John Fante – 1933 foi um ano ruim (1933 was a bad year)

Nada melhor para terminar a tal da semaninha light com um livro RRRRRRRRRRRRRRRRRRRRASO. Eu poderia colocar um livro beatnik, mas seria óbvio demais. Poderia colocar Pergunte ao Pó, de John Fante, mas também seria muito óbvio. Então, por que não pegar um lado B desse autor que foi o precursor dos beats (segundo o papa-beat Charles Bukowski) e que, ao mesmo, do meu ponto de vista, resume toda sua obra como nenhum outro livro seria capaz de fazê-lo. Sim, porque John Fante sabe escrever sobre uma coisa só: ele mesmo e sua família de italianos pobres.

1933 foi um ano ruim é uma dessas histórias tristes e que, assim como a sua quadrilogia (da qual Pergunte ao Pó é a terceira parte), trata das frustrações de um jovem chamado Dominic Molise, de 17 anos, que tem um sonho apenas: ser um grande jogador de baseball. Talento não lhe falta. Tem um daqueles braços campeões, que no livro, é inclusive um personagem a parte — volta e meia Dominic descreve os comportamentos autônomos de seu Braço (assim, chamado com letra maiúscula).

(Aliás, um parêntese: eu particularmente odeio esses filmes americanos de baseball em que o menino taca uma bola forte e o treinador fala “Santa Maria mãe de Deus, olha só o braço daquele garoto! Ei, filho, o que acha de jogar na liga?” “Não vou te decepcionar, treinador” brrrrrrr)

Como eu dizia, Dominic trata seu braço melhor do que trataria a um filho. O mantém aquecido com um unguento e atende aos anseios do membro (peraí que é o braço mesmo) mais rapidamente que os seus próprios. Mas Dominic é pobre, filho de imigrantes italianos paupérrimos que moram no gélido estado do Colorado. E por isso, precisa ajudar o pai, cujo maior patrimônio é uma betoneira. A saga de Dominic, que tenta escapar de sua rotina massacrante para ir para a Califórnia tentar ser alguém é dolorosa e bate fundo no peito. Qualquer frustração dessas de abrir mão dos próprios sonhos descrita num livro, de Anne Frank a Holden Caulfield, arrebanha multidões de leitores que sofrem junto (nunca vi esse povo, hein?). E Fante sacou isso antes de todo mundo, porque explorou essa mesma dor em quase todos os seus livros. Acho difícil alguém ler o livro e não chegar à última página com um aperto no peito. Final dramático, sem essas palhaçadas de beatnik de terminar o livro com frases esdrúxulas como “fumei o cigarro e olhei o mar”. Final tem que ser final mesmo, porra!

Muito embora já tenha passado da idade de ler literatura beat, guardo muitas boas recordações desse livro, pelo qual tenho um carinho. Inclusive o indico pra qualquer Zé Mané que insiste nessa literatura pobre de ideias e estilo. Aliás, acabei de incorrer no erro de chamar John Fante de beat. Tudo bem mesmo, afinal, não fossem os beats para divulgar sua literatura, Fante passaria despercebido aos olhos dessa garotada que só gosta de música, sendo ele um beat honorário, como um tiozão que joga bola com a molecada. Mas reconheço que sua obra, além de curta, é repetitiva. A foto também é repetitiva. Não aguento mais aquela foto horrorosa que tem ele de lado com o cabelo meio despenteado, por isso peguei uma foto bem escrota dele com um cachorro pra mostrar que qualquer coisa é melhor do que aquilo. Sério, que imbecil tira uma foto naquele ângulo? No mínimo, um anão incompetente com a câmera.

A edição do livro que eu li é aquela pocket da editora L&PM (que, segundo o Chico, são de alguns parentes distantes dele. Tô acreditando, hein, Chico?), que é o formato favorito para publicar beatniks (olhaí, falei de novo). E, convenhamos, a intenção de uma editora pocket não é fazer algo muito produzido. É, antes de tudo, divulgar o conteúdo. E por isso a capa do livro tem uma diagramação péssima, uma foto escrotérrima (provavelmente tirada pelo mesmo anão incompetente), e inclusive, propaganda de outros livros da editora no final. Se liguem, porra, ninguém de respeito faz mais isso desde 1980! E no começo, na parte de leituras afins, adivinha: só dá Bukowski e Jack Kerouac. O tiozão tá mesmo enturmado com a garotada. Não bastasse, papel offset pra tirar a gente do sério. Sorte da editora que eu não era o fresco que eu sou hoje pra livro na época que eu li 1933. Eu, seguindo o nome, realmente guardava o livro no bolso das minhas calças de mano. É, sorte deles.

Comentário Final: 135 páginas offset formato de bolso. Xi, marquim…

Edward Bunker – Educação de um bandido (Education of a felon)

Uau, essa semana o Livrada! está extremamente light com os livros escolhidos. Muitos policiais, leituras fáceis, quadrinhos, literatura jovem, tudo muito bom, tudo muito bem. Semana que vem vou ter que fazer um intensivo de literatura de culhão pra ver se balanceio. Mas, enquanto ainda é sexta feira e o mês ainda não acabou, vamos falar de uma das obras mais cativantes que já li dentro do gênero de autobiografias: Educação de um bandido, de Edward Bunker. Sim, o próprio, o Mr. Blue de Cães de Aluguel. Seu papel mais famoso no cinema, quem diria, foram cinco minutos em uma abertura. Talvez por se tratar de Quentin Tarantino, ou talvez por ser um filme com poucos atores, mas o fato é que, fora Resevoir Dogs, Bunker já incorporou atores inúteis em várias outras películas.

