Mario Vargas Llosa – Tia Julia e o Escrivinhador (La tía Julia y el escribidor)


La tía Julia y el escribidorBom domingo, moçada! Aí, manerassas as fotos de estantes que eu estou recebendo, mandem mais, vamos fazer um post irado sobre isso. O e-mail, já sabem, é bloglivrada@gmail.com. E sem o nariz de cera habitual, vamos ao que interessa. Não, não é a festa da democracia, mas, se querem saber, meu voto vai para o Plínio de Arruda, porque ele tem cara de presidente e um belo patrimônio acumulado ao longo de seus longos 70 anos, segundo li em uma matéria da Folha de S. Paulo. Minha única preocupação é que ele é velho demais, e desconfio de quem quer fazer um futuro melhor para o Brasil sabendo que ele próprio não vai estar nesse futuro. No mais, o resto da corja de canalhas, vocês votem em quem quiser trabalhar no seu estado que, independente de qual seja, tenho certeza de que está um lixo.

O livro de hoje é um livrasso que ganhei inesperadamente de minha mãe durante um almoço em Paraty. Gosto de ganhar livros que parecem bons, mas que por alguma razão não estavam nos meus planos de futuro próximo. É justamente o caso. Esses livros da Alfaguara têm uma página que é geralmente maior do que a dos livros que eu costumo ler, então minha percepção de tempo acerca da leitura fica meio desorientada, e sempre acho que levo muito mais tempo para lê-los. Bom, graças a uma reclamação no Procom que eu fui fazer, em 2008, a leitura desse livro foi super rápida. Horas sentado naquele banco poderiam me fazer acreditar que a lentidão dos órgãos públicos brasileiros está formando um país de leitores, mas a maioria das pessoas prefere sentar ali e olhar para o teto. Não me espantam que fiquem irritadas assim, não sei como conseguem. Mas falemos disso outro dia.

Já disse aqui, na minha resenha sobre o Pantaleão e as Visitadoras, que o Mario Vargas Llosa é um escritor de mão cheia por dominar tão bem vários estilos diferentes entre si. Se no outro livro foi com o gênero epistolar que ele chutou alguns traseiros, neste agora ele consegue misturar romance autobiográfico com contos — algo que nunca havia visto em minha curta experiência como leitor.

A história é a seguinte: Varguitas, um garotão de dezoito anos, que trabalha numa rádio e quer se tornar escritor, começa a namorar a própria tia. Pera lá: não é da família, é tipo uma cunhada da tia, se bem me lembro, mas na família, o que não é do núcleo de pai e mãe, nem avô e avó, ou primo, é tia. Tá, essa frase foi muito ao estilo Cleber Machado, vou tentar não me repetir. Ao mesmo tempo, conhece o lendário Pedro Camacho, um escritor boliviano de rádio novelas que é sensação em todo país. Então a história se divide entre seu romance com a Tia Julia (com quem Vargas Llosa realmente se casou, e depois se separou para casar com a prima. Que cara mais freak) e contos que seriam as novelas escritas por Pedro Camacho. Falemos mais dele.

Pedro Camacho é o personagem que o autor criou para personificar o escritor ideal. Ele vive para escrever: durante todo o tempo em que está acordado, está escrevendo, criando, bolando histórias. Embora, em termos de produtividade, seja esse o ideal do escritor — principalmente do aspirante a escritor Varguitas, que tem em Camacho um ídolo — a história mostra que a realidade é bem mais amarga. Baixinho, feio, antipático e cheio de preconceito com as pessoas, Camacho tem uma existência muito triste, e o excesso de trabalho o leva a confundir os personagens de suas novelas, tornando os contos cada vez mais misturados, como naquelas brincadeiras de criança de misturar os três porquinhos com João e Maria e assim por diante.

Mario Vargas LlosaAinda assim, os contos de Vargas Llosa assinados por Pedro Camacho são espetaculares. Lembro-me especialmente de um, sobre um sujeito que foi fazer terapia porque sentia-se culpado de ter atropelado uma criança, e a psicóloga sugere a ele uma terapia baseada na raiva por crianças, em que ele devia ser mal e chutar-lhe as costelas se fosse possível. Impagável, realmente, e me lembrou uma certa música da gloriosa banda Merda, com o título justo de “Eu odeio crianças” (acho que cada vez que eu faço alguma referência ao universo do hardcore, perco uma penca de leitores que passam a me considerar mais burro).

