Nikolai Gógol – O Capote e outras histórias


gogolVamos ao livro de contos do Gógol que eu deveria ter comentado ano passado e acabei deixando pra esse ano. Quem não gosta de spoiler, troca logo de post ou de site ou de computador porque aqui vai ter alguns porque a gente vai falar sobre a obra do Gógol e não dá pra fazer omelete sem quebrar uns passarinhos na mão.

Gógol, que já resenhamos por aqui em Tarás Bulba, Avenida Niévski e A Briga dos Dois Ivans, deve ser hoje um dos meus russos favoritos (tecnicamente ucraniano, mas não estamos levando em conta tecnicalidades hoje), e a razão disso é, em grande parte, pela prosa fluída e extremamente fácil de ler que ele desenvolveu, aliada a um senso de humor que, sei lá, deve ser muito parecido com o meu, porque rio alto lendo ele às vezes. Não é difícil perceber, pela leitura deles, que as preocupações que ele tem em sua literatura são basicamente duas: os burocratas da cidade grande e os contadores de causo e cabras macho do interior. Por essa razão, o Capote e outras histórias – que, caso você ainda não tenha percebido pelo título, não é um romance – é tão bom para resumir esse aspecto da obra dele. E como diziam os dinossauros do Polishop: Mas não é só isso!

Capote e outras histórias é, ao que tudo indica, uma das únicas amostras da versão russa do realismo fantástico, que chegou na Rússia um pouquinho antes por lá do que na América Latina, tipo uns 150 anos, mas quase não conhecemos ele por aqui porque não chegou muita coisa dessa época da década de 20 e 30 do século 19. Em muitos elementos ele se aproxima do “nosso” realismo fantástico. É fantástico para explicar o real, e o real explica a crítica. É simples e eficaz, só tá um pouco demodê, mas ainda assim é demais.

Em O Capote, por exemplo, o protagonista é Akáki Akakievitch, um sujeito burro, pobre com um nome escroto e o pior dos cargos públicos na Rússia Czarista, zoado pelo escritório inteiro. A vida complica drasticamente pra ele quando o capote que usa pra se proteger do frio se encontra num estado de depauperação incontornável, ao que ele se obriga então a comprar outro. Juntando grana, deixando de comer, espremendo daqui e dali, consegue finalmente comprar o bendito capote. O pessoal do escritório comemora, dá uma festa pra ele, mas eis que na volta pra casa roubam o maldito capote, ele pega uma friagem mortal e vai pra caixa de brita (se você não sabe o que é caixa de brita, essa metáfora não vai te servir pra muita coisa. Mas paciência, não vou explicar também). Só que aí, eis a grande reviravolta: o morto se levanta da tumba e começa a tirar o capote dos alto oficiais, e só depois volta pra tumba. Temos aí a morte como sublimação da vida, o destronamento dos altos oficiais simbolizando o desejo das classes populares contra o regime czarista, etc, etc. Mas temos também uma puta história engraçada, dessas que não se leem hoje em dia em lugar nenhum nesse nível de sofisticação. Coisa da boa.

GógolTemos também “Diário de um Louco”, que se trata de uma narrativa em primeira pessoa de um cara que está claramente louco e acha que está roubando cartas de amor da namorada do seu cachorro e que eventualmente acha que é o rei da Espanha, algo tão ousado até pros dias de hoje que eu não sei se já vi algo parecido. E temos ainda “O Nariz”, um clássico do Gógol. Nele, o major Kovaliov, que sempre está tentando ser promovido, acorda um dia sem o nariz no rosto, e descobre que o nariz tá em outro lugar, e já foi até promovido! Bom lembrar que essa separação do homem em dois iria acontecer de forma semelhante, mas com outros debates, em O Duplo, do Dostoievski. Aqui a coisa é mais pra rir e discutir as aspirações burguesas da cidade grande. Afinal, Kovaliov se desespera diante da ideia de ficar sem promoção por estar sem nariz, e não poder frequentar as altas paneladas da alta sociedade sem ele. E a busca pelo nariz é de matar também.