Mas, para quem não sabe, Edward Bunker passou dezoito anos de sua vida encarcerado, e não só isso: entrou para o Guiness (não entrou? Pois deveria ter entrado) como o prisioneiro mais jovem a ser enviado a San Quentin, a prisão de segurança máxima mais famosa dos Estados Unidos — tinha dezessete anos. Uma juventude rebelde, um vício em heroína que foi uma verdadeira praga na sua vida, muitas surras de colegas de cela: esses são os elementos de sua narrativa. Quando saiu de lá e começou a se dedicar ao cinema — graças a ajuda de uma certa família influente — lançou-se também como escritor de romances, embora já obtivesse algum prestígio com os livros que escrevera no xilindró. Interessante notar como seus livros não são tão emocionantes como sua autobiografia — O romance O Menino (Little boy blue) é extremamente parecido com a infância de Bunker, sendo Educação de bandido algo similar a um compêndio das aventuras narradas como ficção por ele.

Vai saber se tudo o que ele diz em Educação de um bandido é verdade ou não. Melhor acreditar que sim. Dois indícios, porém, advogam a favor de sua honestidade: o primeiro é que ele de fato ficou preso um tempão, isso não há como negar. E para ficar preso por muito tempo nos Estados Unidos, você sabe, é preciso fazer merdinhas. O segundo indício é que ele tinha a cara toda retalhada quando saiu da prisão, ponto positivo para as histórias em que ele conta que apanha pra caralho só pra depois levantar e tentar dar o troco. Isso é algo meio incrível em suas histórias, a capacidade que o bicho tem pra aguentar porrada.

Outros pontos interessantes valem ser ressaltados em seu livro. Por exemplo: a fatalidade com que trata a vida bandida. Para Bunker, que foi bandido de verdade e ganhou a vida principalmente roubando jóias e falsificando cheques e cartões de crédito, a vida do crime é praticamente um caminho sem volta. Tirando a sorte que ele deu (e seu amigo, o ator Dany Trejo, que conheceu em Folsom), o sujeito que rouba e mata está fadado a morrer fazendo isso. Principalmente porque, segundo ponto, os bandidos sempre dão um jeito de chamar os outros bandidos de volta para a vida do crime. Também é interessante notar sua dificuldade para deixar o vício da heroína, uma droga que, de tão famosa por sua exposição em clássicos do cinema como Trainspotting, tem hoje alguns poucos adeptos. E por último, observar o gosto de Bunker pelos livros, ainda na prisão. Ler cinco livros por semana é uma proeza que já consegui durante uns dois meses na minha vida e que hoje em dia só é possível mesmo com uma vida de presidiário.

O livro foi editado aqui pela editora Barracuda, uma editora um tanto modesta (tem um catálogo de apenas três páginas em seu site), mas com alguns títulos supimpas que vale a pena conferir. A coleção de Bunker está quase completa (faltando talvez seu último livro Stark), e é sensacional em suas capas. Só faço minhas queixas em relação à falta de orelhas de seus livros, que, se não cuidar, detonam muito fácil. Educação de um bandido é o único livro de Bunker com orelhas, mas veja isso: em compensação, condensaram sua história em uma fonte minúscula! Quase precisa-se de lupa para ler. E poxa, publicar livro em fonte Helvetica até dá se você não tem um tostão no bolso, mas é dose! Bom, podia ser pior, podiam publicar em Times… O livro não tem muita margem e é um blocão de letrinhas miúdas, mas tem um cabeço charmoso junto à paginação. A foto da capa também é sensacional, a única que destoa do resto da coleção. E o melhor: mugshots de Bunker ao começo e ao final do livro (primeiro bem jovem e depois, velho detonado). Ainda assim, palmas para a editora Barracuda que publicou esse livro bacanérrimo. E palmas para mim que cheguei ao fim do mês com vinte posts diários (começou dia 8 e, como cristão, respeitamos os domingos). Que venha maio!

Comentário final: 381 páginas de papel pólen soft 80g/m². O que nós não daríamos por um pouco mais de gramatura, hein?

Rubem Fonseca – Agosto

Sabe que eu li aí num blog de alguém algum dia indicado por outro alguém algum post que falava que o Rubem Fonseca — justo ele, vencedor do Prêmio Camões em 2003 — era um mau escritor, que só usava uns clichês mais clichês que uma porta e que a escrita dele, além de óbvia, era brega. Vou te falar que, embora goste do autor, reconheço que o referido e já esquecido sujeito tem lá seus argumentos, exemplificados com excertos de alguns livros aleatórios. E gosto do Rubem Fonseca, mas não sou nenhum fanático também. Li aí uma meia dúzia de livros e se aparecer mais algum, vou continuar lendo. Mas não está nas minhas prioridades.

