescerem direito. O espanto de saber que a filha se envolvera com a luta armada e o desgosto por ser estigmatizado como parente de uma subversiva – até mesmo pelo rabino, que o impede de comprar um túmulo simbólico pra ela, e o pessoal da gráfica que não o deixa imprimir um livrinho em memória a ela.

Crédito: Carolina Ribeiro

Crédito: Carolina Ribeiro

Embora interessante, o livro traz muito pouca coisa nova na literatura da ditadura militar – bom lembrar que esse não é a primeira narrativa que parte do ponto de vista do familiar que busca o parente desaparecido. Além disso, há de se desconsiderar pensamentos extremados do autor, que em dados momentos insinua que a ditadura militar é pior do que o holocausto porque pelo menos os nazistas faziam registro de seus mortos, e dosar boa parte do maniqueísmo dos personagens, que são ou pobres vítimas do sistema dos militares ou sádicos que trabalham nessa por pura vocação e vontade imensa de fazer mal aos outros. Cada capítulo apresenta uma parte da engrenagem ou um tipo de personagem, e não posso dizer que a grande maioria deles é natural é bem construída.

Ainda assim, o livro se salva pela vida interna do protagonista e pela naturalidade com que expressa a angústia do pai que não sabe onde a filha está, e como a coisa é muito mais complicada do que parece. E pela coragem do autor em transformar um caso real e sofrido de sua história familiar em uma ficção.

A edição desse livro é uma beleza que só. Tem capa gráfica em papel cartão, umas fontes chamas Leitura e Tungsten, que não até que são boas à exceção dos itálicos, que deixam tudo muito ruim de ler, e um papel pólen soft de baixa gramatura pro miolo não ficar mais duro que a capa. O romance é cheio de notas de rodapé que explicam bastante o que não está ao alcance do leitor leigo, ou do leitor não-judeu, e de maneira geral, o texto é bem preparado. Ê!

Comentário final: 185 páginas em papel pólen soft. Ks do mundo, uni-vos!

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Hermann Broch – Pasenow ou o Romantismo (Pasenow oder die Romantik)

brochAh, o sabor dos clássicos esquecidos. É como escutar Beatles pela primeira vez: você acha que a descoberta é toda sua e que ela nunca foi feita por ninguém, mas não é bem assim. Aliás, no meu caso, que não gosto de Beatles, não é assim mesmo, de modo que não sei por que diabos abri o texto com essa analogia. Até porque não quero falar de Beatles, quero falar de Hermann Broch, um rapaz que, se pode ser resumido em uma palavra, é esta: gênio. Não me lembro de ter lido algo tão inteligente e afiado nos últimos tempos, e quem lê este nosso espaço com frequência sabe que qualidade é a linha editorial que eu sigo.

Falemos um pouco de Broch antes de falar de seu livro então. O sujeito jogou nas onze em vida. Tocou uma fábrica de fiação e tecelagem dos pais, estudou filosofia, matemática, psicologia e física em Viena, foi judeu e católico, austríaco e americano, perseguido pelos nazistas e festejado pelos modernistas, amigo de Thomas Mann e Albert Einstein, dramaturgo, poeta, ensaísta e ficcionista de primeira. O que mais se pode dizer de um cabra desses? Ah sim, teve uma belíssima estreia nos romances, com a trilogia Os Sonâmbulos, cujo primeiro volume, publicado em 1888, disseco aqui neste dia. Pasenow ou o Romantismo já começa a ser bom pelo título pomposo que traz o “ou”. Esse lance de dar título com “ou” é coisa de gente metida, todo mundo sabe disso. Diferentemente de se colocar um travessão seguido de um subtítulo, como Rambo II – A Missão ou Superbad – É Hoje, o “ou” dá a impressão de que o cara pensou demais no título e simplesmente não conseguiu decidir qual ilustrava melhor sua obra. É o que você pensaria se visse um “Superbad ou É Hoje” ou um “A Bruxa de Blair ou o Livro das Sombras”. Coisa de intelectual, não é? Melhor não meter o bedelho nisso.