O romance de Varguitas com Tia Julia também é recheado de humor, com todas as neuroses de uma típica tia, encanada e solteira, acerca de sua relação secreta (a família não pode saber). Tem também o seu companheiro radiofônico, Pascual, que é o típico coadjuvante que rouba a cena. Tinha algo a respeito dele que eu achava o máximo mas, folheando o livro aqui, não consegui achar e me lembrar direito. Algo a ver com o fato dele só anunciar tragédias no rádio,mesmo que tenham acontecido no outro lado do mundo e há tempos. Perdão, minha memória já não anda lá essas coisas, e mesmo que tenha lido o livro há apenas dois anos, já me esqueço destes detalhes.

Foi nesse livro que me deparei pela primeira vez com os contos do Vargas Llosa, e, depois pude confirmar lendo Os Chefes, é preciso tirar o chapéu pra esse cara. Sério, algum livro dele é preciso ler. Vargas Llosa é como os Beatles: não dá pra dizer que não gosta, porque ele tem várias facetas (ao menos é isso que dizem pra mim, que não ligo muito pra banda).

Já comecei a comentar essa edição da Alfaguara lá em cima, mas vamos ao restante dela. Bom, o último livro da editora que li antes de ler esse havia sido Nosso GG em Havana, uma história curtinha e muito irada do Pedro Juan Gutierrez, com tipografia garrafal. Estranhei a miudeza desse livro, o que, aliado ao tamanho e ao número de páginas, me pareceu um livro gigantesco. Só mesmo o Procom ou o Detran para fazer-nos vencer calhamaços como Ulysses como se fosse gibi do Chico Bento. Sério, desaconselho adentrar em uma repartição pública sem estar munido de documento com foto, xerox de tudo e literatura pesada e das boas. E lanchinho também. Mas é um livro maravilhosamente bem acabado e tem uma das melhores capas dos livros do Vargas Llosa já lançados pela editora. Nostálgica pá dedéu com esse radinho vintage aí, “Philco Transitone”. Onde será que a gente arruma um desses? Apesar do calhamaço, pegaram umas páginas de gramatura boa, que dá vontade de ler e faz muita diferença para mim. Por último, uma dica pra editora: tava na hora de reeditar A Festa do Bode, hein?

Comentário final: 359 páginas gigantes em pólen de gramatura alta. Uma pedrada na sua fuça!

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9 Respostas para “Mario Vargas Llosa – Tia Julia e o Escrivinhador (La tía Julia y el escribidor)

  1. Pingback: Tweets that mention Mario Vargas Llosa – Tia Julia e o Escrivinhador (La tía Julia y el escribidor) « Livrada! -- Topsy.com

  2. Lembra que eu contei uma história sobre a forma que eu havia sacaneado uma formanda de Direito indicando como presente um livro do João Ubaldo Ribeiro? Bem, nesse mesmo dia eu havia recebido um majestoso pé na bunda de uma namorada e estava depressivo que só. Para remediar minha dor de cotovelo ganhei esse livro, que escolhi meio na cega, sem saber se seria legal ou não. Tratamento efetivo, o livro é bom e superei com mais facilidade o tchau-tchau-otário. Me surpreendi com essa inovação dos contos inseridos, histórias paralelas, muito bom. Acredito que, caso não tivesse lido esse antes, não teria apreciado tanto o “2666”. Enfim…
    Abraço.

    Ps. Carla está certa, mereceria um Nobel.

    • Opa, bom saber, Lucas, assim já me sinto mais preparado para ler o 2666. Que ótimo usar Vargas Llosa para superar pés-na-bunda. É uma prática que o sr. recomenda então?
      Abraço!

    • Agradeço por você ter me apresentado a ele, Cássio! Quando você me dá livro de presente, já sei que vem por aí um futuro escritor favorito pra minha estante.
      Abraço!

  3. Pingback: Mario Vargas Llosa é Nobel de literatura! « Livrada!

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