Mas enfim, não viemos aqui falar de livros ruins do Rubem Fonseca, viemos falar de AGOSTO (a torcida vibra!!), um de seus maiores e melhores romances, lançado em 1990 e até pouco tempo atrás publicado pela Companhia das Letras e agora publicado pela Agir (embora tenha lido a edição antiga, as tags e as glórias vão para a editora que está com a bola. Mas a foto é sempre da edição que eu tenho). Agosto não só é um excelente romance policial como também uma ficção histórica (que serve de escada como aquele tal de Kiabbo) muito bem detalhada. Tudo se passa na década de 50, na ocasião do suicídio de Getúlio Vargas, mas começa um pouco antes, na verdade: com o infame atentado da Rua Toneleiros, que ocorre pouco depois do assassinato de um ricaço (esse só existe no livro). Aí que um delegado que curte ópera (é o tipo da coisa meio difícil de achar), tá sofrendo das úlceras e com uma mulher enchendo o saco resolve investigar o caso por achar que os envolvidos nas duas ocorrências podem ser a mesma pessoa. A partir daí, ficção e realidade tendem a se cruzar, embora não cheguem a fazê-lo de fato. As histórias seguem em paralelo, mais ou menos como aquele filme O Verão de Sam, do Spike Lee. O enredo te gruda no livro, como o Rubem Fonseca sabe fazer bem, aliás, e sua forma de narrar com aspas ao invés de travessões — que condensa o livro em grandes blocos de texto a cada página — não tira a fluidez com que percorremos suas trezentas e cinquenta páginas (da edição antiga). Um livro inspiradíssimo sem dúvida, e que, enquanto policial, não é de todo vagal pela parte da pesquisa histórica.

As realidades descritas por Rubem Fonseca quase nunca escapam aos clichês dos romances policiais: Mocinhas irritantes, poderosos maus-caráter, delegados que resistem à corrupção, submundo exposto, espionagens e perseguições. São poucos elementos, mas, hey, com três notas foram compostas quase todas as punk rock songs. E nem dá para dizer, entretanto, que Agosto é uma variação sobre o mesmo tema porque, lendo bem direitinho, até que é um policial diferente do resto. Ok, não tão diferente, mas diferente o bastante para merecer o devido destaque. E mesmo assim, já disse, é um livro muito do cativante. Acho que até fizeram uma minissérie na Globo sobre o livro, mas não vi e não sei de nada, portanto, prefiro não comentar. Sintam-se livres para falar sobre a transposição televisiva da obra, entretanto.

E falando um pouco da edição da Agir: porra, palmas para a editora Agir que tá relançando as obras do Rubem Fonseca em um formato agradabilíssimo de ler, com capas criativas e padronizadas, assinatura do autor, uma margem de página grande e confortável, fonte Minion Pro (um abraço pra essa fonte, caralho!) e um acabamento na encadernação que parece que vai durar pra sempre (acho que são brochuras menores, talvez com dezesseis páginas cada, não sei ao certo). E o melhor: o preço tá consideravelmente mais em conta do que a edição antiga, o que só dá alegria pra gente que tem que meter a mão no bolso.

E um PS: esse livro é da Carlinha e foi ela que sugeriu o livro de hoje. Fiquem à vontade para sugerí-los também.

Comentário final: 368 páginas pólen bold 90g/m². Die, die, die!

Art Spiegelman – Maus

Eu duvido que tenha algum literato conservador que visite esse blog (pelo menos periodicamente) e vá se ofender agora por tratarmos de uma graphic novel (que é uma forma fresca de chamar gibi. Como chamar roceiro de camponês e morro de colina) ao invés de um livro propriamente dito, feito de nada mais que palavras e prepotência. Em defesa da obra, é preciso dizer que Maus não é uma graphic novel qualquer. É um dos poucos (não é o único, né?) quadrinhos que venceu o exaltado — pelas pessoas, o prêmio em si é tranqüilo —prêmio Pulitzer, dado a escritores que ficam felizes e jornalistas que tendem a morrer logo depois por explosão do ego. E o pior, ganhou um Pulitzer especial (que aqui pode ter os dois sentidos de “especial”), pois não sabiam se o premiavam como ficção ou biografia. O que é uma dúvida muito da imbecil, pois tá na cara que Maus é pura biografia.

O quadrinista Art Spiegelman desfiou por páginas e mais páginas a história de seu pai judeu nos campos de concentração durante a segunda guerra mundial. Ele faz isso narrando também suas visitas ao pai, de nome Vladek, para entrevistá-lo. No livro, os personagens tem feições animalescas para apontar cada nacionalidade: judeus são ratos, alemães são gatos, poloneses são porcos, estadunidense são cães, et cætera. Essa característica marcante do livro se baseou nas propagandas nazistas que tratavam os judeus como ratos. Maus foi publicado inicialmente em 1986, aos pouquinhos,  numa revista mutcho loka que o Art Spiegelman editava, e depois foi lançada em dois volumes, apenas para depois ser compilada e chegar às nossas mãos brasileiras (porra, como eu odeio quem fala “tupiniquim”). A edição da Cia. Das Letras — selo da Companhia das Letras destinado ao público infanto-juvenil — foi lançada em 2005, apenas, ou seja, demoraram exatos dezenove anos até que uma edição nacional do livro surgisse. E tudo bem, já que Breakdowns apareceu só em 2009, não vamos reclamar, dezenove anos não está muito atrasado. Ah, o Pulitzer em questão foi ganho em 1992.

