#lendosvejk – Parte 1

A leitura coletiva de As Aventuras do Bom Soldado Svejk, esse clássico da literatura tcheca e item mandatório no Desafio Livrada! de 2016 está rolando, e aqui está o primeiro vídeo sobre a coisa toda. A ideia é lançar vídeos semanais. Só depende, é claro, da minha boa vontade em ler páginas suficientes por semana antes da gravação. Vamos que vamos.

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(eu prometo que vai voltar a ter texto aqui, só me deem um tempo)

lenvosvejk

Vídeo: O Guia do Mochileiro das Galáxias, de Douglas Adams

Aqui vai um vídeo sobre um livro que todo mundo já leu, então todo mundo pode comentar. Eu devo ter sido a última pessoa da face da terra a ler O Guia do Mochileiro das Galáxias, mas antes tarde do que mais tarde. Em resumo: o livro é bem divertido e uma ótima crítica a várias questões da nossa vã modernidade. Mas não é só porque eu dei esse resumo que você não vai assistir, né?

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o guia do mochileiro das galáxias

Lucas Varela – Paolo Pinocchio

Lucas VarelaOra, estava faltando uma graphic novel para comentar aqui pelo Desafio Livrada! 2014 (aliás, como estão indo nessa empreitada desafiadora que é o desafio deste ano?) Ia comentar o livro do Marcatti, mas eis que me caiu nas mãos, graças ao povo da Itiban Comic Shop (jabá de graça pros bróder) esse livro que compila as histórias insanas do Paolo Pinocchio e sua saga dantesca rumo ao inferno e pensei “por que não? Assim eu escrevo sobre uma hq que eu realmente gosto (não que eu não goste do Marcatti, muito pelo contrário), e as crianças que leem o blog ainda ficam conhecendo mais um cabra responsa”.

Pois bem. Conheci a obra do argentino Lucas Varela por meio da revista Fierro, uma revista argentina de quadrinhos que publica tanto os portenhos quanto os autores brasileiros, e ganhou duas compilações máster pela editora Zarabatana, a mesma que publicou esse livro, sob a catalogação de “coleção Fierro #4”. A história é uma só, mas pode ser lida separadamente, como foi publicada nas Fierro: Paolo Pinocchio é uma versão do mal do Pinocchio, o boneco de madeira da história de Carlo Collodi. Ele mente pra Chapeuzinho Vermelho, abusa sexualmente de João e Maria, arranca dinheiro do Patinho Feio prometendo pílulas mágicas para aumentar a auto-estima, droga a Bela Adormecida e por aí vai, até que é sentenciado à morte e vai para o inferno, de onde tenta sair. Basicamente as histórias giram em torno disso: Paolo tentando fugir do inferno, o que não faria tanto sentido para um boneco do mal não fosse o prólogo, em que o autor retrata Dante e Virgílio como um menino e um cachorro visitando o averno, a entrada do inferno, numa clara referência ao notadamente mais legal livro da Divina Comédia. Ali, buscam um significado para o que é a dor e o sofrimento, e colhem o depoimento de vítimas e de verdugos.

Fábio Zimbres, eu, Lucas Varela (com o microfone) e Vitor Caffagi no lançamento da Fierro 2, na Itiban.

Fábio Zimbres, eu, Lucas Varela (com o microfone) e Vitor Caffagi no lançamento da Fierro 2, na Itiban.

