Hernán Rivera Letelier – A Contadora de Filmes (La Contadora de Películas)

A contadora de FilmesPor essa você não esperava, hein? Livrada.com.br na fuça da rapaziada. É a modernização, galera. Visual novo, domínio novo, tudo pra deixar a sua experiência de leitor mais agradável. Deem aí o feedback necessário das novidades pra saber se estou no caminho certo, ok? No more delongas.

Olha, você que é leitor assíduo do Livrada! deve estar me achando meio amargo por esses dias, com os comentários que teci a respeito dos últimos livros, e com os comentários que estou prestes a tecer sobre o livro de hoje. Bom, talvez eu tenha culpa, talvez eu esteja cansado de ver tanta crítica vaselina por aí, talvez eu esteja querendo ser surpreendido novamente por um bom romance e a frustração só aumenta a cada um que não me satisfaz, mas, por outro lado, as obras lidas também têm sua parcela de culpa. E se um prêmio Nobel de literatura, um clássico austríaco e um badalado escritor brasileiro não têm muito a que se agarrar para salvar as próprias obras, este senhor chileno e seu livreto de 110 páginas não vai ser a obra máxima que vai quebrar o combo.

Eu até tentei, e eu li até o final (até porque não demora mais do que um dia), mas esse A Contadora de Filmes é um dos livros mais deploráveis que li esse ano. Existem várias razões para isso, mas a principal é a pieguisse desenfreada desse escritor que queria fazer uma dessas histórias de singeleza na vida dos pobres que fazem você chorar pela diversão tosca dos menos afortunados enquanto aprecia seu exemplar caprichadíssimo da Cosacnaify (uma grande casa editorial cujos autores nem sempre ficam à altura).

Deixe-me dar as linhas gerais. A história se passa numa vila de mineiros, no meio do deserto do Atacama. A protagonista é Maria Margarita, a caçula de uma família de cinco filhos. O pai é um mineiro aposentado por invalidez que ficou paraplégico durante o trabalho, o que causou o abandono da esposa. A família é de cinéfilos, mas como o pai não consegue andar e se recusa a usar cadeira de rodas, a filha vai ao cinema com o dinheirinho contado que mal dá pra comer e volta pra casa para contar a história pro pai e pros irmãos. Ela conta então como ela conseguiu esse cargo e como se tornou a contadora de filmes oficiais de um povoado pobre e mais inclinado para a narrativa oral do que para a experiência audiovisual, ao que parece.

Se alguém por acaso achar que tanto melodrama não seria encontrado em lugar nenhum fora de um filme do Walter Salles, pode confirmar silenciosamente com a cabeça o que você já sabia. O cineasta-banqueiro que adora contar histórias de pobreza na infância já está mexendo os pauzinhos para fazer um filme a partir do romance. Is it too soon to whisper Oscar?

Bom, não estamos aqui para falar de cinema, então vamos nos ater à obra. A Contadora de Filmes, de uma maneira bem escancarada, coloca em debate uma questão pertinente: a passividade do audiovisual, com todos seus atrativos hã… audiovisuais, não seriam tão atraentes quanto à narrativa sem imagens, essa que depende da capacidade do leitor de introjetar (calafrios com essa palavra) a informação. Ou seja, nenhum David Lean chegaria aos pés do Gedankenbild de um Jeca Tatu com boa disposição para abstrações imagéticas. Estendendo o conceito para fora da tela cinza, a própria experiência humana não seria capaz de fazer frente ao ideário coletivo, inerentemente desprovido das imperfeições que os olhos veriam. Em outras palavras: enquanto os olhos procuram os defeitos, a mente se esbalda na perfeição abstrata. Talvez essa seja a razão de dar dois meses depois de você ter chutado seu namorado e você entrar numas de que era tudo bonito e maravilhoso com ele. Só tô dizendo…

