Ernest Hemingway – Adeus às Armas (A Farewell to Arms)

farewell to armsSei que todo mundo vibra de emoção por aqui quando eu começo a falar de um clássico moderno da literatura. Quer dizer, saber, eu não sei. Eu suponho, já que geralmente são os comentários mais alardeados sobre o assunto, e não vejo ninguém vibrando por livros mais desconhecidos ou clássicos clássicos, desses que na grafia do português original é cheio de acento onde não deve. Bom, clássicos modernos são esses livros que todo mundo gosta de ler mas não necessariamente são tão bons assim. Alguns gostam mais e enchem de porrada quem fala mal e outros gostam menos e passam a vida esgueirando-se pelos cantos para não ser apontado e escurraçado na rua como “o sujeito que falou mal de Camus” ou “aquele cara que não curte Cortázar” e por aí vai. Fato é que é muito difícil identificar um clássico moderno como tal porque não há outro parâmetro a não ser o gosto popular e o quanto ele discutido em sala de aula por crianças que não têm idade para lê-lo. Mas, acredito eu, que Hemingway seja um desses autores clássicos modernos que alimentam a alma de pessoas intelectualmente díspares e frequentemente pelas mesmas razões.

Senão vejamos: Adeus às Armas foi publicado em 1929 e, salvo engano, foi um dos primeiros livros ambientados na Primeira Guerra Mundial, o que já mostra um delay grande da literatura em relação a outras artes representativas, porque o que surgiu de filme sobre o onze de setembro uns dois ou três anos depois não tá no gibi. Mas onde é que eu estava? Ah sim. Bom, Hemingway, no fim da Primeira Guerra, era um jovem mancebo de 17 anos, mas isso não o impediu de se alistar como motorista de ambulância na Itália. Coincidentemente, olha só, o protagonista do livro também é um americano motorista de ambulância na Itália a serviço dos italianos. Frederic Henry é um cara jovem e inacreditavelmente neutro para um protagonista. Não dá pra saber porcaria nenhuma sobre a personalidade dele pelas atitudes que ele tem, e isso não necessariamente quer dizer que ele seja imprevisível ou apático, apenas que o autor não teve muita preocupação com isso. Os personagens do Hemingway, de uma maneira geral, são muito rasos e levados pelos acontecimentos. Quase sempre têm um único traço de personalidade que é repetido ao extremo, mas não dá pra culpar o cara por isso porque primeiro que construir um bom personagem é uma tarefa tão difícil que tem escritor por aí que fica famoso só por causa disso sendo que a história em si é uma porcaria, e segundo que ele se interessa mesmo é em contar história.

Ernest HemingwayE essa história, que se passa na Primeira Guerra Mundial e tem como protagonista um motorista de ambulância americano a serviço do exército italiano chamado Frederic Henry, fala de um caso de amor entre esse cara em específico e uma enfermeira escocesa louca de pedra chamada Catherine Barkley depois que ele é ferido em campo de batalha. É basicamente isso, não tem muito pra contar da história além desse resumo básico. O que podemos dizer é que eles tentam viver juntos mas esse é um mundo enlouquecido pela guerra em que as pessoas fuzilam traidores que recuam e todos estão obcecados pelo poder e a Itália tá numa pior nessa guerra aí e precisando desesperadamente de ajuda e pra eles só resta a fuga para Suíça. E aí nesse parágrafo já coloquei mais spoiler do que vocês gostariam e não avisei que tem spoiler porque senão vocês ficam mal acostumados. Cresçam.

