Sérgio Sant’Anna – O Livro de Praga

Hoje é domingo, pé de cachimbo, dia das mães, todo mundo enchendo a pança em família e fazendo as mesmas piadas de “é pavê ou pá cumê” e “afinal, avó é mãe duas vezes”, enquanto têm-se a ligeira impressão de que mais um domingo acaba, mais um final de semana chega a seu ocaso e mais uma vez, os objetivos alcançados foram mínimos. Suspira conformado e vai para a cama esperar o começo de mais uma melancólica semana. Mas não tema, homem moderno e exemplo patético da herança orgânica da Terra, cá está o livrada para colocar mais miolos nos seus miolos e mais tutano no seu tutano. Sente-se, relaxe e aproveite mais esse livro do dia, quem sabe quando você chegar ao final você se anime a visitar uma livraria e comprar algo bonito para a sua estante e seu cérebro.

Bom, este é o penúltimo post antes das minhas tão merecidas férias, e fala logo sobre Praga, cidade que estarei visitando daqui a exatamente um mês. Por isso achei conveniente e vamos lá, é livro nacional, sempre uma boa pedida!

O Livro de Praga é obra do escritor Sérgio Sant’Anna, que obviamente já viu dias melhores na hora de bolar um título criativo. Sant’Anna fez parte do time da coleção Amores Expressos, do almighty Rodrigo Teixeira, da RT Features, produtora paulistana de qualquer coisa. Pra quem tá de bobeira, vou explicar: dezesseis autores viajaram bancados pela empresa para passar um mês em alguma cidade do mundo com a missão de voltar e escrever uma história de amor situada nessa cidade. Primeira consideração: vida chata, hein galera? Fala sério, ser chegado do Teixeirão aí é a maior jogada (me liga, cara, vamos jogar uma bola qualquer hora!) E isso prova que eu não teria o menor tino pra coisa, o santo aqui ia desconfiar dessa esmolada toda e não ia arredar o pé com medo de ter a alma roubada depois. Sério, gente, não me ofereçam dinheiro, morro de medo… Bom, de qualquer jeito, até o momento, sete livros já saíram pela Companhia das Letras: esse, o Cordilheira do Daniel Galera (Buenos Aires), , Estive em Lisboa e Lembrei de Você do Luiz Ruffato (Lisboa… dã), Do Fundo do Poço se Vê a Lua, do Joca Reiners Terron (Cairo), O Único Final Feliz Para Uma História de Amor é um Acidente, do João Paulo Cuenca (a vírgula se faz necessária aqui… Tóquio), Nunca Vai Embora, do Chico Matoso (idem… Cuba) e O Filho da Mãe, do Bernardo Carvalho (ibidem… São Petesburgo). A coleção prevê ainda livros do Lourenço Mutarelli sobre Nova York e um livro rejeitado de um gaiato de Goiânia que foi para São Paulo (o azarento da turma, provavelmente), entre outros. Olha, já vi ideias melhores para coleções literárias, e essa me parece a Paris Hilton das coleções literárias: perdulária, superficial e altamente desejada por fashionistas antenados nas tendências. Isso enquanto coleção, o que não quer dizer que, individualmente, a parada não guarde boas surpresas, como é o caso desse livro. Vamos a ele.

Sérgio Sant’Anna teve muito culhão pra fazer o que fez no Livro de Praga: pegou a grana que lhe foi dado, passou um mês usufruindo sabe-se lá de quais serviços do Leste Europeu e voltou não com um romance, mas com um livro de contos mascarado de romance e com um roteiro de filme pornô mascarado de história de amor, usando como pano de fundo a maior parte dos clichês da capital checa – coisa que uma semana na cidade ou duas semanas na Wikipedia resolveriam de forma igualmente eficaz.

