Nikolai Gógol – A Briga dos Dois Ivans (Повесть о том, как поссорился Иван Иванович с Иваном Никифоровичем)


nikolai gogolDeutschland übber alles. Copa do Mundo no Brasil hoje já é parte do passado. Bora se concentrar no assunto que interessa? Obviamente que estou falando dos nossos queridos livrinhos a quem nós, nerdões, recorremos quando o mundo parece demasiadamente douchebag, o que é quase sempre. Antes de falar do livro de hoje, porém, gostaria de começar comentando a coleção que ele integra. Trata-se da Arte da Novela, um projetinho originalmente criado pela Melville House Publishing com enfoque em novelas! Sim, novelas! Novelas, novelas, novelas! Basicamente é uma coleção como a da Penguin, mas ainda mais minimalista e ainda mais bem selecionada. Aqui no Brasil foi publicada pela Grua, essa editora tão simpática que já lançou gente do naipe de Hansjörg Schertenleib (já resenhado aqui), e eles mantiveram o projeto gráfico da coleção original, então é as real as it gets. Eu, que não vim nesse mundo a passeio, pedi pros simpáticos editores me enviarem uns exemplares dessa coleção quando vi que ela saiu porque queria dar uma olhada nessa beleza e olha, vou dizer que não me arrependi.

O livrinho é pequeno, bonitinho, extremamente gráfico, com cabeço e paginação lateral, boa fonte e bom papel. Mandaram pra mim quatro deles: Freya das Sete Ilhas, do Joseph Conrad, A Lição do Mestre, do Henry James, Bartleby, o Escrevente (já resenhado aqui), do Melville, e este A Briga dos Dois Ivans, do Gogol, que foi o que eu escolhi pra ler primeiro por razões óbvias, né, galera? Aqui no Livrada! russo, gordinha, idoso e gestante têm assento preferencial sempre, e olha, quer me deixar feliz, me dá um livro do Gogol de presente. Desde que eu li o Tarás Bulba (já resenhado aqui), conheci um dos meus grandes novos autores favoritos, por uma série de razões que dizem mais respeito ao meu coração do que necessariamente a seus méritos literários, embora esses também sejam bem válidos pra todos os efeitos. Mas deles já falei em outros posts. Neste, vou falar porque Gógol é um autor também divertido.

A Briga dos Dois Ivans é uma novela, gente, já falei isso? Pois é. É uma história curtinha que não se pretende nada além do que está contando. É claro que a gente pode encarar a coisa toda como uma parábola moral ou uma metáfora pra outras coisas, mas pra quê? Vamos pelo menos uma vez na vida aproveitar o livro pelo que ele é, e no caso, é uma história divertidíssima sobre dois vizinhos que se chamam Ivan. Um chama Ivan Ivanovitch (pra vocês que não tão familiarizados com a língua russa, esse segundo nome, que é sempre o segundo nome dos russos, chama patronímico, e é dado a partir do nome do seu pai. Tipo, se você chama Euzébio e seu pai chama Jacinto seu nome vai ser Euzébio Jacintovitch, ou algo assim. Tá explicado, continuemos), e o outro chama Ivan Nikíforovich. O primeiro é falastrão e gosta de causar boa impressão, o segundo é calado, curto e grosso. A briga a que o título se refere acontece quando o Ivanovitch vai na casa do amigo interessado numa arma velha que ele viu a empregada pendurar no varal (é isso mesmo, não me pergunte por que essas coisas acontecem), e o sujeito falastrão acaba insistindo mais do que deve em comprar a tal arma que acaba emputecendo o outro, que manda uma grosseria que o desestabiliza emocionalmente ao ponto de cortarem relações de décadas. A partir daí começa uma disputa judicial e um joguinho de sabotagem estilo Pica-Pau e Zeca Urubu, até que a cidade inteira se envolve na parada e as pessoas se mobilizam para tentar reconciliar os amigos.