Hernan Rivera LetelierMas não é porque um livro levanta uma bola pertinente desses que ele vale a pena ser salvo. A escrita é tosca, os personagens são chapados e nem sob a espada de Tandera esse cara consegue passar a impressão de que é uma menina que narra a história. Mas não é só isso. Desde que eu assisti O Fabuloso Destino de Amélie Poulain entrei em uma cruzada pessoal contra toda e qualquer obra que, por meio de singeleza, pieguice e imagens belas, não te deixa a opção de não gostar dela sem parecer um velho rancoroso, ou um recalcado, para usar aqui uma palavra do momento, bastante usada para se referir a mim na semana passada. You gotta fight for your right to hate, e isso vale cada vez mais nessa sociedade passivo-agressiva que quer a qualquer custo impor uma cultura de benevolência e altruísmo, sob pena de dedos apontados e gritos de “reaça”, “recalcado” e “preconceituoso”, só para listar os adjetivos mais gerais. Essa sociedade em rede que potencializa a exposição pessoal tá deixando todo mundo maluco pra pagar de bom samaritano. Então, na moral, leva esse dramalhão pra lá e me deixa em paz com meus livros que eu não quero nada que ver com essa história piegas e mal escrita, que tem a audácia de contemplar trechos como:

“Uma vez li uma frase – com certeza de algum autor famoso – que dizia algo assim como a vida está feita da mesma matéria dos senhos. Eu digo que a vida pode perfeitamente estar feita da mesma matéria dos filmes.

Contar um filme é como contar um sonho.

Contar a vida é como contar um sonho ou contar um filme”.

 Ou :

“Quando ela [a mãe da personagem] nos abandonou, do mesmo jeito que meu irmão começou a gaguejar eu me cobri de piolhos brancos. As vizinhas diziam que esse tipo de piolho aparecia quando a gente tinha alguma dor na alma. E coo a dor era pela minha mãe, comecei a comer os piolhos de amor por ela.

Tanto assim eu amava minha mãe.

Tanto assim eu sentia falta dela.”

Se o seu estômago não revirou ao ler esses trechos, parabéns, você é um forte. Eu, por outro lado, não tenho mais pique pra esse tipo de coisa.

Mas aí vem a Cosacnaify e desbanca a obra do autor com um projeto gráfico que é melhor do que a história. Os capítulos cortados com tarjas pretas, como as tarjas de uma tela widescreen, os capítulos curtos e fontes Andralis e Knockout, com papel pólen bold, e pra arrematar chamam o Eric Nepomuceno, que é um dos mais gabaritados tradutores do espanhol para fechar o trabalho. O livro fica uma belezinha, com uma capa que contrasta o preto e branco da fotografia com o amarelo (talvez a cor das legendas) do título. É um livro bonito, mas não pela história.

Comentário final: 110 páginas de papel pólen bold. Machuca menos que piolho branco de dor na alma…

(Sério mesmo que vocês gostam do que eu escrevo aqui nesse comentário final? Não é possível, meu Deus, isso aqui é MUITO sem graça)

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Don DeLillo – Cosmópolis

cosmopolisNunca vou me esquecer de que comecei a ler Don DeLillo graças a um leitor do meu blog que decidiu deixar a sugestão ali, como quem não quer nada (“Já leu Don DeLillo, Yuri? Acho que você vai gostar dele…”, dizia o sujeito que nunca mais se manifestou). Que acertada decisão a desse cara, mal sabia ele que pouco menos de dois anos depois, Don DeLillo seria um dos meus autores favoritos. E vou falar hoje de Cosmópolis ao mesmo tempo em que lhes digo o porquê desse meu bom gosto, que só é comparável ao gosto musical do dono desse computador… epa.

Bom, Cosmópolis é, como todo bom livro do Don DeLillo, uma historieta com tons assim meio de alegoria, meio de hipérbole, meio de crítica à pós-modernidade. Sabe, eu já curto uns caras que batem na mesma tecla de maneiras diferentes – dependendo da tecla, obviamente, porque seguidor o que tem de seguidor de Bukowski por aí já deu pra cabeça, né? O cara é obstinado em esfregar na nossa cara como esse mundo é ridículo e, cara, ele faz isso como ninguém. Sério, eu espero que nenhum Yuppie jamais leia Don DeLillo, deve ser uma porrada na cara muito grande. Por outro lado, não vejo por que algo assim aconteceria.

Antes de mais nada, talvez vocês já saibam disso, Cosmópolis vai virar filme, estrelado por ninguém menos do que o Vampiro Crepúsculo (sei lá o nome dele, acho que é Robert ou Edward, não sei, as pessoas chamam tanto ele pelo nome do filme quanto pelo nome real que já não sei mais qual é qual). E aí vocês podem dizer “mas, meu Deus, esse cara é uma porcaria de ator, é um babacão, um paspalho, um babanacho, etc”, e eu digo, calma porque tudo se explica.