A graça de Paolo Pinocchio reside no fato do personagem ser espírito de porco demais, até mesmo para o inferno e para o sofrimento interno. Mesmo sendo condenado à morte diversas vezes, por promover orgias em um convento ou traçar a filha de um juiz, por exemplo, ele dá um jeito de ludibriar os ludibriadores e salvar sua pele. As histórias são abarrotadas de humor negro e altamente doentio, o que, é claro, ganha minha simpatia logo de cara. Mas talvez haja mais do que meras sátiras de contos da carochinha e referências a Dante Alighieri em Paolo. A ideia de graphic novel adulta passa também por isso: não só expor uma temática adulta, mas também brincar com ela, leva-la para o lado infantil e de volta para o universo de gente grande com a mesma leveza que por muitas vezes, em nossos mais profundos arroubos de loucura, fazemos. A loucura de Pinocchio é a loucura do homem moderno, que grita de inconformidade por viver em um mundo que reprime as vontades do corpo ao mesmo tempo em que pune a falta de virtuosismo universal, conceito que, convenhamos, há muito não condiz com a realidade do século 21. Pronto, esse parágrafo só escrevi pra mostrar que qualquer zé mané consegue bancar o profundo em resenha literária. O gibi é maneirinho e vocês deveriam ler.

O projeto é da Zarabatana Books, que fez o livro lindão, com papel de gramatura grossa e inteiro colorido, com umas splash pages de respeito e tudo mais o que o cara merece. E ainda tem arte na parte de dentro da capa e da contra-capa!

Comentário final: 96 páginas coloridas de puro sarcasmo!

Paolo Pinocchio atende às seguintes categorias do Desafio Livrada 2014:

10 – Uma Graphic Novel

Vídeo: Milan Kundera – A Festa da Insignificância (La Fête de L’insignifiance)

Você ainda gosta de ver vlogs? Espero que sim, porque o nosso está apenas começando e ó, tá ficando legal. Nesse, comentamos o best-seller tcheco Milan Kundera e colocamos alguns pontos simples de entender em um livro meio complicado de sacar. Mas, como dizem pra todo mundo que já fez uma cagada nessa vida, o que vale é a intenção.

Já falei pra se inscrever no canal? Vou falar de novo, porque precisa. Me ajudem a ficar rico, gente.

Já falei que isso é só uma imagem? Você tá tentando apertar o play até agora e achando que o que tá abrindo na outra aba é pop-up desgraçado. E tá errado.

livrada

Nikolai Gógol – A Briga dos Dois Ivans (Повесть о том, как поссорился Иван Иванович с Иваном Никифоровичем)

nikolai gogolDeutschland übber alles. Copa do Mundo no Brasil hoje já é parte do passado. Bora se concentrar no assunto que interessa? Obviamente que estou falando dos nossos queridos livrinhos a quem nós, nerdões, recorremos quando o mundo parece demasiadamente douchebag, o que é quase sempre. Antes de falar do livro de hoje, porém, gostaria de começar comentando a coleção que ele integra. Trata-se da Arte da Novela, um projetinho originalmente criado pela Melville House Publishing com enfoque em novelas! Sim, novelas! Novelas, novelas, novelas! Basicamente é uma coleção como a da Penguin, mas ainda mais minimalista e ainda mais bem selecionada. Aqui no Brasil foi publicada pela Grua, essa editora tão simpática que já lançou gente do naipe de Hansjörg Schertenleib (já resenhado aqui), e eles mantiveram o projeto gráfico da coleção original, então é as real as it gets. Eu, que não vim nesse mundo a passeio, pedi pros simpáticos editores me enviarem uns exemplares dessa coleção quando vi que ela saiu porque queria dar uma olhada nessa beleza e olha, vou dizer que não me arrependi.

O livrinho é pequeno, bonitinho, extremamente gráfico, com cabeço e paginação lateral, boa fonte e bom papel. Mandaram pra mim quatro deles: Freya das Sete Ilhas, do Joseph Conrad, A Lição do Mestre, do Henry James, Bartleby, o Escrevente (já resenhado aqui), do Melville, e este A Briga dos Dois Ivans, do Gogol, que foi o que eu escolhi pra ler primeiro por razões óbvias, né, galera? Aqui no Livrada! russo, gordinha, idoso e gestante têm assento preferencial sempre, e olha, quer me deixar feliz, me dá um livro do Gogol de presente. Desde que eu li o Tarás Bulba (já resenhado aqui), conheci um dos meus grandes novos autores favoritos, por uma série de razões que dizem mais respeito ao meu coração do que necessariamente a seus méritos literários, embora esses também sejam bem válidos pra todos os efeitos. Mas deles já falei em outros posts. Neste, vou falar porque Gógol é um autor também divertido.