Микола ГогольViu só? Simples. Temos aí dois personagens, com um único traço marcante da personalidade de cada um, e a partir daí é possível desenvolver uma novela completa. Uma novela de menos de 100 páginas, mas uma novela. E o que é uma novela senão isso? Um conto de mais fôlego, uma coisa que se resolve em si, mas tem começo, meio e fim muito bem definidos, divididos em capítulos se for possível, e que não guarda maiores ambições do que ser uma boa história, via de regra. Assim é A Briga dos Dois Ivans, uma historia singela e engraçadinha. E Gógol, nessa levada, aproveita para esmiuçar aspectos da vida no interior – no caso, Mírgorod, a ciadade onde se passa a história. Lembram que comentei sobre Mírgorod quando resenhei Avenida Nievski? Mírgorod não só é a coletânea de histórias que ele escreveu (das quais Avenida Nievski e essa Briga dos Dois Ivans fazem parte, sendo esta a última história da coletânea) mas também uma cidade na Ucrânia, e sempre é mencionado nas novelas dele como a típica cidadezinha ucraniana, em oposição a Poltava, que é uma espécie de metrópole em eterna ascensão no imaginário das histórias, ou, sei lá, uma cidade maior a qual as pessoas do interior recorrem, tipo a relação entre Videira e Chapecó.

Peguem A Briga dos Dois Ivans e leiam numa sentada quando quiserem dar uma desopilada na cabeça. Afinal de contas, Gógol é um dos russos, e não é todo dia que você pode dar uma desopilada na cabeça lendo um russo. Primeiro que as pessoas fazem tudo menos ler quando querem dar uma desopilada, e segundo que, quando leem, preferem coisas estúpidas e muito mais levianas, e isso aqui é um Gógol. Isso é o equivalente a sofrer com o fim do relacionamento na Ilha de Caras. É coisa fina, pra gente fina. Pra quem pode, digamos. Faça como os famosos da Ilha de Caras e refresque a cuca com coisas finas. Falei, tá falado.

A Briga dos Dois Ivans cumpre a seguinte modalidade do Desafio Livrada 2014:

9- Um livro escrito em um alfabeto diferente do seu.

Comentário final: 91 páginas em papel pólen. Skavurska!

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8 Respostas para “Nikolai Gógol – A Briga dos Dois Ivans (Повесть о том, как поссорился Иван Иванович с Иваном Никифоровичем)

  1. Cabra bom que tu é! gostei deste post mas… às vezes até eu tenho que ver se sou eu a escrever errado porém… “ascensão” se grafa assim mesmo, sem “c” cedilhado, tudo bem?

  2. Adoro suas resenhas, e muitas vezes compro livros com base no que vc escreve. Agora mesmo, os livros da Cosac Naify estão com 50% de desconto (de verdade) na Saraiva e no proprio site da editora e por isso estou comprando alguns que o Livrada ja comentou. Abração!

  3. Алло! (olá, em russo) Muito bom este post meu jovem, sou também um entusiasta dos escritores russos, recentemente estava lendo Os irmão karamazov (belíssimo!), e pretendo ler Gogol, pois ainda não tive a oportunidade. Um abraço meu jovem!!!

  4. Sou muito viciada em escritores russos e depois que li a Biografia do Tolstoi (globolivros) quero ler tudo de russo que vejo pela frente! Tenho um livros de histórias infantis de Gogol mas não li nada “adulto” dele… o trecho “fim do relacionamento na Ilha de Caras” já me convenceu rsr

  5. Conheci hoje o blog lançando como isca justamente o “a briga dos dois Ivans”, que embalou meu domingão. Cinco estrelinhas para ambos (o blog e o livro, com bonificação extra à tradutora, que pelo visto entrou definitivamente no clube, pegando a vaga da Tatiana Belinky…. as notas de rodapé, em especial as que explicam certas escolhas na tradução são ótima).
    Piada que achei ótima num livro engraçadíssimo: seguindo o estilo clássico, os capítulos contém “chamadas” que antecipam o que o leitor vai encontrar adiante (isso deve ter um nome técnico…se alguém souber agradeço a dica); assim, por exemplo, o capítulo 2 tem uma chamada que diz “a partir do qual é possível saber o que Ivan Ivánovitch queria….”; tudo vai bem até que no capítulo seis o autor manda essa pérola “VI – do qual o leitor pode descobrir facilmente o que está contido nele”.
    Embora nunca fique satisfeito com adaptações para o cinema de livros que li (casualmente o último desgosto também veio nesse domingão: “O comprador de Fazendas” do Monteiro Lobatto, numa versão de 1951 em cópia péssima da Cultura), costumo imaginar qual diretor teria a mão para adaptar o livro à telona. Neste caso, acho que a empreitada deveria cair no colo do Terry Gilliam; aliás, o nonsense que cerca o início da briga e a hilária tentativa de reconciliação seria perfeito para um esquete do Monty Python).
    Alerta de “off topic”: Pornopopéia daria um filmão nas mãos do Lars von Trier; em duas partes, claro!
    Abs!

  6. Pingback: Nikolai Gógol – O Capote e outras histórias | Livrada!

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