Bom, tirando os nazistas, os poloneses (que não curtiram muito serem palmeirenses no livro), meio mundo que não gosta de judeu e aqueles malucos que acreditam que o holocausto nunca existiu, quero ver alguém ler esse livro e não gostar, não se emocionar. Maus é sensacional! E acho que o mais legal do livro é o clima kafkiano com que Vladek e sua esposa Anja são conduzidos de maneira tranquila rumo ao surrealismo de Auschwitz. É como assistir ao Nó na Garganta, do Neil Jordan: de repente só tem absurdo na história e você não consegue definir onde foi que as coisas começaram a ficar daquele jeito. Por meio de Anja, mãe de Spiegelman, e de seu suicídio o autor consegue dar ao público o impacto do holocausto ao longo das gerações das famílias judias. O livro também contém (em uma versão ridiculamente reduzida) a história Prisioneiro do Planeta Inferno, sobre a ocasião do suicídio de Anja. Essa graphic novel foi publicada primeiro em uma revistinha qualquer, mas ficou famosa em seu livrão Breakdowns, e é visualmente muito bonita por tentar transpor para os quadrinhos algumas formas e ângulos do expressionismo alemão. Por isso garanto que vale mais a pena conhecê-la em seu tamanho original. De qualquer jeito, Maus é um livro que é preciso ter em casa, então por favor, trate de providenciar.

E claro, o livro tem seu lado engraçado. No caso, a persona caricata de Vladek, o típico judeu pão duro e preconceituoso, que briga no supermercado para devolver meio pacote de sucrilhos já aberto, e acusa sua namorada de estar com ele pelo dinheiro. Com isso acho que Spiegelman provou que não se meteu nessa para fugir da realidade. E não é isso que todo mundo espera?

Comentário final: 296 pesadas páginas de offset. Como diz a música, bate feio maionese.

Leonardo Sciascia – A cada um o seu (A ciascuno Il suo)

Gosto muito quando um escritor teórico, sério e cuja literatura é focada em outro assunto se aventura a fazer algo tão literariamente efêmero quanto um romance policial. Opa, peralá camarada! Romances policiais não são efêmeros (pelo menos não o suficiente), mas digamos que são discriminados assim como um gênero menor. Digamos que o romance policial, se fosse uma mulher em um concurso de misses, seria uma loirassa turbinada. Pode agradar aos olhos do público, mas dificilmente agradaria os olhos dos jurados. Enquanto aqueles a elegessem paradigma de beleza (talvez porque a sensualidade para as massas seja traduzida em volume), estes a achariam clichê e visualmente monótono. Isso não significa porém, que a loirassa turbinada e o romance policial não tenham seu valor e seu lugar (provavelmente junto ao povão). Jorge Coli costumava recomendar a seus alunos que lessem romances policiais, imagino com o objetivo de apurar a lógica e a visão para os detalhes. Eu, que durante o ano de 2004 fui seu aluno duas vezes (mesmo que por um curto espaço de tempo), acatei a recomendação.

O policial do italiano Leonardo Sciascia que trataremos, entretanto, é um livro que, dentro de sua categoria, poderíamos classificar como atípico. A primeira irregularidade não é bem uma irregularidade desde que Agatha Christie a consagrou: o investigador não é um policial ou um detetive, mas uma pessoa comum — no caso, um professor. A segunda fica por conta da linguagem: uma vida dedicada a ensaios políticos e livros satíricos (também sobre a política), refinaram sua escrita ao nível do formalismo peculiar de alguns italianos, como Pirandello em Seis personagens a procura de autor ou Ítalo Calvino em livros como Os amores difíceis e Se um viajante numa noite de inverno. Por isso o amigo Cássio — e faço minhas suas impressões — na ocasião que leu esse livro achou-o chato até sua metade e, uma vez terminada a leitura, uma excelente obra. Alguns são assim mesmo, precisamos terminar a última página para perceber a grandiosidade da bagaça.

Um resuminho: Em uma pequena vila da Sicília, um farmacêutico e um médico são mortos enquanto caçavam. Suspeita-se de infidelidade por parte do farmacêutico (e o médico teria morrido de bucha). A partir daí o professor começa a investigar, com pistas sensacionais e algumas reviravoltas. O que salta aos olhos e a impressão que fica é que Leonardo Sciascia é um excelente escritor.

A história de como esse livro veio parar na minha mão é interessante. Minha mãe uma vez disse-nos que tinha lido um livro em que um farmacêutico morria, e que o livro era muito bom, mas que não lembrava o nome nem o título. No mesmo dia, passeando na livraria, a Carlinha saca um livro da prateleira, lê a orelha e pergunta: “Ei, esse não é o livro do qual sua mãe estava falando?” E era. Achei legal, mas li-o na época em que estava fazendo um pequeno estágio na Gazeta do Povo, descobrindo que de ilustrador eu não tenho nada, então li meio na pressa e ele passou meio batido por mim. Até que ontem a supracitada Carlinha terminou de lê-lo e resolvemos conversar sobre ele. E veio-me a ideia de escrever sobre ele aqui, já que agora ele está sendo vendido ao preço módico de 9,90 nas Livrarias Curitiba.

