Liev Tolstói – Anna Kariênina (Анна Каренина)

Анна КаренинаFoi mal aí, meus queridos. Mais um fim de semana sem que vocês tivessem o privilégio de ler uma resenha tão bem abalizada aqui no Livrada! Hohohoho a vida segue e tenho certeza de que vocês me entendem e que, no final, não faz diferença pra ninguém. Quem ficar muito decepcionado com a falta de posts por aqui pode dar um clique ali em cima no “post aleatório” e dar umas risadas de piadas aleatórias de livros aleatórios. Ô vida aleatória da gota!

Enfim, pra não deixar a peteca cair, vamos dissecar aqui mais um clássico canônico imortal intocável vaquinha indiana da literatura. Anna Kariênina, meus caros. Todo mundo que gosta de um bom projeto gráfico, como eu, já apalpou a nossa amiga Anna, mas pouca gente a encara. Sim, meus amigos, Anna Kariênina é a Valesca Popozuda da literatura: todo mundo zoa, grita “gostosa”, mas chamar na chincha ninguém quer. E os motivos são muito claros. Assim como a Valesca, a Anna também é volumosa, e o conteúdo pode não valer muito o investimento. Mas vamos por partes.

Anna Kariênina foi um livro escrito por Liev Tolstói, o homem do saco que ficava pedindo um agasalho da campanha do agasalho ali perto da estação de trem em meados de mil oitocentos e setenta e poucos. Nessa época AINDA não existia luz elétrica (o lance tava começando a pegar entre os moderninhos, mas macho que era macho ficava só no candelabro), pasta de dente, perfume pra sovaco, depilação e a moda do momento era a tal nova massagem shiatsu, então imagine você que época cretina pra se viver. Não tinha essa de “ai, esse cara tem o pescoço muito comprido”, “ai, essa menina é meio gordinha”, e outras frescuragens que a vida moderna forneceu à geração Y. Filhote, lambia os beiços quem achava uma alma gêmea com todos os dentes na boca, morô?

A história se passa, portanto, nessa época. E fala de uma coisa que qualquer novela das seis joga em algum núcleo: de como quem é rico é infeliz se não encontra por aí uma boa bimbada. Anna Kariênina é uma moça linda, chiquérrima, luxuosa, mora numa mansão, torra o cartão de crédito do marido no shopping cazamiga, faz festinha de aniversário pro cachorrinho, matricula o filhote na aula de judô, enfim, é uma dessas peruas que a gente vê todo dia na rua dentro de um Honda Fit com a traseira amassada. Mas, ao contrário do que tudo indica, falta algo na vida de Anna, e não é um numerólogo, haja visto que seu nome tem dois enes. Por isso, algo estranho acontece em seu coração quando ela, na estação são bento, av. são João, conhece o Conde Vrónski, um oficial que na minha cabeça simplesmente é a cara do professor Girafales: altão, cheio dos trejeitos, se achando o gostoso e muito, mas muito, carente de strondar com as potranca. E aí começa o lance todo de amor extra-conjugal da protagonista.

Pronto, já sabem de quase toda a história, menos o final porque eu não vou contar. Não sou estraga-prazeres que nem o Milan Kundera que contou o final do livro n’ A Insustentável Leveza do Ser. E aí nesse chororô de mulher casada e cansada de ser casada, vão-se boas 900 páginas. Isso porquê Tolstói queria, muito mais do que contar a história de uma moçoila meio biscatinha, fazer um panorama e uma crítica abalizada da alta roda de sua época. E isso é legal pra gente ver que, enquanto os economistas e publicitários se desdobram em pesquisas de mercado para avaliar o perfil da nova classe média, não há nada de novo no front da aristocracia. Aliás, é assim com quase todo livro escrito antes do século XX. É por isso, inclusive, que o homem do saco abre o romance com as célebres frases: “Todas as famílias felizes são iguais. As infelizes o são cada uma à sua maneira”. Vê-se logo que o cara queria discutir as aparências, afinal, que famílias felizes iguais são essas senão absolutamente todas? Ora, Tolstói nunca viu um comercial de margarina na vida, não nutria ilusões sobre a vida dentro da caixa mágica. Estava falando mesmo era de todas as famílias infelizes que se esforçavam para ser feliz da mesma maneira.

Agora, honestamente, se me perguntarem se o livro vale a pena ser lido, eu respondo: “tá frio hoje, né? E o nosso Mengão?”, porque, na moral, depende do que cada um quer pra sua vida. Se quer estudar os russos, que valem muito a pena ser estudado, então leia. Se quer ler uma história bem escrita, então leia. Se quer ostentar uma lombada pra ver consegue bater saco com as pussy por aí, então leia. Agora, se quer ler uma história interessante, vou dizer que a vida é curta, que a gente tem que parar e cheirar as flores de vez em quando, que não dá pra abraçar o mundo, etc. Ler quem quer, meu irmão, mas não admito, e vou defender isso até o fim, que alguém lhes diga que existe a tal da “leitura obrigatória”. Obrigatório é comer, respirar, ter direitos humanos e chances de competir nesse mundo canis canem edit. Ler é pra quem quer, quem gosta, e, ao contrário do que eu falo pra CERTAS PESSOAS, você é livre pra ler o que quiser, e pra não ler o que não quiser.