A Briga dos Dois Ivans é uma novela, gente, já falei isso? Pois é. É uma história curtinha que não se pretende nada além do que está contando. É claro que a gente pode encarar a coisa toda como uma parábola moral ou uma metáfora pra outras coisas, mas pra quê? Vamos pelo menos uma vez na vida aproveitar o livro pelo que ele é, e no caso, é uma história divertidíssima sobre dois vizinhos que se chamam Ivan. Um chama Ivan Ivanovitch (pra vocês que não tão familiarizados com a língua russa, esse segundo nome, que é sempre o segundo nome dos russos, chama patronímico, e é dado a partir do nome do seu pai. Tipo, se você chama Euzébio e seu pai chama Jacinto seu nome vai ser Euzébio Jacintovitch, ou algo assim. Tá explicado, continuemos), e o outro chama Ivan Nikíforovich. O primeiro é falastrão e gosta de causar boa impressão, o segundo é calado, curto e grosso. A briga a que o título se refere acontece quando o Ivanovitch vai na casa do amigo interessado numa arma velha que ele viu a empregada pendurar no varal (é isso mesmo, não me pergunte por que essas coisas acontecem), e o sujeito falastrão acaba insistindo mais do que deve em comprar a tal arma que acaba emputecendo o outro, que manda uma grosseria que o desestabiliza emocionalmente ao ponto de cortarem relações de décadas. A partir daí começa uma disputa judicial e um joguinho de sabotagem estilo Pica-Pau e Zeca Urubu, até que a cidade inteira se envolve na parada e as pessoas se mobilizam para tentar reconciliar os amigos.

Микола ГогольViu só? Simples. Temos aí dois personagens, com um único traço marcante da personalidade de cada um, e a partir daí é possível desenvolver uma novela completa. Uma novela de menos de 100 páginas, mas uma novela. E o que é uma novela senão isso? Um conto de mais fôlego, uma coisa que se resolve em si, mas tem começo, meio e fim muito bem definidos, divididos em capítulos se for possível, e que não guarda maiores ambições do que ser uma boa história, via de regra. Assim é A Briga dos Dois Ivans, uma historia singela e engraçadinha. E Gógol, nessa levada, aproveita para esmiuçar aspectos da vida no interior – no caso, Mírgorod, a ciadade onde se passa a história. Lembram que comentei sobre Mírgorod quando resenhei Avenida Nievski? Mírgorod não só é a coletânea de histórias que ele escreveu (das quais Avenida Nievski e essa Briga dos Dois Ivans fazem parte, sendo esta a última história da coletânea) mas também uma cidade na Ucrânia, e sempre é mencionado nas novelas dele como a típica cidadezinha ucraniana, em oposição a Poltava, que é uma espécie de metrópole em eterna ascensão no imaginário das histórias, ou, sei lá, uma cidade maior a qual as pessoas do interior recorrem, tipo a relação entre Videira e Chapecó.

Peguem A Briga dos Dois Ivans e leiam numa sentada quando quiserem dar uma desopilada na cabeça. Afinal de contas, Gógol é um dos russos, e não é todo dia que você pode dar uma desopilada na cabeça lendo um russo. Primeiro que as pessoas fazem tudo menos ler quando querem dar uma desopilada, e segundo que, quando leem, preferem coisas estúpidas e muito mais levianas, e isso aqui é um Gógol. Isso é o equivalente a sofrer com o fim do relacionamento na Ilha de Caras. É coisa fina, pra gente fina. Pra quem pode, digamos. Faça como os famosos da Ilha de Caras e refresque a cuca com coisas finas. Falei, tá falado.