Sobre a edição: É um dos poucos livros da editora Alfaguara lançados no Brasil com capa revestida de papel couché. Tem uma capa bacana com uma foto de um tal de Antoine Gyori, pegada da Corbis (bendita Corbis, hein?) que por acaso ficou fodassa no livro (no canto da parede tem uma escrita em roxo quase imperceptível, tente ver). No mais, é tudo igual, mas acho que essa escolha da Alfaguara de padronizar os livros em uma mesma diagramação não é tão ruim tendo em vista a excelente qualidade do material. Ah, o livro também foi traduzido pelo genial Nilson Moulin, tradutor de Calvino e outros fodásticos. Nilson, a galera aqui te curte, cumpádi!

Comentário final: 135 páginas pólen soft de gramatura alta. Tem que bater muito pra machucar.

J.D. Salinger – O Apanhador no Campo de Centeio (The Catcher in the Rye)

Faça aí uma rápida pesquisa, seja no google, seja entre seus amigos. Você vai descobrir que muita, mas muita gente, tem uma opinião formada sobre esse livro. E a razão pela qual isso acontece é que, para muita gente, esse foi o único livro confessável já lido. Ninguém vai sair por aí falando abertamente que leu “Melancia” de Marian Keys ou “A Profecia Celestina”, de James Redfield porque é vergonhoso demais (se não é pra você, melhor rever seus conceitos). Mas O Apanhador no Campo de Centeio, esse sim todo mundo leu e bate no peito pra falar que leu. Se você tem mais de dezoito anos e ainda não leu esse livro, vou dizer que já passou da idade e talvez seja tão legal quanto assistir ao Rei Leão aos quarenta e três anos. O troço vai perder o sentido pra você. Por isso, corra e integre a massa que elevou essa obra à categoria de long-seller (é como alguns editores chamam os best-sellers clássicos).

O Apanhador no Campo de Centeio é um desses livros que criam uma ligação direta com o seu íntimo quando você está na adolescência. Em um primeiro momento isso é legal, porque você percebe que mais alguém te entende (e quando você é adolescente ninguém te entende, né?). Mas depois você percebe que todo mundo se identifica com o livro e que você, ao contrário do que você pensava, não era tão diferente assim de todo mundo. O livro conta a história de Holden Caulfield, um menino que deveria estar voltando para casa, pois foi expulso de seu colégio, mas resolve fugir. Nessa viagem acaba descobrindo coisas sobre si próprio e sobre a vida adulta. Nada de muito glamoroso nem sofitsticado. A palavra que melhor define o Apanhador é: singeleza.

Com uma história simples e um personagem cativante, o recém-defundo J.D. Salinger cativa leitores desde 1951 com sua principal obra. Acho que ele ficou tão feliz de ter feito algo assim que nunca mais escreveu nada que preste, e ainda assim manteve a admiração de seus fãs com outros livros, como Franny & Zooey e Nove Histórias,  mais fáceis de serem achados aqui no Brasil. “Que injustiça!”, os fãs dos outros dois títulos poderiam pensar, mas olha, é o efeito Kill Bill, não é? Quem gosta de Cães de Aluguel e Pulp Fiction não se importa.

Agora vamos combinar que, por mais unanimidade que seja, a edição brasileira é pra sentar e chorar. Primeiro que o preço simplesmente não condiz com o projeto gráfico. Uma tal de Editora do Autor, da qual nunca vi mais nenhum livro que não fosse os do Salinger. Um formato estranho de livro (quase quadrado), página offset e o pior: orelhas nas quais não há absolutamente nada escrito. Tava na hora de alguma editora catilogente comprar os direitos desse livro e fazer uma edição bacana. Depois, a própria Editora do Autor “repaginou” a edição, fazendo o quê? Deixando a capa do livro fosca. Uau, agora sim esse livro vale quarenta e cinco reais!

Esse foi um dos primeiros livros que eu comprei, e não me arrependo. A leitura foi importante e eu e o Chico até chegamos a filmar um curta experimental à la Glauber Rocha chamado O Apagador no Campo de Centeio, onde tinha um grampeador que fazia o papel de apagador, uma horta de cebolinhas que fazia o papel de campo de centeio e o próprio Chico que fazia o apanhador do apagador no campo de centeio. Pena que não foi pra frente.

Comentário final: 207 páginas offset quadradonas. É como ser atropelado por um fusca: pode não machucar tanto, mas a humilhação de ser atingido por tal porcaria…

José Saramago – A Jangada de Pedra

Ler Saramago é uma ótima experiência, mas recomendo extrema parcimônia. Ler mais de um livro seu por ano pode encher o saco. É o tipo da literatura maneirista que precisa ser maneirada. Recomendo essa regularidade, então, para que ninguém pegue raiva de seu estilo pouco convencional, sem aspas, travessões e bom senso no tamanho dos parágrafos.

Esse gajo, consagrado escritor, prêmio Nobel de literatura em 1998 — o único Nobel de língua portuguesa até o momento— é um daqueles velhinhos simpáticos que, na rua passam despercebidos e resistem na paisagem — vai enterrar muita gente ainda. E, por ter uma obra vasta, capaz de preencher uma prateleira inteira, tem lá seus livros mais famosinhos. Ensaio Sobre a Cegueira, O Evangelho Segundo Jesus Cristo, O Ano da Morte de Ricardo Reis, A Caverna, etc. Perto dessa antologia, A Jangada de Pedra (lançado no mesmo ano em que ganhou o Nobel) é um de seus lados B. Na verdade, o leitor experimentado de Saramago vai ver neste livro um protótipo de Ensaio Sobre a Cegueira, seu opus máximo. Os elementos são muito próximos, se liga na história.

