Manoel Carlos Karam – Pescoço Ladeado Por Parafusos

Manoel Carlos KaramAno novo, blog velho. Sejam bem-vindos ao Livrada – Ano V! Tecnicamente ainda não é o aniversário do seu querido blog de comentários literários, mas é quase. Vejam só, cinco anos falando se um livro é bom ou é ruim por meio de critérios altamente discutíveis, e ainda assim arrematando multidões. O segredo para o sucesso? Persistência diante das adversidades, seriedade diante dos haters, muito alface e muita água mineral. De mais, olho de lince e olho no lance, como diz um amigo meu.

O livro de hoje contempla a grande e desconhecida produção literária da cidade onde eu moro. Muito embora tenhamos o recente case de sucesso do livro de poesias do Paulo Leminski, que vendeu justamente por ser uma poesia baseada na estética da sacadinha, algo ao alcance de todos, e tenhamos alguns outros escritores premiados e reconhecidos internacionalmente, a literatura curitibana – fazendo aqui o recorte geográfico que todo mundo da cidade, e por que não dizer do estado, adora fazer – possui espécimes literárias para todos os gostos e cabeças. Mas o que talvez pouca gente saiba é que a inventividade e a literatura fantástica, subgêneros pouco representados no Brasil, tem um de seus maiores representantes nessa cidade. O escritor Manoel Carlos Karam (1947-2007).

Karam tem uma escrita dispersa, fragmentada. De certa maneira, todos os seus livros são coletâneas, já que as pastinhas em que guardava seus originais tinham planos para mil combinações de textos em livros diferentes. Pescoço Ladeado Por Parafusos, reeditado pela belíssima editora Arte e Letra, não foge à regra. O livro contempla trechos distintos de livros distintos. Alguns muito bons e outros, que não dá pra entender patavinas.

Entre os bons, cito aqui o “Jornal da Guerra Contra os Taedos”, uma verdadeira ode à literatura de humor e à inventividade narrativa. São comentários breves sobre uma guerra travada contra um povo imaginário que é inacreditavelmente idêntico ao povo que o combate. A guerra contra os taedos é cheia de absurdos humanísticos, de tréguas e de estratégias burras que de alguma forma fazem sentido no contexto do livro. A coisa é tão engraçada e absurda que Borges não teria escrito melhor, caso ele tivesse um senso de humor menos esquisito.

Também tem o “Divagações sobre números”, que é uma porrada de sacadinhas (uma constante entre a geração dele, ao que parece) sobre números. Coisas que caberiam num tuíte, e que não deixam de ter um fundo obsessivo pela coisa.

Manoel Carlos KaramMas aí tem o “Projeto de Bestiário”, que, ao que tudo indica, é um contraponto do Jornal da Guerra Contra os Taedos, mas é um texto tão solto e tão desconexo que demora até que alguma conclusão desse tipo possa ser tomada. Começa com alguém tentando bolar um nome e associando características a cada nome. Um troço meio despropositado, mas divertido durante os cinco primeiros minutos.

No fim, Pescoço Ladeado Por Parafusos é uma confusão que só, e é um desses livros que você lê para se perder em meio a tanta maluquice, como é com os livros do Valêncio Xavier e do manuscrito Voynich. Não dá pra dizer que eu apreciei cada página da leitura, mas também não dá pra dizer que poderia ter passado minha vida de leitor sem essa. Porque se ler é imaginar, então ler Karam é extrapolar os domínios da mente. Caraca, que frase bonita, espero que me citem em alguma orelha de livro com essa.

O projeto gráfico da Arte & Letra é demais. Sou um pouco suspeito pra falar, não só pela minha proximidade com a editora e livraria, mas também porque a capa é do ilustrador André Ducci, o melhor de Curitiba e, quiçá, um dos melhores do Brasil. A mesma editora publicou outro livro dele, Comendo Bolacha Maria no Dia de São Nunca, num esforço louvável para resgatar a literatura desse cara das profundezas dos catálogos de editoras miudinhas – algumas já extintas – que ainda ganham dinheiro com copyright sem fazer nada pelo acervo. A diagramação do livro é boa, o papel é pólen de gramatura grande e o formato do livro é pequeno, quase quadrado. Enfim, um bom produto.

