Cinco calhamacinhos pra ler em janeiro (se quiser, se não quiser não faz nada fica peixe no sapatinho sossegado na moral tranquilidade rapaz)

Olá, queridos leitores do Livrada!

Tenho recebido muitos leitores novos nos últimos tempos, então pode ser que muita gente ainda não saiba que durante o mês de janeiro, o Livrada! não trabalha. Quer dizer, trabalha em termos de leituras, acumulando material para fazer os vídeos do resto do ano, porque eu não sou um leitor tão rápido e, pra piorar, tenho uma porção de coisas para fazer no meu tempo livre (tenho dois empregos, quem sabe como é sabe como é). Mas isso não quer dizer que eu não possa vir aqui conversar com vocês nesse meio tempo. Enquanto não arrumo uma hora pra sentar e responder os comentários do Desafio Livrada! 2016 (acho que vou fazer um vídeo só pra isso), resolvi deixar aqui dicas de leituras para esse mês de férias e de descanso para a maioria dos leitores novinhos ainda em calendário escolar. Não são clássicos desafiadores nem nada do tipo, são só livros meio grandes que eu gostei muito de ler e que faço sempre muita propaganda para que as pessoas leiam. Ora, longe de mim passar o ano aqui do alto da minha masmorra atochando desafio em vocês. Então lê quem quer, quem não quiser não lê. E quem sabe algum desses livros se encaixe em uma categoria do Desafio Livrada! de vocês.

 

1- Yu Hua – Irmãos

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Eu não sei o quanto vou ter que indicar Yu Hua pra vocês pra alguém ler, mas aqui vai mais uma tentativa. Irmãos é um livraço. É grande, mas muito, muito difícil de deixar de lado sem ler umas 80 páginas de uma vez só. É triste, engraçado, comovente, patético, alarmante e odioso, e narra a história de dois meio-irmãos que crescem durante o Grande Salto Adiante e a Revolução Cultural na China, mas falar mais do que isso é spoiler. Para quem quiser saber mais, resenhei ele aqui.

 

2- Daniel Defoe – Moll Flanders

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Quem gosta de Robinson Crusoé sabe que o mérito do livro está, em grande parte no jeito como Defoe conduz a narrativa, viciante pra caramba, elaborada a partir de poucos elementos. Moll Flanders também é assim. Lançada pela já finada Cosacnaify, o livro tem um bom tanto de páginas mas é igualmente delicioso. O título completo do livro já dá uma ideia da saga:

As venturas e desventuras da famosa Moll Flanders & Cia., que nasceu na prisão de Newgate, e ao longo de uma vida de contínuas peripécias, que durou três vintenas de anos, sem considerarmos sua infância, foi por doze anos prostituta, por doze anos ladra, casou-se cinco vezes (uma das quais com o próprio irmão), foi deportada por oito anos para a Virgínia e, enfim, enriqueceu, viveu honestamente e morreu como penitente. Escrito com base em suas próprias memórias.

Para quem se interessar, falei dele em vídeo aqui.

3- João Guimarães Rosa – Grande Sertão: Veredas

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Ler Grande Sertão: Veredas não é apenas um privilégio que todo brasileiro tem à sua disposição: é um dever ler esse livro e, ao final dele, constatar que o português é uma das línguas mais incríveis que a humanidade poderia conceber. Eu sei o que vocês vão dizer: que é complicado, que não dá pra entender porra nenhuma e que é muito grande, como os outros livros que eu coloquei aqui, e eu tinha prometido que não ia jogar grandes catataus desafiadores nessa lista. Amigo, o único desafio aqui é você perder seu medo e encarar o melhor livro já escrito em língua portuguesa. Vai por mim e me manda uma caixa de bombom depois pra agradecer, porque eu mereço. Foi o primeiro livro que resenhei nesse site, há seis anos atrás, mas nem leia porque eu era muito bobão e ainda mais raso naquela época. Ou leia, a internet é livre.

 

4- Mario Vargas Llosa – Pantaleão e as Visitadoras

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What? Esse livro nem é um calhamaço. É só divertido pra caramba. A menos que a ideia de um milico CDF do exército escalado para uma missão secreta de levar prostitutas até os soldados da fronteira do Peru que estavam muito precisados e que acabou desenvolvendo um esquema gigantesco de prostituição na selva amazônica, tudo contado por meio de cartas, não pareça divertido pra você. Mas só pra constar: você é um quadradão. Resenhei ele aqui.

