Mario Vargas Llosa é Nobel de literatura!

Dia glorioso, minha gente! Vocês estão vivendo para ver o peruano Mario Vargas Llosa levar para casa um Nobel de literatura! Quem sabe, sabe que, em minha resenha do Pantaleão e as Visitadoras, havia dito que ele nunca ganharia, injustiçadamente, por ter uma visão política de direita. Bom, queimei a língua nessa, mas a decisão de Estocolmo foi surpreendente.

Desde que comecei a gostar de literatura, é a primeira vez que um escritor que admiro muito e cujo trabalho acompanho sempre vence o prêmio. E, diga-se de passagem, o prêmio foi mais do que merecido. Com um domínio de técnica sobre todos os estilos (que tanto já mencionei aqui), suas tramas excelentes e a veia cômica que se mistura a uma brutalidade narrativa, Vargas Llosa é um escritor completo. Palmas pra ele, que ele merece! Vargas Llosa é como um pai para o Livrada!, que completa seis meses amanhã, com uma média de visitas que não para de crescer, leitores novos, amigos novos, e gente que me liga e me manda mensagem pra avisar sobre o prêmio Nobel. Valeu, todo mundo!

Leia as resenhas de Vargas Llosa já publicadas:

Tia Julia e o Escrevinhador

Pantaleão e as Visitadoras

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Yasunari Kawabata – O Lago (Mizuumi みづうみ)

MizuumiCantemos felizes a canção do dia, hoje é quarta feira, dia de alegria! Crianças, hoje é um dia muito especial! Trata-se do casamento do amigo Cássio “Cabôco” Capiroba com a amiga Denise! Parabéns aos noivos! Por isso hoje eu vou escrever essa resenha rapidinho, porque estou saindo para dar uma palestra na faculdade e depois vamos comemorar na churrascaria e comer até perder a dignidade! O meu tipo ideal de programa: ver os amigos, abater algumas almas no curral, comer até o toba fazer bico e celebrar a vida, que pode ser muito boa, basta querer… ir até uma lotérica e fazer aquele joguinho campeão.

Passado o nariz-de-cera de praxe, vamos ao que interessa: literatura japonesa! Sabem, a literatura japonesa é muito parecida com a comida japonesa: é pequenininha, não sacia muito, é tudo meio-morto-meio-vivo, tem que ser muito delicado pra apreciar e é tida como coisa de gente fresca e/ou muito esquisita. Mas vamos mudar isso tudo! Vamos fazer as pessoas lerem mais esses “japas matadores de baleia”, como gosta de lembrar meu camarada Michel “Le Chackal” Melo (ele falaria agora “você é um camarada!”). A literatura japonesa pode ser muito rica se nós abrirmos nossos olhos para ela (“abrir os olhos”, hã? Hã?). Falo em abrir os olhos porque é preciso ver a literatura com os zóio certo. Explico um pouco sobre isso antes de tratarmos do livro em questão.

Como qualquer cultura distante da nossa, podemos encarar a coisa de duas formas: sob um véu de misticismo, achando aquilo tudo uma onda mutcho loka, uma viagem a outro planeta (e sério, os japoneses são o povo mais próximo do povo marciano que vocês vão ver, então contentem-se), e por isso, apreciar cada detalhe que nos distancia daquele universo. Ou, ao contrário, enxergar um autor japonês como enxergaríamos um autor ocidentalizado, como um mexicano desbotado. Isso! O japonês é um mexicano desbotado! Podem começar a circular essa frase pela internet dizendo que foi o Luis Fernando Verissimo que escreveu. O que queria dizer é que podemos tirar todo exotismo presente e encararmos aquilo como mais um livro. E, acho eu, a melhor das opções é a segunda, pois é só assim que você consegue se aprofundar na história sem ficar todo bobão olhando pros lados e tirando foto de tudo igual ao estereótipo do turista de camisa florida e bermuda branca. E claro, deixar-se maravilhar pelo universo totalmente diferente que está sendo apresentado a você, mas nunca deixar que isso barre você às portas da percepção do romance. Explicado então, continuemos.

