Vídeo: Entrevista com o prof. Leonardo Tonus

Neste episódio do Livrada!, tive a oportunidade de bater um papo com o prof. Leonardo Tonus, da universidade de Sorbonne, em Paris. Ele organiza a Primavera Literária por lá, que consiste em trazer autores brasileiros para terem suas obras discutidas com seus alunos. Um evento supimpa, na opinião de quem já passou por lá, fiquei sabendo. Confiram aí que vocês me conhecem.

Leonardo Tonus

Ernest Hemingway – Paris é uma festa (A Moveable Feast)

a moveable feastEstamos aqui mais uma vez para falar de Hemingway. Discutia com o Murilo dia desses sobre o fato de Hemingway ser ou não um escritor raso. E Murilo achava que não, mas eu digo que sim, mas digo também que ser raso não é um defeito – muito longe disso. Alguns dos escritores mais queridos de gerações (principalmente de jovens) são rasos, e por serem rasos, mantiveram sua popularidade por muito mais tempo. E veja também que raso não significa sem conteúdo. Hemingway escreveu o que viveu, e viveu muitas coisas, ora bolas, como um sujeito como esse pode escrever um monte de nada? Hemingway apenas tinha como meta em sua vida, e isso é reiterado em várias de suas memórias, incluindo esta, escrever apenas verdades.

E a verdade de Paris é uma Festa é tão convincente e apaixonante que Woody Allen certamente usou essa bagaça pra escrever o seu Meia-Noite em Paris. Porque o que lemos nessas páginas memorialísticas (que não dá pra chamar de romance pela aleatoriedade dos episódios) é o jovem Hemingway em sua melhor forma física sendo feliz na capital da luz. Com sua mulher, seu gato e seu filho pequeno (que é cuidado pelo gato), Hemingway bebe e convive com grandes personalidades da sua época que também moravam em Paris, como Gertrude Stein (não me desce a literatura dessa mulher, mas ele elogia tanto que talvez um dia dê mais uma chance), Fitzgerald, Ford Madox Ford Ezra Pound, James Joyce, Picasso e também Sylvia Beach, dona da Shakespeare and Company, livraria muito simpática que existe até hoje na cidade e que é realmente charmosa por dentro. É lá que o autor pegava livros emprestado e entrava em contato com o melhor da literatura russa, inclusive Tolstoi e Turgueniev, que ele adorava, e Dostoievski, que pra ele escrevia muito mal mas transmitia muitas emoções, vê se pode. Hemingway então embarca em uma história que já nos foi contada muitas vezes e por muitas pessoas, incluindo John Fante, que escreveu Pergunte ao Pó em 1939: a relação com a própria arte e a relação com o mundo real, no qual é preciso sobreviver. Hemingway tenta viver da própria literatura em Paris e com o pouco que ganha aposta nos cavalos para complementar renda enquanto tem que prover uma família pequena, da mesma forma que Arturo Bandini estava vivendo o sonho de ser escritor em Los Angeles ao mesmo tempo em que lutava para não morrer de fome na pensão fedorenta em que morava.

E o que a gente apreende disso para além da literatura numa tentativa de fazer de Hemingway um escritor profundo? A simples noção de que é preciso viver e viver fazendo o que se gosta. E claro, que a época dele foi a melhor de todas e que na sua só tem zé mané então desista porque todo o glamour foi embora com a praticidade do mundo moderno. Seu bolha.

Ernest HemingwayO que Hemingway escreve sobre si mesmo é altamente duvidoso se levarmos em conta o sério problema de afirmação que ele teve durante vida e que pode ser facilmente comprovado pelas histórias que escreveu. Hemingway se vê como um jovem e brilhante escritor, uns dos mais brilhantes de sua carreira, e guarda muitas reservas a reconhecer seus pares como iguais. Também se vê como um sujeito descolado em certa medida, e um bom amigo para as pessoas. É assim que narra uma viagem que fez com um histriônico Scott Fitzgerald e que conta como sua relação de amizade com Gertrude Stein chegou ao fim. Ora, rapaz, e o que os outros pensavam de si?