A Briga dos Dois Ivans cumpre a seguinte modalidade do Desafio Livrada 2014:

9- Um livro escrito em um alfabeto diferente do seu.

Comentário final: 91 páginas em papel pólen. Skavurska!

Manoel Carlos Karam – Pescoço Ladeado Por Parafusos

Manoel Carlos KaramAno novo, blog velho. Sejam bem-vindos ao Livrada – Ano V! Tecnicamente ainda não é o aniversário do seu querido blog de comentários literários, mas é quase. Vejam só, cinco anos falando se um livro é bom ou é ruim por meio de critérios altamente discutíveis, e ainda assim arrematando multidões. O segredo para o sucesso? Persistência diante das adversidades, seriedade diante dos haters, muito alface e muita água mineral. De mais, olho de lince e olho no lance, como diz um amigo meu.

O livro de hoje contempla a grande e desconhecida produção literária da cidade onde eu moro. Muito embora tenhamos o recente case de sucesso do livro de poesias do Paulo Leminski, que vendeu justamente por ser uma poesia baseada na estética da sacadinha, algo ao alcance de todos, e tenhamos alguns outros escritores premiados e reconhecidos internacionalmente, a literatura curitibana – fazendo aqui o recorte geográfico que todo mundo da cidade, e por que não dizer do estado, adora fazer – possui espécimes literárias para todos os gostos e cabeças. Mas o que talvez pouca gente saiba é que a inventividade e a literatura fantástica, subgêneros pouco representados no Brasil, tem um de seus maiores representantes nessa cidade. O escritor Manoel Carlos Karam (1947-2007).

Karam tem uma escrita dispersa, fragmentada. De certa maneira, todos os seus livros são coletâneas, já que as pastinhas em que guardava seus originais tinham planos para mil combinações de textos em livros diferentes. Pescoço Ladeado Por Parafusos, reeditado pela belíssima editora Arte e Letra, não foge à regra. O livro contempla trechos distintos de livros distintos. Alguns muito bons e outros, que não dá pra entender patavinas.

Entre os bons, cito aqui o “Jornal da Guerra Contra os Taedos”, uma verdadeira ode à literatura de humor e à inventividade narrativa. São comentários breves sobre uma guerra travada contra um povo imaginário que é inacreditavelmente idêntico ao povo que o combate. A guerra contra os taedos é cheia de absurdos humanísticos, de tréguas e de estratégias burras que de alguma forma fazem sentido no contexto do livro. A coisa é tão engraçada e absurda que Borges não teria escrito melhor, caso ele tivesse um senso de humor menos esquisito.

Também tem o “Divagações sobre números”, que é uma porrada de sacadinhas (uma constante entre a geração dele, ao que parece) sobre números. Coisas que caberiam num tuíte, e que não deixam de ter um fundo obsessivo pela coisa.

Manoel Carlos KaramMas aí tem o “Projeto de Bestiário”, que, ao que tudo indica, é um contraponto do Jornal da Guerra Contra os Taedos, mas é um texto tão solto e tão desconexo que demora até que alguma conclusão desse tipo possa ser tomada. Começa com alguém tentando bolar um nome e associando características a cada nome. Um troço meio despropositado, mas divertido durante os cinco primeiros minutos.

No fim, Pescoço Ladeado Por Parafusos é uma confusão que só, e é um desses livros que você lê para se perder em meio a tanta maluquice, como é com os livros do Valêncio Xavier e do manuscrito Voynich. Não dá pra dizer que eu apreciei cada página da leitura, mas também não dá pra dizer que poderia ter passado minha vida de leitor sem essa. Porque se ler é imaginar, então ler Karam é extrapolar os domínios da mente. Caraca, que frase bonita, espero que me citem em alguma orelha de livro com essa.