O Lago é um romance do Kawabata publicado originalmente em 1954, no ano daquela Copa em que a gente tomou sacode nas quartas da Hungria. DA HUNGRIA! Pela madrugada, e depois reclamam do Dunga… Bom, a história fala de um ex-professor, o senhor Ginpei, que é, na melhor definição, um stalker. Ele acha que encontrar as gatinhas na rua é muito triste porque o encontro está já fadado a ser efêmero pela sua casualidade, então resolve colar no calcanhar das moças e sair bancando o sombra. A partir daí, Kawabata vai contando as histórias dessas moças seguidas, mostrando que o narrador onisciente é o stalker mais bem sucedido que existe. O desdobramento das histórias, na relação direta com o professor Ginpei, é de doer o coraçãozinho. Só lendo pra ver.

Yasunari KawabataGosto nesse livro excepcionalmente do comecinho, quando ele vai a uma casa de banho e uma moça começa a lhe esfregar as orelhas, os pés, dá banho nele e o escambau. É uma parada relaxante só de ler. Acho que é isso que Kawabata queria com aquela corrente neo-sensorialista que ele defendeu no Japão, a tal da shinkankakuha. Ele realmente consegue te levar numa montanha russa de sentimentos, o mais próximo que nós, a macharada, vamos chegar da TPM.

Diz lá na orelha que Ginpei é muito diferente dos outros personagens do Kawabata por ser destruído e doentio, mas eu acho que, muito pelo contrário, ele é o típico personagem do autor. Primeiro, qual personagem do Kawabata não é doente da cabeça? Garanto que, se analisar bem analisado, o sujeito bate pino mesmo. Segundo, o Ginpei é maluco-beleza, gente. Inofensivo e sensível à presença feminina, como Eguchi, como o sujeito sem nome da Dançarina de Izu, enfim, Kawabatiano (hahaha mentira que eu falei isso, esquece).

O projetinho da Estação Liberdade é realmente gracioso. A coleção do Kawabata inteira é. Apesar do papel pólen soft e da fonte Gatineau, que não combina em nada com a folha, os livros tem um acabamento bom, capas a partir de imagens de Midori Hatanaka, feitas em folhas de ouro, ideograma com o título original na capa e na página 7, e uma tradução que erroneamente pensei que fosse grossa conosco ocidentais, ao me ver sem saber o que era um furoshiki. Mas foi só isso e, de resto, notas de rodapé esclarecedoras fazem a leitura muito mais familiar para quem tem olho redondo.

PS1: Japoneses do meu Brasil. Tudo bem que brinquei e fiz algumas piadas com vossa honorável etnia mas, por favor, sem mandar eu lavar o meu pescoço, isso aqui é só uma brincadeira e, se vocês olharem bem, não falta sacanagem pra ninguém por aqui. Gosto muito de vocês, viu?

PS2: Tô vendendo meu PS2, vem com memory card e uns 30 jogos. Tratar aqui.

PS3: Não quero comprar até que tenham inventado o Blu-Ray pirata.

PS4: Ainda dá tempo de enviar a foto da sua estante de livros para o bloglivrada@gmail.com Manda lá, cabra da peste!

PS5: Assinem o RSS! Ou sigam-me no twitter: @bloglivrada. Gracias.

Comentário final: 163 páginas offset. É como jogar betes com hashi, não vale a pena.

Saul Bellow – Henderson, o rei da chuva (Henderson, the rain king)

Henderson, o rei da chuvaE aí, meu povo. Olha, antes de mais nada, queria agradecer de coração ao pessoal que divulgou o blog no twitter, no orkut, em seus blogs pessoais, verbalmente, enfim, a galera que se esforçou para dividir com os outros esse gostinho amargo de ler esse blog zoadão. Reforço o pedido: continuem divulgando e aumentando a comunidade de leitores aqui desta bagacinha. Quem sabe um dia a parada cresce mesmo, e aí vocês vão dizer “eu *cof cof* era leitor desse blog há muuuito tempo, meu netinho… na época esse Yuri era um sujeito legal, não era esse esnobe metido a besta que é hoje…”.

Mas, vamos aos trabalhos. Henderson, o rei da chuva! Fala sério, o sujeito que não fica um tiquinho curioso para ler um livro com esse título é um frio desalmado do caraças. A genialidade do escritor canadense radicado nos Estados Unidos filho de judeus russos (depois brasileiro que é tudo mexido) começa no título, e foi pelo título que esse cara me fisgou. Ganhei esse livro de dia dos namorados (que foi? Não me diga que ganhou uma Jabulani!?) da Carlinha e li ele durante esse mês inteiro, só me arrastando na leitura. É amigos, não tenho mais o viço de ler trocentos livros, mas tudo bem.