Comentário final: 192 páginas em papel pólen. Tente imaginar isso!

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Nikolai Gogól – Tarás Bulba (Тара́с Бу́льба)

Тара́с Бу́льбаTalvez a personagem mais rasa de toda a história do Breaking Bad, a Marie, cunhada do Walter White é, ainda assim, mais profunda que boa parte dos protagonistas de seriados que a gente vê por aí – e olha que ela é uma secundária bem secundária. Seu bordão favorito diz: “Na dúvida… roxo”, referindo-se a sua cor favorita, uma tentativa desesperada da personagem de acrescentar mistério e complexidade a uma personalidade tão calcada na inveja e na ostentação.

A frase da Marie pode ser adaptada aqui para meus propósitos: “Na dúvida…russos”. Ora, eis aí você, entediado com a mesmice da estética urbana da literatura brasileira contemporânea. Russos. Você aí que reclama que a emergente literatura americana não fala ao seu coração. Russos. Você que reclama que o mérito literário é ofuscado pela especulação editorial. Russos. Você que não gosta de ler uma boa história que seja apenas uma boa história, desprovida de maiores significados. Russos.

A literatura russa, meus camaradinhas, é o elixir da vida literária, uma fonte quase inesgotável de bom paladar. Os russos são praticamente os Globetrotters da fina arte de colocar uma palavra na frente da outra até virar obra-prima. E Nikolai Gogól, que na verdade era ucraniano, mas como naquela época era tudo a mesma coisa, é fagocitado pelo dream team da literatura europeia do século 19. E essa pequena novelinha, intitulada Tarás Bulba, ilustra bem a potência da escrita desse cara. Vamos a ela.

Publicada em 1835, na época em que a Ucrânica morava na casinha de cachorro no quintal da Polônia, Tarás Bulba é um clássico folclórico-épico-powerviolence, uma dessas histórias bem fundamentadas no espírito cossaco, que é uma espécie de gaúcho mais macho e mais bêbado. E, aliás, essa é a coisa boa da literatura russa: todos os livros falam sobre a Rússia. Na dúvida sobre algum simbolismo de obra russa? Pode ter 90% de certeza de que o elemento que você está tentando decifrar simboliza a pátria-mãe de maneira geral.

Tarás Bulba é o nome do velhinho protagonista. Ele tem dois filhos, Óstap e Andrií, que regressam ao lar depois de terminar seus estudos. Ora, o Bulba é um cara das antigas, da época em que escola era coisa de grã-fino, e com medo dos filhos emboiolarem, resolve pegar os dois e se alistar junto com eles nas tropas zaporogas, que eram uns cabras machos que em tempos outros lutavam e matavam, mas que então só bebiam. Ele chega acelerado. “Vamo matá uns cabras aí!”, ele teria dito, mas seus superiores só suspiraram e disseram. “Mas a gente assinou contrato de paz com meio mundo, não tem com quem brigar”. Então eles vagueiam e vagueiam até descobrir uma pinimba mínima com os judeus poloneses que estariam extorquindo seus irmãos de pátria, e partem pra lá com toda fúria cristã junto com uns tártaros que por acaso estavam ali de bobeira. Só que aí o Andrií conhece uma polaca ajeitada e bandeia pro lado de lá no meio de um cerco. Pronto, está armado o grande livro de guerra que vocês vão ler se tiverem algum juízo.

Микола ГогольBom, a primeira coisa a se considerar é que Tarás Bulba foi um dos primeiros livros a enaltecer gente de baixo, gente do povão, gente que a Regina Casé entrevista pro Fantástico. Com isso, veio também o uso de expressões populares e uma certa aura de anjo tosco para dar digamos… cor local pra essa galera. Muito xingamento, bebedeira, porradaria e um ritual de coroação de general muito do escroto, com lama na cabeça e tals. Isso tudo faz com que os cossacos sejam uma galera muito cool, e muito valentona, tipo um Leões da Fabulosa eslava.

