Vídeo: Cine Privê, de Antonio Carlos Viana

Vamos falar de uma das melhores descobertas literárias pessoais dos últimos tempos? Minha mãe me mandou esse livrinho do Antonio Carlos Viana e ficou um tempo fazendo um lobby pra eu passar ele na frente da fila, até que por fim cedi (por favor, não façam como a minha mãe). Foi uma boa e feliz decisão, eu percebi, enfim. Clica na imagem, é uma resenha curta e, até certo ponto, bem repetitiva. Por isso não vai tomar muito do seu precioso tempo, ilustre pessoa.

cine prive

Anúncios

Philip Roth – O Professor do Desejo (The Professor of Desire)

the professor of desireEu sei, eu sei, vocês estão pensando “Mas que m…, outro post do Philip Roth em menos de dois meses”. Mas também, problema teu, irmão, peguei uns livros seguidos dele e se não gostou vai ter dois trabalhos também. Uh, tô marrento hoje, mas não: há um bom motivo para se voltar a falar de Philip Roth, em especial nessa semana: isso é porque o senhor da foto aí comemorou 80 anos nesse final de semana, e por essa ocasião especial ganhou fotinha colorida no post de hoje para nos lembrar de que sim, Philip Roth ainda está vivo, embora não esteja mais escrevendo conforme seu anúncio do final do ano passado.

Para os idiotas da objetividade: SPOILER ALERT (sério, me sinto muito mal de ter que colocar isso).

Por isso, resolvi dar uma conferida nesse novo velho livro dele que ganhou nova tradução recentemente. E, antes de mais nada, vamos parar por um minuto para rir desse título ridículo. HOHOHOHOHOHOHOHO, que porcaria de título esse. “O Professor do Desejo”, parece chanchada de Cine Privê da Band, e das bem lazarentas ainda por cima. Tipo com Ron Jeremy no papel do PROFESSOR DO DESEJO. Sério, não sei o que esse sujeito estava pensando quando resolveu dar esse título pro livro, mas acho que deve ser verdade o que dizem: a década de 70 foi muito brega.

Bom, e do que fala exatamente o livro O PROFESSOR DO DESEJO, além de sexo, obviamente. Pra ser bem sincero, não captei o qualé do livro de primeira, e por isso recorri a um expediente de baixo nível ao qual, contudo, não me furto sempre que minha ignorância me encurrala num canto: a orelha. E, oh! A orelha se resume a um único parágrafo, um forte indício que o sujeito escalado para fazer esse trabalho sujo também não manjou muito do romance, ou que achou que seu único parágrafo dava conta do recado. Mas acho que essa é a beleza de um escritor bafejado pela crítica, para usar uma expressão idiomática que sempre me faz rir: seu caráter autoexplicativo, sua densidade que aflora com facilidade à superfície do texto, é tudo muito preto no branco, tudo muito certinho, o equivalente literário ao “filme para quem não quer pensar” que cada vez faz mais sucesso entre os frequentadores de locadora (alguém ainda vai à locadora?). Bom, vejamos o que o sujeito entendido aqui diz:

“Quando estava na faculdade, David Kepesh se considerava “um libertino entre os doutos, um douto entre os libertinos”. Mal podia ele imaginar o quanto esse lema seria profético – ou fatídico. Pois à medida que Philip Roth segue Kepesh da domesticidade da infância à selvageria da possibilidade erótica, de um ménage a trois em Londres às agonias da solidão em Nova York, ele cria um romance de extrema inteligência, pungência e humor sobre os dilemas do prazer: onde o procuramos, por que fugimos dele e como lutamos para obter uma trégua entre dignidade e desejo”.

Ora, poderia fazer um texto só analisando essa pequena orelhinha. Vamos combinar que o sujeito não teve seu momento mais brilhante ao enfileirar “inteligência, pungência e humor”, mas soube que era hora de parar quando mandou “uma trégua entre dignidade e desejo”, claramente o ápice de sua genialidade estilística. Mas ele acertou aqui em um aspecto que me dá um ponto de partida para analisar o livro: “os dilemas do prazer”. Ok, vamos ficar com essa frase por um momento e focar na história.

Philip RothDe fato, David Kepesh, depois de uma infância chata, de chupar uns peitinhos no colegial e de estudar com um maluco claramente gay, resolve ir pra Inglaterra para estudar e conhece duas barangas dinamarquesas com quem faz todo tipo de sacanagem, mas aí volta pros EUA depois de um troço corriqueiro que, de alguma maneira, ativa a paranoia do sujeito (judeus são assustados assim, a julgar por seus outros livros). E aí conhece uma mulher com quem se casa, mas a mulher é maluca e foge, e ele se separa e depois conhece uma outra com quem briga e depois uma outra com quem casa e é feliz, mas fica incomodado com a pasmaceira e fim.

Bom, aqui temos então, basicamente, o esqueleto da história, algo passível de ser encontrado escrito em algum lugar do escritório do Roth, em um bloquinho intitulado “ideias legais para livros que eu ainda vou escrever”. Esse esqueleto permite observar o movimento do escritor sobre suas reais intenções: o protagonista se depara com diferentes esquemas de relacionamentos: um promíscuo, um tradicional perturbado, um conflituoso e um sem graça. E, em cada um desses, aponta seus altos e baixos, sem exatamente elencá-los de maneira óbvia. Tudo isso pra dizer uma coisa: homem é um bicho inconformado que não sabe o que quer. Se tá no marasmo, quer putaria, se tá na putaria, quer marasmo, se briga, quer paz, se tá na paz, quer briga, etc. E veja, não que mulheres sejam tão diferentes assim, mas o Philip Roth, como alguns de vocês sabem, é um sujeito que não se arrisca a botar um pezinho que seja fora da sua zona de conforto, ou seja: não escreve sobre nada que não conheça com suficiente segurança. Por isso, por exemplo, que David Kepesh é judeu, sendo que ser judeu tem muito pouco a ver com um tema tão universal como o desse romance. E por isso ele é homem, estudioso das letras que foi morar na Inglaterra e tudo mais. Muito provavelmente ele não comeu tanta mulher que nem esse protagonista, mas hey, é o efeito Pedro Juan: se seus personagens são comedores, então você deve ser comedor também, né? Ou isso ou o completo oposto, nunca uma zona cinzenta ordinária, seu depravado.

E basicamente é isso a que ele se propõe. Não oferece uma conclusão, não se aprofunda no assunto, só ilustra uma questão pertinente e brinca com ela por duzentas e tantas páginas. Não é o Philip Roth em sua melhor forma, embora tenha aqui todos os elementos de sua literatura: sexo, judaísmo, baixa auto-estima, excesso de autoanálise, um tiquinho de comédia, escatologia e, claro, a própria literatura. Acho que ele resolveu muito melhor a questão do sexo no Complexo de Portnoy, mas hey, se o cara quer ser uma flor de obsessão, quem somos nós pra impedir, né mês? Até porque o livro já foi escrito há quase 40 anos, então nem rola espernear por pouca coisa a essa altura do campeonato. Lê quem é fã, ignora quem não é tão fã e dá uma espiada curiosa quem acha que o tema é pertinente. Mesmo com tudo explicado, O PROFESSOR DO DESEJO ainda é um péssimo título e, acreditem, bem mais decepcionante que Cine Privê da BAND.

Comentário final: 251 páginas em papel pólen soft. Machuca a alma do libertino.