Bom, Adeus às Armas tem aquela coisa hemingwayniana de macho que também chora, macho que só quer ser feliz mas o mundo é mais macho que ele, macho machucado, macho derrotado porque não foi tão macho, macho que não tem medo de nada a não ser de outros machos mais machos e etc. Mas também é uma história singela e bonita, escrita naquele naturalismo maroto, sem qualquer retoque na narrativa, um troço meio jornalísitico que salta aos olhos e agrada a maioria das pessoas porque é muito fácil vencer 400 páginas assim. Eu mesmo que não ando dos leitores mais ágeis do mundo, li em uns três dias. Acho massa inclusive que o tom do livro é muito leve e meio que se antecipa à censura dos filmes americanos, já que o autor não menciona o sexo entre os personagens, mas apenas sugere com eufemismos e imediatamente corta pra cena seguinte. As cenas de morte, entretanto, são descritas muito bem. É, parece mesmo cinema americano. Inacreditável como os caras não têm problema nenhum com violência, mas não podem ver uma mulher pelada que saem gritando em nome da família e do bom comportamento. Mas isso é assunto pra outra hora.

A edição da Bertrand Brasil tá muito bonita, e finalmente faz jus ao autor. Fonte grande, capas gráficas, papel jornal amarelado e bonito, cabeço e paginação juntas no topo da página e a assinatura do mestre no lugar do nome dele. Achei bem melhor do que a coleção antiga, e parece que tá saindo mais. Vamos ficar de olho.

Comentário final: 402 páginas em papel jornal (ou tipo papel jornal, sei lá). Macho não vacila, macho arrasa, macho não leva desaforo pra casa.

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Robert Walser – Jakob Von Gunten

jakob von guntenHurray! Livrada, ano III, edição número 157 (pra quem gosta de roubar, é um bom número!). Mais um ano, mais leitores, mais aporrinhação, mais haters, menos tempo, mais livros, menos amor, mais porrada, talvez um pouco mais de cultura em vossas vidas. Mais Livrada!, pois não.

Como vocês foram de fim de ano? Espero que bem, e andei sondando com os nossos queridos fãs no Facebook sobre suas metas de leitura e andei pensando em oficializar isso, fazer um Desafio Livrada! 2013 em que você faz o seu próprio desafio, colocar as fotos dos bravos que aqui se comprometeram para atestarem seu sucesso ou autodecepção no fim do ano, o que acham? Digam aí que a gente faz aqui.

Como resolução de ano novo, resolvi ser mais conciso e dar mais atenção ao Livrada!, quem sabe, até aumentar a periodicidade das postagens, vamos ver como isso se sai. Mas, como diz o povo lá no AA, um dia de cada vez. Por ora, vamos ao livro de hoje, que reservei para essa ocasião especial porque acho que as pessoas que vem ao Livrada! o fazem não só para ler esses três parágrafos de encheção de lingüiça que eu faço comumente, mas também para descobrir clássicos esquecidos, pouco comentados, ostracisados e relegados à patotinha beletrista que você vê tomando café na livraria mais charmosa da cidade sem nem ao mesmo se dignar a tomar banho para tal. E acho que Jakob Von Gunten, a obra mais famosa do suíço Robert Walser, é um exemplo que encaixa bem ao caso.

Veja, não é o primeiro suíço que a gente comenta aqui no Livrada, vocês podem se lembrar da resenha do Schertenleib aqui, mas o Walser é de outro período e de outra grandeza. De outro período porque é do começo do século 20, enquanto o outro é do final, e de outra grandeza porque influenciou gente do naipe de Franz Kafka e Robert Musil (não tinha uma dessas marcas de granola que era Musil?), enquanto o nosso querido Hansjörg Schertenleib influenciou gente do naipe dos arrivistas suíços que decidem escrever um livro depois de encarar a trigésima fila de autógrafos de suas vidas, e acho que isso se deve ao fato dele ser muito contemporâneo, modernoso e ter um nome complicado pra caramba, desses que você precisa sempre soletrar quando faz ficha na loja de informática. Robert Walser também é legal porque ficou maluco, foi pro hospício, o verdadeiro lar dos Vida Loka, e morreu na neve misteriosamente, e se tem uma coisa que a comunidade literária gosta hoje em dia é de escritores malucos que morrem misteriosamente – por si só já o transformaria num hype.

