Jack London – O Lobo do Mar (The Sea-Wolf)

The Sea WolfBrothers, Brothers, Hermanos e irmãos, represento todos aqueles com um livro na mão. E disso eu entendo bem, romance ou conto, romântico, modernista, clássico ou barroco. Estilo, linguagem, narrativa e autor, palavras que pro meu vocabulário são comuns. Pego o livro e viajo pelo meu pensamento. Começo rápido, rápido e leio leeeeento. Ok, essa deve ter sido a pior paródia de Planet Hemp já feita na história, e falei tudo isso só pra dizer que o livro de hoje ficou mais tempo na minha mão do que deveria, e durante muito tempo isso me intrigou, porque é um livro deveras interessante e nada difícil de ser lido. E depois que terminei, entendi. Demorei mais de um mês pra ler o Lobo do Mar porque acho que descobri um novo autor favorito.

Engraçado como esses caras sempre estiveram aí e mesmo assim a gente tem que descobrir eles por conta própria, às vezes já tarde na vida, às vezes sem razão, mas o importante é não abandonar a busca. E assim foi, quando bati o olho nessa edição da Zahar que dizia ser uma edição comentada (achei pouco comentada, na verdade, mas falemos disso depois), e vi que havia minhas razões para gostar desse livro. Em primeiro lugar, gosto de histórias que se passam no mar e em segundo lugar, gosto de histórias com um fundo levemente filosófico – quesitos a que O Lobo do Mar, do Jack London, atende. E por último, é o livro que baseou o filme italiano Il Lupo dei Mari, de 1975, que por sua vez, inspirou o Piratas do Carilha, na Tela Class, uma das melhores paródias-dublagens desse genial programa. Pra quem não tá ligado, assiste aqui:

 

 Mas vamos por partes.

O Lobo do Mar narra a história de um almofadinha chamado Humphrey van Weyden – e aqui já precisamos dedicar nossas felicitações ao autor pela excelência em escolha de nomes de almofadinhas, porque não dá nem pra falar isso sem parecer metido – que, depois de naufragar num navio de almofadinhas na costa oeste dos Estados Unidos, é resgatado pelo Ghost, um navio de caça às focas que ruma para o litoral do Japão. O sujeito, bem feliz achando que ia ser levado de volta à terra firme, se desespera quando descobre que vai ser uma espécie de trabalhador involuntário da tripulação comandada por um machão chamado Wolf Larsen. É neste senhor que reside o brilhantismo da história. Larsen, que é tido como um cara temido e cruel, como todo bom marinheiro deveria ser, é um desses sujeitos eruditos autodidatas, que aprendem pelos livros que caem nas mãos, mas ao mesmo tempo possui uma carga de vivências reais que lhe permitiu testar o que servia e o que não servia. Hump, como é chamado pela tripulação, fica animado de saber que o comandante do navio não é um sujeito de todo irracional e acha que isso pode livrá-lo dali, mas Larsen não quer saber, e acha que um trabalho braçal faria bem ao caráter do náufrago, para quem a vida foi sempre fácil.

Jack_London_youngAssim, Hump começa a se virar nos 30 no barco de pesca, e conhece a tripulação, uma cambada de degenerado que nunca ia arrumar trabalho em lugar nenhum a não ser naquele navio, mas isso só porque naquela época ainda não existia ChiliBeans (é lá que você vai trabalhar se fizer tatuagem no pescoço, jovem). E existem pequenos núcleos dentro do navio, que nem uma novela: o núcleo da fofoca, comandado por um escocês chamado Tommy (eu acho), um núcleo da revolta, capitaneado pelo Leach, que tenta matar o Wolf Larsen o tempo todo, e um núcleo do puxa-saquismo, que é o cozinheiro Mudridge, que logo de cara resolve tretar com o nosso protagonista. Aos poucos, o almofadinha vai subindo na vida até cair nas graças do capitão, e quando o navio pega outros náufragos, entre eles, uma mulher poeta chamada Maud, tudo muda de figura para o protagonista. E paremos de explanar a situação por aí.

Em sua forma, O Lobo do Mar é um excelente livro. É fácil de ler, tem uma história envolvente, discussões acaloradas e rasas sobre filosofia que qualquer zé mané consegue entender, e personagens carismáticos pra burro, além de um realismo tangível nas descrições dos comportamentos do barco e do mar que quem conhece sabe (e esses hipsters com tatuagem de âncora não aguentam 10 minutos de mar comigo). Ou seja, você não vai se entediar com esse livro, quase posso garantir – não posso garantir porque vai que você é um desses chatos que só leem livro sobre os Templários ou sei lá o quê.

Já em seu conteúdo, o romance acho que toca num ponto crucial de toda a experiência humana: o quanto da teoria que existe aí hoje pode ser válida no mundo real. Noções artificialescas como a ética e o valor da vida humana são colocadas a prova por Wolf Larsen apenas para provar um ponto para seu diletante interlocutor, e isso é legal pra caramba porque mostra, de alguma maneira simbólica, de que a vida está aqui fora, e não nos livros – muito menos no que você está lendo, Jack London diz sem dizer. Um sujeito que viveu muito – e viveu mesmo, conforme vocês podem ler na belíssima apresentação da vida do autor feita pelo Joca Reiners Terron – não quer que vocês vivam aí conhecendo as coisas pelas letrinhas, eu acho, a julgar pela agitação da maioria de seus livros (os poucos que conheço por filmes). Então, sei lá, fica a dica.

