Daniel Galera – Mãos de Cavalo

Confesso para vocês que escrever esse post tem para mim uma sensação análoga a do menino que não gosta de jiló e de repente se vê diante da ameaça: se não comer todo o jiló do prato, não sai da mesa. E sabe que viver para o resto da vida à mesa, como um personagem de um Italo Calvino sem imaginação, não é exatamente uma alternativa. Isso porque acreditei ser possível passar ao largo da literatura do Daniel Galera. Dele havia lido apenas algumas páginas aleatórias do Até o Dia em Que o Cão Morreu e Cachalote, o quadrinho feito em parceria com o grande Rafael Coutinho, e odiei os dois. O primeiro achei beat demais, gaúcho demais, jovem adulto demais. O segundo achei pretensioso, incompreensível e desnecessariamente grandiloquente, tipo quando jornalista faz pós-graduação em filosofia, aprende uns jargões e disfarça o pouco conteúdo com um monte de abobrinha hermética pra criar uma ilusão de profundidade. Enfim, era um autor que poderia ser deixado para seus fãs, um autor que sobreviveria naturalmente à revelia da atenção midiática, como tantos outros figurados naquela infame coletânea da geração subzero.

Mas a verdade é que, afora minha péssima experiência com leituras prévias de sua obra, o que nutria meu afastamento do autor era um preconceito sadio, que me impedia ver o quanto o Daniel Galera é parecido comigo. Pelo pouco que sei dele (e sei pouco mesmo), sei que temos gostos musicais e experiências parecidas. E lendo Mãos de Cavalo, que foi me recomendado como o seu melhor livro, vi que temos ideias muito parecidas também. É claro, assim como Jesus Cristo, Raul Seixas, Los Hermanos, Ayrton Senna e Wes Anderson, são os fãs pentelhos que me tiram do sério, mais do que o artista (bom, acho que o Wes Anderson e seu cinema infantil para adultos não muito adultos é igualmente insuportável). Mas resolvi deixar tudo isso de lado, meus preconceitos, meu medo, minha birra com os fãs adolescentes e ler Mãos de Cavalo, porque, afinal de contas, não dá pra dizer que o cara não faz sucesso e tô por aqui também desse papo que ninguém aqui pode ser bem sucedido sem que geral comece a espinafrar.

Bom, Mãos de Cavalo, para quem não sabe, é um romance que alterna dois fluxos narrativos após uma introdução que tem lá sua importância. A história começa com o que o narrador chama de Ciclista Urbano, assim com letras maiúsculas. Sei lá, deve ser pra você já começar odiando o protagonista ao automaticamente associá-lo com esses ecochatos urbanóides que falam em sustentabilidade sem abrir mão da sociedade de consumo e acham que o único problema do mundo é falta de ciclovia e excesso de sacolinha plástica (e esse é um assunto pelo qual guardo um rancor particular, afinal de contas, este blog perdeu um prêmio alemão para um site dessa corja). A descrição do percurso de bicicleta e os mecanismos que mantém o ciclista pedalando são até boas, mas é só quando o sujeito cai que o narrador revela que o ciclista é um garoto de dez anos. Esta parte foi brilhante, a destituição de poder do personagem é total, e a saída da bicicleta o tira do anonimato e lhe devolve a humanidade. Aí temos a primeira pista do livro: o garoto sai sangrando e passa a curtir o gosto do sangue e o fato de estar ferido. O personagem do livro passa o romance inteiro buscando resolver seus problemas se estrepando da pior forma possível, sem o menor zelo pelo corpo. É claro, isso não existe na vida real, é um fetiche de piá de prédio superprotegido que assiste ao Clube da Luta e passa a achar que virou macho porque acha que aguenta se machucar inteiro. Mas para esses garotos da cidade, isso serve muito bem às fantasias criadas em torno da questão: “o que é viver a vida?”. Cair de bicicleta, ralar os joelhos? Comprar um skate depois dos 20 e quebrar o braço? Acampar com os amigos e comer miojo no copo? Lutar Muay Thai na academia? Jogar PS3 é que não é, né? A diversão e a experiência precisam ser legitimadas pelo corpo, porque uma viagem da mente não é mais que do que isso. É claro, todo mundo lê, todo mundo escreve, mas querem menos Almeidas Garrets e mais Hemingways.