Agora, de uma maneira geral, é possível fazer uma leitura elitista da obra também. Dá pra ver, só pela cara, que o Gogól não é exatamente um cara que veio das streets, né? Bom, daí que a história toda tem, em seu desenvolvimento, um simbolismo global, razão pela qual, inclusive, Tarás Bulba faz parte de uma série de novelas chamada Mírgorod (algo como Cidade do Mundo, e fiquei orgulhoso porque consegui traduzir essa expressão sozinho). Cabe que a mãe dos moleques fica chorando em silêncio vendo os filhos letrados saindo pra guerra por causa do pai velho. É como se toda a terra russa, numa ânsia para se ocidentalizar e, antes de tudo, vestir a coleção outono-inverno da civilização, se atrasasse toda por conta da vibe ogra e ongonorante dos cossacos, uma verdadeira pedra no sapato da civilidade, ainda que amplamente adorados por suas histórias fantásticas de façanhas incríveis, capaz de arrastar até mesmo as novas gerações letradas e comportadas para os olhos franceses. Isso se traduz inclusive durante a primeira metade da história, quando os cossacos não acham com quem brigar e muitos pisam na bola feio com as tropas por conta das bebedeiras. Ou seja, nem pra porrada mais essa galera serve. Mas aí, da metade pro final, entra a celebração ucraniana, doa a quem doer, apesar dos pesares, grandes heróis e muito honrados sim senhor, mas ao mesmo tempo os diminui pelos vacilos constantes. Ou seja, não é nem a figura do herói nem a do completo anti-herói que temos aqui, mas o começo da decadência cossaca explorada em toda sua complexidade humana. Gogól é assim, um cara dividido entre o mundo ao qual pertence e que necessariamente é antagônico ao mundo da ogrisse, e o mundo da celebração folclórica. É tipo você gostar de Lampião pela seu banditismo por uma questão de classe, mas ficar puto quando uma moça é estuprada na sua cidade. Shame on you, aliás.

Esse livro faz parte da Coleção Leste, da editora 34, e tem tradução direta de Nivaldo dos Santos, que está para Paulo Bezerra, Rubens Figueiredo e Boris Schneiderman como Van Damme está para Stallone, Schwarzenegger e Chuck Norris. É um cara bom demais, mas subestimado ante seus pares, acredito. O sujeito trabalhou numa rádio em Moscou, galera, isso é muito tr00 pra tradutores. Pensem nisso. O livro conta com um pequeno posfácio dele, que contextualiza a obra na história, é impresso em papel pólen, fonte Sabon e uma belíssima ilustração de ninguém menos que Delacroix. Gente refinada é outra coisa.

PS: Daqui a uma semana tiro férias e o blog vai ficar parado por um mês e meio. Pode ser que esse seja o último post antes do recesso, porque tô na semana dos preparativos pra viagem. Mas se der tempo, faço outro pra próxima segunda.

Comentário final: 170 páginas em papel pólen. Cacete na cossacada!

Orhan Pamuk – Meu Nome é Vermelho (Benim Adım Kırmızı)

Benim Adım KırmızıHoje é aniversário da minha gatinha, mas antes da festa, o Livrada! precisa continuar. A Carlinha tem alguns escritores favoritos, pelos quais eu partilho o gosto na maioria das vezes. Mas o Pamuk, acredito, talvez seja seu escritor favorito de língua estrangeira, e depois de ler três livros dele e de muita insistência, ela finalmente me convenceu a pegar uma obra deste turco que é prêmio Nobel de literatura de 2006.

Meu Nome é Vermelho passou na frente de Neve, que era minha segunda opção, pela proximidade do tema comigo. Ora, muita gente aqui não me conhece pessoalmente, mas a verdade é que eu gosto muito de desenhar e venho de uma família de desenhistas, pintores, projetistas e outros profissionais que trabalham de lápis e prancheta figurativamente sobre um plano neutro. E o lance desse romance está justamente no desenho, então resolvi verificar o que esse gajo turco sabe desses lances.

