George Orwell – Na Pior em Paris e Londres (Down and out in Paris and London)


Down and out in Paris and LondonAntes de começar um post de hoje, queria fazer uma DR aqui com vocês. Vem cá, eu fiz alguma coisa pra vocês não comentarem mais nos posts? Todo mundo continua lendo que eu sei, e o espaço pra fazer comentários fica lá no final do texto, junto com as tags, se é essa a desculpa que vocês vão usar. Agora, se alguém está se sentindo com a liberdade de expressão tolhida neste espaço democrático, fazer o favor de assinar três vias, passar no setor de timbragem e começar a criar vergonha na cara porque comentário pra blog é que nem risada pra palhaço – a gente sabe que é pelos motivos errados, mas aceita de bom grado todos eles como fruto de um bom trabalho. Então, por favor, não se acanhem. Fim da DR.

Comecemos aqui a tecer  a genialidade de George Orwell em seu relato mais vanguarda, genial, duro, chocante, lindo e fedorento, o livro de memórias Na Pior em Paris e Londres. Diferentemente de livros que sugerem que o sujeito ficou na pior, tipo Paris é um Festa, Orwell, esse gênio subestimado da literatura (vou passar o texto todo chamando ele de gênio que é pra ver se alguém me ouve, já que não me ouvir parece ser o maior mal desse país), realmente comeu o pão que o diabo amassou nessas duas belíssimas capitais e destino certo de jovens adolescentes idiotas que querem, meo, fazer uma trip pela Europa, tá ligado? Pegar umas gringas e ficar muito lokooo uuuhulll.

Orwell já perambulava pela Europa quando era jovenzinho, tendo estudado aqui e ali em Londres, mas foi pra Paris pela aura mágica da cidade-luz para ver se vinha a inspiração que veio para tantos antes dele. Só que aí ele começou a se ferrar, primeiro teve uma tuberculose em 1929, depois foi roubado e começou a trabalhar de plongeur num restaurante de um hotel chique em Paris. Aí começa a saga do nosso Dante moderno pelo sétimo círculo do inferno (não acham um saco quando um crítico literário começa a falar coisas como “O nosso Dante moderno”, “Esta Beatriz da periferia”, “a Capitu do terceiro milênio”. Como se esse povo já não fosse metido o bastante). Orwell realmente passou fome, viveu com menos de dez centavos por dia e empenhou tudo o que tinha para viver a base de uma dieta de pão e cigarro. E a vida de lavador de prato era das piores, trabalhando dezesseis horas por dia em condições análogas a de escravidão. Agora digam vocês quantos dos seus veneráveis escritores da torre de mármore teriam culhão pra fazer um lance desses? Veja, ele podia pedir penico, voltar pra Índia e tudo mais, mas aguentou a barra ali pela vivência e pela determinação. Como não se admirar com esse gênio, que, além de tudo, é humilde ao traçar suas claras e simples linhas sobre o luxo, a pobreza, a fetichização do trabalho braçal e a vida do plongeur?

George OrwellDepois de Paris, ele vai pra Londres, onde, aparentemente, a mendigagem é uma prática institucionalizada, com profissionais do ramo, rota de albergues e manuais de como conseguir dinheiro na rua. Só que ser mendigo na Inglaterra não é um troço tão fácil de se aceitar na cachola por causa do calvinismo e da sua relação direta entre salvação e trabalho. A galera inglesa é doutrinada no workaholismo, e por isso ser mendigo em Londres requer um esforço a mais. Mesmo assim, lá foi o nosso gênio, nascido no protetorado britânico, provar que também aguentava mais essa, enquanto a grana de uns escritos dele ainda não chegava. Passou de albergue em albergue sentindo catinga de inglês (dividi um albergue com um velho londrino em Amsterdã uma vez. Até hoje sinto vontade de vomitar quando lembro do cheiro daquele coroa, e ele nem era mendigo!), comendo sopa rala e vivendo na sujeira sugismunda mesmo. Mas aguentou e escreveu um dos livros mais geniais que tive o prazer de ler este ano. Recomendo pra todo mundo a obra desse gênio.

E por que recomendo a obra desse gênio? Primeiro, pelo relato. Segundo, pelos insights. Terceiro, pelo ineditismo e pelo vanguardismo da coisa. Quarto, pelo spotlight. Quinto, porque eu gosto de recomendar coisas pra vocês. Depois vocês levam minha recomendação a sério e eu me sinto importante. Sexto, porque veio na edição nova da Companhia das Letras da coleção do Orwell, e antes disso era parte da coleção de Jornalismo Literário, e acho que a Companhia das Letras precisa de muito incentivo pra reimprimir livros velhos e maravilhosos e não tão vendáveis, já que estamos entrando na era da imbecilidade e muita coisa boa tá esgotando e não sendo mais reimpressa (quero os Cormac McCarthy e os John Updike de volta, dona editora!). Sétimo, porque é aquele caso raro em que a literatura brota da vivência, e de uma vivência vivida não necessariamente nem exclusivamente para servir à literatura, mas para edificar o espírito humano de quem escreve, o que só deixa tudo mais perfeito e genial. E oitavo, porque Orwell é um gênio, e não foi com 1984 nem com A Revolução dos Bichos que percebi isso, mas com Na Pior em Paris e Londres, desde já meu livro favorito dele. Mesmo sem discorrer muito sobre o livro, acho que dá pra perceber o porque eu gosto dele. É um livro tr00, sincero, singelo e cheio de aventuras e sabores só experimentados na extrema pobreza. É assim que ele conta, por exemplo, como aprendeu o truque de comer pão com alho, porque o gosto do alho fica na boca depois de um bom tempo, e isso dá a impressão de que você comeu recentemente. Ou como ele parava na frente de uma vitrine para esbofetear o rosto antes de pedir emprego, porque ninguém dava emprego para gente de rosto pálido, morto de fome. Era preciso fingir que se estava melhor do que se realmente estava. Enfim, essas pequenas malandragens do miserê total. Fica a dica (stay the dick).