Aí temos a história de Mãos de Cavalo, apelido de Hermano, um garoto de 13 ou 14 anos morador de um condomínio em Porto Alegre (condomínio? ahá!) que tem vários amigos de apelidos tão esdrúxulos quanto o dele. Tem um Wagner Montes, tem um Nego Cromado, um Morsa e um Pedreiro. Mas também tem um Bonobo, que é um garoto de estatura normal, mas com uma força descomunal, como um Hulk em forma de guri. E chamam ele de Bonobo porque ele caminha com os braços pesados, como um bonobo. O que é uma furada, na verdade, porque o bonobo é um macaquinho do bem, se organiza em sociedade matriarcal e resolve os problemas com orgias ao invés de porradas. O Hermano é, obviamente, o garoto do começo da história, e tem uma vida interior e diferente dos outros da turma. Tem umas passagens em que ele se parece tanto comigo que chegou a me arrepiar as coincidências com a minha vida, mas isso é muito pessoal. O que importa é que, assim como eu, o Hermano não curtia muito jogar futebol, mas joga pra fazer social, e numa dividida com o Bonobo, provoca uma falta maldosa que desperta a ira do sujeito. O que ele faz pra se redimir depois? Toma um estabaco na bicicleta, descendo umas escadarias. Esse é o começo de uma história de adolescência marcada por isso: a autoflagelação juvenil. Vai entender…

E aí temos a história do Hermano adulto, que, como todo adulto oriundo de um adolescente antissocial, tem apenas um amigo e chato pra caramba, ainda por cima. Hermano fez medicina, é casado e tem uma filha, e gosta de escalar montanhas. Afinal, pra ele agora a resposta de “O que é viver?” é escalar montanhas, como um garoto propaganda almofadinha de comercial de SUV, que estaciona a caranga na beira do penhasco e contempla a paisagem com um senso de autorrealização que respinga na gente. E aí o amigo chatão propõe escalar um vulcão na fronteira da Bolívia com a Argentina que ninguém nunca escalou antes. Sei lá, não sou alpinista, mas isso me parece bem o tipo de tara que alpinista tem. Só que aí o rapazote joga tudo pro alto, e pra quê? Pra se estrepar voluntariamente – agora que ele é adulto, tem a certeza de que dessa vez a parada tá certa. Não queria dar muito spoiler, mas é inevitável.

E aí fechamos a história do menino que acreditava que seu sangue lavaria, inicialmente, sua falta de hombridade, depois sua falta de honra e por último, sua falta de coragem. O menino que exige demais de si mesmo, que tem sensatez demais para seu próprio bem, e que não larga essa ideia de que a vida adulta serve para redimir, de alguma forma, os erros da adolescência, como se nenhum adolescente fizesse merda. Então repare: o protagonista de Mãos de Cavalo é incrivelmente coerente em sua construção. Exagerado, é verdade, histriônico, é verdade, inverossímil até, mas coerente. Sua turma, o núcleo de sua vida após a formatura, tudo faz muitíssimo sentido, e esse é um mérito do escritor.

O estilo literário do autor, por outro lado, é um problema. Ainda que faça brilhantes digressões e arrisque um ou outro discurso indireto livre, falha miseravelmente na construção de uma linguagem oral, sob a qual grande parte do livro é narrada. Basicamente, a coisa se resume na falta de concordância de algumas palavras e uma gíria aqui e outra acolá, e isso bem de vez em quando. O resultado é estranhíssimo, tipo Gilberto Braga escrevendo fala de bandido da novela das oito. É claro, intelectualmente o livro tem seus pontos altos, e a clareza com que consegue articular uma ideia é invejável. Se queria criar uma surpresa sobre o personagem das três histórias serem os mesmos, também não funcionou. Mas acho que tudo bem porque não parece ter sido essa a intenção.

No final das contas, Mãos de Cavalo é um livro divertido e rápido. Para mim, serviu como um autoconhecimento interior, e literariamente, é melhor do que muita coisa que vêm sendo vendida por aí como a última Coca-Cola gelada do deserto. Mesmo assim, não é o tipo de leitura de que gosto e ao qual estou acostumado. O que não tira dele seus charmes e suas ideias interessantes. Então, fãs de Daniel Galera, não se preocupem, vocês estão bem acompanhados.

Comentário final: 190 páginas. Não sacia a sede de sangue dos masoquistas.

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Fernando Mantelli – Raiva nos Raios de Sol

Feliz ano novo, povão! Quer dizer, feliz ano novo pra quem é de Curitiba, quem for de fora deve estar boiando com minha saudação. É que ontem à noite Curitiba – ou parte dela – celebrou o réveillon fora de época, uma invenção do povo das internetcha que pode ser classificado no jargão americano de “white people jokes”. Eis que as pessoas brancas, tipicamente classe-média, resolveram por bem continuar as festanças mesmo depois do carnaval. Maaas, ao contrário do resto do Brasil, Curitiba não gosta de carnaval pra fazer micareta fora de época ou qualquer coisa do tipo, então resolveram criar um ano novo de mentirinha pra tomar champagne, abraçar os outros e participar de uma aglomeração. Isso vindo de uma cidade que historicamente não dá nem bom dia pro porteiro, mas, como diria Avril Lavigne, life’s like this.

