Franz Kafka – O Veredicto/Na Colônia Penal (Das Urteil/In der Strafkolonie)


Das Urteil/ In der StrafkolonieÉ gente, eu avisei. A coisa tá corridona. Vamos fazer assim? Deixemos as resenhas apenas para os domingos, alright?

E pra quem não viu, temos um patrocinador. O Sr. Victor Almeida está divulgando seu novo livro, que saiu na forma de e-book para kindle também. Cliquem ali no banner de seu Juntos no Paraíso para saber mais e comprá-lo, pra ele ver que é boa ideia anunciar aqui.

Olha só, um ano se passou e nem me toquei que não tinha falado ainda de Franz Kafka (não confundir com Franz Café, aquele Coffee Shop que fica aberto 24 horas ali na Praça da Espanha que só dá um povo bem esquisito que nasceu em Arapongas, mora no Cotolengo, usa cachecol em fevereiro e acha que é britânico). Já li essa coleçãozinha inteira dele, à exceção de O Processo, livro que não engulo nem misturado na sopinha. Restava falar de um de seus inúmeros livros de contos, incluindo o belíssimo Um Médico Rural, ou então falar do óbvio A Metamorfose, cuja resenha você pode ler em qualquer outro blog miguxesco por aí (aqui, ora pois, tratamos de literatura não-óbvia), ou então os inomináveis Carta ao Pai ou O Castelo (que raiva que eu tenho desse livro O Castelo, depois dele nunca mais li livro póstumo nenhum, só O Mestre e a Margarida por razões óbvias). Pensei então que poderia falar de O Veredicto e o insuperável Na Colônia Penal, dois contos/livrinhos surpreendentes e dignos de tudo o que se fala de bom do Kafka. Porque convenhamos, o sujeito escreveu muita porcaria também. Sério, tem um conto naquele A Contemplação, que foi o primeiro livro de contos dele, que quase me deu vontade de tacar o livro na testa do desinfeliz que deixou eu comprá-lo.

Pois muito bem. O Veredicto (Veredicto não tem mais esse c mudo, ou tem? Taí algo que faz a gente se sentir velho. “No meu tempo, netinho… cof…cof… Veredito se escrevia com c antes do t… agora passa esse balão de oxigênio aí… cof…”) é um livro curtinho cuja história, de longe, pode não impressionar muito. Um carinha que tem um amigo que mora longe, e com quem tenta se comunicar por cartas (os estadunidenses chamam isso de “pen-pal”, ô palavrinha feia da gota!) embora não tenha resposta dele há muito tempo, fica preocupado se comunica ou não que está noivo de uma gatinha. Ele está tomando conta de seu velho pai, assumindo os negócios da família, aquela coisa de homenzinho que acha que virou homenzinho. Até que o pai sobe nas tamancas, fala umas verdades, revela umas revelações e condena o filho à morte por afogamento, ao que ele responde com uma saída abrupta de casa para se afogar pulando de uma ponte. É isso aí, contei Spoiler e nem avisei que ia spoilar a bagaça toda. Deal with it. Como diz o Boça, eu também sei ser maloqueiro e quando eu quero zoar, sai de baixo, meo!

Nesse livro é legal a gente observar, em primeiro lugar, a relação do filho com o autoritarismo do pai. Falei que é legal observar isso porque qualquer crítico Mané vai te fazer enxergar esse fator e ai de você se desconsiderar o paralelo entre o pai de O Veredicto e o pai de Kafka. Assim são os críticos. Sabe quando você pede uma porção de batata frita pra todo mundo e sempre tem um babaca que joga ketchup na batata inteirinha, desconsiderando o gosto dos demais por ketchup? Pois esse é o crítico. É o cara que obriga você a degustar as coisas do jeito dele, e que se dane sua própria experiência. Quer dizer, não é todo o crítico que é assim. Só o são os críticos do cânone, os críticos do óbvio, os críticos do “ó-meu-deus-eu-sou-tão-esperto-que-se-eu-fosse-mulher-eu-me-traçava”. Aqui eu estou fazendo esse papel ingrato porque tem um povo que tá entrando aqui e falando que as minhas leituras são muito superficiais, então taí uma leitura que você pode ler no posfácio do livro e que, mesmo assim, todo mundo alardeia. Satisfeito?