Pois muito bem, muito bem bem bem. Meu Nome é Vermelho é um livro sobre desenho, mas é uma daquelas histórias específicas rodeadas por universalismos. Temos mistérios, crimes, amor, drama, morte, vilões, mocinhas, heróis, lendas, fábulas, e, é claro, temos a questão do desenho. O argumento principal gira em torno de um polêmico livro que o sultão não-sei-das-quantas ordena secretamente a seus melhores desenhistas para dar de presente para a comitiva veneziana que pretende visitar Istambul nos próximos anos. Agora, o desenho segundo o Islã era uma coisa considerada artisticamente tosca pelos então novos padrões renascentistas que estavam ficando na moda, cheios de sombra, perspectiva e detalhes mínimos, tipo pelanca de pescoço e sobrancelha mal aparada. Isso era então uma afronta às leis de Deus para os turcos, como qualquer arte figurativa, por colocar o homem no centro das atenções e elevar o artista à condição de criador, como o próprio Deus. Ora essa, onde já se viu. Eu sei, eu sei, vocês estão pensando: “Obviamente esses sujeitos não pensariam assim se conhecessem a obra do inominável Romero Britto”, não é verdade? Na verdade também não, porque a arte islâmica tampouco contempla o estilo de um artista e a assinatura como elementos desejáveis. O lance é todo mundo fazer o mesmo tipo de bonequinho e o mesmo tipo de paisagem sempre. Resumindo: a arte islâmica era a arte do ClipArt, e vocês podem ficar o resto do dia discutindo se isso é arte ou artesanato, mas nós temos uma sinopse para desenvolver antes de falar do livro (sempre que tiverem dúvidas sobre o estilo de desenho a que me refiro, podem conferir essa capa, que tem ilustrações que evidenciam bem a questão). Bom, nessa encomenda perigosa, quatro homens, discípulos de Mestre Osman trabalham secretamente: Borboleta, Oliva, Cegonha e Elegante. É, pensei a mesma coisa: parece um elenco da Malhação turca. É quando Elegante é brutalmente assassinado por um dos outros três, e precisamos desvendar esse mistério. Ao mesmo tempo, volta à cidade o Negro, um homem que trabalhou fazendo biscate pelo mundo e pensando na doce Shekure, que tinha apenas 12 anos quando ele a deixou em Istambul. Pedofilia? Talvez, mas não vamos julgar. Shekure agora é uma moça casada e muito provavelmente viúva, já que seu marido foi pra guerra e nunca mais voltou, e seu cunhado Hassan, irmão do marido desaparecido, vive dando em cima da moçoila, mãe solteira de dois e abrigada na casa do pai, o chamado Tio (é pai mas é tio, sacou? Nem eu), que comanda o projeto. O Negro então começa a investigar o assassinato e ver se ainda dá pra recuperar o amor perdido.

pamukBasicamente, essa é a história, permeada, é claro, por muitas aulas de pintura e desenho, contos exemplares sobre estilo e assinatura e sobre a passagem do tempo para o artista, que fica invariavelmente cego no final da vida. Agora, o discurso do livro é muito interessante. Nada menos do que 21 narradores contam esse causo para você, entre eles o cadáver do Elegante, Negro, Shekure, o Tio, Mestre Osman e o resto dos artistas da Malhação Turca, além de outros personagens que são narrados nas tabernas e nas cafeterias onde os sátiros se reúnem, o que dá uma palpabilidade ao zeitgeist do romance. O recurso de múltiplos narradores, entretanto, serve a um propósito muito maior: evidenciar o poder do livro e a posição do leitor.

Isso porque um dos narradores é o Assassino, que se apresenta assim, como assassino, embora narre outros capítulos sob sua verdadeira identidade, guardada em segredo. Aí você vê que nenhum diretor em sã consciência pensaria em adaptar esse livro para o cinema, porque só o livro permite que um assassino se comunique diretamente com o leitor sob uma proteção impenetrável que é a falta de voz literária. Sim, porque todos eles falam com a mesma voz de escritor (algo muito fácil quando o autor é um só, Pamuk), uma camuflagem perfeita. E, ao mesmo tempo, todos narram para você, leitor, evidenciando algo que é sugerido pelas histórias dos sátiros: não há história sem leitor e muito menos há poder narrativo no discurso sem ele também. Isso, é claro, corrobora com a submissão do artista com o objeto da obra e seu futuro apreciador segundo a fé islâmica, então tudo se trata de uma adaptação estilística ao pensamento.