A Jangada de Pedra, assim como o Ensaio, parte de um acontecimento inesperado. A península Ibérica começa a se desprender do continente europeu e passa a navegar pelo oceano Atlântico. Nisso todo mundo fica doido, como no outro livro. A partir daí, um grupo de pessoas, reunidas por escolha própria, ao saberem que todas experimentaram alguma espécie de estranheza antes do acontecimento, partem em um carro velho, apelidado Dois Cavalos, para ver a racha (é a racha mesmo). Tem tudo que o Ensaio Sobre a Cegueira tem: o grupo reunido pela adversidade, a falta de explicação lógica, o cachorrinho companheiro, a violência que as pessoas cometem quando são tiradas de sua normalidade, enfim, os elementos estão lá. A diferença talvez permaneça no teor: A Jangada de Pedra é um livro muito, mas muito mais brando, até engraçado em sua aventura. Tem piadinha com velho, tem sacanagem, tem uma felicidade peculiar de pessoas que, frente ao desconhecido, não se assustam, mas aproveitam as mudanças.

Uma coisa que acho super legal nas histórias do Saramago é a capacidade que ele tem para pensar nos detalhes da adversidade que sua mente maluca cria. Neste livro por exemplo, há uma confluência de engenheiros que não se entendem sobre o que está acontecendo, e servidores da manutenção pública tentando consertar o problema com morsas ou coisas parecidas. Também há a cobertura jornalística, as manifestações pela Europa e inclusive a delicada situação em que fica Andorra (aquele país pequenininho entre a Espanha e a França no qual o Brasil mete uns quatro a zero nos amistosos da seleção). Ele deixa pouca coisa passar.

Garimpei esse livro de uma livraria da Travessa, e acabei ganhando ele de presente do querido Tio Fred, meu vizinho lá em Mambucaba. A versão de bolso talvez seja a única disponível no momento. Saramago em versão de bolso deve ser um pouco dose, mas vale a pena. Essa edição que eu tenho tá velhinha, mas é da coleção do Saramago depois que ele ganhou o Nobel. A Companhia das Letras caprichou, mas acho meio sacanagem meter a faca no nosso bolso só por causa daquele selinho de prêmio Nobel. Simplesmente inviável. A capa em alto-relevo do Arthur Luiz Piza (artista plástico que tem um trabalho bem coerente) dá um tchananã pro negócio, e as laterais, todas em cores meio ocres e acinzentadas, para ornar com a obra de Piza na capa, compõe um outro tipo de coleção, não muito bonita, mas ao menos, distinta.

Comentário Final: 317 páginas pólen soft. Uma marretadinha.

Italo Calvino – O Cavaleiro Inexistente (Il Cavaliere inesistente)

Tenho uma relação de amor e ódio com Ítalo Calvino. Adoro alguns livros dele, mas outros me irritam demais por sua proposta formalista. O Cavaleiro Inexistente, felizmente, é um desses livros que afloram a parte do amor. Mas acho que todos que se aventurarem a ler esse livro vão achá-lo divertido e bem escrito. Convenhamos também que é um livro curtinho, e pra odiar um livro com menos de 150 páginas o livro tem que ser muito ruim (e Ítalo Calvino já conseguiu uma proeza dessas com outro livro que um dia comento por aqui).

O Cavaleiro Inexistente é a última parte da sensacional trilogia Nossos Antepassados, quem é composta também por O Visconde Partido no Meio e o Barão nas Árvores. Confesso, que, se for para escolher um dos três, prefiro o livro do Barão. Mas também não dá pra comparar, a proposta de o Cavaleiro Inexistente é outra, basicamente um livro de comédia italiana, daquelas à la Mario Monicelli.

O livro se passa na frança, em uma brigada de cavaleiros do rei Carlos Magno. O paladino Agiulfo Emo Bertrandino dos Giuldiverni e dos Altri de Corbentraz e Sura (não vou mais repetir o nome do sujeito aqui, hein?) é o melhor cavaleiro da brigada. O problema é que ele não existe. Não há uma pessoa debaixo de sua sempre reluzente armadura. Existe apenas pela vontade de servir à causa. E é um militar dos mais caxias, de fazer par com Pantaleão Pantoja. Mantém a disciplina e o asseio e cobra o mesmo de seus companheiros, o que logo lhe estigma a alcunha de mala sem alça. Brigando junto com ele está toda uma trupe digna de um filme da franquia L’Armata Brancaleone, entre eles Rambaldo, o desastrado cavaleiro sem talento que guarda grandes semelhanças com Riobaldo, de Grande Sertão: Veredas, a começar pelo nome e a terminar com o fato de acreditar que é um boiolinha enrustido por estar apaixonado por um cavaleiro de seu bando (que, como no livro de Guimarães Rosa, é mulher, dã). Acabam aí as semelhanças (nem eram tão grandes assim, né?).