O protagonista em questão é Eric Packer, um jovem de idade indefinida (acho que ele fala em algum momento que tem 28 anos, ou 38, mas não dá pra confiar em nada do que ele fala. Bom, a julgar pela minha precisão, não dá pra confiar em nada do que eu falo também, mas vem comigo que o babado é certo). O cara é nada menos do que um bilionário que ganha dinheiro só com especulação financeira. Ou seja, compra coisa ali, vende coisa acolá, mexe nuns números e faz fortuna. O que é a típica profissão pós-moderna, em que o acúmulo de capital é um fim em si mesmo e não consequência de qualquer trabalho ou contribuição social. Quer dizer, é o outro lado dessa geração da qual eu faço parte que faz o oposto: uma porrada de coisa de graça com nenhum propósito. É neguinho fazendo videolog, banda ruim, história em quadrinho, blog de crítica literária, tudo pra morrer pobre. De qualquer jeito, o cara é um babacão podre de rico, um paspalho, um babanacho e agora vocês já tão achando maldade da parte do Cronenberg em chamar o vampiro pro papel principal.

O livro se passa todo ao longo de um dia na vida de Packer, que mora em Nova York. E ele acorda querendo cortar o cabelo numa barbearia que fica do outro lado da cidade e, pra piorar, o presidente dos Estados Unidos tá na cidade. Pra quem não sabe (e isso o livro não conta e você só aprende aqui no Livrada!), há uma política de restrição trafegaria nos Estados Unidos – cujo nome me escapa completamente, se alguém souber, por favor, me tire desse estado de curiosidade – que diz que quando o presidente está visitando alguma cidade e ele passa de um lugar para o outro, o trânsito inteiro naquela rota é paralizado. Nem preciso dizer o inconveniente que isso causa para o trânsito da cidade inteira, mas o playboyzão não tá acostumado a ouvir muitos nãos e parte para um dia inteiro de engarrafamento.

Para sorte dele, a limusine estendida do rapazote é blindada e equipada com tudo que ele precisa para trabalhar. Computador com internet, sofás, celulares, até um pequeno centro médico que ele usa para fazer seu check-up diário com um médico que vem encontrá-lo assim mesmo, no meio do engarrafamento. E aqui temos já a segunda grande sacada do autor: ora, que tipo de idiota instala uma porrada de utilidades e facilidades num carro espaçoso e desajeitado que fica a maior parte do dia no engarrafamento? Já viram algo assim antes, tipo, em qualquer lugar do mundo? Sério, como diria o Fábio Jr no Bye Bye Brazil, “como nóis era ignorante!”. Rapaz, bota um homem da renascença pra ver o que a gente vê todo dia e ele vai dizer sem pestanejar que esse é um mundo de loucos. A nossa vontade de ganhar tempo supera nossa vontade de não perder tempo de maneiras que nossa imaginação não é nem capaz de assimilar! Assustador sim, mas real.

E não só o médico dele aparece e entra no carro, estende uma maca e faz um exame proctológico no cara como se fosse a coisa mais normal do mundo, mas também seus outros asceclas aparecem para dar um alô e atualizá-lo sobre os negócios. O plano do dia é comprar iene, a moeda japonesa, até que ela comece a baixar. Faz sentido? Não fez pra mim, mas também que sei eu dessas porras? Soubesse e não tava aqui escrevendo esse texto, estaria no camarote da Brahma ao lado de Bruno Gagliasso, Bruno de Lucca, Bruna Lombardi e Bruno Chateaubriand cantando “E vai rolar a festa”, ou qualquer outra coisa que os ricos fazem para se divertirem. O problema da história é que o momento que todos esperam, o momento do iene começar a baixar, está se demorando, e já tem gente suando frio pela testa. Entre a visita de um consultor financeiro, um aspone qualquer e um técnico não sei das quantas, você já percebe uma outra parada: TODO mundo que trabalha para o sujeito tem nome estrangeiro. Um japa ali, um checo aqui, um indiano acolá, o quão típico da cultura americana é isso? Importar mão de obra competente para manter o sistema criado por incompetentes no próprio país, do tipo “tá, construímos isso aqui sem a menor ideia do que estávamos fazendo, vamos agora chamar quem sabe pra manter isso de pé”. Ai ai, Don DeLillo, o sr. é um fanfarrão mesmo.

