Fernando Mantelli – Raiva nos Raios de Sol


Feliz ano novo, povão! Quer dizer, feliz ano novo pra quem é de Curitiba, quem for de fora deve estar boiando com minha saudação. É que ontem à noite Curitiba – ou parte dela – celebrou o réveillon fora de época, uma invenção do povo das internetcha que pode ser classificado no jargão americano de “white people jokes”. Eis que as pessoas brancas, tipicamente classe-média, resolveram por bem continuar as festanças mesmo depois do carnaval. Maaas, ao contrário do resto do Brasil, Curitiba não gosta de carnaval pra fazer micareta fora de época ou qualquer coisa do tipo, então resolveram criar um ano novo de mentirinha pra tomar champagne, abraçar os outros e participar de uma aglomeração. Isso vindo de uma cidade que historicamente não dá nem bom dia pro porteiro, mas, como diria Avril Lavigne, life’s like this.

Chega disso agora, nem sou curitibano e tô aqui gastando meu latim pra explicar piada de branco pra vocês. Bom, fevereiro acabou, o ano começou de verdade, e 2012 não é um ano como qualquer outro, e não digo isso por causa daquela bobagem do fim do mundo (embora saiba que não vou resistir à tentação de um dia mostrar o filme “2012” pro meu filho e dizer pra ele que eu sobrevivi àquilo tudo). É que 2012 é um ano bissexto, com 366 dias. O dia a mais no caso é o dia 29 de fevereiro, última quarta-feira, e eu, assim como Luísa Marilac, resolvi fazer algo de diferente e ler um livro desses de um dia. A bola da vez foi Raiva nos Raios de Sol, do gaúcho Fernando Mantelli (cuja foto não temos hoje, paciência, Iracema, paciência). Parafraseando o que o leitor Raphael Pousa comentou no penúltimo post, o conto tem seu valor e a gente precisa ler mais. E que bela surpresa tive com esse livrinho de 90 páginas.

Raiva nos Raios de Sol é o tipo de coisa que eu escreveria com 18 anos. Não, não estou diminuindo o livro nem dizendo que eu sou digdindigdindigdin, mas é que naquela época, quando eu escrevia meus contos, tinha uma mentalidade similar a do autor, razão pela qual meu professor de texto da época (o Cristóvão Tezza) me deu umas notas baixas e umas anotações preocupadas nas minhas redações. A minha ideia era a seguinte: se você vai escrever algo curto, de uma página ou duas, é preciso ser pungente, é preciso dar porrada na boca do estômago, é preciso ser desagradável, é preciso chocar e fazer o leitor não se esquecer daquelas poucas linhas traçadas. Caso contrário, o máximo que você vai alcançar vai ser uma leitura agradável facilmente esquecida que o leitor dedicou por boa vontade não esperando muita coisa além de passar o tempo. E foi isso que Mantelli fez. Com seus vinte continhos (faça as contas: a média é de 4 páginas de livro cada uma. Isso sem contar que o começo é sempre em página ímpar, então vão-se aí algumas brancas no meio), o autor criou um universo hediondo, distorcido, perturbado, doentio, cheio de morte, sexo, ódio e nenhum resquício de bondade.

Tomemos como exemplo o primeiro conto, intitulado “De repente um verão”: o rapaz tá andando no carro, vê uma gatinha numa bicicleta, chama num chamego, oferece cocaína, diz que tem em casa e, como a bicicleta não cabe no carro, resolve dar um bonde pra ela, que vai segurando na janela. Claro que o sujeito passa num montinho de areia, o carro dá um solavanco, a mina vai pra baixo da roda e ganha aquela bela fratura exposta, caindo de boca no aslfalto e deixando os dentes lá, pra desespero do cachorrão que larga a loirinha sangrando e chorando pra trás e vai cuidar da própria vidinha. Isso tudo em menos de duas páginas. Conciso, contundente e ainda assim se permite uma poesia de leve, umas metáforas bregas bagarai que, felizmente, ele vai melhorando ao longo do livro.

Esse conto meio que exemplifica a podridão do universo de Raiva nos Raios de Sol. Um cross-over entre Nelson Rodrigues e as paixões criminosas do Marquês de Sade. Digo que parece Nelson Rodrigues e não é à toa. Quer dizer, o quanto se pode inventar dentro desse universo meio restrito? Alguns chegam a ser variações do mesmo tema: uma traição que dá errado, uma ninfetinha rosadinha empinadinha e cheirosinha que dá chave de cadeia, esse tipo de coisa. Lembra muito o Nelson mesmo, só que um Nelson mais brutal, mais conciso e menos dramático – veja bem, não disse que é melhor, veja bem.