Comentário final: 256 páginas em papel pólen soft. Gênio! Orwell Gênio!

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13 Respostas para “George Orwell – Na Pior em Paris e Londres (Down and out in Paris and London)

  1. Achei seu blog numa busca no google, li e gostei do seu jeito de se expressar. Vou sempre dar uma passadinha por aqui e desde já adianto que pretendo ler o que você sugere e o próximo que vou comprar é esse do Orwell. Viva!

  2. Carajo, e bota gênio nisso! Fui imediatamente ao site da editora e li o trecho disponibilizado em PDF. Nada de frescura, de tecer elogios poéticos às capitais em contraste com a sua pobreza. Um texto direto, preciso, sem malabarismos linguisticos ou vaidade dos autores que saboreiam sua competência. Coisa de gênio. As edições da Companhia das Letras são uma belezura, mas são muito caras…

  3. kkkkkkkk ultimamente sempre dava uma olhadinha aqui na minha ronda diaria por blogs de literatura atrás de boas dicas e depois da DR criei vergonha e vim comentar. Já li os dois livros mais famosos do Orwell, já senti o choque da lucidez dolorosa dele e sempre tive muita vontade de ler esse “Na Pior…”, a vida é pra ser vivida assim tb, e já que me falta a coragem pra fazer isso vou me satisfazer com o relato dele.

  4. Meu caro, desculpa pela fata de comentários, somente me deliciava com teus textos, e olha que espero a semana toda para ver algo novo, e realmente saía sem deixar comentários. estou lendo 1984, depois de já ter lido A revolução dos bichos e, certamente, irei ler este também. Um abraço. Espero ver por aqui também algum texto sobre 1Q84 do Murakami.

  5. Oi Yuri, venho aqui toda segunda feira, leio todos os posts, mas raramente comento. Vou começar dizendo que sou tua fã, dos teus blogs e da tua escrita. Já li a Revolução dos Bichos e gostei. Vou comprar este para ler também. Atualmente estou lendo J M Coetzee, por influência tua, claro. Estou na trilogia autobiográfica dele, precisamente em Juventude. Já estou planejando ler outros títulos dele que ainda me faltam e serei eternamente grata a ti por ter me apresentado este autor sensacional! Na minha lista ainda está Fim da Fernanda Torres, que ouvi falar bem, mas não sei se tu aprova, hehehe.
    E só para ratificar: eu adoro o comentário final!
    Abraços, Tagi.

  6. Todo mundo fazendo o mea culpa hoje… Também venho por meio deste me desculpar solenemente por, toda segunda ou terça, passar aqui, ler sua crítica, rir, me sentir bem, e sair da página sem agradecimentos formais. Obrigada, querido! Por sua causa li Coetzee e Delillo, e revi diversos conceitos. Adoro seu blog, faz parte da minha rotina semanal.

  7. Mais um fazendo o mea culpa…

    Rapaz, é a vida corrida, mesmo. Ou eu leio ou eu comento. Se leio pensando em comentar depois, depois esqueço. É o ciclo da vida de quem trabalha 10 horas por dia como eu, nessa vida prostituta de professor. Mas tô sempre aqui porque acho BOM DEMAIS a tua forma de escrever. Grande abraço.

  8. ok, acho que faz tempo que não comentava! E só pq agora, depois de anos, eu estou lendo 1984, não sei pq tb deu essa vontade eu vou colocar este Na pior em Paris e Londres na lista! Valeu a dica. E sim, ele é genial mesmo. Quero ver qual adjetivo usar depois que ler este indicado por vc!

    Abraço

  9. Claude Simon (Nobel de literatura de 85) esculhamba o Orwell ( principalmente por suas diferenças políticas na guerra civil espanhola). O primeiro era da linha estalinista, enquanto Orwell propunha um socialismo democrático que ficou evidenciado em sua “Revolução dos Bichos”. Por sua vez Christopher Hitchens (que eu pessoalmente aprecio muito), recentemente falecido, cai de pau no C. Simon principalmente por suas críticas a Orwell… Coisa muito violenta, no estilo do nosso Paulo Francis (sem querer compara os dois, Hitchens é muito mais denso). Claude Simons está meio esquecido mas o seu “As Geórgicas” é um belo livro…

  10. Acho ele um gênio também, com certeza subestimado pela literatura. Eu me formei em Jornalismo – como todos sabem também uma profissão para passar fome – e é interessante notar como este autor tem uma execelente reputação nesse meio. Em jornalismo George Orwell é leitura obrigatória, e muitos o consideram um gênio, mas muito mais um gênio jornalístico do que literário, se é que dá para separar as duas coisas nesse caso. Infelizmente, pelo menos durante a minha formação, o fuzuê sempre foi por conta de 1984, os termos cunhados blá blá blá, completamente ignorando todas as outras obras, com exceção de Animal Farm, lógico.

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