Mas não, Robert Walser não é só um rostinho bonito jogado na neve, Robert Walser é conteúdo. Seu romancinho (inho porque é pequenininho), Jakob Von Gunten conta a história de um personagem que tem o mesmo nome do título (mistérios!) e que é um rapaz abastado que, contudo, rejeita o berço para ingressar numa escola para criados, o infame Instituto Benjamenta, regido pelo senhor Benjamenta e sua irmã Benjamentinha. Longe de ser uma instituição séria e tradicional, a coisa parece mais um alojamento coletivo em que as pessoas aprendem a ser submissos e subservientes aos dois diretores do instituto, mediante uma taxa de inscrição. Aí está a primeira grande sacada do Walser. Ao invés de fazer um Memórias Póstumas de Brás Cubas, ou seja, do ponto de vista do malandro que arrumou um jeito de ter mordomos de graça – que ainda pagam para ele! – o sujeito resolveu fazer isso do ponto de vista da pessoa que mais tinha a perder com a empreitada: o sujeito rico que não sabe nada sobre o mundo real. Como o livro é narrado todo em primeira pessoa como um diário, ou seja, o fluxo temporal narrado é o mesmo em que a história se passa, a história dá voz ao ser inferior, que não deixa de ter consciência por causa disso. Vejam vocês que essa é a ideia diametralmente oposta a que o Kafka pensou naquele conto Um Relatório Para a Academia. Naquele, o macaco capturado da selva resolve virar humano porque sagazmente percebe que esse é o único jeito de viver num mundo civilizado, enquanto o Von Gunten em questão faz o oposto: resolve deixar de ser humano para sobreviver como máquina num mundo de ordens e disciplina.

robert walserOra, que transformações o mundo passava naquela época. O fim dos homens vitorianos, o aumento da chamada classe média, escolas abarrotadas de alunos… era preciso colocar ordem no barraco e os caras oldschool sentiram que estavam perdendo sua individualidade para um mundo cada vez mais formatado por padrões e perfis (coisa que os félas que te mandam propaganda pelo correio sabem muito bem). Esse era o pesadelo do burguesinho que se achava sozinho no mundo livre, e essa é a saída dramática do passivo-agressivo que acha que vai fazer falta em um mundo indiferente. Veja só que coisa engraçada, o Villa-Matas fala do Robert Walser no Doutor Pasavento, uma história sobre o ato de desaparecer. O protagonista do livro desaparece e fala de Walser, que escrevia cada vez com uma letrinha menor para “se eclipsar” na escrita, mas não é menos verdade que Jakob Von Gunten também tem esse desejo de desaparecer no meio da ordem.

Mas, obviamente, essa não é uma história contada por uma pessoa comum. Robert Walser terminou a vida no hospício, se vocês bem se lembram, e não é à toa que o romance vai ficando cada vez mais maluco e contraditório. Não há uma coerência clara no discurso de Von Gunten porque o sujeito que o criou tinha o melão estragado por chocolates e relógios suíços. De maneira que não sobram significados para um livro que parece mais um teste de Rorschach, no qual você enxerga qualquer coisa que você quiser. Não há frase sem sua antítese dita pela mesma pessoa mais para frente, não há uma moral clara e não há um movimento que se repete, dando a entender um caminho a ser seguido. O que há em Jakob Von Gunten é isso: uma intenção, um desconforto com o mundo e uma solução perturbadora para os problemas.

Agora, uma coisa que seria mais importante ainda para entender esse livro é ter outras obras do sujeito traduzidas no Brasil. A Companhia das Letras só lançou essa por enquanto e vamos ter que ficar na vontade de entender um pouco mais sobre esse caudilho se não quisermos aprender alemão pra ler no original. Sendo assim, fica a dica pra todo mundo. Mais livros e alemão!

Comentário final: 150 páginas em papel pólen soft. Pra fazer o cabôco cair de cara na neve!