Vídeo: Book Haul Jan/Fev/Mar + Filmes e séries

É chegada aquela hora de parar o trabalho intelectual e fazer besteiras para a internet. Eis aí o Book Haul do primeiro trimestre de 2016, com os livros novos na estante e mais os filmes e séries que eu vi, na esperança de dar boas indicações para os leitores e, em contrapartida, receber comentários de quem, porventura, já tenha lido algumas dessas coisas que eu comprei e queira sugerir uma passada a frente na fila dos não-lidos. Cliquem na imagem e assistam enquanto fazem outra coisa, porque esse vídeo vai demorar um pouco.

Book Haul

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Hernán Rivera Letelier – A Contadora de Filmes (La Contadora de Películas)

A contadora de FilmesPor essa você não esperava, hein? Livrada.com.br na fuça da rapaziada. É a modernização, galera. Visual novo, domínio novo, tudo pra deixar a sua experiência de leitor mais agradável. Deem aí o feedback necessário das novidades pra saber se estou no caminho certo, ok? No more delongas.

Olha, você que é leitor assíduo do Livrada! deve estar me achando meio amargo por esses dias, com os comentários que teci a respeito dos últimos livros, e com os comentários que estou prestes a tecer sobre o livro de hoje. Bom, talvez eu tenha culpa, talvez eu esteja cansado de ver tanta crítica vaselina por aí, talvez eu esteja querendo ser surpreendido novamente por um bom romance e a frustração só aumenta a cada um que não me satisfaz, mas, por outro lado, as obras lidas também têm sua parcela de culpa. E se um prêmio Nobel de literatura, um clássico austríaco e um badalado escritor brasileiro não têm muito a que se agarrar para salvar as próprias obras, este senhor chileno e seu livreto de 110 páginas não vai ser a obra máxima que vai quebrar o combo.

Eu até tentei, e eu li até o final (até porque não demora mais do que um dia), mas esse A Contadora de Filmes é um dos livros mais deploráveis que li esse ano. Existem várias razões para isso, mas a principal é a pieguisse desenfreada desse escritor que queria fazer uma dessas histórias de singeleza na vida dos pobres que fazem você chorar pela diversão tosca dos menos afortunados enquanto aprecia seu exemplar caprichadíssimo da Cosacnaify (uma grande casa editorial cujos autores nem sempre ficam à altura).

Deixe-me dar as linhas gerais. A história se passa numa vila de mineiros, no meio do deserto do Atacama. A protagonista é Maria Margarita, a caçula de uma família de cinco filhos. O pai é um mineiro aposentado por invalidez que ficou paraplégico durante o trabalho, o que causou o abandono da esposa. A família é de cinéfilos, mas como o pai não consegue andar e se recusa a usar cadeira de rodas, a filha vai ao cinema com o dinheirinho contado que mal dá pra comer e volta pra casa para contar a história pro pai e pros irmãos. Ela conta então como ela conseguiu esse cargo e como se tornou a contadora de filmes oficiais de um povoado pobre e mais inclinado para a narrativa oral do que para a experiência audiovisual, ao que parece.

Se alguém por acaso achar que tanto melodrama não seria encontrado em lugar nenhum fora de um filme do Walter Salles, pode confirmar silenciosamente com a cabeça o que você já sabia. O cineasta-banqueiro que adora contar histórias de pobreza na infância já está mexendo os pauzinhos para fazer um filme a partir do romance. Is it too soon to whisper Oscar?

Bom, não estamos aqui para falar de cinema, então vamos nos ater à obra. A Contadora de Filmes, de uma maneira bem escancarada, coloca em debate uma questão pertinente: a passividade do audiovisual, com todos seus atrativos hã… audiovisuais, não seriam tão atraentes quanto à narrativa sem imagens, essa que depende da capacidade do leitor de introjetar (calafrios com essa palavra) a informação. Ou seja, nenhum David Lean chegaria aos pés do Gedankenbild de um Jeca Tatu com boa disposição para abstrações imagéticas. Estendendo o conceito para fora da tela cinza, a própria experiência humana não seria capaz de fazer frente ao ideário coletivo, inerentemente desprovido das imperfeições que os olhos veriam. Em outras palavras: enquanto os olhos procuram os defeitos, a mente se esbalda na perfeição abstrata. Talvez essa seja a razão de dar dois meses depois de você ter chutado seu namorado e você entrar numas de que era tudo bonito e maravilhoso com ele. Só tô dizendo…

Hernan Rivera LetelierMas não é porque um livro levanta uma bola pertinente desses que ele vale a pena ser salvo. A escrita é tosca, os personagens são chapados e nem sob a espada de Tandera esse cara consegue passar a impressão de que é uma menina que narra a história. Mas não é só isso. Desde que eu assisti O Fabuloso Destino de Amélie Poulain entrei em uma cruzada pessoal contra toda e qualquer obra que, por meio de singeleza, pieguice e imagens belas, não te deixa a opção de não gostar dela sem parecer um velho rancoroso, ou um recalcado, para usar aqui uma palavra do momento, bastante usada para se referir a mim na semana passada. You gotta fight for your right to hate, e isso vale cada vez mais nessa sociedade passivo-agressiva que quer a qualquer custo impor uma cultura de benevolência e altruísmo, sob pena de dedos apontados e gritos de “reaça”, “recalcado” e “preconceituoso”, só para listar os adjetivos mais gerais. Essa sociedade em rede que potencializa a exposição pessoal tá deixando todo mundo maluco pra pagar de bom samaritano. Então, na moral, leva esse dramalhão pra lá e me deixa em paz com meus livros que eu não quero nada que ver com essa história piegas e mal escrita, que tem a audácia de contemplar trechos como:

“Uma vez li uma frase – com certeza de algum autor famoso – que dizia algo assim como a vida está feita da mesma matéria dos senhos. Eu digo que a vida pode perfeitamente estar feita da mesma matéria dos filmes.

Contar um filme é como contar um sonho.

Contar a vida é como contar um sonho ou contar um filme”.

 Ou :

“Quando ela [a mãe da personagem] nos abandonou, do mesmo jeito que meu irmão começou a gaguejar eu me cobri de piolhos brancos. As vizinhas diziam que esse tipo de piolho aparecia quando a gente tinha alguma dor na alma. E coo a dor era pela minha mãe, comecei a comer os piolhos de amor por ela.

Tanto assim eu amava minha mãe.

Tanto assim eu sentia falta dela.”

Se o seu estômago não revirou ao ler esses trechos, parabéns, você é um forte. Eu, por outro lado, não tenho mais pique pra esse tipo de coisa.

Mas aí vem a Cosacnaify e desbanca a obra do autor com um projeto gráfico que é melhor do que a história. Os capítulos cortados com tarjas pretas, como as tarjas de uma tela widescreen, os capítulos curtos e fontes Andralis e Knockout, com papel pólen bold, e pra arrematar chamam o Eric Nepomuceno, que é um dos mais gabaritados tradutores do espanhol para fechar o trabalho. O livro fica uma belezinha, com uma capa que contrasta o preto e branco da fotografia com o amarelo (talvez a cor das legendas) do título. É um livro bonito, mas não pela história.

Comentário final: 110 páginas de papel pólen bold. Machuca menos que piolho branco de dor na alma…

(Sério mesmo que vocês gostam do que eu escrevo aqui nesse comentário final? Não é possível, meu Deus, isso aqui é MUITO sem graça)