Robert Walser – Jakob Von Gunten

jakob von guntenHurray! Livrada, ano III, edição número 157 (pra quem gosta de roubar, é um bom número!). Mais um ano, mais leitores, mais aporrinhação, mais haters, menos tempo, mais livros, menos amor, mais porrada, talvez um pouco mais de cultura em vossas vidas. Mais Livrada!, pois não.

Como vocês foram de fim de ano? Espero que bem, e andei sondando com os nossos queridos fãs no Facebook sobre suas metas de leitura e andei pensando em oficializar isso, fazer um Desafio Livrada! 2013 em que você faz o seu próprio desafio, colocar as fotos dos bravos que aqui se comprometeram para atestarem seu sucesso ou autodecepção no fim do ano, o que acham? Digam aí que a gente faz aqui.

Como resolução de ano novo, resolvi ser mais conciso e dar mais atenção ao Livrada!, quem sabe, até aumentar a periodicidade das postagens, vamos ver como isso se sai. Mas, como diz o povo lá no AA, um dia de cada vez. Por ora, vamos ao livro de hoje, que reservei para essa ocasião especial porque acho que as pessoas que vem ao Livrada! o fazem não só para ler esses três parágrafos de encheção de lingüiça que eu faço comumente, mas também para descobrir clássicos esquecidos, pouco comentados, ostracisados e relegados à patotinha beletrista que você vê tomando café na livraria mais charmosa da cidade sem nem ao mesmo se dignar a tomar banho para tal. E acho que Jakob Von Gunten, a obra mais famosa do suíço Robert Walser, é um exemplo que encaixa bem ao caso.

Veja, não é o primeiro suíço que a gente comenta aqui no Livrada, vocês podem se lembrar da resenha do Schertenleib aqui, mas o Walser é de outro período e de outra grandeza. De outro período porque é do começo do século 20, enquanto o outro é do final, e de outra grandeza porque influenciou gente do naipe de Franz Kafka e Robert Musil (não tinha uma dessas marcas de granola que era Musil?), enquanto o nosso querido Hansjörg Schertenleib influenciou gente do naipe dos arrivistas suíços que decidem escrever um livro depois de encarar a trigésima fila de autógrafos de suas vidas, e acho que isso se deve ao fato dele ser muito contemporâneo, modernoso e ter um nome complicado pra caramba, desses que você precisa sempre soletrar quando faz ficha na loja de informática. Robert Walser também é legal porque ficou maluco, foi pro hospício, o verdadeiro lar dos Vida Loka, e morreu na neve misteriosamente, e se tem uma coisa que a comunidade literária gosta hoje em dia é de escritores malucos que morrem misteriosamente – por si só já o transformaria num hype.

Mas não, Robert Walser não é só um rostinho bonito jogado na neve, Robert Walser é conteúdo. Seu romancinho (inho porque é pequenininho), Jakob Von Gunten conta a história de um personagem que tem o mesmo nome do título (mistérios!) e que é um rapaz abastado que, contudo, rejeita o berço para ingressar numa escola para criados, o infame Instituto Benjamenta, regido pelo senhor Benjamenta e sua irmã Benjamentinha. Longe de ser uma instituição séria e tradicional, a coisa parece mais um alojamento coletivo em que as pessoas aprendem a ser submissos e subservientes aos dois diretores do instituto, mediante uma taxa de inscrição. Aí está a primeira grande sacada do Walser. Ao invés de fazer um Memórias Póstumas de Brás Cubas, ou seja, do ponto de vista do malandro que arrumou um jeito de ter mordomos de graça – que ainda pagam para ele! – o sujeito resolveu fazer isso do ponto de vista da pessoa que mais tinha a perder com a empreitada: o sujeito rico que não sabe nada sobre o mundo real. Como o livro é narrado todo em primeira pessoa como um diário, ou seja, o fluxo temporal narrado é o mesmo em que a história se passa, a história dá voz ao ser inferior, que não deixa de ter consciência por causa disso. Vejam vocês que essa é a ideia diametralmente oposta a que o Kafka pensou naquele conto Um Relatório Para a Academia. Naquele, o macaco capturado da selva resolve virar humano porque sagazmente percebe que esse é o único jeito de viver num mundo civilizado, enquanto o Von Gunten em questão faz o oposto: resolve deixar de ser humano para sobreviver como máquina num mundo de ordens e disciplina.

robert walserOra, que transformações o mundo passava naquela época. O fim dos homens vitorianos, o aumento da chamada classe média, escolas abarrotadas de alunos… era preciso colocar ordem no barraco e os caras oldschool sentiram que estavam perdendo sua individualidade para um mundo cada vez mais formatado por padrões e perfis (coisa que os félas que te mandam propaganda pelo correio sabem muito bem). Esse era o pesadelo do burguesinho que se achava sozinho no mundo livre, e essa é a saída dramática do passivo-agressivo que acha que vai fazer falta em um mundo indiferente. Veja só que coisa engraçada, o Villa-Matas fala do Robert Walser no Doutor Pasavento, uma história sobre o ato de desaparecer. O protagonista do livro desaparece e fala de Walser, que escrevia cada vez com uma letrinha menor para “se eclipsar” na escrita, mas não é menos verdade que Jakob Von Gunten também tem esse desejo de desaparecer no meio da ordem.