Pasenow, o protagonista da história, é um bobalhão conservador que, como qualquer bom conservador que se preze, é militar. Ele acredita no poder do uniforme, acredita que existe uma ordem no mundo regida por suas convenções sentimentais, e ante a mudança dos tempos — a saber, a decadência do império Austro-Húngaro, sabidamente uma má ideia que até que durou demais —se agarra a elas para não ficar tonto com o mundo que não para de girar. Ele tem um coração dividido entre duas damas: a boêmia (boêmia aqui quer dizer que é da Boêmia, não que goste de uma vadiagem, embora nesse caso, excepcionalmente também sirva a segunda conotação) Ruzena, uma prostituta que ele conheceu num cassino alemão, que representa toda o desvio saudável da alma humana, que não foi fabricada sob esse manto de conservadorismo dele, afinal, e Elisabeth, a filha do barão, uma mulher pura, rica, socialmente equânime que representa a tradição como ela deva ser. Para fechar esse quadrângulo amoroso, temos ainda Bertrand, um ex-colega de farda que se tornou um homem de negócios e que atua na melhor tradição shakespeariana manipulando todo mundo por pura maldade como um bom falso amigo. Bertrand faz a caveira de Pasenow pra Ruzena e joga um caô pesado pra Elisabeth num dos diálogos mais brilhantes do livro. Puro ouro literário entre a página 149 e a 155, minha gente. E Pasenow fica lá, que nem um trouxa, balançando de um lado para o outro como manda a vontade do amigo, o qual ele sabe que não presta mas mesmo assim sempre vai lá chorar umas pitangas pra ele quando o bicho pega.

broch pasenowPois bem, vamos ver o que podemos adiantar desse livro sem estragar muito a diversão da leitura pra vocês. Por que a trilogia chama os Sonâmbulos e o título alternativo chama O Romantismo? Bom, identificar o sonâmbulo aí não é muito difícil. Pasenow perambula por um mundo completamente diferente do que acredita estar sem nem perceber. Isso é o básico. Mas ele não é qualquer alienado. Ele é um romântico, acredita na farda, na honra e nos valores, o que é algo bem contraditório se você parar para pensar que ele tenta a todo modo rechaçar o que seu coração manda, que é amar Ruzena. Mas os valores românticos de seu coração são os atavismos conservadores aos quais ele custa largar, uma coisa fugaz e insignificante na avaliação de Bertrand. Isso ajuda muito a entender o último capítulo do livro, que é simplesmente matador e, ao contrário do que diz o posfácio, não é um esgotamento do fôlego literário do autor, mas uma sacada genial que te coloca num desespero de botar a mão na cabeça e pensar exatamente o quê, em sua vida, está no piloto automático.

O lance do sentimento é resumido em uma frase genial de Bertrand, cuja página perdi, mas que diz algo como “o sentimento do homem é mais grandioso que a vida que o comporta”, e ilustra isso no fato de Voltaire ter convivido com massacres e etc. Em Pasenow, esse sentimento é, de fato, imensamente maior que o personagem, demasiado humano para o seu próprio bem. Mas era exatamente isso que Broch almejava, acho eu. Construir um quadro complexo de mudança de tempos para jogar ali personagens que sabem e que não sabem lidar com isso. Não é a toa que o sujeito ganhou elogios na contracapa de ninguém menos que Thomas Mann. O resto do livro são imputações filosóficas que pode fazer brilhar os olhinhos de quem estuda o lance, mas que pra nós, leigões, fica como uma sintonia fina com as ideias do livro.

A trilogia dos Sonâmbulos foi lançada aqui no Brasil pela Benvirá, em tradução inédita do Marcelo Backes. Ele faz um posfácio bacana sobre o livro e sobre o autor que vale a pena ler. Agora, a Benvirá, meus senhores, é uma editora que está ganhando cada vez mais meu coração pelo calibre dos autores que resolveu publicar. Broch, Faulkner, John dos Passos são alguns dos clássicos, mas tem policial do David Peace, Patricia Highsmith e outras coisas boas que não consigo me lembrar agora. Fiquei surpreso quando vi a Benvirá lançando a trilogia USA (que um dia, se o bom Deus permitir, comento aqui também) e corri atrás de outras preciosidades do catálogo, que também já conta com A Morte de Virgílio, considerada a obra-prima do autor de hoje. O projeto gráfico é ok, mas tem aquelas folhas de jornal, que são leves, secas e amarelam bem rápido, e a capa é uma xilogravura de alguém que não sei quem é porque estou longe do exemplar.

Pasenow ou o romantismo cumpre as seguintes modalidades do Desafio Livrada 2014:

2- Um clássico esquecido da literatura mundial

13- Um volume de alguma trilogia ou série

Comentário Final: 275 páginas em papel de jornal. Livrada no palermão!

Philip Roth – O Complexo de Portnoy (Portnoy’s Complex)

O Complexo de Portnoy

O Complexo de Portnoy

Último fim de semana do mês, amigos. Também conhecido como “fim de semana seminarista” pelo voto involuntário de pobreza que a gente faz pra esperar o advento do salário, que morreu por nossos pecados consumistas e retornará mais uma vez para salvar nossa barriga da miséria, amém. E aí, vamos encarar um programa financeiramente isento neste domingo e ler a resenha do Livrada! É ou não é? Aproveitem que, por enquanto, vocês não pagam nada para ler minhas nada brilhantes resenhas.

