Italo Calvino – Se um viajante numa noite de inverno (Se una notte d’inverno un viaggiatore)


Se una notte d'inverno un viaggiatoreDia 15 de outubro seria o aniversário de Italo Calvino, o rapazote das ideias mei malucas faria 87 anos hoje. Pelo menos eu acho que é isso, ele nasceu em 1923, não sei fazer as contas direito. Se soubesse, afinal, estaria enchendo o rabo de grana na engenharia. Então achei que seria uma boa homenageá-lo falando aqui do primeiro livro que eu li dele.

Se um viajante numa noite de inverno é um livro publicado em 1979, mas quando ele saiu nem me liguei muito porque a minha vida era um saco. Somente anos depois, em 2007, resolvi lê-lo, por indicação da Manu Salazar, que insistia que eu iria gostar da literatura do autor. Aí um dia ganhei ele do meu pai. Dois autores que nunca tinha lido: Italo Calvino e James Joyce, peguei um exemplar de cada autor e pedi para que meu pai, que não é nada chegado em livros, escolhesse. Ele escolheu o do Calvino, ainda bem, imagino eu.

Li o livro quando estava mudando de casa. Nunca vou me esquecer de um dia em que estava lendo ele no meu apartamento novo, que ainda estava em reformas. Uma tarde de frio e uma chuva desgraçada, eu deitado em uma esteira improvisada de papelão sobre o chão repleto de pó de cimento. À noite tinha ópera ainda, estava começando o namoro e a Carlinha, que estava deslumbrante, teve como acompanhante o sujeito mais mal vestido de todo Teatro Guaíra. Assisti ao Rigoletto tossindo pó de obra e fedendo como um cavalo suado. Anotem aí: coisas a não se fazer nos primeiros encontros.

Bom, Se um viajante… é um livro metalinguístico, pra dizer o mínimo. Trata de um sujeito que vai na livraria comprar justamente o Se um viajante numa noite de inverno, do Calvino, e começa a ler, achando super legal, até que descobre que seu exemplar veio com um defeito da gráfica: após a página 32 o livro volta ao começo, um erro na montagem das brochuras. Se vocês não sabem, cada gominho de páginas de um livro com esse tipo de encadernação tem 32 páginas, então o exemplar do protagonista estava repleto dos mesmos gomos. Então ele volta à livraria para trocar. E eis que o vendedor dá uma olhada no livro e afirma que aquela história não é do Italo Calvino, e sim de um outro autor, romeno se não me engano. Como o sujeito já estava totalmente envolvido no enredo, solicita um exemplar do livro desse segundo autor. Quando começa a lê-lo, tchanam! É outra história. Assim, entremeado de fragmentos de livros que sim, parecem todos excelentes, o protagonista se esforça para conseguir ler pelo menos um livro inteiro, enquanto, de quebra, tenta faturar uma mocinha. Sério, tem como não gostar de um mote desses?

Extremamente complexo, Se um viajante em uma noite de inverno, além de explorar diversos gêneros de literatura (todos demonstrados em um organograma no apêndice, em resposta a um crítico italiano), comenta, en passant, as nuances que envolvem a leitura e que estão intrinsecamente conectadas à escrita. O fato de 32 páginas serem suficientes para envolver alguém em uma leitura, por exemplo. Convenhamos que, hoje em dia, livro que não esteja engrenado até a página 30 tá no sal. Neguinho coloca de lado e vai jogar videogame mesmo, sem dó nem piedade. Até a época em que Calvino escreveu esse livro, porém, não era raro o livro engatar lá pelo terceiro ou quarto capítulo. Talvez seja uma alma de contista que se encerre nos romancistas de hoje em dia, quem sabe?

Ah sim, deixei o melhor pro final: a narrativa do livro não é em primeira ou terceira pessoa. É — se é que isso existe — em segunda pessoa! Isso mesmo, o narrador fala diretamente com o protagonista, que é você mesmo, que lê o livro. Isso sim é entretenimento, hein? Se liga no começo:

“Você vai começar a ler o novo romance de Italo Calvino, Se um viajante numa noite de inverno. Relaxe. Concentre-se. Afaste todos os outros pensamentos. Deixe que o mundo à sua volta se dissolva no indefinido. É melhor fechar a porta; do outro lado há sempre um televisor ligado. Diga logo aos outros ‘Não, não quero ver televisão!’. Se não ouvirem, levante a voz: ‘Estou lendo! Não quero ser perturbado!’. Com todo aquele barulho, talvez ainda não o tenham ouvido; fale mais alto, grite: ‘Estou começando a ler o novo romance de Italo Calvino!’. Se preferir, não diga nada; tomara que o deixem em paz.”

Fala sério, maneríssimo, né não? Acho que esse começo fala do livro por si só.

