J.M. Coetzee – Juventude (Youth: Scenes from Provincial Life II)

O livro de hoje é especialíssimo, não só porque foi escrito por John Maxwell Coetzee, prêmio nobel de literatura em 2003 (e é meu escritor favorito no momento), como também porque o livro em questão é parte da trilogia cujas primeira e terceira partes estão sendo lançadas agora no fim de abril pela Companhia das Letras. Senhoras e senhores, eu lhes apresento: Juventude!

Juventude é o que chamamos de “romance de formação”: Uma ficção autobiográfica que mostra o desabrochar (ui!) do escritor, seja para a vida literária, seja para um caráter de sua personalidade que reconhecemos em sua obra. A trilogia em questão chama-se Cenas da Vida na Província, e é formada pelas obras Infância, Juventude e, no fim de abril, Verão. A primeira parte já havia sido publicada no Brasil sem muita expressão pela editora Best Seller. Como não li nenhum dos outros dois, ater-me-ei ao que vim.

Juventude narra — ora veja! — a juventude do sul africano John Maxwell Coetzee, do fim de suas faculdades na Cidade do Cabo (em Letras e Matemática), à sua fuga/migração (a coisa estava mal para os africâneres naquela época) para Londres, onde passou a trabalhar para a IBM. Isso em 1962, época em que quase ninguém havia visto um computador na vida. O livro, narrado em terceira pessoa sobre ele próprio, é melancólico e exprime uma sensação desagradável, como os seus demais livros. Me marcou por motivos pessoais a passagem em que ele diz que assinala um S nos dias do calendário em que passa em mais absoluto silêncio, sem conversar com ninguém, simplesmente porque não conhece viva alma em Londres e DDI naquela época era um luxo.

Curioso perceber nesse livro, já que foi o único autobiográfico que li sobre ele, como o autor não esconde sua incapacidade para lidar com as pessoas e como se sentia inferior aos colegas de faculdade que dominavam as leituras clássicas na palma da mão (parece que isso mudou e que Coetzee é agora um cara arrogante, embora continue inapto para relações interpessoais).

Li poucos romances de formação (em 2007 encarei a Trilogia da Crucificação Rosada, do Henry Miller), mas Juventude, por mais curtinho que seja, é tocante. Saber que esse sujeito grandioso que é J.M. Coetzee labutou igual nós, reles mortais, numa cidade fria e esquisita que nem Londres numa rotina massacrante, para depois se tornar o rockstar (ele é o mais próximo que eu tenho de um ídolo) que é hoje é realmente animador. Dá-nos a possibilidade de viajar na maionese e aspirar a um pouco mais.

O ruim desse livro, como no livro do Tezza, é achá-lo. Se tiverem sorte, a livraria do Chaim deve ter um ou dois exemplares sobrando dele. Fora isso, internet. A coleção dos livros do Coetzee depois que ele ganhou o Nobel é simplesmente foda. Fonte Electra (um viva pra essa fonte e um Chicabon pra quem me descolá-la) é sempre bem vinda. Telas do sensacional Fábio Miguez (Google já, seu ignorante!) estampam as capas dos oito livros lançados por essa coleção. Por alguma razão que me foge, a Companhia das Letras está reformulando as capas de seus livros. Diário de um Ano Ruim foi lançado com uma capa meio esquisita e até Desonra ganhou uma nova edição com uma capa parecida. Verão vai ter ainda um outro estilo, diferente de todos os outros. É bonito, mas preferiria ter algo mais harmônico na minha estante. É coisa de maluco, eu sei.

Ah, o Irinêo Netto, editor da Gazeta do Povo, escreveu uma excelente resenha de Verão. Recomendo. Leia aqui.

Comentário Final: 184 páginas pólen soft. Sortudo vai ser quem apanhar com esse livro!

Chimamanda Ngozi Adichie – Meio Sol Amarelo (Half of a yellow sun)

Devo confessar que minhas expectativas sobre esse livro quase foram a sua ruína antes da hora. Foi preciso que eu parasse, refletisse sobre a intenção dele, para então começá-lo de novo e dessa vez, sim, entender a proposta da jovem escritora Chimamanda Adichie com Meio Sol Amarelo. A escritora foi minha porta de entrada para a literatura nigeriana (não posso fazer nada se resolveram publicar um livro do Chinua Achebe só no ano passado), e por isso, esperava que o livro não só me apresentasse o estilo da literatura do país, mas também a identidade nigeriana. E foi burrice minha, já deveria saber que literatura nenhuma tem obrigação a buscar esse tipo de coisa para o leitor.

Por outro lado, como J.M. Coetzee muito bem colocou na segunda palestra do romance Elizabeth Costello, o romance africano é escrito quase que exclusivamente para estrangeiros, visto que a população de leitores no continente é muito baixa. Sendo assim, o romancista africano deve construir, em todo livro, uma imagem da África que seja coerente com a idealização que nós, não-africamos, temos do continente, seja ela qual for. E não que Adichie não tenha feito isso. O problema (para mim, em um primeiro momento, pelo menos) era que esse não fosse o foco da obra.

Meio Sol Amarelo conta a história de um grupo de pessoas — mais especificamente duas irmãs, Olanna e Kainenne, que, no final da década de 60, separaram-se ideologicamente por conta da guerra civil que culminaria com a fundação de Biafra, o estado independente do povo ibo que existiu por três anos, até sua dissolução, em 1970. Enquanto o grupo, que é formado também por um jornalista inglês e um menino do interior do país, luta para sobreviver, rolam umas brigas familiares e um troca-troca de casais que eu achava que não tinha nada a ver com a história.

Acontece que justamente a briga familiar e o troca-troca de casais é a verdadeira história do livro. A guerra civil foi o momento histórico que costurou todo o enredo e foi responsável pelo desfecho de cada um dos personagens, mas não era a intenção da escritora entrar em muitos detalhes sobre o episódio (embora haja sim, algumas discussões políticas). Para fazer um comparativo de fácil compreensão, eu estava irritado como um alemão que pega o Tempo e o Vento, do Érico Veríssimo, para ler, e espera tomar conhecimento de cem anos de política nacional. Foi aí que percebi o porquê de Meio Sol Amarelo ser um Best-seller da língua inglesa (mais de 320 mil exemplares, se não me engano). Quem lia esse livro, o lia como um romance de amor em tempos difíceis, como um desses dramas de guerra ou algo assim. Um evento histórico que muda a vida de algumas pessoas. Mas nunca como uma análise sobre o episódio.  E assim, entendida essa questão, preciso dizer que a leitura da moça não é capaz de pegar na veia.

Talvez esteja fazendo uma leitura muito simplória desse livro, mas acredite, já tentei fazer a leitura mais difícil dele também. Traduzido para 27 línguas, ganhador de alguns prêmios (entre eles o Orange Prize, que só dá prêmio pra esse tipo de livro, quase), uma belíssima publicação da Companhia das Letras que — pasmem vocês — não teve a capa feita pelo João Baptista da Costa Aguiar (foi uma artista chamada Mayumi Okuyama, que fez algumas outras capas, como o do livro A Outra Vida, do escritor Rodrigo Lacerda), tudo isso não fez a obra bater no coração. Mas tudo bem. Não deixa de ser uma boa leitura só porque não é especial.

Comentário final: Pesadas 502 páginas pólen soft. Quebra umas costelas facilmente.