E aí vemos as coisas como elas realmente são: Packer está casado com uma moçoila a poucos dias, uma poeta igualmente milionária que é enjoadinha na cama, mas que de alguma maneira amarra o inamarrável ali. Além de ter que lidar com a esposa que regula mixaria e o iene que não baixa (sem nenhum duplo sentido), o bilionário descobre ainda por cima que sua próstata está irregular. O que isso quer dizer? Ninguém sabe, mas não importa, está irregular, e irregularidade na vida perfeitinha e controlada desse cara é um furo na muralha da represa. O corpo humano é o calcanhar de Aquiles de um poderoso desse naipe, rendido às fraquezas fisiológicas, arruinado pela perecibilidade do próprio corpo, etc. O cara tem aí um pré-câncer ou sei lá o quê, fato que é o bastante para finalmente jogar luz sobre a maneira que ele leva a própria vida. O problema é que um cara desses não tá nada acostumado a pensar nada sobre esse assunto, e aí, catástrofes acontecem. CATÁSTROFES, sério. Vai por mim.

Cosmópolis é um livro exagerado e genial, como todo livro do Don DeLillo, e mesmo as partes mais idiotas guardam discussões profundas e frases de efeito engraçadas, tipo uma mulher falando “eu comecei a fumar com 15 anos. É isso que meninas magras e bonitas fazem nessa idade, para mostrar que existe algum drama em nossa vida”, putz dorme com essa, Brasil! Poderia citar outras coisas assim de memória, mas temo que isso só tiraria a graça da leitura desse livro que eu, sinceramente, espero que vocês leiam.

E esse projeto da Companhia das Letras? A capa é esquisita? É. Parece que foi feita em 1991? Sim, mas o conteúdo é o que vale. Papel pólen e fonte Electra pá deixá as quiança feliz e, pelo menos o meu exemplar veio com uma brochura muito bem feita. Não tem muito mais o que falar, a não ser uma última coisa, que já está virando tradição aqui, mas como em time que está ganhando não se mexe, vou repetir: Gente, curtam a página do Livrada! no Facebook! Desde o último post, uma cambada de gente se juntou a nós, vem também!

Ah sim, uma última coisa: vocês têm dedicatórias (autógrafos) de autores que sejam legais? Manda pra mim, no bloglivrada@gmail.com, vamos fazer um post sobre isso!

Ah, pra deixar oficial: agora, além de crítica de livros, também faço crítica de hamburguer. Passa lá no Goodburger qualquer hora!

Comentário final: 197 páginas pólen soft. Melhor ler do que tacar em alguém, mas se a oportunidade surge, é preciso aproveitar.

Michel Houellebecq – Partículas Elementares (Les particules élémentaires)

Les particules élémentairesEsse ano o querido Michel Houellebecq vem para a Flip. Como brasileiro é um povo festivo com gringo mas ao mesmo tempo não manjam muito das celebridades que vem aqui, resolvi fazer esse serviço de utilidade pública e apresentá-los a vocês, queridos leitores e a vocês, queridos jornalistas que deixam tudo pra última hora. Ó, tô falando disso uns quatro meses antes da festa, dá tempo de se informar e ainda sobra pra ler um ou outro livro dele, se é isso mesmo que você tem que fazer. Pros preguiçosos, pega o resumão e comentário aqui e sai por aí esbanjando o conhecimento que você não tem.

Partículas Elementares é um dos primeiros livros (o segundo, acho eu) do grande escritor francês radicado na Irlanda Michel Houellebecq. Fala de dois meio irmãos: um chama Michel (atenção, jornalistas: os personagens dele geralmente chamam Michel) e o outro chama Bruno. Bruno é o típico moleque que foi gordinho quando criança, cresceu e virou gatão e, pra se vingar da humanidade, come geral pra tentar machucar o coração de alguém (tá, essa última parte eu presumi, mas deve ser). Michel é o típico moleque que foi bostão quando criança, cresceu e continuou bostão, sendo virgem aos não sei quantos anos. Ele trabalha com pesquisa em biologia e está fazendo alguma coisa relacionada a partículas elementares, algo que vai dar um boost na sua carreira e na medicina de uma maneira geral, mas agora não lembro exatamente o quê porque faz um tempasso que li esse livro, uns bons três anos. E o Bruno é professor, querendo comer as aluninhas (hum, igual a um certo professor que tive uma vez numa certa escola de jornalismo), mas frustrado porque a gatinha em que ele está de olho dá pra um negão avantajado — o pesadelo de todo cara branco que não se sente competitivo. Enfim, os dois meio-irmãos, filhos de uma biscatinha da década de 60, se encontram no funeral da mãe, e aí se conhecem e resolvem passar tempo juntos. Vão para um retiro, uma espécie de hotel/SPA numa praia paradisíaca, onde lá Bruno conhece uma gatinha e Michel descobre o paradeiro de sua amada de outros carnavais, Annabele não sei das quantas. Bom, como todo livro do Michel Houellebecq, tudo vai bem, tudo vai bem, até que vai mal. E com esse cara você sabe que, quando eu digo que vai mal, é porque vai mal MESMO.