O projeto gráfico da Zahar é absolutamente demais e o tipo de coisa que você quer ter na estante. Apesar de achar a capa meio pueril, tenho que admitir que o design ficou agradável e orna com o resto da coleção Clássicos Zahar, e a capa dura é um a mais. A tradução é do nosso conhecido Daniel Galera, e por dentro é tudo dentro dos conformes: papel pólen, fonte boa e um marcador de livro bem bonito a partir da capa. Pros marujos de água doce da cidade, o livro ainda vem com um glossário quase completo dos termos náuticos utilizados no romance, pra você não ficar tão perdido assim.

Comentário final: 356 páginas papel pólen. Ande na prancha, marujo!

Recado 1: Para quem acompanhou a minha saga da semana passada mas não curte a página do Livrada! no Facebook, fiquem sabendo que o Rubens Figueiredo já me escreveu e ele é mesmo a simpatia que aparenta e tá tudo bem agora, obrigado, gente!

Recado 2: na próxima semana, estarei em terras longínquas curtindo merecidas férias. O blog fica parado um tempo, mas logo volta J

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Daniel Galera – Mãos de Cavalo

Confesso para vocês que escrever esse post tem para mim uma sensação análoga a do menino que não gosta de jiló e de repente se vê diante da ameaça: se não comer todo o jiló do prato, não sai da mesa. E sabe que viver para o resto da vida à mesa, como um personagem de um Italo Calvino sem imaginação, não é exatamente uma alternativa. Isso porque acreditei ser possível passar ao largo da literatura do Daniel Galera. Dele havia lido apenas algumas páginas aleatórias do Até o Dia em Que o Cão Morreu e Cachalote, o quadrinho feito em parceria com o grande Rafael Coutinho, e odiei os dois. O primeiro achei beat demais, gaúcho demais, jovem adulto demais. O segundo achei pretensioso, incompreensível e desnecessariamente grandiloquente, tipo quando jornalista faz pós-graduação em filosofia, aprende uns jargões e disfarça o pouco conteúdo com um monte de abobrinha hermética pra criar uma ilusão de profundidade. Enfim, era um autor que poderia ser deixado para seus fãs, um autor que sobreviveria naturalmente à revelia da atenção midiática, como tantos outros figurados naquela infame coletânea da geração subzero.

Mas a verdade é que, afora minha péssima experiência com leituras prévias de sua obra, o que nutria meu afastamento do autor era um preconceito sadio, que me impedia ver o quanto o Daniel Galera é parecido comigo. Pelo pouco que sei dele (e sei pouco mesmo), sei que temos gostos musicais e experiências parecidas. E lendo Mãos de Cavalo, que foi me recomendado como o seu melhor livro, vi que temos ideias muito parecidas também. É claro, assim como Jesus Cristo, Raul Seixas, Los Hermanos, Ayrton Senna e Wes Anderson, são os fãs pentelhos que me tiram do sério, mais do que o artista (bom, acho que o Wes Anderson e seu cinema infantil para adultos não muito adultos é igualmente insuportável). Mas resolvi deixar tudo isso de lado, meus preconceitos, meu medo, minha birra com os fãs adolescentes e ler Mãos de Cavalo, porque, afinal de contas, não dá pra dizer que o cara não faz sucesso e tô por aqui também desse papo que ninguém aqui pode ser bem sucedido sem que geral comece a espinafrar.

Bom, Mãos de Cavalo, para quem não sabe, é um romance que alterna dois fluxos narrativos após uma introdução que tem lá sua importância. A história começa com o que o narrador chama de Ciclista Urbano, assim com letras maiúsculas. Sei lá, deve ser pra você já começar odiando o protagonista ao automaticamente associá-lo com esses ecochatos urbanóides que falam em sustentabilidade sem abrir mão da sociedade de consumo e acham que o único problema do mundo é falta de ciclovia e excesso de sacolinha plástica (e esse é um assunto pelo qual guardo um rancor particular, afinal de contas, este blog perdeu um prêmio alemão para um site dessa corja). A descrição do percurso de bicicleta e os mecanismos que mantém o ciclista pedalando são até boas, mas é só quando o sujeito cai que o narrador revela que o ciclista é um garoto de dez anos. Esta parte foi brilhante, a destituição de poder do personagem é total, e a saída da bicicleta o tira do anonimato e lhe devolve a humanidade. Aí temos a primeira pista do livro: o garoto sai sangrando e passa a curtir o gosto do sangue e o fato de estar ferido. O personagem do livro passa o romance inteiro buscando resolver seus problemas se estrepando da pior forma possível, sem o menor zelo pelo corpo. É claro, isso não existe na vida real, é um fetiche de piá de prédio superprotegido que assiste ao Clube da Luta e passa a achar que virou macho porque acha que aguenta se machucar inteiro. Mas para esses garotos da cidade, isso serve muito bem às fantasias criadas em torno da questão: “o que é viver a vida?”. Cair de bicicleta, ralar os joelhos? Comprar um skate depois dos 20 e quebrar o braço? Acampar com os amigos e comer miojo no copo? Lutar Muay Thai na academia? Jogar PS3 é que não é, né? A diversão e a experiência precisam ser legitimadas pelo corpo, porque uma viagem da mente não é mais que do que isso. É claro, todo mundo lê, todo mundo escreve, mas querem menos Almeidas Garrets e mais Hemingways.