Pode ver nesse livro também o absurdo do mote de Kafka, que vem de um certo estoicismo ao qual ninguém se acostumou direito depois da febre da Profecia Celestina. Veja só o que é o pai mandar o filho se afogar e ele ir, contra a vontade, morrer afogado? É uma forma de passivo-agressividade fora de controle (o que é ótimo porque eu acho que o gene da passivo-agressividade tem que ser extinto), uma rebeldia adolescente que a gente vê muito hoje em dia. Já viram a cena: o moleque, de preto dos pés à cabeça, com uma camiseta do Good Charlotte, muita maquiagem no olho, dizendo “eu queria nunca ter nascido!”, os pais fazem aquele drama de “és base, é protetooooooooooooor” e o moleque sai de casa batendo porta pra fumar Carlton Red na porta do Shopping Center com os amiguinhos de cabelo ensebado dele. É mais ou menos isso, só que no começo do século, e com morte de verdade, não apenas a morte da rebeldia verdadeira.

Falemos agora de Na Colônia Penal, o conto/livro mais sinistro já inventado por uma mente humana meio doente. Lembro que na época do Orkut tinha uma comunidade chamada “Kafka, fica de boa…” e realmente, ele precisava mesmo dar uma relaxada. Acho que o carinhômetro dele estava sempre em baixa. Deve ser por causa dessa cara feia que ele tem. Inclusive peguei essa foto aqui pro post de hoje porque tinha um porteiro no meu antigo prédio que era a cara do Kafka.

Divaguei, desculpem. Comecemos de novo. Na Colônia Penal é doente, já disse isso, né? Então, a história é isso aí, um cara vem de outro país para visitar uma colônia penal no país da história, e eles estão para executar um coitado com um método muito do sinistro. Consiste numa geringonça que deixa o infeliz penduradão e vai matando ele aos poucos enquanto várias faquinhas vão escrevendo uma frase de pára-choque de caminhão nas costas dele, uma lição de moral ou algo assim, até que ele morre esvaído na própria papa de sangue. É mais ou menos como aqueles “shows” em que os hã… malucos ficam pendurados por ganchos nas costas achando tudo o máximo. Acho que essa modalidade tem nome, mas tô com preguiça de procurar no Google e vou chamá-la de falta de enxada e meio lote pra carpir.

A crueldade da execução choca o estrangeiro (espero não estar confundindo com um conto do Italo Calvino) e pro executor, tá tudo numa naice. E aqui lá vamos nós jogar ketchup na sua batatinha de novo. A ideia do sofrimento sem uma sensação de que ele logo terá fim é uma constante nos livros do Kafka que falam do assunto. Você bem sabe que quando você se prepara para fazer algo sofrido, parte do sofrimento é amenizado pela sensação de fim iminente. Como por exemplo fazer uma tatuagem, tirar sangue, tratamento de canal, exame de próstata, andar de Cabral/Portão, etc. Agora, e se o sofrimento não tiver um fim visível na linha do horizonte? E não só isso, pensem também na engenhosidade de uma máquina projetada para te fazer sofrer. Eu sei que vendem máquinas assim pela televisão no Shoptime, que dá pra dobrar e guardar embaixo da cama, mas essa é projetada para o mal extremo, a morte e uma lição de moral ainda por cima. É doente ou não é, meu povo?

Chega que a resenha tá longa. A saudade é um prego, o coração é um martelo, por isso me estendi. Esse projeto gráfico da Companhia das Letras é sensacional. Livros branquinhos que já vem encardidos da livraria porque ninguém compra tanto Kafka quanto deveria, posfácios mais que elogiosos do tradutor Modesto Carone, o homem-Kafka (equivalente ao Elidio Lopes para o vinho), fonte Garamond e imagens da capa de Amilcar de Castro (embora tenha quase certeza de que um dos desenhos é uma fraude feita por outra pessoa, mas teria que verificar e já tá tarde pra isso). É uma beleza. Faltou mesmo pra minha coleção O Processo, edição esgotada há muito tempo, só acho de bolso. Uma vez vi um cara com esse livro num ônibus e pensei seriamente iniciar ali minha carreira de assaltante. E aí, quem topa fazer uma campanha para me doar essa edição d’O Processo pra eu completar a coleçãozinha?

Comentário final: Kafka, fica de boua, meo…

Anúncios

13 Respostas para “Franz Kafka – O Veredicto/Na Colônia Penal (Das Urteil/In der Strafkolonie)

  1. Yuri,
    Muito boa resenha, cara. E vou te falar o bom do seu blog é exatamente porque você não costuma jogar ketchup na batata frita dos outros, continue assim, não da bola para esse povo não, se eles querem resenhas canônicas manda procurar Harold Bloom e pede para ele criar um blog também.

    OBS.: Estou no aguarde do meu desafio que te mandei por e-mail, é só para lembrar não tem pressa não.