E aqui vou contar um pouco do livro. Não é spoiler, mas conto algumas coisas do livro, portanto, se quiser passar, te vejo no próximo parágrafo. Pois bem. A história fala de um tal Eugene Henderson, milionário, fanfarrão, sexagenário, veterano de guerra que, após uma vida conturbada quase que unicamente pelo seu temperamento instável, resolve se mandar para o… eu ia dizer coração da áfrica, mas o lugar pra onde ele foi tá mais perto de ser o cu do continente. Ele se mete num buraco esquecido pelo mundo e conhece duas tribos: os Arnewi, amistosos e simpáticos, porém muito coitadinhos, e os Wariri, arredios e excêntricos, porém com um rei extremamente cativante. Os Wariri tem um ritual muito interessante: o rei Dahfu, com dezenas de esposas, deve sempre dar no couro, caso contrário suas donas-encrenca denunciam ele para uma figura chamada bunam, que o leva para a floresta e o estrangula. O ritual de passagem para o próximo rei é que é interessante, e envolve a captura de um leão. Os Wariris são bastante crentes nos poderes do leão, e aí só lendo mesmo pra saber do que eu estou falando, porque estragar as surpresas mais do que eu já estou estragando aqui é muita sacanagem.

Nesse universo esquisitão, Henderson tenta preencher o vazio de sua alma, seu sentimento de inadequação em relação à vida, o seu “grun-tu-molani”, expressão Arnewi do livro dificílima de explicar (vale um mestrado aí, filósofos de plantão), a grosso modo quer dizer “homem quer viver”, o sujeito do eterno vir a ser. Com o rei dos Wariri, Henderson discute essa sua condição em diálogos profundos porém não maçantes. Esse é outro ponto forte do livro: ele é denso sem ser chato. Muito pelo contrário. Com doses certas de ação e suspense, o livro é extremamente emocionante, daqueles que você custa a largar. Sem sacanagem, um dos melhores que eu já li.

Saul BellowEventualmente a gente se depara, na literatura, com personagens tão perfeitos, tão bem construídos, que você custa a acreditar que é tudo inventado. É assim com o tragicômico Henderson, o rei da chuva. Eugene é nível 9 na escala Rodrigo Terra-Cambará de perfeição em caráter de personagem, mas, pensando bem, assim é o livro inteiro. Eu não sei se Saul Bellow viajou mesmo pra esses lugares, ou estudou alguma coisa sobre esses povos, mas a descrição que ele faz das tribos, da áfrica, do comportamento de seus líderes e dos rituais, é algo pra fazer cair o queixo no dedão do pé. Talvez seja isso que fascina a gente na literatura afinal. Se não, é com certeza algo que faz alguém ganhar o prêmio Nobel de literatura, como Saul Bellow ganhou em 1976.

Essa edição da Companhia das Letras tá no padrão da editora, com papel e capa que lhe são peculiares. Mas tenho uma crítica: a revisão do livro não foi das melhores mesmo. Várias palavras erradas, um jogo de palavras que foi traduzido de duas maneiras diferentes (ammargruha e bittahcidade, aparecem as duas formas no livro), e conte só quantas vezes a condecoração militar Purple Heart foi escrita como Purple Haze (será que tinha alguém doidão ouvindo Hendrix por lá?). Mau, muito mau, esse tipo de coisa dá um baque na leitura que a gente nem imagina.

Por fim, eu não sou muito de fazer isso, mas vou transcrever um trechinho de um diálogo do rei Dahfu que me impressionou muito, para dar o gostinho da leitura para vocês. Sem aspas iniciais porque esse texto já vai ficar cheio de aspas naturalmente:

“Dizem”, prosseguiu, “que o mal pode facilmente ser espetacular, que com seu ímpeto e fanfarronice impressiona o espírito mais facilmente do que o bem. Oh, isso a meu ver é um engano. Talvez seja verdade no que se refere ao bem corriqueiro. Muitas e muitas pessoas ótimas. Oh sim. Sua vontade lhes ordena praticar o bem, e elas o praticam. Como isso é comum! Mera aritmética. ‘Deixei de fazer os etceteras que deveria ter feito, e fiz os etceteras que não devia’. Isso não chega a valer uma vida. Oh, como é sórdido manter um registro de custo-benefício. Minha visão é totalmente oposta: o bem não pode significar oposto ou conflito. Quando ele é grande e elevado, é também superior. Oh, Sr. Henderson, é muito mais espetacular. Tem a ver com inspiração, não com conflito, pois ali onde o homem entra em conflito, ele cai, e quem empunha a espada também morre pela espada. Uma vontade estúpida produz um bem muito estúpido, desprovido de interesse. Onde o homem traça uma linha de frente numa guerra, é ali que ele tem tudo para ser encontrado, morto, um atestado de grande força e sacrifício, mas só de sacrifício”. (página 205)

Comentário final: 413 páginas pólen soft. Afunda o esterno do camarada.