Aí temos a história de Mãos de Cavalo, apelido de Hermano, um garoto de 13 ou 14 anos morador de um condomínio em Porto Alegre (condomínio? ahá!) que tem vários amigos de apelidos tão esdrúxulos quanto o dele. Tem um Wagner Montes, tem um Nego Cromado, um Morsa e um Pedreiro. Mas também tem um Bonobo, que é um garoto de estatura normal, mas com uma força descomunal, como um Hulk em forma de guri. E chamam ele de Bonobo porque ele caminha com os braços pesados, como um bonobo. O que é uma furada, na verdade, porque o bonobo é um macaquinho do bem, se organiza em sociedade matriarcal e resolve os problemas com orgias ao invés de porradas. O Hermano é, obviamente, o garoto do começo da história, e tem uma vida interior e diferente dos outros da turma. Tem umas passagens em que ele se parece tanto comigo que chegou a me arrepiar as coincidências com a minha vida, mas isso é muito pessoal. O que importa é que, assim como eu, o Hermano não curtia muito jogar futebol, mas joga pra fazer social, e numa dividida com o Bonobo, provoca uma falta maldosa que desperta a ira do sujeito. O que ele faz pra se redimir depois? Toma um estabaco na bicicleta, descendo umas escadarias. Esse é o começo de uma história de adolescência marcada por isso: a autoflagelação juvenil. Vai entender…

E aí temos a história do Hermano adulto, que, como todo adulto oriundo de um adolescente antissocial, tem apenas um amigo e chato pra caramba, ainda por cima. Hermano fez medicina, é casado e tem uma filha, e gosta de escalar montanhas. Afinal, pra ele agora a resposta de “O que é viver?” é escalar montanhas, como um garoto propaganda almofadinha de comercial de SUV, que estaciona a caranga na beira do penhasco e contempla a paisagem com um senso de autorrealização que respinga na gente. E aí o amigo chatão propõe escalar um vulcão na fronteira da Bolívia com a Argentina que ninguém nunca escalou antes. Sei lá, não sou alpinista, mas isso me parece bem o tipo de tara que alpinista tem. Só que aí o rapazote joga tudo pro alto, e pra quê? Pra se estrepar voluntariamente – agora que ele é adulto, tem a certeza de que dessa vez a parada tá certa. Não queria dar muito spoiler, mas é inevitável.

E aí fechamos a história do menino que acreditava que seu sangue lavaria, inicialmente, sua falta de hombridade, depois sua falta de honra e por último, sua falta de coragem. O menino que exige demais de si mesmo, que tem sensatez demais para seu próprio bem, e que não larga essa ideia de que a vida adulta serve para redimir, de alguma forma, os erros da adolescência, como se nenhum adolescente fizesse merda. Então repare: o protagonista de Mãos de Cavalo é incrivelmente coerente em sua construção. Exagerado, é verdade, histriônico, é verdade, inverossímil até, mas coerente. Sua turma, o núcleo de sua vida após a formatura, tudo faz muitíssimo sentido, e esse é um mérito do escritor.

O estilo literário do autor, por outro lado, é um problema. Ainda que faça brilhantes digressões e arrisque um ou outro discurso indireto livre, falha miseravelmente na construção de uma linguagem oral, sob a qual grande parte do livro é narrada. Basicamente, a coisa se resume na falta de concordância de algumas palavras e uma gíria aqui e outra acolá, e isso bem de vez em quando. O resultado é estranhíssimo, tipo Gilberto Braga escrevendo fala de bandido da novela das oito. É claro, intelectualmente o livro tem seus pontos altos, e a clareza com que consegue articular uma ideia é invejável. Se queria criar uma surpresa sobre o personagem das três histórias serem os mesmos, também não funcionou. Mas acho que tudo bem porque não parece ter sido essa a intenção.

No final das contas, Mãos de Cavalo é um livro divertido e rápido. Para mim, serviu como um autoconhecimento interior, e literariamente, é melhor do que muita coisa que vêm sendo vendida por aí como a última Coca-Cola gelada do deserto. Mesmo assim, não é o tipo de leitura de que gosto e ao qual estou acostumado. O que não tira dele seus charmes e suas ideias interessantes. Então, fãs de Daniel Galera, não se preocupem, vocês estão bem acompanhados.

Comentário final: 190 páginas. Não sacia a sede de sangue dos masoquistas.