O projeto gráfico da Arte & Letra é demais. Sou um pouco suspeito pra falar, não só pela minha proximidade com a editora e livraria, mas também porque a capa é do ilustrador André Ducci, o melhor de Curitiba e, quiçá, um dos melhores do Brasil. A mesma editora publicou outro livro dele, Comendo Bolacha Maria no Dia de São Nunca, num esforço louvável para resgatar a literatura desse cara das profundezas dos catálogos de editoras miudinhas – algumas já extintas – que ainda ganham dinheiro com copyright sem fazer nada pelo acervo. A diagramação do livro é boa, o papel é pólen de gramatura grande e o formato do livro é pequeno, quase quadrado. Enfim, um bom produto.

Comentário final: 192 páginas em papel pólen. Tente imaginar isso!

Jorge Amado – A Morte e a Morte de Quincas Berro Dágua

quincas berro dáguaHohohoho faz o papai Noel. Hohohoho, bandido não vai pro céu. Não sei porque comecei o texto de hoje com uma citação a essa música do Planet Hemp. Mas a verdade é que ninguém nunca sabe começar texto nenhum, porque, vamos dizer a verdade, se soubessem, todo mundo ia escrever muito mais, até mesmo os que escrevem por obrigação. A exceção talvez sejam esses escritores de que todo mundo fala: Franz Kafka, Tolstói, Jorge Amado, Cristóvão Tezza, estes bons começadores de texto.

E por falar em Jorge Amado, o livro de hoje é dele. Rá, e você achando que eu tava dando voltas à toa. Não, meu amigo, eu sou como aquele sujeito dos Jogos Mortais, não dou nó sem ponta, malandragem! Mentira, tava enrolando mesmo. OU NÃO? Jamais saberás. Como eu dizia: Jorge Amado. Se você é paulistano e se dá com todas as classes sociais, deve conhecer umas seis ou dez pessoas cujo apelido é “baiano”, mesmo que elas tenham vindo de outros lugares do nordeste. Como diz o Gritando HC, “Não importa da onde veio, chegando em São Paulo, é tudo baiano”. Mas, é claro, podem haver baianos de verdade entre os baianos que moram em São Paulo. Nenhum baiano, porém, é tão baiano quanto Jorge Amado, “o baiano” por antonomásia. E isso se deve pelo fato de ter sido ele o inventor da Bahia. Antes de Jorge Amado, o que era a Bahia? Um lugar meio sem rosto quando a gente imagina, uma coisa assim, meio Aracaju, meio Maceió, meio Pirapora do Norte, uma nuvem toma o lugar da imagem formada na nossa cabeça. Depois de Jorge Amado, a Bahia, e mais especificamente Salvador, virou o que é hoje: pelourinho, neguinho bêbado, mulata assanhada, gente preguiçosa, coroné, macumba, tiro pra tudo quanto é lado, gente certinha se dando mal, gente gauche se dando bem, pescador, marinheiro sacana, sexo 24 horas por dia, maconheiro vagabundo, comida apimentada, meninada de rua, tabuleiro de baiana, bunda de morena, cochilo na rede, sotaque carregado, bordões engraçados e cenário pra novela da Globo. O tempo encarregou-se de colocar aí o axé, o reggae, a Timbalada, mais maconha e mais bunda. Obrigado, Jorge Amado, agora já temos o que imaginar quando nos falam a palavra “Bahia”.

E o que é a pequena noval A Morte e a Morte de Quincas Berro Dágua? Tudo isso, ora essa. Escrita em 1959 para um dos primeiros números da revista Senhor (não, não é revista de crente), enquanto escrevia Os Velhos Marinheiros ou O Capitão de Longo Curso – um livro nem de longe tão celebrado quanto este. Quincas Berro Dágua tomou uma semana da vida de Jorge Amado, e gerou adaptações e mais adaptações para o cinema, teatro, o que seja. Tudo por conta de uma historinha super simples, que vamos passar em revista agora.