A trama de assassinato, mais a briga de Negro por Shekure, defendendo-a do possessivo Hassan, e as ordens irrefutáveis do sultão, tudo isso dá sequência não só à tradição da literatura ocidental como também da oriental. A Turquia, como vocês devem saber, é um país meio esquizofrênico nesse lance de ocidente e oriente, e coube ao Pamuk escolher temas interseccionais aos dois polos horizontais do mundo para fazer algo em favor da Turquia: um país que fala a todos os outros sem tomar para si tons exóticos e canastrões, como vemos tanto por aí. Tudo parece natural porque tudo, de fato, o é.

Acho que existem muitas outras coisas para falar sobre esse livro, mas resolvi me deter nesse ponto em particular para mostrar como é possível ser inventivo e usar a narrativa e o suporte do livro ao seu favor. Muito se fala em reinvenções linguísticas, saltos narrativos e etc e tal, mas pouca gente pensa em reformular a estrutura do romance em si. O Pamuk ganhou muitos pontos comigo nessa, e pretendo lê-lo de novo por causa disso. Espero que vocês também o façam.

Ps: Feliz aniversário, Carlinha!

Comentário final: 534 páginas em papel pólen soft. Fratura na cabeça do Elegante Efêndi.

Wisława Szymborska – Poemas

Wislawa SzyborskaExistem muitas características que um crítico literário precisa ter, e poderia ficar escrevendo o dia inteiro sobre elas. Mas existe uma única condição sinequanom para alguém começar a fazer resenhas e dar opiniões sobre os livros e, não, não é ler os livros se é isso que você tinha pensado. Referia-me, na verdade, à cara de pau, a vontade de avançar destilando baboseiras sem medo de errar, sem medo de reprimendas, sem medo de autor te esperando com um porrete do lado de fora, enfim, é preciso ser destemido e caradura o bastante para julgar que o que você acha sobre uma obra determina se ela é boa ou ruim. Ora, que trabalho inglório e canalha, vocês diriam, esquecendo-se que é exatamente assim que funcionam vossas próprias opiniões e o que separa o crítico do leitor são razões meramente vocacionais.

Pois bem, disse tudo isso por quê, afinal? Disse porque hoje, pela primeira vez em dois anos de blog, vamos falar de um livro de poesia nessa bagaça, e todo mundo sabe que pouca gente se atreve a comentar essa arte por puro medo de estar falando besteira sem saber.

E é aí que entra o nosso livro de hoje. Nada menos que a recente coletânea de poemas da poetisa polonesa Wisława Szymborska, prêmio Nobel de literatura de 1996, que foi traduzida para um livro pela primeira vez no Brasil no ano passado. Ê, atraso! Mas, tudo bem, antes tarde do que nunca. Fico boladão com essa galera que não se coça pra traduzir um autor mesmo depois que ele ganha o prêmio Nobel. Agora tão pipocando uns poemas do Sr. Transformer por aí, mas cadê que nego publica um livro dele? Vai vendo e depois não reclama, mas legenda pra filme do Shrek tem todo ano, pensa nisso.

Enfim, esse livro não é nenhum livro inteiro da Szymborska (para vocês que gostam de ler em voz alta os textos, mesmo que seja para vocês mesmos, a pronúncia é Vissuáva Chembórsca), mas uma coletânea de poemas de vários de seus poucos livros (he he) escolhidos pela tradutora Regina Przybycien (pchêbítchen), que é curitibana e bateu um papo comigo aqui. Ela diz que escolheu os poemas baseado no grau de facilidade em traduzi-los, o que eu acho muito correto levando-se em consideração que tradução de poesia é algo muito mais zeloso do que tradução de prosa e ponderando que polonês não deve ser a língua mais fácil do mund de se traduzir.

Bom, e por que os poemas de Wisława Szymborska são bons o bastante para entrar aqui nesse blog? Simplesmente porque são fáceis, no nível de que até uma criança seria capaz de entender e apreciar sua beleza. Essa senhorinha simpática que não larga o pirulito sabor metástase não fica se escondendo por trás de significados ocultos, construções herméticas, jogos de palavras sinistros, e palavreado floreado que ninguém entende. Ela quer simplesmente ser entendida e falar sobre as coisas que lhe são caras, a saber: a vida, a morte, a guerra, a mulher e a própria poesia.