J.M. Coetzee – Juventude (Youth: Scenes from Provincial Life II)

O livro de hoje é especialíssimo, não só porque foi escrito por John Maxwell Coetzee, prêmio nobel de literatura em 2003 (e é meu escritor favorito no momento), como também porque o livro em questão é parte da trilogia cujas primeira e terceira partes estão sendo lançadas agora no fim de abril pela Companhia das Letras. Senhoras e senhores, eu lhes apresento: Juventude!

Juventude é o que chamamos de “romance de formação”: Uma ficção autobiográfica que mostra o desabrochar (ui!) do escritor, seja para a vida literária, seja para um caráter de sua personalidade que reconhecemos em sua obra. A trilogia em questão chama-se Cenas da Vida na Província, e é formada pelas obras Infância, Juventude e, no fim de abril, Verão. A primeira parte já havia sido publicada no Brasil sem muita expressão pela editora Best Seller. Como não li nenhum dos outros dois, ater-me-ei ao que vim.

Juventude narra — ora veja! — a juventude do sul africano John Maxwell Coetzee, do fim de suas faculdades na Cidade do Cabo (em Letras e Matemática), à sua fuga/migração (a coisa estava mal para os africâneres naquela época) para Londres, onde passou a trabalhar para a IBM. Isso em 1962, época em que quase ninguém havia visto um computador na vida. O livro, narrado em terceira pessoa sobre ele próprio, é melancólico e exprime uma sensação desagradável, como os seus demais livros. Me marcou por motivos pessoais a passagem em que ele diz que assinala um S nos dias do calendário em que passa em mais absoluto silêncio, sem conversar com ninguém, simplesmente porque não conhece viva alma em Londres e DDI naquela época era um luxo.

Curioso perceber nesse livro, já que foi o único autobiográfico que li sobre ele, como o autor não esconde sua incapacidade para lidar com as pessoas e como se sentia inferior aos colegas de faculdade que dominavam as leituras clássicas na palma da mão (parece que isso mudou e que Coetzee é agora um cara arrogante, embora continue inapto para relações interpessoais).

Li poucos romances de formação (em 2007 encarei a Trilogia da Crucificação Rosada, do Henry Miller), mas Juventude, por mais curtinho que seja, é tocante. Saber que esse sujeito grandioso que é J.M. Coetzee labutou igual nós, reles mortais, numa cidade fria e esquisita que nem Londres numa rotina massacrante, para depois se tornar o rockstar (ele é o mais próximo que eu tenho de um ídolo) que é hoje é realmente animador. Dá-nos a possibilidade de viajar na maionese e aspirar a um pouco mais.

O ruim desse livro, como no livro do Tezza, é achá-lo. Se tiverem sorte, a livraria do Chaim deve ter um ou dois exemplares sobrando dele. Fora isso, internet. A coleção dos livros do Coetzee depois que ele ganhou o Nobel é simplesmente foda. Fonte Electra (um viva pra essa fonte e um Chicabon pra quem me descolá-la) é sempre bem vinda. Telas do sensacional Fábio Miguez (Google já, seu ignorante!) estampam as capas dos oito livros lançados por essa coleção. Por alguma razão que me foge, a Companhia das Letras está reformulando as capas de seus livros. Diário de um Ano Ruim foi lançado com uma capa meio esquisita e até Desonra ganhou uma nova edição com uma capa parecida. Verão vai ter ainda um outro estilo, diferente de todos os outros. É bonito, mas preferiria ter algo mais harmônico na minha estante. É coisa de maluco, eu sei.

Ah, o Irinêo Netto, editor da Gazeta do Povo, escreveu uma excelente resenha de Verão. Recomendo. Leia aqui.

Comentário Final: 184 páginas pólen soft. Sortudo vai ser quem apanhar com esse livro!