Bom, nesse livro aqui não temos nada de muito diferente do que o autor veio a explorar melhor em seus livros subseqüentes, com a diferença que este foi o primeiro livro que virou filme, acho eu. O filme é uma produção alemã com atores alemães dos quais nada conheço, e o roteiro pesou muito mais nas partes cômicas, que são sim, pontos fortes do livro. O livro é mais triste, mas acho que o é por ser um livro, afinal, ler não é exatamente uma parada super engraçada que você fica com a barriga doendo de tanto ler. O livro em si é bem escrito mas tem um ritmo mais arrastado que o normal em um Houellebecq legítimo (and I ain’t no Houellebecq girl, I ain’t no Houellebecq girl, já dizia Gwen Stefani), e, como acontece n’A Possibilidade de Uma Ilha, tem um epílogo completamente desnecessário. Tem gente que não sabe a hora de parar de escrever e… opa, é comigo? Ok, ok, parei.

Essa edição da Editora Sulina, lá do Rio Grande Tchê, não é exatamente a edição que eu tenho. Essa capa do livro é a capa do filme também, e a capa do meu livro é um ventre de mulher com a mão na coisa e a coisa na mão. Logo eles perceberam que, por mais que a imagem seja bonita, é o tipo de coisa que impede que a pessoa tímida de criar coragem e levar isso no caixa da livraria, principalmente se a caixa for uma mulher, e principalmente se ela parecer meiguinha. A tradução é do Juremir Machado, um cara porreta, catilogente e sabido (já falamos aqui), mas meio inusitado pra escrever as orelhas. Ele descreve um felatio como “uma mulher de boca ousada”.  Ew, Juremir, deve tá ouvindo muito Lupcínio Rodrigues, fala a verdade! No mais, papel offset desgracido e fonte garamondo do coração dos manos do terminal de ônibus. A numeração dos capítulos tem uns arabescos que ficaram quase invisíveis, e a quarta capa lista uns elogios aqui e ali, além de um “traduzido em 21 línguas” que, pra mim, não quer dizer nada. O livro dos recordes é traduzido em quarenta mil línguas e eu continuo não lendo, afinal.

Comentário final: I ain’t no Houellebecq Girl!

 

Anthony Burgess – Laranja Mecânica (A Clockwork Orange)

A Clockwork OrangeEis que, hoje pela manhã, estava eu conversando com alguns colegas que fazem também fazem aula de alemão, justamente sobre o filme Laranja Mecânica, que um deles assistira a pouco. Eis que nosso leitor e interlocutor Lucas acrescenta à conversa sua impressão de que o livro não era tão bom. Ora, licença para discordar, Laranja Mecânica em papel pode não ter lá os superlativos aplicados por Stanley Kubrick (muito menos aquela cena de assassinato com um long dong gigantesco), mas Anthony Burgess fez um livro de primeiríssima. E vou dizer o porquê.

Caso você nunca tenha tentado se passar por descolado, nunca tenha tentado ser diferente, nunca prestou atenção nas recomendações que dão pra você todo dia, nunca leu livro de adolescente ou nunca assistiu a um filme que foi feito antes de você nascer, Laranja Mecânica é a história de uma gangue inglesa em uma sociedade futurista e distópica. Os membros da gangue são jovens delinquentes que gastam o fim de suas adolescências roubando, saqueando e estuprando. A história tem uma reviravolta quando o líder da gangue, Alex, que vinha enfrentando problemas de autoridade perante seus comparsas, ganha um sal dos gambé e passa aí um tempo ausente, vivendo com a bunda encostada na parede.