O tal Quincas era um daqueles caras vagabundos que tem em toda família, que vive no bar, arruma briga, dá trabalho, e na hora de reunir a parentada, é o principal assunto a ser evitado. O tal sujeito morre um dia, ou seja, é uma daquelas histórias em que o protagonista já começa morto, tipo, sei lá, O Terceiro Tiro, do Hitchcock. E aí, a família finge ficar triste e no fundo respira aliviada. Os filhos tão relaxados, as tias gordas idem, os agregados então, nem se fala. Mas é, claro, tem gente que fica triste. A mulatinha da casa das primas, namoradinha número um do sujeito é uma delas, os companheiros de bebedeira são outros. E são esses degenerados que rompem velório adentro para dar adeus ao companheiro de esbórnia e não o tomam como morto, porque Quincas começa a sorrir, tomar vinho e xingar todo mundo. Eles resolvem então levar o morto para uma última noite de rolé, porrada, putaria e chapação, apenas para que depois ele, em meio a uma tempestade em alto mar, despeça-se de sua gente para ter sua derradeira morte, do jeito que sempre quis.

É basicamente isso. Não há nada demais nessa história, nenhum significado oculto, nenhuma metáfora a coisa nenhuma, sátira zero, niente. A Morte e a Morte de Quincas Berro Dágua é a novela sobre um vagabundo que morre duas vezes, e faz uma farra entre uma morte e outra. O resto podem ser teses que esses senhores de academia fazem para garantir o whisky das crianças, para dar uma força pro Jorge Amado na eterna e saudável disputa com o gaúcho Erico Verissimo, para enganar os bocós, mas a mim ninguém engana. Quincas Berro Dágua é um livro que entra para a história da literatura por ser um clássico 2D. Narrativa impecável, léxico de dar inveja nos mais eloquentes prosadores de nossa época, construções humorísticas, tudo isso se aceita para elevar a qualidade dessa obra leve e divertida de ler. Mas não, não me venham com interpretações, fortunas críticas e dissertações, que eu não engulo. Prova mais viva disso é o posfácio do senhor Affonso Romano de Sant’Anna, uma das cabeças mais lúcidas da literatura brasileira atualmente: uma encheção de lingüiça engraçada e curiosa, mas veja se Sant’Anna se atreveu a fazer alguma tese sobre o livro que vá além daqueles clichês que sempre valem para a literatura brasileira, dos limites entre realidade e ficção, que a vida imita a arte, bla bla bla. Se o Affonso Romano Sant’Anna, eu repito, não falou nada que acrescente à importância da obra, é porque ela não tem mais nada a acrescentar.

E veja aqui a genialidade de Jorge Amado com ela. Qual gênio da literatura não queria fazer isso: um livro absolutamente fantástico que, mesmo assim, não dá margem para que ninguém sério tente mamar em seus talentos? Morre-se duas vezes? Talvez. Quincas é filho de Exu? Sim. A última farra antes de morrer? Isso não dá nem uma introdução séria de tese. Ah, a glória de se escrever um livro completo em suas interpretações e significados. Nada fica por dizer, é a vingança do morto cremado: não deixar carne pros vermes, nem mesmo para mim, este que quer comer cinza em pleno domingo de manhã.

Quando a Companhia das Letras pegou o Jorge Amado para o catálogo, sabia que ia sair coisa bonita. Pelo menos mais bonita do que a coleção horrorosa da Record (pô, galera da Record, vocês também, hein?). Inesperadamente, não criou-se o fetiche que seria de se esperar em cima da coleção, a galera não voou em cima como aconteceu com o Borges, por exemplo. Mas fica aí umas belas cinquenta e tantas lombadas para quem quiser fazer vista boa na estante. Foto do Marcel Gautherot levada às loucuras instagrâmicas na capa, papel pólen, fonte sei lá, mas é gigantesca, arabescos pra tudo quanto é lado e um belíssimo acervo de fotos e manuscritos ao final. Tudo para elevar o valor da obra, cujo valor já é demonstrado por si só. Então, relax and enjoy!