O protagonista é um sujeito chamado Antônio Fernandes, um cara que guarda grandes semelhanças com o autor do livro à exceção do excesso de swag que lhe permite passar o rodo em Praga. Fernandes – olha só! – também está passando um mês em Praga a pedido de um ricasso para uma coleção literária. É, a imaginação do cara voou longe pra bolar essa história… O “romance” é dividido em vários contos e em cada um deles o herói Antônio Fernandes (que também poderia ter sido batizado Dirk Diggler) se envolve com alguma peripécia artística e sexual: numa hora é precisa desenbolsar uma bolada para ver e trepar com uma pianista reclusa e seleta, noutra descobre que um sujeito cafetina a irmã que tem tatuado um manuscrito inédito de Kafka no corpo, noutro compra uma boneca no teatro que ganha vida na cabeça dele, noutro ainda transa com uma santa fictícia num altar. Tudo no maior delírio, na maior loucuragem, na maior psicodelia libertina. O sujeito está em alfa, em nirvana, pra lá de Bagdá, viajando na maionese enquanto essas coisas acontecem nos seus sonhos diurnos. Cada uma das aventuras é um tipo de tara e um tipo de arte: felação e música, penetração e escultura, literatura e donkey show, sei lá, o cara vai misturando as taras da cabeça dele com as artes que vai encontrando.

E aí vai aquela coisa, aquela ambiguidade onírica gostosa: é sonho ou é realidade? É sexo ou é amor? É romance ou é conto? É arte ou charlatanismo? Você decide, você julga e você escolhe, porque a minha opinião está guardada na minha cabeça e se eu intercedesse nesse ponto eu interferirira da pior maneira na sua leitura: limando a sua imaginação e sua capacidade de julgamento e discernimento. Como eu não tenho cara de televisão, jogo pra galera.

Esse projeto gráfico é uma maravilha, faz todo mundo querer fazer a coleçãozinha, porque vem com um carimbinho e o público gosta disso: gotta catch ‘em all, mr. Pokémon. Essa capa é mais bonita que as outras, na minha modesta opinião, por ser menos pop, menos teen e menos hype. Papél pólen, fonte Electra e todo mundo fica feliz. Alright!

Eis os meus recados:

1-    Essa é a última quinzena para mandar seus autógrafos. Tô querendo fazer uma parada massa aqui e a galera não colabora. Não adianta nada ter dez mil acessos no mês e receber quatro e-mails, sejam participativos, colaborativos, sejam mais Che Guevara e menos “com 5 mil ‘curtir’ o médico vai fazer um transplante de rim pro labrador dessa garotinha com câncer”. Vamos lá, vai ser legal: envie fotos ou imagens scaneadas de seus autógrafos favoritos para bloglivrada@gmail.com

2-    Não sei se já viram, mas agora além de criticar livros, também critico hambúrgueres – um trabalho bem mais gostoso, vá lá. Se não conhece ainda, passa lá no Good Burger a qualquer hora e procure os meus textos, mas leia também os do Murilo, meu camarada que tampouco foge à luta.

3-    Já que nunca é pedir demais: curtam o Livrada! no Facebook e sigam @bloglivrada for more.

Comentário final: 144 páginas pólen soft. Voando daqui até Praga, uma porrada no orelhão do Kafka.

Anúncios

Nelson Rego – Daimon Junto à Porta

Bom dia, baixinhos e baixinhas! Enquanto vocês leem este post, eu estarei dando um duro danado num hotel cinco estrelas à beira-mar de copacabana, então aproveitem o dia se puderem porque hoje é dia de Livrada, bebê! E novidades! Agora, a Companhia da Letras é parceira desse blog supimpa, então esperem alguns lançamentos deles por aqui também.

Falando em parceria, o post de hoje é um livro de outra parceira do blog, a editora Dublinense, que nos enviou (“nos”, como se fôssemos uma empresa sinistra. Mal sabem vocês que esse trabalho todo é feito por míseros oito macacos acorrentados a máquinas de escrever) o livro de contos Daimon Junto à Porta, do Nelson Rego, um autor semi-estreante e que merece o tratamento de gente grande da imprensa especializada que só um veículo imparcial e independente como o Livrada pode proporcionar. Então se segura e vem com a gente (“a gente” de novo… vão pensar que eu sou esquizofrênico agora).