E aí temos os dois últimos contos, que são da esfera rural do universo do escritor. “Noite de Natal”, que achei o mais fraco dos cinco, é um quadro tipicamente folclórico, no qual o diabo rouba a lua pra se vingar de uma galera que tava zoando ele, mas a lua fica presa na bolsa que fica presa na chaminé quando o diabo tá saindo de uma casa em que entrou sem ser convidado e a luz da lua escapa e ilumina tudo de novo. Ao mesmo tempo, o ferreiro quer casar com a mocinha, mas ela coloca como condição para o casamento ter as botinhas da czarina. Aí ele faz um trato com o diabo pra pegar as benditas botinhas, só que dá uma enganada dele, subjuga o mochila de criança e o usa para voar até o castelo e pegar a porcaria da bota. Todos os elementos de um conto de fadas meio crítico, que utiliza o humor da desdemonização do diabo pra dar uma reanimada nas tropas e nas massas descontentes com o poder malévolo dominante, se é que você me entende.

E por último tem Viy, que é meio que um causo misturado com uma lenda urbano-rural misturado com sei lá o que, mas conta a história do filósofo Khomá Brut, que é contratado pra fazer uma espécie de extrema-unção póstuma que não sei como se chama mas parece que rola de monte entre os ortodoxos, e aí no meio da viagem a filha do morto morre e todo mundo fala que ela é uma bruxa e no meio da extrema-unção ela levanta da tumba e traz um monte de espíritos pra pegar o sujeito. Achei esse conto sinistrão e fiquei com medo e sem saber muito o que pensar, mas no final entendi. Os amigos do filósofo estão conversando num bar e começam a relativizar a morte dele. Um deles fala: “Ele morreu porque tinha medo. É só não ter medo, se benzer e cuspir no rabo da bruxa que ela não faz nada”. Então vejam, amigos: não está se discutindo aqui a veracidade da fantasia, mas sim, os seus efeitos. E dizer “É só fazer isso e aquilo”, como “é só pisar no rabo da bruxa”, é uma lição simples de sublimação do medo e da situação presente. É um afrontamento direto às forças superiores, que podem ser entendidas aqui principalmente como as forças políticas absolutistas da Rússia de então. A alegoria vai longe, mas a intenção passa muito perto para que a mensagem seja entendida. Acho que é uma coisa comum recorrer a elementos fantasiosos quando a liberdade de expressão é muito tolhida, então fica a dica aí para os ditadores de plantão: se o seu país tá produzindo muita obra maluca, é porque as massas estão descontentes.

Sou meio sucinto para falar desses livros que acho super maneiros porque o espaço aqui tem que ser respeitado e tenho certeza que se vocês vem aqui, é porque querem ler algo bobo e curto, porque se quiserem ler coisas quilométricas e sagazes podem ir facilmente lá no Livros Abertos. Mas o que eu queria dizer é que o livro é bom e a prosa suave, ágil e engraçada do Gógol fazem desses contos uma leitura que é  ao mesmo tempo obrigatória e deliciosa, e que portanto é bom aproveitar. E além de ser publicado pela maravilhosa Editora 34, ainda por cima tem tradução do Paulo Bezerra, que traduziu o Crime e Castigo e deu origem a época de ouro das traduções do russo. Gosto das traduções dele também pela nota de rodapé e pelo posfácio. A ideia é que ele tá conversando contigo. É como se você, mongolão, estivesse lendo ele com um amigo inteligentão. No mais, papel pólen, fonte Sabon e uma capa massa de uma xilogravura de um tal Oswaldo Goeldi.

Comentário final: 220 páginas em papel pólen soft. Pimba em geral.

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5 Respostas para “Nikolai Gógol – O Capote e outras histórias

  1. Meu escritor favorito é Nikolai V. Gogol e venho lhe parabenizar. Não existe maneira mais justa de dissertar sobre Gogol do que esta que você usou aqui. Textos bem humorados sem perder a seriedade.[…] Akáki Akakievitch, um sujeito burro, pobre com um nome escroto[…] ri alto aqui, excelente!!!

  2. O livro é excelente mesmo. Mas veja a coincidência: ontem, portanto antes de ler esta resenha, li um conto do Ricardo Lísias que me lembrou muito o “diário de um louco” (trata-se do conto “dos nervos”, que está no seu recém-lançado “concentração e outros contos”); na minha leitura os dois contos estruturam as narrativas de forma parecida, começam com os pés no chão e aos poucos, de forma sutil, o surrealismo vai dando as caras.
    Aproveitando o tema, deixo a dica de um russo sensacional que li recentemente e me fez lembrar muito o Gógol, principalmente pela presença do humor sofisticado. Trata-se do “Oblómov”, do Ivan Gontcharóv. Linda edição da Cosacnaify e tradução do Rubens Figueiredo.

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