Calvino mostra com esse livro que seu negócio é mesmo a comédia. Já leu algum drama dele? É chato e sem emoção nenhuma. Aliás, quando Calvino se propõe a fazer algo que não seja comédia, ele gosta de dar um propósito à empreitada, como um romance de tese ou algo parecido. Só mesmo na comédia ele bota as manguinhas de fora e faz boa literatura, dessas com pegada. E o Cavaleiro Inexistente é um ótimo exemplo disso. Em menos de cento e trinta páginas ele resolve uma história que um Proust da vida ia resolver em, sei lá, duas mil páginas. O livro é curto e tem um ritmo ágil, como uma piada desses tipos “Zé do couro” que a gente vê vendendo cedê com anedotas. A graça do livro está fundamentalmente em seus personagens desajustados (ou ajustados em demasia, como Agiulfo), mas poderia estar também na sátira à boçalidade do exército medieval, em todos os seus sentidos.

Vamos combinar que essa coleção do Ítalo Calvino da Companhia das Letras é o sonho de todo escritor. Projetos gráficos lindassos, com tomos coloridos e diversos (a obra do autor é vasta, afinal). Até imprimiram o livro em fonte Garamond Light, que é miudinha e charmosa pra caralho no conjunto. A editora acertou em cheio nessa coleção. A mancada é não ter lançado alguns títulos como Sob o Sol-Jaguar e O Caminho de SanGiovanni nessa nova coleção. Ah, e quem conseguir achar Palomar pra mim, ganha outro Chicabon. Ô livro difícil da porra de encontrar.

Ganhei esse livro do meu pai. Estava lá na Fnac e ia comprar a Brincadeira do Milan Kundera, mas tava caro. Com cinquentão deu pra levar esse e mais a Ignorância, do mesmo autor tcheco. Até hoje nunca li a Brincadeira. Alguém aí que já leu: é bom?

A propósito, o livro de hoje foi sugerido pelo amigo Henrique Schaefer. Quer sugerir algum também? Fique à vontade, só veja se ele está na minha biblioteca do Skoob.

Comentário Final: 131 páginas pólen soft. Não machuca nem o Samuel L. Jackson naquele filme do Shyamalan.

Michel Houellebecq – Plataforma (Plateforme)

Quem começar a ler Michel Houellebecq por esse livro vai falar “Ôxe, que livro triste da porra!”. Mas isso é um erro. Plataforma é, na verdade, o livro mais alegrinho da carreira literária do escritor francês radicado na Irlanda. Não que ele tenha escrito muitos livros. O sujeito é um preguiçoso. Estamos desde 2004 sem um livro novo dele. Quer dizer, teve um, o Enemies Publiques, uma troca de cartas mais chata que disco do Los Hermanos entre ele e um outro escritor tristonho da França. Um fracasso editorial, diga-se de passagem. Porém, antes de seu último livro, A Possibilidade de uma Ilha, Houellebecq escreveu essa obra visionária.

O livro começa com um assassinato. O protagonista, que também se chama Michel, recebe a notícia de que seu pai, um velhinho inofensivo, foi assassinado pelo namorado da enfermeira que lhe cuidava, por um suposto assédio sexual do velho. Com a grana da herança, Michel resolve se bandear para uma ilha da Indonésia e praticar um pouco do abominado turismo sexual. Metido no meio de um grupo de excursionistas e lendo John Grisham (eca!), o personagem tem acesso às mais sensuais orientais do pedaço.

Durante sua viagem, conhece Valérie, uma alta executiva de uma famosa rede de hotéis (fictícia, mas extremamente parecida com a rede Accor). Engajados em um relacionamento aberto, com direito a casas de swing e outras coisas de safado, eles passam a bolar planos para a região: uma rede de hotéis destinada exclusivamente ao turismo sexual. Um ultraje óbvio para todos.

Bom, como todo mundo sabe, turismo é um curso frequente nas faculdades, mas não dá pra dizer que seja uma profissão com uma parte teórica que preste. Pois não é que Houellebecq leu uns turismólogos (com conteúdo ou sem, cabe ao leitor decidir) para escrever esse livro? As citações voam para fora das páginas como moedas pra fora da maquininha de caça níqueis. Os planos de Michel e Valérie percorrem páginas e páginas, permeadas por citações e muita sacanagem (quem curte literatura erótica tá feito com Houellebecq). Sem que nada de triste aconteça. Até o seu final, que eu não vou contar porque eu posso ser babaca, mas não sou esse tipo de babaca. Quem ler vai achar o livro visionário pra caralho, tenho certeza, e posso dizer apenas isso.

O estilo de Houellebecq é aquele francês rançoso, que fica fora da geladeira por um mês e azeda (e não estou falando do queijo). Fazer o quê, o cara nasceu naquele país, não pode esperar um sujeito livre das patinhas asquerosas de sujeitos como Barthes, Guy de Maupassant e até mesmo do argelino Camus. Paciência. Não dá pra dizer, contudo, que o livro é mal escrito. Dentro desse estilo, o sujeito emprega bem seu talento com as palavras, com uma fluidez rara entre aquele povo que gosta de uma putaria, como dizia o Nonato Canivete. Mas o domínio desses filósofos modernos franceses (viu como tô sendo amigo? Até chamei de filósofo!) vai além. Houellebecq ainda não aprendeu a escrever livros sem teses. E o pior de tudo é que ele talvez seja um dos únicos escritores que se sai bem com essa proposta. Disse uma vez e digo de novo. Paciência. Gostamos dele do jeito que ele é, esse feioso.