Mas, obviamente, essa não é uma história contada por uma pessoa comum. Robert Walser terminou a vida no hospício, se vocês bem se lembram, e não é à toa que o romance vai ficando cada vez mais maluco e contraditório. Não há uma coerência clara no discurso de Von Gunten porque o sujeito que o criou tinha o melão estragado por chocolates e relógios suíços. De maneira que não sobram significados para um livro que parece mais um teste de Rorschach, no qual você enxerga qualquer coisa que você quiser. Não há frase sem sua antítese dita pela mesma pessoa mais para frente, não há uma moral clara e não há um movimento que se repete, dando a entender um caminho a ser seguido. O que há em Jakob Von Gunten é isso: uma intenção, um desconforto com o mundo e uma solução perturbadora para os problemas.

Agora, uma coisa que seria mais importante ainda para entender esse livro é ter outras obras do sujeito traduzidas no Brasil. A Companhia das Letras só lançou essa por enquanto e vamos ter que ficar na vontade de entender um pouco mais sobre esse caudilho se não quisermos aprender alemão pra ler no original. Sendo assim, fica a dica pra todo mundo. Mais livros e alemão!

Comentário final: 150 páginas em papel pólen soft. Pra fazer o cabôco cair de cara na neve!

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Franz Kafka – O Veredicto/Na Colônia Penal (Das Urteil/In der Strafkolonie)

Das Urteil/ In der StrafkolonieÉ gente, eu avisei. A coisa tá corridona. Vamos fazer assim? Deixemos as resenhas apenas para os domingos, alright?

E pra quem não viu, temos um patrocinador. O Sr. Victor Almeida está divulgando seu novo livro, que saiu na forma de e-book para kindle também. Cliquem ali no banner de seu Juntos no Paraíso para saber mais e comprá-lo, pra ele ver que é boa ideia anunciar aqui.

Olha só, um ano se passou e nem me toquei que não tinha falado ainda de Franz Kafka (não confundir com Franz Café, aquele Coffee Shop que fica aberto 24 horas ali na Praça da Espanha que só dá um povo bem esquisito que nasceu em Arapongas, mora no Cotolengo, usa cachecol em fevereiro e acha que é britânico). Já li essa coleçãozinha inteira dele, à exceção de O Processo, livro que não engulo nem misturado na sopinha. Restava falar de um de seus inúmeros livros de contos, incluindo o belíssimo Um Médico Rural, ou então falar do óbvio A Metamorfose, cuja resenha você pode ler em qualquer outro blog miguxesco por aí (aqui, ora pois, tratamos de literatura não-óbvia), ou então os inomináveis Carta ao Pai ou O Castelo (que raiva que eu tenho desse livro O Castelo, depois dele nunca mais li livro póstumo nenhum, só O Mestre e a Margarida por razões óbvias). Pensei então que poderia falar de O Veredicto e o insuperável Na Colônia Penal, dois contos/livrinhos surpreendentes e dignos de tudo o que se fala de bom do Kafka. Porque convenhamos, o sujeito escreveu muita porcaria também. Sério, tem um conto naquele A Contemplação, que foi o primeiro livro de contos dele, que quase me deu vontade de tacar o livro na testa do desinfeliz que deixou eu comprá-lo.

Pois muito bem. O Veredicto (Veredicto não tem mais esse c mudo, ou tem? Taí algo que faz a gente se sentir velho. “No meu tempo, netinho… cof…cof… Veredito se escrevia com c antes do t… agora passa esse balão de oxigênio aí… cof…”) é um livro curtinho cuja história, de longe, pode não impressionar muito. Um carinha que tem um amigo que mora longe, e com quem tenta se comunicar por cartas (os estadunidenses chamam isso de “pen-pal”, ô palavrinha feia da gota!) embora não tenha resposta dele há muito tempo, fica preocupado se comunica ou não que está noivo de uma gatinha. Ele está tomando conta de seu velho pai, assumindo os negócios da família, aquela coisa de homenzinho que acha que virou homenzinho. Até que o pai sobe nas tamancas, fala umas verdades, revela umas revelações e condena o filho à morte por afogamento, ao que ele responde com uma saída abrupta de casa para se afogar pulando de uma ponte. É isso aí, contei Spoiler e nem avisei que ia spoilar a bagaça toda. Deal with it. Como diz o Boça, eu também sei ser maloqueiro e quando eu quero zoar, sai de baixo, meo!