 

5- Don Delillo – Ruído Branco

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Sério, eu não sei mais o que eu faço pra convencer vocês a lerem Ruído Branco. Não sei, juro. Vou colocar ele nessa lista como a minha última tentativa (dessa semana). Porra, você ainda não está lendo Ruído Branco? Resenhei aqui.

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Mario Vargas Llosa – Pantaleão e as Visitadoras (Pantaleón y las visitadoras)

Uma injustiça do cão: Mario Vargas Llosa nunca vai ganhar o Nobel de literatura por causa de sua visão política direitista. Às vezes desconfio seriamente que esse pessoal não sabe dar valor a bons escritores, independente de sua vida política (o mesmo vale pro Cèline, que como disse a Albana, quando exclamei dizendo que ele era fascista, “ele mantém seu fascismo a níveis muito saudáveis”). Porque, convenhamos, Vargas Llosa é, de longe, o melhor escritor de língua espanhola da atualidade (dorme com essa agora, García Marquez). O cara domina com maestria todos os gêneros e estilos da literatura: ensaio, romance, contos, até mesmo o gênero epistolar, pilar do livro Pantaleão e as Visitadoras, publicado em 1974.

Quem já leu alguns livros de troca de cartas (Cartas a Théo, a Caixa Preta, De Profundis, etc), sabe que ficar lendo carta dos outros não é a coisa mais divertida do mundo. Falta o dinamismo da narrativa, o livro pode se arrastar. Agora, quem conceberia um livro que é, em sua quase totalidade, um envio de correspondência — não de cartas normais, mas de ofícios militares — com um humor pastelão e escrachado? Vargas Llosa fez isso. Pantaleão e as Visitadoras é um livro absolutamente hilário que conta a história de Pantaleão Pantoja, um oficial do exército peruano incumbido de uma missão ultra-secreta por sua óbvia delicadeza: organizar um serviço de visitadora (prostitutas) em um posto do exército instalado no meio da selva amazônica. O motivo é palpável. Os soldados da tropa, metidos naquele fim de mundo sem civilização por perto, estavam estuprando as índias e mulheres de pescadores locais. O exército, pra não ficar difamado por seus soldados tarados, coloca Pantoja para levar de barquinho umas três ou quatro prostitutas até o posto.

Mas o protagonista é um militar altamente disciplinado. Começa a estudar o tempo de cada “serviço” e vendo que a quantidade de mulheres não é suficiente, logo começa a armar um esquema gigantesco de prostituição, com direito a uniforme, hino e bandeirinhas. Não demora muito a arrumar inimigos e problemas matrimoniais. Contar mais do que isso seria tirar boa parte da diversão desse livro.

A intenção de Vargas Llosa em Pantaleão é, mais uma vez, explorar as falhas e fraquezas das forças armadas. Firmou-se no mundo literário com seu romance A Cidade e os Cachorros, sobre a vida de estudantes do colégio militar, e muitos apontam A Festa do Bode, livro que narra ficcionalmente a vida de Rafael Trujillo, o temível ditador da República Dominicana. Mario, ele próprio, foi um cachorro, um aluno do colégio militar, e conheceu um serviço real de visitadoras quando visitou a selva amazônica em 1958, então escreve com conhecimento de causa cada um desses assuntos.

Falar de um projeto gráfico da editora Alfaguara é falar de todos. Os livros são padronizados numa mesma diagramação, mudando apenas a capa, ou, eventualmente o tamanho da fonte (aliás, alguém sabe a fonte que a Alfaguara usa?). Entretanto, a coleção de livros do Vargas Llosa está fenomenal. É foto da Getty Images? É, mas porra, são fotos muito bem escolhidas. Dos livros já lançados pela editora, me faltam a Guerra no Fim do Mundo e a Casa Verde. Meu aniversário tá longe, alguém aí não quer me dar?

Duas curiosidades: 1ª: Esta edição do livro foi traduzida a quatro mãos, por Paulina Wacht e Ari Roitman (ficou muito boa, por sinal). Inusitado, hein? 2ª O próprio Vargas Llosa co-dirigiu a versão cinematográfica do livro com José María Gutiérrez. Mas o filme não é nem de longe tão bom quanto o livro. Recomendado até os ossos.

Comentário Final: 246 páginas pólen soft de alta gramatura. Se pegar uns cinco desses e juntar em alguém, rola um sanguinho.