Comentário final: 120 páginas de pura malemolência. Mas rapaz, quase acabou com a polícia de Pernambuco!

V.S. Naipaul – Uma casa para o sr. Biswas (A House for Mr. Biswas)

A house for mr. biswasNão sei quanto a vocês, mas eu estou levando a sério o desafio literário livrada 2011. Já li o primeiro livro do meu autor escolhido. De fato, acabei de lê-lo agora e já resolvi escrever enquanto a coisa tá fresca na cabeça. Sem mais, vamos a ele.

Vidiadhar Surajprasad Naipaul, esse índio velho com cara de figurante de filme do Giuliano Gema, minha gente, é o autor que eu escolhi para conhecer esse ano. Nasceu de uma família indiana na década de 30 em Trinidad, aquela ilhazinha simpática que fica em cima da Venezuela, do ladinho de Tobago, e, após uma vida estudando entre os ingleses, ganhou o prêmio Nobel de literatura em 2001, aos quase 70 anos. Povo de Estocolmo, vamos começar a reconhecer o mérito literário das pessoas mais cedo um pouquinho, vamos? O que o idoso vai fazer com o milhão de platas que ele vai colocar no bolso com o prêmio? Gastar tudo com remédio nas farmácias Minerva? Dá o vil metal na mão de um escritor mais garotão, pra ele gastar com Jet-skis, shows particulares do Yo-Yo-Ma, raves em Santorini, enfim, dá dinheiro pro cara viver a vida, né?

Enfim, voltando ao assunto, Naipaul escreveu, em 1961 esse mega romance de formação com traços de pós-colonialismo (é sério gente, existe uma corrente literária com esse nome, não iria enganá-los de graça) chamado Uma casa para o Sr. Biswas (na ficha técnica da Companhia das Letras, colocaram que o título original era “A house to Mr. Biswas, mas não é to, é for, mancada básica do inglês básico). O livro, parte drama, parte comédia, fala da história de Mohun Biswas, o sr. Biswas da história, um cara que cresceu numa família minimamente grande, como costumam ser as famílias hindus a julgar pela família do Apu, que é o único hindu que eu conheço, e ele é só um desenho animado, e, acho que por isso, sonha em ter um cantinho só pra ele. Tido como maldito por um pândita, um sacerdote que vem traçar a personalidade dele, cresce recebendo uma sutil hostilidade de sua família, e casa com uma mocinha chamada Shama, da terrível família dos Tulsi, uma família de comerciantes maior que o Polyphonic Spree inteirinho, cheio de gente autoritária e sem paciência pra nada. Mohun então começa a trabalhar de jornalista e a escrever pequenos contos enquanto tenta conquistar sua própria casa, sendo enganado por tudo e por todos a todo momento.

Contar mais do que isso é spoiler, então vamos às análises. Primeiro, considero que Naipaul escreveu esse livro com uma grande paixão, pois a história de Biswas está muito associada à história de seu pai e, por conseguinte, à sua infância em Trinidad. Assim como Biswas, Naipaul queria ser escritor, e também assim como Biswas, seu pai fora jornalista sem ter muitas leituras, e considerava os escritores os seres mais nobres do mundo. Acho que toda obra escrita com muita paixão por um determinado universo deve pelo menos ser considerada a ser lida com carinho, e ponto final.