    • Oi Douglas, que bom que não jogo ketchup em vossas batatas!
      Cara, o seu desafio vai ter que esperar. Estou lendo mais de um livro ao mesmo tempo pro jornal e a parada tá sinistra. Espero que entenda. 🙂
      abraço!

  2. Ótima resenha! A unica coisa que eu li do Kafka foi A metamorfose e preciso reler, pq o li com uns 18 anos. rs A sua esteriotipação da molecada que anda de preto já é antológica deste blog! Sensacional! haha E para os que criticam aqui e gostam dos canônicos mande-os ler o mala-mor da crítica literária brasileira: Alcir Pécora! Ele é imbatível! Sempre fui louco para ler Carta ao pai, esse é um projeto que precisa sair!

    E que continue apenas aos domingos, infelizmente, mas que continue!

    Abraço meu caro!

    • Ahahh valeu, Raphael. Alcir Pécora não, pô. Aqui a parada é sem embasamento! Carta ao pai é bem chatinha na verdade, a não ser que você tenha problemas com o seu pai, aí a coisa anda heheheh.
      Abraço!

  3. Fala Yuri, blza?

    Seguinte, cara, deixa eu te fazer uma pergunta: por que você nunca resenhou Bukowski por aqui? Acho que vc já falou dele pelos comentários, mas não lembro de nenhuma resenha mesmo hehe. Eu comecei a ler o cara há uns quatro meses, e pqp, curti demais. Ele faz literatura sem medo – literatura porra louca. Pelo menos é a impressão que tive até agora.

    Bem, de qualquer forma, fica a sugestão aí.

    Abs!

    • Oi Sobota, nunca resenhei Bukowski aqui no blog por uma razão ideológica: simplesmente acho que não falta quem fale desse escritor e quero justamente abrir a cabeça das pessoas para outros autores. É que tem um povo aí que parou no Bukowski e nunca mais engatou nenhuma leitura. Mas ele é um escritor que li muito na minha adolescência, quase tudo o que teve traduzido para o português até a época em que enjoei dele. 😉
      Abraço!

  4. No tocante a Kafka, sou mais Habermas. Se ele tivesse vivido na vibrante Munique ao invés da decadente Praga do fim de século, não teria escrito o que escreveu. O mundo que descreve é muito o moribundo e sombrio austro-húngaro, que a primeira guerra acabou de liiquidar.

    O conto que mais me toca dele é o belíssimo Um Médico de Aldeia: nele você passa a conhecer Kafka, mesmo que antes nada tenha lido dele.

    Odradek, um ser fantástico semelhante a um carretel semivazio, que por acaso encontrei no Livro dos Seres Imaginários, do Borges, é outro primor.

    Para quem quiser entender a relação difícil entre Kafka e o pai, sugiro Carta a Meu Pai, que ele escreveu, mas nunca entregou ao destinatário.grande literatura.

    • Oi Juvenal, também gosto muito do conto Um Médico Rural (como foi traduzido depois pelo Carone), e do Odradek, retratado tanto na literatura do Kafka quanto na de Borges e Vila-Matas. Mas gosto desse, como você descreveu, moribundo e sombrio mundo austro-húngaro, hoje mesmo revi Das weisse Band e confirmei meu gosto pela coisa. Abraço!

  5. Em tempo, Yuri: já leu por acaso Os Inomináveis de Hans Joerg Scheiterleib? O suíço é gênio, talvez um futuro Nobel, mas quase desconhecido no Brasil. Tive a satisfação e a honra de trocar umas palavrinhas com ele no Goethe, quando deu uma palestra sobre sua literatura e pocesso criativo. Ausgezeichnet.

  6. devo admitir que essa semana que passou quase comprei dois livrinhos da LPM: carta ao pai e um artista da fome, que tem o na colônia penal. só por causa da resenha.
    a primeira vez que li a metamorfose achei um livro ok, nada demais. eu era um menino juvenil, ainda. reli ano passado e achei bem melhor, muito bom, na verdade. mas… o processo… o processo eu já era mais velhinho e ainda me dói pensar em relê-lo para mudar minha visão. tô com uma edição de o castelo para ler e sinto que será bem doloroso também.
    o que acontece comigo é que eu não gostei de kafka a princípio, mas li tanta coisa sobre ele, tantas pessoas que eu admiro falando bem, o cara influenciou tantos escritores que eu gosto, que eu passei a respeita-lo por ser esse ser doentio com cara de cearense.

    • Oi V., sabe que também tenho minhas reservas em relação a essas obras canonizadas do Kafka. Dormi legal lendo o Processo e sobre O Castelo já fiz meus comentários… Mas realmente, é um ficcionista admirável e respeitado que também merece nosso respeito pelo que fez pela ficção do século XX. Abraço!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s