Bom, o projeto gráfico da Companhia das Letras é lindíssimo, mas causou confusão pro meu pai “Que são esses retângulos aqui na capa? Que tem a ver isso com o livro?”, ele perguntou. A coleção do Calvino é uma das poucas da editora com fonte Garamond, mas vale a pena, dá um toque de finesse pro alfarrábio. A tradução é de ninguém menos que Nilson Moulin, que traduziu do italiano também o A Cada um o Seu, do Leonardo Sciascia, que eu já comentei neste blog. Sem o Nilson, tava todo mundo ferrado, minha gente, deus abençoe os bons tradutores. No mais, papel pólen e uma capa verde musgo, talvez a minha cor favorita (deu pra perceber nesse blog ou não?).

Comentário final: 275 páginas em pólen soft. Pimba em quem tá com a televisão ligada!

 

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10 Respostas para “Italo Calvino – Se um viajante numa noite de inverno (Se una notte d’inverno un viaggiatore)

  1. E o prazer de ler alguém com capacidade criativa gigantesca? Talvez não se dê ao Italo Calvino o respeito que ele merece. Alguns dizem que esses lapsos de inventividade dele são exagerados ou “não dão certo”, mas acredito que, somente por tentar uma coisa nova, um recurso novo na literatura, já é digno de meu respeito. Gostei da resenha.
    Abraço.

    • Oi Lucas! O Calvino realmente tinha uma criatividade invejável, os fantásticos latino-americanos deveriam se morder e dariam um braço para ter uma cabeça como a dele. Mas, admito, não gostei de muita coisa que ele escreveu, mas é mais da fase realista do começo da carreira. O Dia de um Escrutinador é um livro denso, triste, pesado e odiável, por exemplo. Acho que o negócio dele é o mundo do faz-de-conta-bem-faz-de-conta mesmo, e esse livro é, acho eu, o ápice da sua criativdade.
      Abraço!

  2. Este livro é excelente, de uma genialidade incrível. Concordo com o amigo aí, Italo Calvino é muito criativo e escreveu livros e contos belíssimos.
    E eu também nunca vou esquecer a noite de ópera!

    Beijos ❤

  3. Hmmm, não posso comentar. Do Italo Calvino só li o “Visconde partido ao meio”, bastante inventivo e divertido.

    “Divertir é uma das funções sociais da literatura”, é uma frase atribuída a Calvino. Mas, como observaram alguns de seus críticos, a brincadeira no autor italiano serviria sempre para encobrir a discussão de temas mais sérios. Assim, pergunto ao Yuri se deu pra “sacar” o que o autor procurou transmitir ao leitor nessa obra que, pela sua descrição, é quase surreal (quase está parecendo roteiro de filme de Buñuel).

    • Oi Jarobas,
      Olha, acho que esse lance de divertir para encobrir temas mais sérios talvez servisse para outras obras, de sua fase intermediária, quando migrava do realismo para o surrealismo. Contos como A Nuvem de Smog ou As Formigas Argentinas (se é que os títulos estão certos) servem mais a esse propósito. são engraçadas e absurdas, mas com um fundo questionador e crítico. Esse livro questiona algumas coisas relacionadas à literatura, o modo como é produzida e o modo como a consumimos, mas acredito que o apêndice que a editora adicionou ao final serve mais a esse propósito do que o livro em si. Bom, quem quiser achar pêlo em ovo, que ache, também, mas acho que Se um Viajante em uma noite de inverno é, antes de tudo, um livro divertido.
      Abraço!

  4. Esse livro questiona algumas coisas relacionadas à literatura, o modo como é produzida e o modo como a consumimos

    Você matou a charada: talvez seja só essa mesma a “mensagem de fundo”, se é que há alguma. Já no “Visconde partido ao meio” – cuja leitura sugiro – é um retrato do nosso tempo.

    • Oi jarobas,
      Eu li o Visconde Partido ao Meio, achei bacana esse lance de separar o caráter de uma mesma pessoa em extremos, mas, de toda a trilogia, esse é o menos legal. O Cavaleiro Inexistente (que já comentei aqui) e o Barão nas Árvores são muito mais divertidos! 🙂
      Abraço!

      • “O Barão Partido ao Meio” não é interessante pela sua capacidade de divertir, mas por mostrar a divisão profunda do homem após a segunda guerra. Hoje se você é “durão” (i.e. a métade malévola do barão), arrisca-se a ser rotulado de ultra-direita ou nazistóide (exemplo, que critica a imigração islâmica para a Europa, não por motivos raciais, mas pela recusa em se integrar de grande parte desses imigrantes). Do outro do lado está o pessoal dos “direitos humanos” (a metade insuportavelmente boazinha do barão), que critica e critica – mas não resolve nada.

        Qual a tese de Calvino? É necessário costurar as duas metades do barão, deixarmos de ser esquizofrênicos. Em outras palavras, firmes, mas justos.

        Confesso que, no fundo, acho o “Barão partido ao meio”‘até triste: quem relata a história é um filho bastardo de um portento, que cresce por aí, ao léu. No final do livro, o único verdadeiro amigo que tem, o médico inglês de quem é assistente em suas pesquisas e faz o papel de tio, pai ou avô, parte em um navio britânico, deixando-o sozinho com sua dor.

  5. Pingback: Cormac McCarthy – Todos os Belos Cavalos (All The Pretty Horses) | Livrada!

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