Valêncio Xavier – O mez da grippe e outros livros


Galerinha, novidades! O Livrada! tem o seu primeiro parceiro: a editora Prumo (como podem ver pela seção de parceiros na barra ao lado). Então aguardem livros da editora e sorteios de títulos, okapa?

Outro aviso: o próximo post será sobre as estantes, então, quem não mandou, mande logo a foto da sua, vai ser maneiro! (estamos sucintos hoje, hein?)

Então vamos ao que interessa: o mês de dezembro me lembra muito do Valêncio Xavier, por uma razão que só faz sentido pra mim: em 2007 meu pai me deu de presente de natal uma farrinha na Fnac, onde comprei seis livros: Ficções, do Borges, o Ninho da Serpente, do Pedro Juan Gutiérrez, Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra, do Mia Couto, o Continente vol.2, do Erico Verissimo, O evangelho segundo Jesus Cristo, do Saramago, e este, o Mez da Grippe, um dos melhores e mais bonitos livros da minha estante. Claro que todos eles já haviam sido lidos ao final de janeiro, mas o fato é que foi um dia muito irado pra mim, que me senti fazendo as compras de mês na livraria. Tudo isso pra explicar por que escolhi esse livro hoje. Opa, voltamos à encheção de linguiça que nos é peculiar

Valêncio Xavier, pois bem. Ao mesmo tempo em que a mídia fica aí dando tapinha nas costas dele, dizendo que ele é o cara, ele sempre foi muito pouco comentado e muito pouco lido. O cara tem uma panelinha de leitores mais fechada do que a galera do Ignácio de Loyola Brandão. E digo pra vocês: é preciso ler mais Valêncio Xavier. Muito mais. Estou falando desse livro óbvio dele, mas pretendo falar de outros, afinal, quando deu a notícia da morte dele no jornal, todo mundo esqueceu o Desmembranças da menina de rua morta nua e do Minha mãe morrendo e o menino mentido. Então, vamos fazer aqui um favor à humanidade e tornar os livros do Valêncio prestigiados outra vez. Larga aí o Crepúsculo e se liga nessa história.

O Mez da Grippe e outros livros já chama atenção no título. Não só tem uma grafia escrotassa de mil novecentos e guaraná de rolha, como o “e outros livros” faz parecer que espremeram tomos aí nessas poucas páginas que o livro apresenta. Acontece que o autor escreve seus livros com um mínimo de texto e sempre com o recurso das imagens e do projeto gráfico montado exclusivamente para suas histórias (e por isso ele interessa tanto aqui para o Livrada!).

Por partes então, e falarei aqui dos principais. O livro que dá nome ao livro (hã?), O Mez da Grippe, é a história da gripe espanhola em Curitiba. Pra quem dormiu na aula de história, a gripe espanhola foi o surto de Influenza A H1N1 (sim, aquela que ganhou o prêmio Revelação de 2009 no Doença Awards) que, em 1918 chegou no Brasil e matou gente a dar com pau. Você imagine só que se essa gripe matou gente pra dedéu no ano passado, com todos esses avanços da medicina, bebedouro de Tamiflu, polícia paranóica no aeroporto, todo mundo andando com máscara e até comércio fechando, imagine só naquela segunda década do século XX, quando remédio não servia pra muita coisa e ainda assim todo mundo era hipocondríaco. Ora, vai dizer que seu vô não tinha umas histórias de tomar uma injeção na farmácia pra ter pique para ir pro trabalho? É, amigo, a gripe botou a dona morte pra fazer hora extra por dois anos. E Valêncio deu uma noção geral do que foi a parada, usando para isso depoimentos colhidos na época de velhas polacas curitibanas, recortes de jornal, fotografias e etc. Tudo isso com muito bom humor. É de cair o queixo a forma como as autoridades fecharam o olho pra doença, tentando não alarmar a população. A situação fica patética, então, e dá até pra imaginar a cara de bunda que o governo faz quando a parada sai de controle. Chegou a faltar caixão no mercado, e as pessoas até esperavam pra enterrar alguém, porque vai que mais gente morria, pra aproveitar o cortejo. Sinistrão, maluco.

Daí tem os outros livros dele. Maciste no inferno, por exemplo, é um filmão thrash do cinema mudo, que ele narra com imagens do filme, partituras da trilha sonora e uma locução doidona. O minotauro é um livro que se passa num hotel que é um verdadeiro labirinto, e a cada hora o personagem está diante de uma porta, cujo número aparece no cabeçalho. E, por último, gostaria de falar do conto O mistério dos sinais da passagem DELe pela cidade de Curitiba que, em resumo, fala de um terreno baldio na Rua XV onde, segundo o autor, Deus passou para dar um barro, leu e limpou a bunda com a Tribuna (o jornal que pinga sangue da cidade). Imagine o que é isso na cabeça de um moleque influenciável como eu e tirem suas próprias conclusões. O cara é bom ou não é?

Que esse livro é lindasso eu já disse. A Companhia das Letras, que geralmente tem um capricho com as obras que lança, foi extremamente cuidadosa com esse, que ganhou o Jabuti de 1999 na categoria melhor produção editorial. E não é pra menos. Repleto de fotos, recortes e diagramações a cada hora diferentes uma da outra, o livro tem um formato quase quadradão, generoso, com capa em papel cartão e mais papel cartão bordô-mamãe-tô-dando dentro. O papel é o legítimo pólen soft, mas as fontes variam muito. Tem até letra japonesa no livro, cara. Além disso, uma linda encadernação artesanal que vemos poucas vezes, e que dá um tchã especial pra obra. E chega de babar na minha edição, arruma a sua aí.

Comentário final: 324 páginas em papel pólen soft. Pimba na gripe suína!

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5 Respostas para “Valêncio Xavier – O mez da grippe e outros livros

  1. Ola,
    Sou sobrinho do Valencio Xavier Niculitcheff.
    Moro nos EUA a 10 anos e estou escrevendo um livro.
    Gostaria de saber como e o que preciso para publica-lo.
    Alguem poderia me dar algumas dicas?
    Muito obrigado!

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