Esse último tema, aliás, é o que eu acho de melhor na poesia da moça, que mostra não só um senso de humor autodepreciativo saudável como também uma leveza de espírito invejável. Szymborska sabe que pouca gente se enteressa pelo tipo de escria que ela e seus colegas poetas realizam, e consegue rir de sua própria impopularidade. É assim, por exemplo, em “Alguns gostam de poesia”, publicado alguns anos antes de ser consagrada com o Nobel:

Alguns –

Ou seja nem todos

Nem mesmo a maioria de todos, mas a minoria;

Sem contar a escola onde é obrigatório

E os próprios poetas

Seriam talvez uns dois em mil

O tema se repete em “O Recital da Aurora”, mais antigo, e ainda mais engraçado:

Musa, não ser um boxeador é literalmente não existir

Nos recusaste a multidão ululante.

Uma dúzia de pessoas na sala

Já é hora de começar a fala

Metade veio porque está chovendo

O resto é parente. Ó musa.

Percebe? Não é nada complicado, é só uma poetisa que sabe que não é lida e faz troça disso com o quê? Com a própria poesia. Esses trechos mostram bem o espírito leve e brincalhão de Szymborska, que faleceu recentemente este ano deixando esse mundo mais carrancudo. Mesmo quando ela fala de coisas realmente tristes, como o nazismo, ela consegue ser leve. Em “Primeira Foto de Hitler”, ela brinca com o bebê do monstro austríaco:

E quem é essa gracinha de tiptop?

É o Adolfinho, filho do casal Hitler!

Será que vai se tornar um doutor em direito?

Ou um tenor da ópera de Viena?

De quem é essa mãozinha, essa orelhinha, esse olhinho, esse narizinho?

De quem é essa barriguinha cheia de leite, ainda não se sabe:

De um tipógrafo, padre, médico, mercador?

Quais caminhos percorrerão estas pernocas, quais?

Irão para o jardinzinho, a escola, o escritório, o casório

Com a filha do prefeito?

Esse é o tom da ironia da autora, que fere sem ferir, e põe reflexão em coisas simples, como a infância de um ditador extremista (algo que Adriana Partimpim copiou depois, talvez sem saber. Talvez, muito provavelmente, ou a moça lê poesia em polonês, por acaso?)

E eu poderia ficar aqui transcrevendo trechos de vários poemas do livro, mas não quero tirar a graça dessa leitura. Porque esse livro de Szymborksa é um daqueles livros fragmentários que você vai descobrindo a graça individual de cada um dos poemas. É como um disco dos Beatles: primeiro uma música dele é a sua música favorita, depois outra, depois outra e depois outra, até que todas as faixas passaram pelo menos uma vez pelo título de canção favorita da banda. Tudo aqui tem o seu valor e nenhuma destas poesias está fora do alcance do leitor comum. Acho que esse é um legado que Szymborska deixa para o mundo da poesia, principalmente num país onde existem pessoas como o Arnaldo Antunes: sê simples e sê palatável, pobre poeta. Nada de querer fazer a nova poesia concretista, o verso livre preso a significados ocultos, o hexâmero dactílico do século 21, pára com essas palhaçadas e sê modesto, que aí quem sabe as pessoas começam a gostar de poesia de novo.

Esse projeto da Companhia das Letras é feito, ao que parece, para uma série de prêmios Nobel majoritariamente poetas, como ela e o Derek Walcott, que foi publicado com seus Omeros (que vai na contramão de tudo que eu acabei de aconselhar). O lance é simples: foto do cabra da peste na capa, código de barra na capa, símbolo do prêmio Nobel na contra-capa e lombada e contra-capa da mesma cor do box com o título. Essa foto da capa que escolheram é um charme. Qualquer senhorinha fazendo essa fumaça com o crivo pareceria a legítima bruxa veia, mas ela parece tão doce e feliz fumando esse cigarrinho que a gente só quer abraçá-la e ficar impregnado com esse cheiro maldito de nicotina. Papel pólen de alta gramatura e fonte Meridien, que até então nunca tinha visto em livro nenhum (ou pelo menos assim me lembro). Maravilhoso livrinho, recomendadíssimo.

Ps: poxa vida, vocês não vão me mandar seus autógrafos?

Comentário final: 165 páginas em papel pólen soft. Tirando as Flores do Mal e a Odisseia, esse é um dos livros de poema que mais machuca se tacado direto na cabeça.