Mesmo assim, há de se ressltar as qualidades da obra. Primeiro, é um livro que, mesmo parecendo que se está narrando de longe, olhando o quadro inteiro (eu fico abismado de ver esses autores que conseguem orquestrar uma cena com um zilhão de personagens), consegue uma leitura psicológica muito grande dos personagens, e não é com descrição do que eles estão sentindo. Tolstói constrói passados para eles, e narra trechos de suas vidas que permitem concluir coisas sobre os sujeitos, e justificar futuros atos deles. E mete uns trechos de dar arrepio no meio do tipo “como se as lágrimas fossem um lubrificante indispensável para o bom funcionamento da máquina das relações entre elas…”. Queria ver um cara criar uma parada dessas em algum “se vira nos 30” do Faustão.

A onisciência do narrador também é pra f**** o c* do palhaço. Fazendo omissões intencionais, ele dá a medida exata do que quer que a gente conheça. Olha só essa passagem, de quando uma das dondoquinhas quer pagar de pedante: “E perder a Nilsson? – horrorizada, perguntou Betsy, que jamais conseguiria distinguir Nilsson de uma corista qualquer”. Olha a crueldade do homem do saco! Ele não disse nem “jamais conseguiu distinguir”, disse “jamais conseguiria”. Duvidou da capacidade de discernimento da personagem, chamou o pai de empada a mãe de coxinha, pegou os dois e fez uma orgia em cima da constituição! Tolstói era mesmo o Dr. House da literatura: fodão e escroto.

Veja essa última passagem, que resume bem os dois aspectos que mencionei. Sobre o incômodo que Vrónski sentia na presença do filho de Anna: “O menino, com o seu olhar ingênuo para a vida, era a bússola que lhes mostrava o grau do seu desvio daquilo que eles sabiam, mas não queriam saber”. Tomou, papudo? Tolstói usa o filho da mulher pra fazer ela perceber o quanto tão passando dos limites. Bah, tchê, palmas pro bagual.

Sentiram que essa resenha foi um pouco mais detalhada, né? Tem uma razão: primeiro que eu queria fazer um texto mais longo pra compensar o da semana passada, assim vocês podem lê-lo aos poucos durante a semana. Segundo porque as primeiras partes desse livro eu li fazendo alguns fichamentos sobre a obra (e olha que eu li antes desse blog), e isso me ajudou agora. É por isso.

E esse projeto gráfico da Cosacnaify hein? É especial ou não é? Eu ganhei esse livro da minha mãe no natal de 2009, e deve ter sido um dos últimos exemplares desse vendido. Além da capa dura, tem uma caixa de papelão onde você guarda o tijolaço. Depois a Cosac fez outra capa, em sépia, e dispensou a caixa que, enfim, é mais bonita que a capa. De qualquer jeito, essa capa dura, marcador de fita… tem escritor que venderia a alma pro tinhoso pra ter um projeto gráfico desses. E, se é verdade que o Paulo Coelho fez mesmo o tal pacto, a alma dele não deve valer muita coisa, pois o único livro dele de capa dura é aquele O Vencedor Está Só. Tolstói não era fraco, e o livro é um de seus maiores sucessos. Tanto que virou três filmes. Não uma trilogia, mas três adaptações. Ou uma adaptação e dois remakes. Aliás, me deu uma dor no coração de saber que vão fazer um remake hollywoodiano de Os Sete Samurais, e dessa vez não é faroeste. Tem gente que não vale o chiclete que masca mesmo. Enfim, já me estendi demais, até a próxima.

Antes disso, uma promoção relâmpago: Nosso anunciante, Victor Almeida, quer fazer um sorteio de seu maravilho livro Juntos no Paraíso (que em breve comento). Então, o comentário de número 1300 leva. Alea jacta est (não confunda pato a tucupi com entupir o cu do pato em latim. Sô eterno nesse latim).

Ps: Desculpa na demora em responder os comentários, mas vou responder todos do post anterior, ok?

Comentário final: um porrilhão de páginas pra rachar dente, crânio, cara, boca, dignidade, espírito, almaaaaaaa!