Chega disso agora, nem sou curitibano e tô aqui gastando meu latim pra explicar piada de branco pra vocês. Bom, fevereiro acabou, o ano começou de verdade, e 2012 não é um ano como qualquer outro, e não digo isso por causa daquela bobagem do fim do mundo (embora saiba que não vou resistir à tentação de um dia mostrar o filme “2012” pro meu filho e dizer pra ele que eu sobrevivi àquilo tudo). É que 2012 é um ano bissexto, com 366 dias. O dia a mais no caso é o dia 29 de fevereiro, última quarta-feira, e eu, assim como Luísa Marilac, resolvi fazer algo de diferente e ler um livro desses de um dia. A bola da vez foi Raiva nos Raios de Sol, do gaúcho Fernando Mantelli (cuja foto não temos hoje, paciência, Iracema, paciência). Parafraseando o que o leitor Raphael Pousa comentou no penúltimo post, o conto tem seu valor e a gente precisa ler mais. E que bela surpresa tive com esse livrinho de 90 páginas.

Raiva nos Raios de Sol é o tipo de coisa que eu escreveria com 18 anos. Não, não estou diminuindo o livro nem dizendo que eu sou digdindigdindigdin, mas é que naquela época, quando eu escrevia meus contos, tinha uma mentalidade similar a do autor, razão pela qual meu professor de texto da época (o Cristóvão Tezza) me deu umas notas baixas e umas anotações preocupadas nas minhas redações. A minha ideia era a seguinte: se você vai escrever algo curto, de uma página ou duas, é preciso ser pungente, é preciso dar porrada na boca do estômago, é preciso ser desagradável, é preciso chocar e fazer o leitor não se esquecer daquelas poucas linhas traçadas. Caso contrário, o máximo que você vai alcançar vai ser uma leitura agradável facilmente esquecida que o leitor dedicou por boa vontade não esperando muita coisa além de passar o tempo. E foi isso que Mantelli fez. Com seus vinte continhos (faça as contas: a média é de 4 páginas de livro cada uma. Isso sem contar que o começo é sempre em página ímpar, então vão-se aí algumas brancas no meio), o autor criou um universo hediondo, distorcido, perturbado, doentio, cheio de morte, sexo, ódio e nenhum resquício de bondade.

Tomemos como exemplo o primeiro conto, intitulado “De repente um verão”: o rapaz tá andando no carro, vê uma gatinha numa bicicleta, chama num chamego, oferece cocaína, diz que tem em casa e, como a bicicleta não cabe no carro, resolve dar um bonde pra ela, que vai segurando na janela. Claro que o sujeito passa num montinho de areia, o carro dá um solavanco, a mina vai pra baixo da roda e ganha aquela bela fratura exposta, caindo de boca no aslfalto e deixando os dentes lá, pra desespero do cachorrão que larga a loirinha sangrando e chorando pra trás e vai cuidar da própria vidinha. Isso tudo em menos de duas páginas. Conciso, contundente e ainda assim se permite uma poesia de leve, umas metáforas bregas bagarai que, felizmente, ele vai melhorando ao longo do livro.

Esse conto meio que exemplifica a podridão do universo de Raiva nos Raios de Sol. Um cross-over entre Nelson Rodrigues e as paixões criminosas do Marquês de Sade. Digo que parece Nelson Rodrigues e não é à toa. Quer dizer, o quanto se pode inventar dentro desse universo meio restrito? Alguns chegam a ser variações do mesmo tema: uma traição que dá errado, uma ninfetinha rosadinha empinadinha e cheirosinha que dá chave de cadeia, esse tipo de coisa. Lembra muito o Nelson mesmo, só que um Nelson mais brutal, mais conciso e menos dramático – veja bem, não disse que é melhor, veja bem.

Mas o sujeito tem mérito próprio. Não só por reunir esse cosmos muito particular, pessimista e sombrio, mas por criar uma voz própria, que mistura um lirismo à lá Lygia Faguntes Telles quando quer fazer suspense com Lourenço Mutarelli quando quer fazer coda. Os louros são dele. Currupaco. Enfim, é um bom livro.

Esse projeto da Não Editora condiz bem com o universo do livro e foi muito bem pensado. A capa, que mostra uma família na praia com os rostos rabiscados, representa primeiro o clima dos contos (a maior parte deles tem a ver com o verão) e a raiva de sua literatura, que acaba com o que é belo e memorável. Os rabiscos de caneta (que realmente parecem feitos à mão) continuam nos cabeços dos títulos e vão te deixando aos poucos com vontade de estraçalhar o livro você também. Boa, né? Fontes Dante e Helvética porque todo mundo hoje é hipster pra usar Helvética, papel pólen e tudo mais como manda o figurino. Fica a dica.

A propósito, da última vez, pedi para curtire a página do Livrada! no Facebook e deu mais do que certo. Já somos 140 leitores. Our little group has always been and always will untill the end. Então, reforço o pedido: Curtam a página no Facebook!

Comentário final: 90 páginas em pólen soft. Bom pra tacar feito bumerangue na cabeça do infeliz metido a aborígene que diz que não gosta de Breaking Bad.