E Paris, vocês me perguntariam? Milhões de turistas vão todos os anos para a cidade mais visitada do mundo atrás do glamour de ficar horas em filas e disputar cantos para fotografar a Monalisa. Paris parecia ser muito mais fina naquela época do Michaud e do Deux Magots em que a água mineral não custa cinco euros seus desgraçados que fazem a fama em cima dos outros, vocês vão ver. Em dado momento do livro, Fitzgerald está preocupado em não ter um pinto muito grande e Hemingway o leva até o banheiro para dar uma fiscalizada totalmente heterossexual e, não convencido com as notícias reconfortantes do Papa, é levado pelo autor para o Louvre para ver umas estátuas de pinto pequeno. “Vamos até o Louvre. Agora! É só descer a rua e cruzar o rio”, diz ele como que jogando na cara da sua viagem completamente planejada de quatro dias a Paris o que ele podia fazer naquela época. Ver uns pintos no Louvre? Pois não, basta descer a rua e cruzar o rio! Nada de comprar pacote da CVC, nada de ficar horas espremido na classe econômica, nada de esperar mais algumas horas na fila do museu para aí sim, acotovelando muita gente, conseguir ver os pintos que Hemingway e Fitzgerald apreciaram naquela tarde de maneira com-ple-ta-men-te heterossexual. Paris era assim, uma cidade de acasos, de espontaneidade, de conveniências. E isso está morto pra você, seu patético, desde que nasceu. Toma essa, diz o livro do Hemingway.

Esse livro é publicado pela Bertrand Brasil e tem o seu projeto gráfico completamente modificado, com capas gráficas, tamanho grande, a assinatura do mestre na frente ao invés do nome e tudo mais o que eu já falei nas outras resenhas do cabra aqui e aqui. Esse ainda tem umas fotos da época, um sujeito com cara de emburrado mas aparentemente muito feliz e seus amigos escritores. Ponto pra Bertrand, tá demais essa edição.

Comentário final: 250 páginas em papel reciclado. Bem melhor que conferir o bilau dos outros no banheiro, amiguinho!

George Orwell – Na Pior em Paris e Londres (Down and out in Paris and London)

Down and out in Paris and LondonAntes de começar um post de hoje, queria fazer uma DR aqui com vocês. Vem cá, eu fiz alguma coisa pra vocês não comentarem mais nos posts? Todo mundo continua lendo que eu sei, e o espaço pra fazer comentários fica lá no final do texto, junto com as tags, se é essa a desculpa que vocês vão usar. Agora, se alguém está se sentindo com a liberdade de expressão tolhida neste espaço democrático, fazer o favor de assinar três vias, passar no setor de timbragem e começar a criar vergonha na cara porque comentário pra blog é que nem risada pra palhaço – a gente sabe que é pelos motivos errados, mas aceita de bom grado todos eles como fruto de um bom trabalho. Então, por favor, não se acanhem. Fim da DR.

Comecemos aqui a tecer  a genialidade de George Orwell em seu relato mais vanguarda, genial, duro, chocante, lindo e fedorento, o livro de memórias Na Pior em Paris e Londres. Diferentemente de livros que sugerem que o sujeito ficou na pior, tipo Paris é um Festa, Orwell, esse gênio subestimado da literatura (vou passar o texto todo chamando ele de gênio que é pra ver se alguém me ouve, já que não me ouvir parece ser o maior mal desse país), realmente comeu o pão que o diabo amassou nessas duas belíssimas capitais e destino certo de jovens adolescentes idiotas que querem, meo, fazer uma trip pela Europa, tá ligado? Pegar umas gringas e ficar muito lokooo uuuhulll.