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Nelson Rodrigues – A vida como ela é…

Nelson Rodrigues! Essa pessoa amabilíssima, agradável, que quase nunca fala merda, que ama e dá aos pobres, que não faz ideia errada da gente, esse moço, pobre moço, que teve o azar de morrer no dia em que ganhou na loteria. Nelson Rodrigues era dessa época em que jornalista não era gente, salário não era dinheiro e dignidade não era poder (tá, isso não faz o menor sentido). O que eu quis dizer é que ele era daquele time de escritores enfurecidos que batiam as teclas até gastar as falanges. E como escrevia, este velhus decreptus. Como a época exigia quantidade em detrimento da qualidade, Nelson padronizou sua escrita.

Manja aqueles desenhos da Hanna-Barbera? Cenários que rolam ao fundo, cabeças que mexem enquanto o corpo fica parado pra não gastar com animação (isso, aliás, gerou toda a sorte de bizarrices como dinossauro de gravata, crocodilo de gravata, leão de gravata… Êta bicharada escrava do colarinho!) e eteceteras malandronas que colocaram a beleza dos desenhos da MGM numa situação inviável. Bom, Nelson Rodrigues fez algo parecido com seus textos. Elementos que sempre retornam, ideias que são marteladas, personagens frequentemente visitados, tudo isso fazia o ofício de sentar ali e escrever qualquer merda por dia uma coisa mais fácil.

Variações sobre mesmo tema. Eis o segredo do escritor em A vida como ela é… e outros textos. Assim como as letras de axé, as novelas do Manoel Carlos e os acordes dos Ramones, tudo em Nelson Rodrigues parece ser gerado por um software especializado. Mas pera lá, camarada! Isso não quer dizer que a obra do velhaco não tenha seu valor, muito menos que seja uma obra ruim. Nelson Rodrigues era foda, acho bom ninguém discutir nesse ponto. E A vida como ela é… taí pra martelar o dedo de quem discordar.

Historietas sobre os recalques da classe média e alta, tabus mil, tudo o que há de podre no reino da Dinamarca esse corno escreveu. Fica difícil criar alguma coisa depois disso. No livro, cem, eu disse CEM continhos estão publicados, e olha que não foram todos.

Ler esse livro de cabo a rabo (quem curte expressões de livro como “ler de cabo a rabo”, “ler numa sentada”, etc? Levanta a mão aí!) pode te causar náusea, e até mesmo odiar o autor. Vai dizer “porra, tudo a mesma coisa!”. Mas isso é pra você (e claro, pra mim. Eu só pareço velho), que não lia toda semana o seu espacinho no jornal. Por isso meu conselho é deixar esse livro na cabeceira e de vez em quando, ler algum.

E que coisas estranhas essas historinhas guardam! Meninas que morrem subitamente, com um golpe de ar — sério, que povo fraco é esse do meu Brasil?; mulheres que tratam seus maridos de “meu filho” como hein “Ih, meu filho, sua batata tá assando”. Gente que responde taxativamente “É batata!” pra tudo. “E ela morreu assim, subitamente, com um golpe de ar?” “Batata, meu filho!”. E tem mais, tem mais: gente que fica repetindo a mesma frase pra dar ênfase como em “E tem mais, tem mais!”; sujeitos com leves tendências pedófilas que chamam as gostosas de “pequena”; gente que fala “Tu és de morte”; motoristas de ônibus que atropelam os outros sem dó; garçonières em Copacabana, de amigos alcoviteiros (talvez naquela época Copacabana não fosse o lugar onde as pessoas mais eram vistas na face da terra); cartinhas anônimas pro corno lerdo, enfim, todo um universo que se repete e se rearranja de todas as maneiras possíveis. Isso, meus queridos, é Nelson Rodrigues em A vida como ela é… E nem me fale daquela versão televisiva que passava no Fantástico e era narrada pelo Zé Wilker, que aquilo me dá nojo. Melhor ler o livro mesmo.

O motivo principal pra preferir a história no livro do que na boca mole do Zé Wilker é essa edição da editora Agir. A editora Agir não era nada antes de ser comprada pela Ediouro. Deu uns cinco minutos nessa editora em 2004 em que tudo mudou! A cada dia me surpreendo mais com os projetos gráficos dela, e com a escolha de autores também. Fizeram esse livro gigantesco, lindo para o ano em que ele foi lançado (tem que ver que há uns dois anos fazer livro virou coisa séria pras editoras), apesar do MALDITO papel offset, de gramatura baixa ainda. De qualquer jeito, vale pela capa e pela falta de economia nas páginas. Mas não tente carregar ele por aí, você só vai se fuder, e seu massagista vai ficar rico.

SOBRE A PROMOÇÃO: Tô gostando de ver a galera comentando aí. O comentário de número 500 vai ganhar o livro Plataforma, do francês boiolinha Michel Houellebecq. Literatura de primeira para os meus leitores de primeira (sentiu a puxada de saco? Então comenta aí, cacete!).

Comentário final: 605 páginas em offset. O livro que extinguiu os dinossauros.