Daimon Junto à Porta é um livro curtinho, com contos curtos, que, no meu entendimento, tem como eixo unitário os sacrifícios e os absurdos cometidos e propostos em nome de uma suposta arte que, obviamente, está acima de nós humanos. É assim que começa o primeiro conto, Platero e o Mar, que narra a história de duas mulheres e um homem que posam em cenas de sexo explícito para uma artista desenhá-los no melhor estilo Schiele de pau duro. Coisa que a mulher poderia fazer simplesmente indo num inferninho qualquer na perifa a um preço módico de 30 reais. Mas não,  a moça quer um showzinho particular, ê povo estuporado. A grande sacada do livro foi retomar essa história no último conto, intitulado Um Pedacinho do Tempo Diante dos Olhos. Eu sei, parece título de power point cristão, mas acho que essa foi a solução do autor para um título que desse um sentido de grandiosidade e superioridade da vida sobre as histórias.

Aliás, a minha principal crítica ao livro é essa: os títulos. Daimon Junto à Porta, Platero e o Mar, Nihil, Um Pedacinho do Tempo Diante dos Olhos… bah, tchê, quanta afetação. Essa parada de jogar palavra em latim no meio das coisas já foi legal na época em que não tinha Wikipedia, hoje parece arroto de erudição mal digerida, vai por mim. A sorte do Sr. Rego é que ele não se propõe tão sabidão assim no miolo dos seus contos, pelo menos na maioria das vezes. Pelo contrário, consegue criar umas historinhas curtas e cativantes com pouca coisa: um diálogo entre dois imigrantes nos Estados Unidos, uma menina que vai buscar um balde d’água pra avó, um médium que é explorado pelo pai da narradora, esse tipo de coisa que deixa passar uma sagacidade em não viajar muito na maionese e não ficar de pompas literárias (até tem umas construções bem óbvias e corriqueiras, dessas meio genéricas que você aprendeu na aula de redação do colégio e escreve no piloto automático).

A coisa do tamanho do livro é outra bola dentro do autor. Provavelmente consciente de sua própria falta de fôlego para escrever algo maior, ele usa o tamanho do livro a seu favor, criando histórias que você já sabe de antemão que são curtas e despertando o interesse do leitor em poucas linhas. Por mais que seja aquele estilo de solução a lá Flaubert, com o crescimento do interesse no passar das páginas, é assim que o mundo gira e é assim que você faz com que a crítica fale algo do tipo “é um autor que sabe contar uma história”. E no final, o livro é bom porque o autor consegue dizer a que veio em poucas páginas, e se isso era uma espécie de teste para ver se rolava escrever um romance, vá fundo, filho! Só não escreva mais umas paradas do tipo “sorrisos, quase risadinhas” e outras breguices do tipo, porque tirando isso, tá no ponto!

Por último, para quem gosta de literatura erótica, é preciso dizer: criar uma boa cena sensual ou erótica em um livro é um trabalho que poucos conseguem fazer com maestria e esse gajo, sei não, me parece que tem o talento, embora tenha explorado pouco esse lado.

Esse projeto gráfico da Dublinense é o sonho de qualquer escritor iniciante. Um capricho no livro que pouco se vê hoje em dia. Papel pólen, fonte Arno Pro, paginação central coberta em fundo preto, capítulos bem divididos que começam sempre em página ímpar, “desperdiçando” papel para dar mais respiro pros contos, títulos separados em uma única página preta que vai ficando menos preta a cada novo conto (ou pode ser só tinta fraca da gráfica, não sei), e uma capa majestosa que divide fotografia e design de maneira justa, embora margem em capa de livro não seja uma das minhas coisas favoritas, pelo contrário. No geral, um bom livro pra quem quer pegar um pouco do flow dos nossos contistas.

Comentário final: 121 páginas em papel pólen. Pode matar alguém nas mãos de um Ginosaji.