Eis que ele integra um programa de redução penal que consiste numa lavagem cerebral (acho que chamava “Método Ali Kamel”, mas agora não tenho certeza) no qual ele é obrigado a ficar vendo várias apresentações de Power Point com fotos de bebês rezando e filhotes de golden retriever, e ouvindo os maiores sucessos de seu ídolo-mor: Cid Guerreiro. Enquanto as imagens passam e “Ilariê” e “Tindolelê” tocam no talo, algo acontece na cabecinha do sujeito. (tá, esse parágrafo é zoado inteiro, mas, pelamordedeus, se você não conhece a história, larga o Pokemon por um tempo)

Alex então é reintegrado à sociedade, mais frouxo que manga de bruxo. Incapaz de esmagar uma mosquinha, de dar uma sapecada nas cachorra, e de roubar um cone de estrada sequer (aliás, roubar cone é uma das únicas modalidades de roubo socialmente aceitas, pensem nisso), o sujeito vira paçoca na mão dos que já queriam ver sua caveira há algum tempo. Gente, isso aqui tem mais spoiler do que tunning de Zé ruela.

Bom, Burgess escreveu essa história após sua esposa ser estuprada por uma gangue de jovens, em atitudes muito parecidas com a do livro. Impossível não tomar isso como trauma, ainda mais para a pobrezinha. Acho que nessa época estuprador ainda não tomava soco toda hora, ajoelhava e beijava os pés e depois sangrava até morrer na rua dez, como diriam os Racionais. Incrível mesmo, entretanto, é a maneira como o escritor tentou espurgar esse demônio de sua vida e da vida da esposa: criando um protagonista ladrão e estuprador que cativa o público e que rende fantasias nada originais em qualquer baile de máscaras moderno. Sério, vocês já foram a alguma festa a fantasia em que não tinha ninguém vestido de “Laranja Mecânica”?  Alex come sim o pão que o capiroto amassou, mas tem sua redenção e sua sacudida de poeira e volta por cima, algo que qualquer vítima mais ressentida que romantizasse seu trauma desconsideraria sem pestanejar, mesmo porque há um consenso que prega que livro bom é livro triste (não sei daonde, mas não vamos discutir isso agora, ok?).

Anthony BurgessO autor também criou uma série de neologismos, que são usados como gíria pelos membros da gangue: o famigerado vocabulário Nadsat, surgido a partir de palavras essencialmente russas. É engraçadão quando você começa a aprender russo e acha que está falando essencialmente gírias do Laranja Mecânica. Recomendo, maltchicks e dievotchkas. O glossário com as palavras fica no final do livro, e são dezenas. Ora, o cabôco que cria mais de cinquenta palavras para um livro já está no nível linguístico de um Mia Couto, de um Guimarães Rosa, de um Baudolino (opa, esse não). Palmas, que ele merece.

Quanto à comparação do enredo do filme e do livro, devo dizer que o livro é muito mais, digamos, “adulto” do que o filme, por ir além e retratar alguns anos à frente de onde a história cinematográfica de Alex termina, e por ter muito menos elementos de humor, o que, (que Deus me perdoe por isso que vou dizer agora) Kubrick não deveria ter explorado, por suavizar demais uma história tão pesada. Ainda assim, o filme tem os seus méritos, por explicitar leituras muito mais escondidinhas entre as linhas de Burgess e por criar um visual marcante que há de permanecer no inconsciente coletivo até o dia em que UM BURACO NEGRO MATAR TODO MUNDO!!! (ando muito impressionado com isso).

O livro foi lançado pela editora Aleph, que é um pouco desconhecida, mas muito caprichosa. Ao que parece, eles são especializados em Ficção Científica (gênero do livro) e lançam livros lindos do Isaac Asimov que valem a pena serem lidos e comprados. O projeto gráfico deste Laranja Mecânica é bem chique. Fonte Century 731 BT – Roman em papel pólen soft, com uma capa esquisitona e um cabeço chique que simula uma tipografia de máquina de escrever que tá boa pra ir pro lixo. A tradução é de um sujeito homem chamado Fábio Fernandes, que assina o prefácio e uma nota sobre a tradução brasileira, ambas muito elucidativas e bem-vindas para o entendimento da linguagem usada por Burgess (conforme adentramos na leitura, as gírias nadsat começam a passarem batidas por nossos olhos). Enfim, vale a pena a leitura e espero que este comentário tenha deixado os senhores mais dispostos a encará-la.

Comentário final: 199 páginas em pólen soft. Um tolchok de literatura na sua cara!