Orwell já perambulava pela Europa quando era jovenzinho, tendo estudado aqui e ali em Londres, mas foi pra Paris pela aura mágica da cidade-luz para ver se vinha a inspiração que veio para tantos antes dele. Só que aí ele começou a se ferrar, primeiro teve uma tuberculose em 1929, depois foi roubado e começou a trabalhar de plongeur num restaurante de um hotel chique em Paris. Aí começa a saga do nosso Dante moderno pelo sétimo círculo do inferno (não acham um saco quando um crítico literário começa a falar coisas como “O nosso Dante moderno”, “Esta Beatriz da periferia”, “a Capitu do terceiro milênio”. Como se esse povo já não fosse metido o bastante). Orwell realmente passou fome, viveu com menos de dez centavos por dia e empenhou tudo o que tinha para viver a base de uma dieta de pão e cigarro. E a vida de lavador de prato era das piores, trabalhando dezesseis horas por dia em condições análogas a de escravidão. Agora digam vocês quantos dos seus veneráveis escritores da torre de mármore teriam culhão pra fazer um lance desses? Veja, ele podia pedir penico, voltar pra Índia e tudo mais, mas aguentou a barra ali pela vivência e pela determinação. Como não se admirar com esse gênio, que, além de tudo, é humilde ao traçar suas claras e simples linhas sobre o luxo, a pobreza, a fetichização do trabalho braçal e a vida do plongeur?

George OrwellDepois de Paris, ele vai pra Londres, onde, aparentemente, a mendigagem é uma prática institucionalizada, com profissionais do ramo, rota de albergues e manuais de como conseguir dinheiro na rua. Só que ser mendigo na Inglaterra não é um troço tão fácil de se aceitar na cachola por causa do calvinismo e da sua relação direta entre salvação e trabalho. A galera inglesa é doutrinada no workaholismo, e por isso ser mendigo em Londres requer um esforço a mais. Mesmo assim, lá foi o nosso gênio, nascido no protetorado britânico, provar que também aguentava mais essa, enquanto a grana de uns escritos dele ainda não chegava. Passou de albergue em albergue sentindo catinga de inglês (dividi um albergue com um velho londrino em Amsterdã uma vez. Até hoje sinto vontade de vomitar quando lembro do cheiro daquele coroa, e ele nem era mendigo!), comendo sopa rala e vivendo na sujeira sugismunda mesmo. Mas aguentou e escreveu um dos livros mais geniais que tive o prazer de ler este ano. Recomendo pra todo mundo a obra desse gênio.

E por que recomendo a obra desse gênio? Primeiro, pelo relato. Segundo, pelos insights. Terceiro, pelo ineditismo e pelo vanguardismo da coisa. Quarto, pelo spotlight. Quinto, porque eu gosto de recomendar coisas pra vocês. Depois vocês levam minha recomendação a sério e eu me sinto importante. Sexto, porque veio na edição nova da Companhia das Letras da coleção do Orwell, e antes disso era parte da coleção de Jornalismo Literário, e acho que a Companhia das Letras precisa de muito incentivo pra reimprimir livros velhos e maravilhosos e não tão vendáveis, já que estamos entrando na era da imbecilidade e muita coisa boa tá esgotando e não sendo mais reimpressa (quero os Cormac McCarthy e os John Updike de volta, dona editora!). Sétimo, porque é aquele caso raro em que a literatura brota da vivência, e de uma vivência vivida não necessariamente nem exclusivamente para servir à literatura, mas para edificar o espírito humano de quem escreve, o que só deixa tudo mais perfeito e genial. E oitavo, porque Orwell é um gênio, e não foi com 1984 nem com A Revolução dos Bichos que percebi isso, mas com Na Pior em Paris e Londres, desde já meu livro favorito dele. Mesmo sem discorrer muito sobre o livro, acho que dá pra perceber o porque eu gosto dele. É um livro tr00, sincero, singelo e cheio de aventuras e sabores só experimentados na extrema pobreza. É assim que ele conta, por exemplo, como aprendeu o truque de comer pão com alho, porque o gosto do alho fica na boca depois de um bom tempo, e isso dá a impressão de que você comeu recentemente. Ou como ele parava na frente de uma vitrine para esbofetear o rosto antes de pedir emprego, porque ninguém dava emprego para gente de rosto pálido, morto de fome. Era preciso fingir que se estava melhor do que se realmente estava. Enfim, essas pequenas malandragens do miserê total. Fica a dica (stay the dick).

Comentário final: 256 páginas em papel pólen soft. Gênio! Orwell Gênio!