E sinta só o drama do ardil: graças às estatísticas do wordpress, pude constatar que o autor mais pesquisado no Google que traz leitores para cá é o nosso querido vovô Philip Roth (tem alguma coisa nele que realmente lembra meu avô, não sei o quê). Então pensei, “que diabos (esse negócio de pensar “que diabos” é um trauma da opressão cultural norte-americana que nem vinte anos de análise curam), vou resenhar mais um livro dele”(dá um tapa na própria coxa). Se bem que, ao que parece, estou fazendo um grande desserviço, porque nunca consigo fazer as pessoas se interessarem pelos livros dele. Vejamos se a gente consegue reverter isso, escolhi um livro beeeem legal dessa vez.

O Complexo de Portnoy é um livro velhão, maluco. Foi publicado em 67 pela primeira vez, e ganhou muitas edições até essa versão lindona que eu tenho em mãos. Foi o segundo livro dele que eu li, e que boa impressão me deu sobre o autor! Em primeiro lugar, por ser um livro muito bem escrito, como são as obras do cara. Em segundo lugar, por ser um livro de comédia, algo muito, mas muito raro hoje em dia (e a raridade se dá, é claro, ao equilíbrio entre humor e boa literatura. Não estamos falando aqui de livros apenas engraçados). Escrever comédia é um troço muito difícil, porque a piada tem que ser lida, interpretada, imaginada na sua cabeça e aí, só depois, se for boa, você dá uma risada. Por isso o humor, além de sutil, tem que ser muito bem trabalhado, senão vai ser só uma parada vergonhosa de ler.

Mas bem, do que trata o Complexo? Alexander Portnoy, o protagonista do livro, é um sujeito balzaco tomado de complexos formados em sua infância, que conta suas histórias para um analista. Pelo menos pra mim, a cultura judia é uma parada muito distante que só começou a ganhar forma no meu imaginário a partir desse tipo de literatura, e dos filmes do Woody Allen e dos Irmãos Coen. Não sei como funciona direito, portanto, mas o Alexander do livro é atormentado pelo famoso estereótipo da mãe judia: grudenta e opressora até o último, e atormenta a todos — ele, sua irmã e seu pai, que é um vendedor de seguros falidão. Claro que não é privilégio apenas dos judeus ter uma “mãe judia”, mas a religião exige uma porção de privações e regras que, como diria aquela música do Patife Band, deixa qualquer um malucooooooooo. E entre as um zilhão de coisas que ele não pode fazer, começa a desenvolver uma tara e um vício por masturbação como válvula de escape. Com toda a rebordosa que lhe bate após todas as vezes que ele bate (caham), ele começa a entrar em umas neuras de remorso e paranóia com a justiça divina, o que seria muito triste não fosse tão engraçado pra gente, que tá lendo.

Philip Roth

Philip Roth

De uma maneira que eu não sei precisar direito, o tragicômico do livro vai se tornando cada vez mais trágico rumo ao seu final. Possivelmente por causa das consequências desastrosas de alguns episódios e os desdobramentos de outros na vida adulta de Portnoy, e isso meio que mata o ritmo nas últimas páginas, o que não quer dizer que fique desinteressante. Mas a nata da obra mesmo tá na primeira metade dela. E quem leu tá ligado.

Essa tradução do Paulo Henrique Britto é bem legal por conservar os termos que a judeuzada usa e anexar um glossário no final. Algumas palavras a gente sempre ouve nos filmes e nem se dá conta que é termo dos judeus, tipo “schmuck”, usado pra xingar alguém, que literalmente quer dizer “pênis”, entre outros. A reimpressão da Companhia das Letras deu uma capa que é uma das mais bonitas da coleção dele (junto com a de Indignação), e o projeto gráfico do interior é muito parecido — senão idêntico — com os livros do Coetzee: fonte Electra, papel pólen, e a diagramação interna que lhe é peculiar. Obviamente que um livro como esse, sobre um moleque judeu punheteiro, causa muito mais frenesi na década de 60, quando foi lançado, do que hoje em dia. Mas é legal ver que, mesmo após 40 anos, ele segue firme e forte como um dos clássicos da literatura (tá na tag!)

Putz, agora que me dei conta que usei as expressões “masturbação” e “punheteiro” nessa resenha. Eu tava querendo satisfazer melhor os leitores que são trazidos pelo Google e acabei de arrebanhar uma multidão de cornos anônimos depravados. Fazer o quê?

Comentário final: 261 páginas pólen soft. Pimba na cabeça do corno anônimo depravado que chegou aqui pelos termos errados!