Falando um pouco sobre o Sr. Biswas. A trajetória que o protagonista desenvolve ao longo de sua vida pode ser compreensível se levada em consideração o meio em que cresceu. Hostilizado por seus pais, pois o pândita havia dito que seu espirro causava azar, Mohun começou a se rebelar contra tudo aos poucos. O drama de não ser bem quisto e ainda assim ter de conviver com pessoas hostis — família, ainda por cima — é motivo bom pra querer chutar o pau da barraca, a meu ver. Depois, na adolescência, quando é forçado a casar com Shama, e a morar com uma família gigantesca, é mais um motivo para revolta. Uma vida que vai sendo arrastada para as situações, por assim dizer. Toca fundo no nosso senso de liberdade, a mulherada fica doida quando vê uma mulher de burca, é ou não é? O Biswas tem algo nele de bom, de nobre, mas isso não é despertado pelas frustrações perante a vida que lhe corroem com a força e a dor de uma lâmina profunda de agonia (achou bonito? É do Funk Fuckers!). Aí entramos em outra questão importante do livro: a rotina e as responsabilidades que oprimem a criatividade e a vontade do pobre proletário. Mohun não pode escrever e não pode exercitar todo seu fascínio pela cultura e pela literatura porque tem que cuidar do telhado que tá caindo, dos quatro filhos pra criar, da esposa que só reclama, etc. Então, ô-ô-ô-ô mai bróder,  é o rodo cotidiano.

Vidiadhar Surajprasad NaipaulUma última coisa que queria falar sobre o livro é uma passagem que me marcou muito. Vou tentar não contar muito do contexto para não estragar a leitura de quem, porventura se aventurar nesse livro. Bom, acontece que, em dado momento, Biswas consegue comprar uma casa, mas diante de um cenário completamente hostil. E aí ele se depara com uma realidade cruel do estado capitalista: quem tem posse tem medo. Ele começa a se sentir acuado em seu próprio terreno (opa! Mesma música do Funk Fuckers de novo) e experimentar um medo terrível de tudo e de todos, chegando a ter receio de sair lá fora. Aí está um traço do tal pós-colonialismo. O medo de quem tem posse num país completamente desestabilizado, sem seu poder executivo em pleno funcionamento, em épocas de guerra (segunda guerra), depois de colonizadores terem abandonado o país à sorte de suas divergências culturais e étnicas, do tipo “pulei fora, se virem vocês”, é terrível. A todo momento, no livro, vemos leis sendo mal-interpretadas, distorcidas, manipuladas para o interesse de alguém (não que isso não aconteça por aqui, mas no livro a coisa é muito mais visceral), algo muito típico do Estado sem Estado. Isso, aliado ao comportamento dos Tulsi e do próprio Biswas, enfim, os trejeitos da sociedade, me fazem perceber que a cultura de Trinidad e Tobago não é muito diferente da brasileira. Esse romance poderia ter sido “rodado” aqui na nossa terra, afinal. Todo mundo sendo enganado e vivendo na maior pobreza. Serião, fiquei com nojo de algumas paradas da história, como o “sorvete feito em casa”, que é guardado num freezer velho que fica soltando pedacinhos de ferrugem em cima do sorvete. Yuck!

Essa coleção do Naipaul da Companhia das Letras é bem bonita, vai dizer. Esse livro em questão é sinistro, porque são 522 páginas em letra miudinha, pra caber mais. Então é um livro que eu suei pra ler. Dica para vocês, crianças: evitem começar a ler um autor por seu maior livro, mesmo que seja um clássico. A exceção de Crime e Castigo, é claro, e também pro caso de você resolver ler Pamuk — o cara não faz muito livro pequeno, então não tem jeito. Bom, mas eu fui, demorou mas tô aqui falando dele pra vocês. Tradução do Paulo Henriques Britto, papel pólen e fonte Garamond. Tem prefácio do autor e na quarta capa, citações elogiosas de balangudos da literatura como Paul Theroux e Anthony Burgess. Ah, o livro também ganhou o prêmio Grinzane Cavour, da região de mesmo nome da Itália. Um prêmio importante, mas desconhecido, que já premiou e homenageou muita gente boa (inclusive o Cesare Pavese, Carlinha!). Tá demais, né?

E a propósito, como vão as leituras do desafio de vocês? Já leram algum autor a que se propuseram? Não quero controlar, só estou curioso mesmo. Se quiserem, escrevam aí embaixo!

Comentário final: 522 páginas pólen soft. Arranca o braço do James Franco em 127 horas.