A edição da editora Record é excelente! Aliás, gosto muito do grupo editorial Record. Só gostaria que eles tivessem um time melhor de escritores. Sai cada merda de vez em quando… Bom, de qualquer jeito, esse livro tá no ponto de bala. Fonte Minion (já disse que essa fonte é foda) e papel Chamois Bulk 70g/m², uma gramatura que é perfeita para livros como esse. Nem muito molenga, nem muito dura, e dá volume às trezentas e poucas páginas dele. Só uma dica pra Record: a gente escreve se o livro é de romance ou conto, ou outra coisa, dentro do livro, ali na ficha técnica. Não precisa colocar na capa, certo? Não é um defeito, é só uma constatação. Não vão me ameaçar de morte igual àquele cara do RP2, hein?

Ah, aproveitem a promoção das Livrarias Curitiba, o Plataforma está saindo pela bagatela de R$9,90 pra fazer caridade, rapaz! Nós aqui já fizemos nosso estoque.

Um PS: escolhi uma foto engraçadona do Michel Houellebecq pra gente rir da cara dele. Então vamos rir: HAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHA

Comentário Final: 383 páginas em Chamois Bulk. Graças a essa escolha feliz de gramatura e papel, um livro de médio porte pode deslocar uma junta.

Fiódor Dostoiévski – Crime e Castigo (Преступле́ние и наказа́ние)

O post de hoje é antigo. Escrevi para outro blog. É uma exceção criada pela falta de tempo. Perdoem-me por isso.

Comecei com o pé esquerdo com Dostoiévski, mas, coitado, não era nem culpa dele, mas das circunstâncias. Li O Idiota (um livro grande, de umas 700 páginas) numa edição de bolso daquela editora Martin Claret (que dá enjoo igual de ônibus quando eu leio), a poucos meses do vestibular e ainda fazendo auto-escola. Tá na cara que não consegui fazer nada direito (nem a leitura nem a auto escola, o vestibular eu consegui). Quatro anos depois, ganhei de dia dos namorados Crime e Castigo (azar o seu se você ganhou camisa) pela editora 34, a primeira tradução direta do russo e com notas de rodapé que valem MUITO a pena. Enfim, comecei a ler em um mês de leituras “de fôlego” (livros grandes de quebrar fêmur como diria Allan Sieber). Cá estou agora pra falar desta maravilha da literatura mundial.
Não é à toa que esse livro é um clássico. O sujeito tem que ter muita fibra pra fazer um livro de mais de quinhentas páginas não ficar chato, e mais ainda, escrever um troço catilogente o bastante pra passar da estante do vovô pra estante do netinho. Aliás, taí: Catilogente. Esse é o melhor adjetivo pra descrever Crime e Castigo (pronuncia-se Prestuplênie i Nakazánie, saia por aí gastando seu russo). Explicarei porquê.
Para quem não sabe a história, um resumo básico com spoilers: Raskolnikov, um ex-estudante (que legal essa ocupação né?) de direito, resolve matar uma velhinha usurária, a princípio para saqueá-la, mas acaba matando a irmã da velhinha também, e se convence que a justificativa para seu crime está em um artigo que ele mesmo escreveu onde divide as pessoas em ordinárias (que devem seguir a lei) e extraordinárias (o exemplo principal do livro é Napoleão, pessoas a quem as leis não se aplicam, pois tudo é permitido em prol de seus sucessos). O sujeito, entre diversas circunstâncias, não se aguenta mais de culpa e se entrega para enxugar gelo na Sibéria. Isso é o que todo mundo conta pra você sobre a história, né? Pois bem, a parada que eu mais achei foda no livro ninguém me contou: O Raskolnikov passa boa parte do livro podre de doente e inclusive comete seu crime torto de febre, e todo mundo alivia pro lado dele porque acha que ele fala merda por causa da doença. Só que aos poucos ele vai sarando e, conforme o Dostoiévski vai soltando uns traços da personalidade dele, você vai descobrindo que o maluco é um bipolar neurótico (e com outros diagnósticos que psicólogos competentes poderiam tentar descobrir). A construção psicológica do protagonista é a melhor de todas, não desmerecendo os outros personagens, mas não tem como não simpatizar com ele. O mais legal sobre o perfil de Raskolnikov é que ele é um vaidoso sem amor-próprio. Ao passo que todos seus “antagonistas”, como o inesquecível investigador Porfiri, o tiozão tarado Svidrigáilov e o pomposo Lujín são dotados de um imenso amor-próprio, que causa a ruína de dois deles, Raskolnikov defende antes suas idéias do que a si próprio, e isso é um troço manero pra caralho de ver. É o intelecto sobrepondo-se ao próprio suporte (chega de falar bonito agora), na verdade uma espécie de altruísmo com a própria cabeça. E é justamente esse altruísmo que encontra o altruísmo clássico de Sonietchka na história, que termina bem melosa. Aliás, o final do livro é um troço bonito de se ler. Hoje em dia as histórias terminam meio em aberto, com uma frase aleatória do tipo “comprei uma birita e olhei o sol”. O final de Crime e Castigo é lindo. Não tem o que argumentar.

Comentário Final: 554 páginas. Quem gosta de fratura exposta?