Nesse livro é legal a gente observar, em primeiro lugar, a relação do filho com o autoritarismo do pai. Falei que é legal observar isso porque qualquer crítico Mané vai te fazer enxergar esse fator e ai de você se desconsiderar o paralelo entre o pai de O Veredicto e o pai de Kafka. Assim são os críticos. Sabe quando você pede uma porção de batata frita pra todo mundo e sempre tem um babaca que joga ketchup na batata inteirinha, desconsiderando o gosto dos demais por ketchup? Pois esse é o crítico. É o cara que obriga você a degustar as coisas do jeito dele, e que se dane sua própria experiência. Quer dizer, não é todo o crítico que é assim. Só o são os críticos do cânone, os críticos do óbvio, os críticos do “ó-meu-deus-eu-sou-tão-esperto-que-se-eu-fosse-mulher-eu-me-traçava”. Aqui eu estou fazendo esse papel ingrato porque tem um povo que tá entrando aqui e falando que as minhas leituras são muito superficiais, então taí uma leitura que você pode ler no posfácio do livro e que, mesmo assim, todo mundo alardeia. Satisfeito?

Pode ver nesse livro também o absurdo do mote de Kafka, que vem de um certo estoicismo ao qual ninguém se acostumou direito depois da febre da Profecia Celestina. Veja só o que é o pai mandar o filho se afogar e ele ir, contra a vontade, morrer afogado? É uma forma de passivo-agressividade fora de controle (o que é ótimo porque eu acho que o gene da passivo-agressividade tem que ser extinto), uma rebeldia adolescente que a gente vê muito hoje em dia. Já viram a cena: o moleque, de preto dos pés à cabeça, com uma camiseta do Good Charlotte, muita maquiagem no olho, dizendo “eu queria nunca ter nascido!”, os pais fazem aquele drama de “és base, é protetooooooooooooor” e o moleque sai de casa batendo porta pra fumar Carlton Red na porta do Shopping Center com os amiguinhos de cabelo ensebado dele. É mais ou menos isso, só que no começo do século, e com morte de verdade, não apenas a morte da rebeldia verdadeira.

Falemos agora de Na Colônia Penal, o conto/livro mais sinistro já inventado por uma mente humana meio doente. Lembro que na época do Orkut tinha uma comunidade chamada “Kafka, fica de boa…” e realmente, ele precisava mesmo dar uma relaxada. Acho que o carinhômetro dele estava sempre em baixa. Deve ser por causa dessa cara feia que ele tem. Inclusive peguei essa foto aqui pro post de hoje porque tinha um porteiro no meu antigo prédio que era a cara do Kafka.

Divaguei, desculpem. Comecemos de novo. Na Colônia Penal é doente, já disse isso, né? Então, a história é isso aí, um cara vem de outro país para visitar uma colônia penal no país da história, e eles estão para executar um coitado com um método muito do sinistro. Consiste numa geringonça que deixa o infeliz penduradão e vai matando ele aos poucos enquanto várias faquinhas vão escrevendo uma frase de pára-choque de caminhão nas costas dele, uma lição de moral ou algo assim, até que ele morre esvaído na própria papa de sangue. É mais ou menos como aqueles “shows” em que os hã… malucos ficam pendurados por ganchos nas costas achando tudo o máximo. Acho que essa modalidade tem nome, mas tô com preguiça de procurar no Google e vou chamá-la de falta de enxada e meio lote pra carpir.

A crueldade da execução choca o estrangeiro (espero não estar confundindo com um conto do Italo Calvino) e pro executor, tá tudo numa naice. E aqui lá vamos nós jogar ketchup na sua batatinha de novo. A ideia do sofrimento sem uma sensação de que ele logo terá fim é uma constante nos livros do Kafka que falam do assunto. Você bem sabe que quando você se prepara para fazer algo sofrido, parte do sofrimento é amenizado pela sensação de fim iminente. Como por exemplo fazer uma tatuagem, tirar sangue, tratamento de canal, exame de próstata, andar de Cabral/Portão, etc. Agora, e se o sofrimento não tiver um fim visível na linha do horizonte? E não só isso, pensem também na engenhosidade de uma máquina projetada para te fazer sofrer. Eu sei que vendem máquinas assim pela televisão no Shoptime, que dá pra dobrar e guardar embaixo da cama, mas essa é projetada para o mal extremo, a morte e uma lição de moral ainda por cima. É doente ou não é, meu povo?

Chega que a resenha tá longa. A saudade é um prego, o coração é um martelo, por isso me estendi. Esse projeto gráfico da Companhia das Letras é sensacional. Livros branquinhos que já vem encardidos da livraria porque ninguém compra tanto Kafka quanto deveria, posfácios mais que elogiosos do tradutor Modesto Carone, o homem-Kafka (equivalente ao Elidio Lopes para o vinho), fonte Garamond e imagens da capa de Amilcar de Castro (embora tenha quase certeza de que um dos desenhos é uma fraude feita por outra pessoa, mas teria que verificar e já tá tarde pra isso). É uma beleza. Faltou mesmo pra minha coleção O Processo, edição esgotada há muito tempo, só acho de bolso. Uma vez vi um cara com esse livro num ônibus e pensei seriamente iniciar ali minha carreira de assaltante. E aí, quem topa fazer uma campanha para me doar essa edição d’O Processo pra eu completar a coleçãozinha?

Comentário final: Kafka, fica de boua, meo…