Nelson Rego – Daimon Junto à Porta


Bom dia, baixinhos e baixinhas! Enquanto vocês leem este post, eu estarei dando um duro danado num hotel cinco estrelas à beira-mar de copacabana, então aproveitem o dia se puderem porque hoje é dia de Livrada, bebê! E novidades! Agora, a Companhia da Letras é parceira desse blog supimpa, então esperem alguns lançamentos deles por aqui também.

Falando em parceria, o post de hoje é um livro de outra parceira do blog, a editora Dublinense, que nos enviou (“nos”, como se fôssemos uma empresa sinistra. Mal sabem vocês que esse trabalho todo é feito por míseros oito macacos acorrentados a máquinas de escrever) o livro de contos Daimon Junto à Porta, do Nelson Rego, um autor semi-estreante e que merece o tratamento de gente grande da imprensa especializada que só um veículo imparcial e independente como o Livrada pode proporcionar. Então se segura e vem com a gente (“a gente” de novo… vão pensar que eu sou esquizofrênico agora).

Daimon Junto à Porta é um livro curtinho, com contos curtos, que, no meu entendimento, tem como eixo unitário os sacrifícios e os absurdos cometidos e propostos em nome de uma suposta arte que, obviamente, está acima de nós humanos. É assim que começa o primeiro conto, Platero e o Mar, que narra a história de duas mulheres e um homem que posam em cenas de sexo explícito para uma artista desenhá-los no melhor estilo Schiele de pau duro. Coisa que a mulher poderia fazer simplesmente indo num inferninho qualquer na perifa a um preço módico de 30 reais. Mas não,  a moça quer um showzinho particular, ê povo estuporado. A grande sacada do livro foi retomar essa história no último conto, intitulado Um Pedacinho do Tempo Diante dos Olhos. Eu sei, parece título de power point cristão, mas acho que essa foi a solução do autor para um título que desse um sentido de grandiosidade e superioridade da vida sobre as histórias.

Aliás, a minha principal crítica ao livro é essa: os títulos. Daimon Junto à Porta, Platero e o Mar, Nihil, Um Pedacinho do Tempo Diante dos Olhos… bah, tchê, quanta afetação. Essa parada de jogar palavra em latim no meio das coisas já foi legal na época em que não tinha Wikipedia, hoje parece arroto de erudição mal digerida, vai por mim. A sorte do Sr. Rego é que ele não se propõe tão sabidão assim no miolo dos seus contos, pelo menos na maioria das vezes. Pelo contrário, consegue criar umas historinhas curtas e cativantes com pouca coisa: um diálogo entre dois imigrantes nos Estados Unidos, uma menina que vai buscar um balde d’água pra avó, um médium que é explorado pelo pai da narradora, esse tipo de coisa que deixa passar uma sagacidade em não viajar muito na maionese e não ficar de pompas literárias (até tem umas construções bem óbvias e corriqueiras, dessas meio genéricas que você aprendeu na aula de redação do colégio e escreve no piloto automático).

A coisa do tamanho do livro é outra bola dentro do autor. Provavelmente consciente de sua própria falta de fôlego para escrever algo maior, ele usa o tamanho do livro a seu favor, criando histórias que você já sabe de antemão que são curtas e despertando o interesse do leitor em poucas linhas. Por mais que seja aquele estilo de solução a lá Flaubert, com o crescimento do interesse no passar das páginas, é assim que o mundo gira e é assim que você faz com que a crítica fale algo do tipo “é um autor que sabe contar uma história”. E no final, o livro é bom porque o autor consegue dizer a que veio em poucas páginas, e se isso era uma espécie de teste para ver se rolava escrever um romance, vá fundo, filho! Só não escreva mais umas paradas do tipo “sorrisos, quase risadinhas” e outras breguices do tipo, porque tirando isso, tá no ponto!

Por último, para quem gosta de literatura erótica, é preciso dizer: criar uma boa cena sensual ou erótica em um livro é um trabalho que poucos conseguem fazer com maestria e esse gajo, sei não, me parece que tem o talento, embora tenha explorado pouco esse lado.

Esse projeto gráfico da Dublinense é o sonho de qualquer escritor iniciante. Um capricho no livro que pouco se vê hoje em dia. Papel pólen, fonte Arno Pro, paginação central coberta em fundo preto, capítulos bem divididos que começam sempre em página ímpar, “desperdiçando” papel para dar mais respiro pros contos, títulos separados em uma única página preta que vai ficando menos preta a cada novo conto (ou pode ser só tinta fraca da gráfica, não sei), e uma capa majestosa que divide fotografia e design de maneira justa, embora margem em capa de livro não seja uma das minhas coisas favoritas, pelo contrário. No geral, um bom livro pra quem quer pegar um pouco do flow dos nossos contistas.

Comentário final: 121 páginas em papel pólen. Pode matar alguém nas mãos de um Ginosaji.

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4 Respostas para “Nelson Rego – Daimon Junto à Porta

  1. Parabéns pelas parcerias, Yu! Fico feliz por você e pelo blog 🙂

    Por seus comentários, me parece um bom livro. Viva os contos e contistas brasileiros!!

    Beijo e volte logo dessa sua vida fácil aí no Rio.

  2. Nunca ouvi falar desse cara! rs nem da editora! e viva o conto que é o melhor da literatura! E que bom a cia ser parceira do blog, espero que role uns sorteios tb pra gente! hehe Já anotei o nome do Rego na lista para eu prestar atenção futuramente!

    abraço velho!

  3. Adorei o livro. Fiquei totalmente cativada pela união de profundidade com simpliicdade. O erotismo pega forte nos contos. E de um jeito muito original.. O Rego foi mesmo pra lista dos desejados.

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