Mas o sujeito tem mérito próprio. Não só por reunir esse cosmos muito particular, pessimista e sombrio, mas por criar uma voz própria, que mistura um lirismo à lá Lygia Faguntes Telles quando quer fazer suspense com Lourenço Mutarelli quando quer fazer coda. Os louros são dele. Currupaco. Enfim, é um bom livro.

Esse projeto da Não Editora condiz bem com o universo do livro e foi muito bem pensado. A capa, que mostra uma família na praia com os rostos rabiscados, representa primeiro o clima dos contos (a maior parte deles tem a ver com o verão) e a raiva de sua literatura, que acaba com o que é belo e memorável. Os rabiscos de caneta (que realmente parecem feitos à mão) continuam nos cabeços dos títulos e vão te deixando aos poucos com vontade de estraçalhar o livro você também. Boa, né? Fontes Dante e Helvética porque todo mundo hoje é hipster pra usar Helvética, papel pólen e tudo mais como manda o figurino. Fica a dica.

A propósito, da última vez, pedi para curtire a página do Livrada! no Facebook e deu mais do que certo. Já somos 140 leitores. Our little group has always been and always will untill the end. Então, reforço o pedido: Curtam a página no Facebook!

Comentário final: 90 páginas em pólen soft. Bom pra tacar feito bumerangue na cabeça do infeliz metido a aborígene que diz que não gosta de Breaking Bad.

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5 Respostas para “Fernando Mantelli – Raiva nos Raios de Sol

    • Fernanda, eu deixei de responder os comentários justamente pra evitar ficar discutindo certos assuntos com os leitores, que têm o direito de ter a opinião que bem desejarem tanto a respeito da minha resenha quanto a respeito do livro. Mas vou abrir uma exceção para responder à sua malcriação.
      Todas as editoras com quem eu tenho parceria estão cientes de que eu nunca vou abrir mão da minha independência de opinião por conta delas ou do que quer que seja. Eu disse que Raiva nos Raios de Sol é um livro bom. Não é um livro excelente, mas à exceção do lirismo desajeitado dele, não encontrei mais nada que advogasse contra o autor ou seu estilo. O que eu escrevi aqui não está nem nunca estará condicionado à vontade de qualquer editora de vender o livro. Eu escrevo o que eu quero e se porventura alguma editora me mandar um livro ruim, eu vou dizer, pode ficar tranquila quanto a isso. O que eu não admito é você ou qualquer outra pessoa insinuar que eu estou me “vendendo” por conta de uma parceria ou outra. O Livrada! não migrou para grandes portais de opinião e não foi por falta de convite. Foi sim para eu manter a minha independência tanto em respeito ao leitor quanto em respeito à proposta inicial do blog. Se eu tivesse qualquer outro interesse, seja comercial ou financeiro com esse blog que eu faço de graça para quem quiser ler, o Livrada! perderia imediatamente o sentido. Acho uma falta de respeito sem tamanho você vir aqui e dizer isso, sinceramente.

      • Yuri, peço mil, mas mil mesmo, desculpas se te desrespeitei. De fato não foi minha intenção. Adoro seu blog, acho inteligentíssimo e uma boa piada em relação à crítica especializada. Acompanho o livrada a alguns meses e sim, vi diferença nos comentários que você fez em relação a esse livro. Comentei porque vi alguns blogs que eu sigo se desfazerem no ar, e foi por isso o comentário. Agora meu caro Yuri, é o seguinte: Keep Calm and carry on, kkk.
        Abraços

  1. Eu gosto muito de contos. Falta muito valorizá-los nesse país. Foi o tempo em que tínhamos Clarice e Lygia (e restaram-nos os livros). Mas deve ter sim novos e bons contistas por aí. Não sei se é o caso do autor de hoje, já que não li o livro em questão. E não estou aqui pra julgar sem conhecer – nem o autor nem sua opinião 🙂

    Agora, eu acredito que dá pra fazer bons, belos contos sem dar soco no estômago. Sabe aquele livro “Os anões”? Li o primeiro conto (que acho que se chama Os anões, não lembro). Tem violência e ANÕES. É forte, mas é triste. Enfim, é impactante de um jeito um pouco mais sutil. Assim como o Tentação, da Clarice. É tão “simples” e singelo. E fica no nosso coração pra sempre (pelo menos, no meu).

    Agora chega desse comentário cheio de parênteses!! Beijooo ❤

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