Mario Vargas Llosa – Pantaleão e as Visitadoras (Pantaleón y las visitadoras)


Uma injustiça do cão: Mario Vargas Llosa nunca vai ganhar o Nobel de literatura por causa de sua visão política direitista. Às vezes desconfio seriamente que esse pessoal não sabe dar valor a bons escritores, independente de sua vida política (o mesmo vale pro Cèline, que como disse a Albana, quando exclamei dizendo que ele era fascista, “ele mantém seu fascismo a níveis muito saudáveis”). Porque, convenhamos, Vargas Llosa é, de longe, o melhor escritor de língua espanhola da atualidade (dorme com essa agora, García Marquez). O cara domina com maestria todos os gêneros e estilos da literatura: ensaio, romance, contos, até mesmo o gênero epistolar, pilar do livro Pantaleão e as Visitadoras, publicado em 1974.

Quem já leu alguns livros de troca de cartas (Cartas a Théo, a Caixa Preta, De Profundis, etc), sabe que ficar lendo carta dos outros não é a coisa mais divertida do mundo. Falta o dinamismo da narrativa, o livro pode se arrastar. Agora, quem conceberia um livro que é, em sua quase totalidade, um envio de correspondência — não de cartas normais, mas de ofícios militares — com um humor pastelão e escrachado? Vargas Llosa fez isso. Pantaleão e as Visitadoras é um livro absolutamente hilário que conta a história de Pantaleão Pantoja, um oficial do exército peruano incumbido de uma missão ultra-secreta por sua óbvia delicadeza: organizar um serviço de visitadora (prostitutas) em um posto do exército instalado no meio da selva amazônica. O motivo é palpável. Os soldados da tropa, metidos naquele fim de mundo sem civilização por perto, estavam estuprando as índias e mulheres de pescadores locais. O exército, pra não ficar difamado por seus soldados tarados, coloca Pantoja para levar de barquinho umas três ou quatro prostitutas até o posto.

Mas o protagonista é um militar altamente disciplinado. Começa a estudar o tempo de cada “serviço” e vendo que a quantidade de mulheres não é suficiente, logo começa a armar um esquema gigantesco de prostituição, com direito a uniforme, hino e bandeirinhas. Não demora muito a arrumar inimigos e problemas matrimoniais. Contar mais do que isso seria tirar boa parte da diversão desse livro.

A intenção de Vargas Llosa em Pantaleão é, mais uma vez, explorar as falhas e fraquezas das forças armadas. Firmou-se no mundo literário com seu romance A Cidade e os Cachorros, sobre a vida de estudantes do colégio militar, e muitos apontam A Festa do Bode, livro que narra ficcionalmente a vida de Rafael Trujillo, o temível ditador da República Dominicana. Mario, ele próprio, foi um cachorro, um aluno do colégio militar, e conheceu um serviço real de visitadoras quando visitou a selva amazônica em 1958, então escreve com conhecimento de causa cada um desses assuntos.

Falar de um projeto gráfico da editora Alfaguara é falar de todos. Os livros são padronizados numa mesma diagramação, mudando apenas a capa, ou, eventualmente o tamanho da fonte (aliás, alguém sabe a fonte que a Alfaguara usa?). Entretanto, a coleção de livros do Vargas Llosa está fenomenal. É foto da Getty Images? É, mas porra, são fotos muito bem escolhidas. Dos livros já lançados pela editora, me faltam a Guerra no Fim do Mundo e a Casa Verde. Meu aniversário tá longe, alguém aí não quer me dar?

Duas curiosidades: 1ª: Esta edição do livro foi traduzida a quatro mãos, por Paulina Wacht e Ari Roitman (ficou muito boa, por sinal). Inusitado, hein? 2ª O próprio Vargas Llosa co-dirigiu a versão cinematográfica do livro com José María Gutiérrez. Mas o filme não é nem de longe tão bom quanto o livro. Recomendado até os ossos.

Comentário Final: 246 páginas pólen soft de alta gramatura. Se pegar uns cinco desses e juntar em alguém, rola um sanguinho.

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9 Respostas para “Mario Vargas Llosa – Pantaleão e as Visitadoras (Pantaleón y las visitadoras)

  1. Cara, desse jeito vou acabar gastando uma fortuna por causa desse blog! E o salário de jornalista (num futuro não muito distante) vai ter que me fazer optar entre colocar o pão na mesa e mais livros na estante!

    \o/

  2. Pingback: Mario Vargas Llosa – Tia Julia e o Escrivinhador (La tía Julia y el escribidor) « Livrada!

  3. Pingback: Mario Vargas Llosa é Nobel de literatura! « Livrada!

  4. E, afinal, ele ganhou um Nobel – mesmo sendo de direita – fato que também o surpreendeu. Achei legal, ao ler posts antigos do blog, encontrar essa anotação tão pertinente.
    Sobre esse livro e sobre Mario Vargas Llosa, dispensarei comentários – porque acho que eles merecem esse tipo de comentário. Haha
    No mais, uma lembrança a respeito de MVL que me diverte: quando li (a já nova edição de) “A Festa do Bode”, no ônibus, uma senhora deixou de se sentar ao meu lado depois que leu o título e viu a capa. Diabólica e sensacional.

    Minha cara estrear nos comentários do blog em um post antigo e, já que o fiz, aproveito para dizer que acho o Livrada o máximo.

  5. Pingback: Cinco calhamacinhos pra ler em janeiro (se quiser, se não quiser não faz nada fica peixe no sapatinho sossegado na moral tranquilidade rapaz) | Livrada!

  6. Meio atrasado meu comentário … hehehe

    Ótima resenha! Esse é um dos meus livros favoritos e que sempre indico a quem não curte “gastar” seu tempo sobre livros ou quem só curte “aqueles mesmos livrinhos”…

    Meio ácida a menção ao Gabo (próximo dia 17 é “aniversário” da morte do Gabo #informaçãoinútil).

    Ao lado do Gabo, Bolaño, Donoso (indico a todos “O obsceno pássaro da noite”), Cortázar e do Borges, o Llosa está entre os autores latinos que eu quero conhecer a fundo ao longo da minha existência cearense!

    Parabéns pelo Livrada, Yuri!

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